Arquivo mensal: março 2021

Sexta-feira de Páscoa

Por que no Brasil as celebrações da Sexta-feira Santa são muito mais concorridas que as do Domingo da Ressurreição? Muitos agentes de pastoral se fazem essa pergunta e a respondem, geralmente, culpando a ignorância religiosa dos fieis. Nessa resposta há um equívoco que nasce do desconhecimento da história do catolicismo no Brasil e de um lapso teológico grave.

Nós também nos fazemos esta pergunta e buscamos respondê-la no vídeo abaixo. Confira e pense conosco:

A parusia e sua paródia – uma meditação sobre o Domingo de Ramos

Páscoa vem chegando. Mesmo em meio à pandemia, coelhos e chocolates aparecem aqui e ali. Mas não vou falar da páscoa do comércio. Vou falar da Páscoa de Jesus Cristo, a verdadeira, a que ainda não foi sequestrada pelo mercado. A Páscoa da Semana Santa que abre com o Domingo de Ramos. Uma bela festa. A festa da Parusia. Sim. Esse é o verdadeiro nome. Hoje o aportuguesamos. Dizemos “entrada triunfal”. Pois em grego, a língua em que foram escritos os evangelhos, “entrada triunfal” se dizia “parusia”.

Na época, no grego popular, a palavra era usada para designar a chegada do imperador em alguma cidade. Era um evento e tanto. César era considerado um mito, um deus. Nas suas viagens, a divindade o acompanhava e tinha que ser devidamente reverenciada por onde passava. Era anunciado com antemão, a estrada por onde passaria era aplainada, limpa, ornamentada e bem guarnecida para que nenhum perigo pudesse ameaçar sua majestade. Os imperadores romanos, como todos os tiranos, imaginavam que por onde quer que andassem, poderia haver inimigos de tocaia para atacá-los. A tirania é sempre paranoica…

No dia em que o rei se aproximava, todos os homens eram obrigados a postar-se à entrada da cidade para saudar o chegante. As muralhas eram ornadas com panos brancos e, se houvesse, vermelhos, para saudar a divindade viva. E ai daquele que não gritasse vivas ao rei. O grito tinha que ser alegre, caso contrário, a espada ou a lança do soldado fá-lo-ia gritar de dor ou dar seu último grito de agonia. Aplaudir o imperador era uma obrigação, nem que fosse sob coação. Mulheres e crianças ficavam dentro de casa, espiando pelas frestas das janelas para ver o rei ou para ver se seus esposos e filhos tinham sobrevivido à parusia.

Jerusalém, a cidade para a qual Jesus se dirigia, também tinha a sua parusia. Não era a do Imperador Romano. Jerusalém ficava tão longe de Roma que o César a conhecia apenas por sua má fama. Quem fazia sua parusia anual na Cidade Sagrada era Herodes Antipas, alcunhado de “O Pequeno”. Na véspera de cada Páscoa, Herodes, montado em seu cavalo branco, saia da fortaleza de Cesareia e, com sua milícia de legionários, subia a Jerusalém. E, como todo tiranete de quinta categoria, gostava de receber honras semelhantes ao tirano máximo. Ele obrigava a cidade de Jerusalém a preparar-lhe uma entrada triunfal. E os grandes da cidade, para agradar o pequeno ditador, obrigavam todo o povo àquela representação de subserviência. A estrada era enfeitada, as muralhas adornadas e os homens perfilados para serem devidamente humilhados pelos milicianos romanos.

Jesus sabia que isso iria acontecer naqueles dias. Todo judeu sabia. E todo judeu odiava esse dia em que Herodes Antipas entrava em Jerusalém pela porta do Ocidente para dar segurança e tornar a Páscoa impura.

Jesus desobedece. Não vai fazer reverências ao militar romano. Vai ao Monte das Oliveiras e, dali, com seus discípulos, mulheres e crianças, entra na Cidade Santa. Não há panos brancos e vermelhos para saudá-lo. Apenas palmas e flores do campo. Nenhum militar o acompanha. Vai montado num inofensivo jumento. Não entra pela porta principal. Entra pelo Leste, pela porta dos fundos. Para todo judeu, aquilo era claro: Jesus fazia uma paródia informal da parusia oficial. Todos entendem e, entrando na brincadeira, o aclamam como “Rei dos Judeus”. Um rei não como César e seu títere Herodes. Um verdadeiro rei. Um rei como Davi, o libertador.

Os fariseus também entendem e pedem que Jesus mande calar os discípulos e a multidão. Jesus não manda. Deixa que o povo cante, ria, dance. Entra em Jerusalém e a confusão se arma. E a história todos sabemos como terminou… Os poderosos não gostam de paródias. Especialmente quando satirizam seu obsceno poder e expõem o ridículo papel dos testas de ferro que oprimem o povo em nome de interesses alheios.

