Churrasco com coentro

Difícil ter nascido no Rio Grande do Sul. Cada vez e de novo ter que explicar que o fato de ter nascido no Estado mais ao sul do território nacional não faz de você, automaticamente, um gaúcho. Complicado explicar que “gaúcho” não é gentílico, mas identidade cultural. Que existem gaúchos no Rio Grande do Sul, sim. Mas também os nascidos em Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul e em tantos outros estados do Brasil. Mas gaúcho mesmo, de verdade, é o índio pampeano e missioneiro – brasileiro, uruguaio ou argentino – que, expulso de suas terras pelos invasores espanhóis e portugueses, vagueia orellano pelas terras que um dia foram suas e hoje estão presas pelos fios de arame farpado, invadidas pelo soja ou assoladas pelo cruel eucalipto. É nas favelas, villas e barriadas que hoje moram os gaúchos, anelando em suaves milongas, seus dias de liberdade para sempre perdidos.

Nasci no Rio Grande do Sul. Bisneto de imigrantes italianos. Me criei na colônia italiana comendo polenta, fortaia e falando a língua vêneta. Fui aprender português na escola. Minha mãe tomava mate com erva seca no forno de barro e moída no bastão. Era costume de minha família materna. Um costume gaúcho que herdei e cultivo até hoje. Mas não por isso posso me considerar um verdadeiro gaúcho. Sou rio-grandense de origem italiano que, como em todo processo de integração, assimilou hábitos da cultura nativa.

Outra coisa difícil para quem nasceu no Rio Grande do Sul, é ter que explicar que é possível ser sul-rio-grandense sem ter que ser torcedor ou do Grêmio ou do Inter. A imprensa paroquial exportou a imagem de uma cultura esportiva bipolar, onde não existe alternativa entre o tricolor e o colorado. Ou é um, ou é outro. E eu não sou nenhum dos dois. Sou torcedor do Aimoré. Não o de São Leopoldo a quem muito respeito. É o Aimoré da Linha Quarta de Vila Flores. O time em que fui centroavante durante mais de 10 anos disputando amistosos, torneios e o Campeonato Municipal. O bom do Aimoré, entre outras coisas, é que, a cada quatro anos, a cor da camisa mudava conforme o uniforme doado por este ou aquele candidato a Deputado Federal da Arena ou do MDB. Deputado Federal doava o uniforme. Deputado Estadual a bola. Hoje o Esporte Clube Aimoré já não existe. Sobrou o campo com suas duas brancas goleiras metálicas e os restos da grade que o cercava. Em vez dos 22 atletas amadores correndo atrás da bola de couro costurada a mão, hoje nele pastam, de vez em quando, alguns cavalos e ovelhas da vizinhança. Gritos, só o dos quero-quero que insistem em elevar seus melancólicos piados no silêncio do fim da tarde. Mesmo assim, continuo torcedor do mítico time e de suas cores sempre cambiantes. Talvez o único e último.

Mas o pior de tudo de ter nascido no Rio Grande do Sul, é que aqui é muito difícil encontrar coentro. Muito difícil meeeeeeesmo! Até no Mercado Público de Porto Alegre é raro encontrá-lo. Em estado natural, verdinho, fresquinho, exalando seu típico perfume que enobrece qualquer receita, praticamente impossível. Só com muita sorte. O drama é que, quem aprendeu a gostar dele, não consegue abandoná-lo. Sem coentro, não há sabor! E, quando acham que sou gaúcho e me perguntam se sei assar churrasco, digo que sim, mas com uma condição: só se puder temperar com coentro! Sal grosso e coentro. E nada mais! É conditio sine qua non e não abro mão. Podem buscar outro assador! E não é absurdo, não! Se chimarrão combina com rapadura e doce de anis e se churrasco combina com salada russa, cerveja e cuca alemã, porque a carne da relês rês assada à moda pampeana não pode harmonizar com a apieaceae de perfume inconfundível , incomparável e insuperável?

Eu amento. Mas eu não minto. Eu só invento.  E neste 20 de setembro, eu digo e repito, viva o churrasco, viva o coentro!

E se Deus votasse?

Os mais jovens talvez não, mas os mais velhos, com certeza, lembram da seleção brasileira da Copa de 1970. Um time de “feras”, como dizia seu treinador João Saldanha. Foi ele que, depois da derrota na Copa de 1966 na Inglaterra, assumiu a seleção e, quando ninguém acreditava nela, conseguiu montar um time até hoje lembrado. Saldanha só não foi ao mundial porque era comunista. O Brasil vivia em pleno AI5 e o regime militar não podia arriscar deixar um vermelho comandando a canarinho. Saldanha foi dispensado e Zagalo dirigiu a equipe montada por Saldanha e até hoje temos que aguentar o bom velhinho e sua mania de ver 13 em tudo.

