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SIMPLICIDADE

Sou austero por natureza. Nascido na roça, de família pobre, aprendi desde cedo a viver apenas com o essencial. Desde pequenos fomos educados a nada desperdiçar, a nunca esbanjar, a cuidar do pouco que dispúnhamos para ter o necessário de cada dia.

Mais tarde, a cultura capuchinha aprofundou este modo de ser. Francisco de Assis tinha como princípio fundamental de sua relação com as criaturas e com as outras pessoas, o de viver sine próprio. O Pobre de Assis nunca fez voto de pobreza. Ele se propôs a viver como se nada lhe pertencesse. A razão é simples: quando dizemos que algo nos pertence, retiramos esse algo da coletividade e o tornamos propriedade privada. Francisco de Assis queria que tudo fosse comum a todos e que a ninguém nada faltasse.

Quando alguns filhos de Francisco deixaram de lado este princípio fundamental, surgiu a reforma capuchinha. Os frades que iniciaram a reforma passaram a ser chamados de “capuchinhos” porque usavam um capuz pequeno. Na verdade, todo o hábito dos frades reformados era pequeno se comparado ao usado pela maioria dos frades daquele tempo. Além do capuz grande, os frades com o tempo tinham passado a usar um hábito grande, duplo, cheio de dobras e adereços que em nada lembrava a simplicidade do Santo de Assis que tinha abandonado as ricas e coloridas vestes dos burgueses e passara a usar um saco de algodão cru como o usavam os camponeses de seu tempo.

Na verdade, a reforma dos frades que passaram a ser chamados de “capuchinhos” por usarem um capuz pequeno, era parte de um movimento maior no seio do cristianismo. Um movimento de volta à simplicidade do Evangelho. Movimento que perpassava todas as dimensões da vida: sem propriedade, juntos aos menores da sociedade, peregrinos pelo mundo e se alguma casa tivessem, que fosse simples, vestes simples, moderação no falar, liturgia simples. Tudo ao contrário do barroco dominante na época que pretendia encher os olhos para esquecer o vazio da mente e do coração.

Os frades capuchinhos criaram até um jeito de rezar: a Oração Mental. Uma hora em silêncio, apenas repetindo uma frase do Evangelho e um propósito de vida. Sem cantos, sem música, sem agitação, sem incenso, sem atavios reluzentes, sem senta-levanta-senta-ajoelha-levanta, nada de genuflexões, contorções, gritos e gemidos. Na Oração Mental, tudo é simples, muito simples, austero. Um vazio de coisas que permite a presença abundante de Deus.

Não é fácil. Exige ascese. Requer uma opção de vida, um chamado à vigilância contra a tentação do mundo que nos oferece o abundante consumismo e que penetra até a própria religião que se torna mercadoria para saciar a infinita vontade de tudo possuir e a liturgia que deixa de ser adoração de Deus e se transforma, como diz o Papa Francisco, em “religião do eu”.

Em tempos de religião do consumo e de liturgia do espetáculo, lembro de Jesus e da pergunta por ele feita aos que tinham ido ver João Batista no deserto: “O que é que vocês foram ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? O que vocês foram ver? Um homem vestido com roupas finas? Mas aqueles que vestem roupas finas moram em palácios de reis.”

Com sua simplicidade, sua austeridade, sua habitação na periferia da periferia, junto aos que por todos eram desprezados, João era, no dizer de Jesus, “alguém que é mais do que um profeta”. Que Deus nos dê a graça de permanecer firmes no “sinal de João Batista”.