O humor é perigoso. Ele desmascara o poder. Ao provocar o riso, faz com que caiam as máscaras e as faces se exponham em sua grandeza ou mediocridade. Jesus sabia disso. Hoje também o sabemos. Por isso, mesmo na dor, não podemos deixar de viver com humor. Ele faz parte do dom maior que é o Amor, a cidade onde todos queremos habitar.

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Meus medos.

Sou uma pessoa medrosa, sim, e não tenho escrúpulos em confessá-lo. E não tenho um medo só. Tenho muitos medos. Inumeráveis medos. Um deles é o medo das alturas. Não gosto de chegar perto de precipícios. O Cânion do Itaimbezinho é um dos meus lugares preferidos para passear. Mas nada de me aproximar da borda do precipício. Fico bem longe! Só olhando…

Também tenho medo de velocidade. Quando dirijo, nunca ultrapasso os cem quilômetros por hora. Mesmo na autoestrada onde isso é possível. É o meu limite! Por mais que zombem de mim e da lentidão com que ando… E se estou de carona e o motorista passa dos cem, já fico incômodo e peço para andar mais devagar.

Também tenho medo de instalações elétricas. Nunca levei um choque nem presenciei algum acidente elétrico mais grave. Mas quando vejo um emaranhado de fios, ainda mais se houver algum velho, solto ou desencapado, eu é que fico pilhado!

Teria muitos outros medos a confessar. Mas fico por aqui. São suficientes para dizer que não tenho medo dos meus medos. Aprendi a conviver e até gostar deles quando me dei conta que são uma proteção. Cair do alto de um prédio ou de um penhasco, fazer um acidente em alta velocidade, levar um choque de 220 volts, é um risco de morte. Ter medo é uma forma instintiva ou aprendida de preservar a vida.

Os medos são bons. Todos precisamos deles para sobreviver. O contrário do medo não é a coragem e a valentia. Muitos dicionários dizem isso. E o senso comum também. Mas é preciso pensar. E se formos a fundo, veremos que o contrário do medo é a imprudência e a inconsequência. Quem não tem medo de nada, muito facilmente acaba tomando atitudes e assumindo comportamentos que provocam dano a si mesmo ou fazem mal aos outros. Não ter medo de dirigir em alta velocidade pode levar à morte do motorista, de quem está com ele no carro e de outras pessoas que se tornam vítimas inocentes da suposta coragem do dito motorista. Não ter medo de ficar doente, nestes tempos de pandemia, está levando à morte de muitos valentões e, o que é pior, de seus familiares e amigos que sofrem as consequências de seus comportamentos desatinados.

Não sei se existe uma palavra que possa ser tida como expressão exata daquilo que é contrário ao medo. Mas, naquilo que a vida me ensinou, considero que, para viver com os medos do dia a dia, duas atitudes são necessárias. A primeira, é a prudência. Uma virtude que anda bastante esquecida nestes tempos de muita pressa. Ser prudente, no entanto, não é ir devagar. Muito menos desistir do que se quer. Ser prudente é analisar as diversas possibilidades e discernir o melhor caminho para atingir o fim almejado.

Pode não ser o caminho mais fácil. E nem o mais rápido. Mas aquele que, ao fim e ao cabo, resulta no objetivo almejado. Ao lado da prudência, para conviver com os medos, é preciso a serenidade. Todos sabemos o que é um céu sereno. E todos deveríamos saber que, quem tem um espaço interior despejado, limpo, sem nuvens escuras e tempestuosas, consegue aceitar e superar seus medos e não se deixar intimidar pelos perigos que vem de fora.

Hoje, assim como em todos os tempos, não ter medo, é um perigo. Para si e para os outros. E uma confissão de fraqueza disfarçada em aparente valentia. Com meus medos, procuro cultivá-los e conviver com eles. Dos que não sabem conviver com os próprios medos, guardo distância e um indisfarçável desprezo: coitados, são covardes a ponto de ter medo de seus medos!

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Plenamente humano, simplesmente irmão!

2020 foi o Ano da Pandemia. Tivemos que nos isolar e reinventar para continuar trabalhando. Entre as tarefas extras do ano que passou, tive a alegria de organizar, junto com o Irmão Edimar Moreira, este livro sobre a Vida Religiosa de Irmãos.

Foi um compromisso e um privilégio. O resultado foi publicado agora no início de 2021. É um trabalho a muitas mãos, dentre elas as da querida Irmã Annete Havenne, de Rivadalve Paz Torquato, Paulo Dullius, Epifânio Barbosa Lima, Jorge Luiz de Paula, Oton da Silva A. Junior, Edgar Genuíno Nicodem, João Gutenberg Mariano C. Sampaio, Lucas José Ramos Lopes, Otalívio Sarturi, Rubens Nunes da Mota, Edimar Fernando Moreira e Cláudio André Dierings. E, claro, também tem um texto de minha autoria.

O livro pode ser adquirido na página da CRB Nacional.