Entre as frases célebres de João Saldanha, está a de que “se macumba ganhasse jogo, campeonato baiano terminava empatado”. Comunista que era, teoricamente, não devia acreditar em Deus. Mas como os comunistas brasileiros, em sua grande maioria, são mais espiritualistas que materialistas históricos e dialéticos, a frase do ilustre treinador se torna ainda mais instigante. E ela me provoca exatamente neste momento de nossa história em que caminhamos para uma eleição em que temos a impressão que o grande eleitor é Deus ou que votaremos para decidir qual é a divindade que vai governar o Brasil nos próximos quatro anos.

O religioso tomou conta do espaço político e, alguns candidatos, ao invés de apresentar soluções para os problemas econômicos, sociais, ambientais e culturais do país, parecem estar dando catequese ou fazendo um sermão numa igreja. Aliás, há candidatos que frequentam mais igrejas do que palanques eleitorais e, quando vão a estes, os transformam em verdadeiros púlpitos. Ao invés de apresentar soluções para a fome que assola 70 milhões de brasileiros, propõem que estes façam jejum para que seu candidato vença a eleição! Como se a dor da fome real não fosse suficiente.

Mas, como sou teólogo, sou tentado a levá-los a sério e fazer uma pergunta: qual seria o/a candidato/a que se encaixa no perfil de alguém que faz a vontade de Deus? Para o cristão, há um parâmetro bem claro. São as bem-aventuranças. Lá estão, tanto no Evangelho de Mateus como no de Lucas: felizes os pobres, os mansos, os que te fome e sede de justiça, os misericordiosos, os que choram, os limpos de coração, os que constroem a paz, os que são perseguidos por causa do Reino.

O Evangelho de Lucas apresenta o contraponto às bem-aventuranças. Lucas fala das mal-aventuranças, as maldições, os “ai de vós” os ricos, os que estão fartos, os que riem desprezando os que sofrem, os que se acham acima de todos e só querem aprovação e aplausos.

Tendo presente as bem-aventuranças e as mal-aventuranças nos perguntamos: se Deus votasse nessa eleição como alguns parecem desejar, em quem será que Ele votaria? Naqueles e naquelas que provocam a fome, a violência, a morte, que se mostram insensíveis à dor e ao sofrimento dos que perderam seus familiares e amigos na pandemia, naqueles e naquelas que promovem a destruição da vida dos humanos mais frágeis e das florestas, dos rios, do ar e dos animais que neles vivem? Ou Ele votaria naqueles e naquelas que defendem teto, terra, trabalho, educação e dignidade para todos, começando pelos que delas mais necessitam?

Nestes tempos de eleição, é bom lembrar a frase de Jesus: “Nem todo o que diz Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai” é que entrará no Reino dos Céus. E a vontade do Pai é que todos tenham vida, e a tenham em abundância. Que me desculpe João Santana. Mas, se Deus votasse, com certeza, a eleição não terminaria empatada. Seria uma goleada de 7 a 1, acachapante, inapelável, sem qualquer possibilidade de recurso ao VAR! Mas Deus não vota. Quem votamos somos nós. Com que critérios votamos? Esta é a pergunta a se fazer. Boa decisão!

Procuramos Independência

O mês de setembro inicia com a festa pátria maior: a Independência do Brasil. Literalmente, a não-depência. No caso, a do Brasil em relação a Portugal. O curioso desta data é que, olhando no detalhe, foi o contrário. Quando Pedro I, empurrado por José Bonifácio e Dona Leopoldina, decidiu ficar no Brasil, foi Portugal quem se tornou independente do Brasil. De fato, desde 1808, quando as tropas de Napoleão entraram em Lisboa e os ingleses evacuaram a Corte portuguesa para o Rio de Janeiro, todas as decisões que necessitassem do beneplácito real eram tomadas no Brasil. Lisboa passou a ser periférica e dependente do Rio de Janeiro. O que os portugueses queriam – maiormente os lisboetas saudosos do fausto e das benesses da corte – era o retorno do rei a Portugal. Quem buscava a não-dependência era Portugal! Parece irônico, mas é assim que foi.

Com aquela cena que Pedro Américo, quase 80 anos depois, pintou numa colina que não existia à margem do Ipiranga no qual a água mal corria, Portugal e Brasil passaram a ser dois países independentes governados pela mesma família Orleans e Bragança. E, num regime monárquico, a nação é o rei, ou seja, a família real, como bem o expressara Luiz XIV: “L’état c’est moi!” Com o grito (ou seria um outro som inominável?) do Ipiranga, Portugal e Brasil estavam na estranha ficção de dois países governados pela mesma família e sob os mesmos interesses. Não os próprios, é claro, mas o da Inglaterra que, nos bastidores, tudo administrava, até os oficiais militares ingleses que dirigiam as tropas brasileiras nas batalhas contra os portugueses.

O mais famoso deles, foi o Lorde Thomas Cochrane. Nascido na Escócia, destacou-se nas Guerras Napoleônicas e, aproveitando a fama, inventou a notícia de que Napoleão havia morrido, o que provocou uma supervalorização na Bolsa de Londres de ações que ele comprara por um valor insignificante. Descoberto seu golpe, foi julgado, chicoteado em praça pública, preso e, na prisão, eleito para a Câmara dos Lordes. Os britânicos também têm gosto por figuras estranhas na política!

Para não ter que enfrentar outros julgamentos, partiu para a América do Sul onde, em troca de um bom dinheiro, chefiou a marinha do Chile, depois a do Peru. Tudo ia muito bem para ele até ser contratado, em 1923, para chefiar a marinha do recém proclamado Brasil. Junto com outro oficial inglês, John Taylor, através de uma série de blefes e mentiras e sem nenhum combate real, garantiu a adesão da Bahia, Maranhão e Pará ao novo governo do Rio de Janeiro. O novo Império, no entanto, tardou a reconhecer plenamente sua contribuição. Dom Pedro I jamais pagou o soldo acordado pelos serviços. Não pelo fato de Dom Pedro I ter decretado sigilo de cem anos sobre as suas relações com os militares ingleses.

O fato é que Dom Pedro I preferiu governar Portugal e retornou para o Velho Continente deixando esta parte dos territórios da família Orleans e Bragança sob o cuidado de regentes até que seu filho atingisse a maioridade. E, quando este assumiu o trono, decidiu não reconhecer a dívida contraída pelo pai.

Até a sua morte em 1860, Lorde Cochrane ficou esperando a recompensa que, afinal, só foi acordada aos seus dois filhos em 1875: 4,5 milhões de libras no valor atual, ou seja, algo em torno a 27 milhões de reais. Talvez seja por isso que, até hoje, as filhas dos militares recebem pensões vitalícias que todos nós pagamos mesmo contra a nossa vontade.

Como podemos ver, desde a sua proclamação, a Independência é um bom negócio para os militares. Por isso, talvez, eles gostem tanto de festejar a data. Independentemente de quem esteja no governo, mesmo que tardando, eles sempre ganham. Enquanto isso, o povo marcha…

O pé que chuta a santa…

O pé que chuta a Santa, é o mesmo que pisa o Exu. Sim. Do ponto de vista religioso, tem o mesmo sentido chutar a imagem de Nossa Senhora Aparecida num programa de televisão e invadir um terreiro, espancar a mãe-de-santo e pisotear a representação de Exu e dos outros Orixás.

Cristianismo e religiões de matriz africana são dois sistemas religiosos, cada qual com seu credo, seus escritos sagrados, mitos, símbolos e ritos para relacionar-se com o sagrado ao qual, cada religião dá um nome próprio. Todas as religiões funcionam baseadas em sistemas simbólicos e isso por uma razão óbvia: o transcendente que pretendem alcançar está além das capacidades humanas e das realidades mundanas. Se o transcendente fosse diretamente alcançável, não haveria necessidade de religião. Haveria acesso direto entre o divino e o humano. Mas aí o divino já não seria divino, seria humano, mundano, seria o fim das religiões.

Por isso o simbólico é tão importante nas religiões. Mais que importante, é central. Em qualquer religião, tocar o simbólico é tocar sagrado. Qualquer ofensa a um símbolo religioso – seja de que religião for – é sempre temeroso e o acesso aos símbolos de cada religião é cercado de normas, interdições e tabus, tanto para os membros daquela religião e muito mais para os não fiéis.

Destruir os símbolos, é a maior agressão que se possa fazer a uma religião. Através desse gesto, se está afirmando a não divindade de seus deuses e, consequentemente, a falsidade de seu sistema religioso. E, como a vida humana, para o crente, depende da existência e benevolência daquele(s) de quem, acredita ele, lhe provém a existência, destruir os símbolos religiosos é uma ameaça de aniquilamento da vida dos membros daquela religião.

A violência religiosa tem, por isso, duas faces que se completam. A primeira, a da violência religiosa explícita: a tentativa de destruir um sistema religioso. A segunda, que lhe é inerente, é a violência política: a tentativa de intimidar ou aniquilar os fiéis daquela religião.

Numa sociedade democrática, a violência religiosa não é tolerada. Ela é inibida e, quando se manifesta, reprimida. Numa sociedade onde o projeto político dominante é autoritário e não respeitoso das diferenças, os ataques religiosos se tornam quotidianos e transformam-se em tática política para deslegitimar ou destruir, simbólica e concretamente, os grupos considerados adversários.

A destruição das imagens dos santos católicos, a invasão dos terreiros das religiões de matriz africana e dos espaços religiosos das religiões tradicionais indígenas, apenas se diferenciam pela forma e repercussão na sociedade. Mas seu conteúdo intrínseco e seu propósito político é o mesmo: tentar calar o diferente, sufocar sua identidade mais profundo que é a religiosa para que desista de lutar por sua existência e seus direitos.

É preciso ter claro isso e não se calar diante de qualquer ofensa a qualquer religião porque, o pé que pisoteia o Exu hoje, é o mesmo que chutou a Santa ontem e que pode, amanhã, tentar esmagar outros símbolos religiosos.

A Guerra e a Economia Destrutiva

Como todos que me conhecem sabem, não sou economista de formação. De economia conheço apenas o que um leigo curioso pode aprender através de leituras dos profissionais da área. E, como a economia é a mola e o eixo de nossa vida em sociedade, com um pouco de atenção e interesse, todos podemos dela aprender algo. Por isso me aventuro aqui a escrever sobre o tema. Se os economistas acharem que estou errado, por favor, me advirtam para que eu me corrija.

Se não estou equivocado, todo o pensamento econômico dos últimos séculos está fundamentado no mito do desenvolvimento infinito, ou seja, na afirmação de que uma economia “boa” é aquela capaz de gerar cada vez mais produtos e serviços e possibilitar às pessoas consumir cada vez em maior quantidade aquilo que elas desejarem. O sonho de todo governante é entregar, no fim de cada ano, uma taxa de crescimento do Produto Interno Bruto superior à do ano anterior. Falhar neste objetivo é risco de não ser reeleito ou de não fazer seu sucessor. Foi o que aconteceu em 1992 quando, George Bush, depois de ter 92% de aprovação após a invasão do Iraque, não conseguiu reeleger-se e perdeu para Bill Clinton. O democrata tinha como assessor econômico James Carville que formulou a lapidar frase: “É a economia, estúpido!” Focando na economia e não na guerra, Clinton venceu Bush.

Mas, e se o mito do crescimento infinito não passar de uma quimera? Hoje há os que levantam esta hipótese e a comprovam através da teoria do descrescimento que propugna uma economia baseada não na produção e no consumo, mas na qualidade de vida dos humanos e dos outros seres com quem compartilhamos a navegação sobre o Planeta Terra. É uma proposta econômica alternativa que nasce de outra compreensão do humano e da vida. Os economistas ecologistas e os da “economia do dom” vão, grosso modo, nesta direção. A prova mais simples da verossimilidade desta teoria é de que hoje, no mundo, produz-se mais alimentos dos que seriam necessários para nutir a humanidade. Bastaria distribuir melhor a comida para que ninguém mais passasse fome. O Brasil é o maior produtor mundial de carne. Mas faz tempo que a churrasqueira está desativada!

Voltando à lógica do crescimento: o que fazer quando já não há mais consumidores para os produtos gerados? Como crescer mais quando já se produziu tanto que os potenciais consumidores já estão satisfeitos e os que ainda não puderam consumir o produto não tem o dinheiro para pagar por ele e nunca o terão?

A saída é destruir os produtos disponíveis para produzir novos que os substituam. Os brasileiros conhecemos esta situação. Em 1931, o Governo Provisório de Getúlio Vargas queimou milhões de sacas de café para assim manter o preço do produto no mercado internacional. E, quando o preço baixou, outras milhões de sacas foram produzidas para manter aquecida a economia dos plantadores de café. Os preços continuaram no mesmo patamar. Quem podia tomar café antes, continuou tomando. Quem não podia, ficou cheirando o perfume do grão queimado no Porto de Santos.

Mas há outra forma mais eficaz de fazer girar uma economia que chegou à estagnação pela superprodução: é a guerra. E ela tem a vantagem de conectar os dois polos, o destrutivo e o produtivo. Destroem-se os velhos produtos e serviços e geram-se novos. As empresas que fabricam as armas que transformam em escombros as cidades e a infraestrutura de um país são as mesmas que, depois, irão reconstruir aquilo que elas mesmas ajudaram a destruir. E tudo pago com o dinheiro de quem apenas é convidado para oferecer as vidas de seus filhos para que as grandes corporações tenham lucros. A atual guerra da Ucrânia nem terminou e a União Europeia e os Estados Unidos já fizeram uma conferência para discutir a reconstrução da Ucrânia. Em outras palavras, com quem vai ficar o butim. A Ucrânia será (já está) arrasada. Levará anos para ser reconstruída. Mas a Rússia, a União Europeia e os EUA já estão ganhando com a guerra praticando a economia destrutiva que é a forma radical de manter vivo o mito do crescimento infinito.

O assessor de Bill Clinton tinha razão ao dizer que o que move o eleitor é a economia. Bush, no entanto, também estava correto ao fazer da guerra o motor principal da economia. E o triste é constatar que Clinton só teve sucesso devido ao sucesso de Bush. Enquanto não mudarmos o mito de que o crescimento infinito é o objetivo da economia, outros Bush, Biden e Putin virão. E outras guerras assolarão a humanidade gerando morte e destruição. P.S.: Se Garrincha estivesse vivo, perguntaria aos europeus e norte-americanos se eles já combinaram com os russos com quem vai ficar a reconstrução da Ucrânia!

As chaves de São Pedro

Depois das noivas, dos pães e dos peixes de Santo Antônio e dos fogos de São João, é hora das chaves de São Pedro. Com ele, encerram-se as festas juninas e a vida volta ao normal.

A razão de São Pedro carregar as chaves é simples. Está lá no Evangelho de Mateus, no capítulo 16, quando Jesus diz que, sobre a pedra de Pedro edificará a Igreja e a ele dará as chaves do Reino com o poder de ligar e de desligar tanto na terra como nos céus.

A frase pronunciada por Jesus não era original. Era uma velha conhecida de todos os judeus piedosos. Ela fazia parte da tradição e era usada em toda disputa política. Quem a pronunciou pela primeira vez foi o profeta Isaías, lá no Antigo Testamento, no tempo do rei Ezequias. Era um tempo difícil. Judá estava sendo atacado pelo rei da Assíria e, Jerusalém, cercada, soçobrava. Sobna, o ajudante mais próximo do rei, ao invés de se preocupar com a fome e as doenças que matavam os pobres, gastava seu tempo e os recursos públicos na construção de um mausoléu onde queria ser enterrado com a glória dos faraós do Egito.

Chamado para intervir, o profeta Isaías manda que Sobna seja retirado do cargo e a chave da casa de Davi seja entregue a Helcias, filho de Eliacim. Na prática, o profeta destituía o arrogante Sobna e colocava em seu lugar um humilde servidor público. Para simbolizar a troca de mando, a túnica, o cinto e as chaves – três símbolos do poder – passam de Sobna a Helcias. Mas o símbolo que ficou na memória popular, foi o das chaves. Afinal, desde que surgiram, em torno ao 4.000 a.C., no Egito ou na China, as chaves sempre simbolizaram poder. Desde o mordomo do rei até o carcereiro, quanto maior o molho das chaves, maior o poder que aparenta.

Mas, voltando ao episódio de Mateus, de quem Jesus estava tirando as chaves para entregá-las a Pedro? O texto não explicita. Podemos encontrar uma dica no capítulo 23, quando ele fala dos fariseus que bloqueiam a entradas das pessoas no Reino dos céus: eles não entram e nem deixam ninguém entrar! Se essa conexão for procedente, a entrega das chaves a Pedro não teria como objetivo fechar as portas como faziam os fariseus, mas abri-las para que todos pudessem entrar.

A história se complica mais ainda quando, avançando um pouco na leitura de Mateus, no capítulo 18, encontramos que Jesus não entrega esse poder apenas a Pedro, mas a todos os discípulos. A mesma concessão coletiva aparece no Evangelho de João (capítulo 20) e também é adotada pelo apóstolo Paulo na Carta aos Coríntios.

Como vemos, a história das chaves de São Pedro não é tão simples. E a interpretação deste episódio, na história da Igreja, foi motivo de muita discussão. As chaves significam poder. Entregá-lo a uma só pessoa, é uma coisa. Compartilhá-lo entre todos, é outra muito diferente.

No primeiro milênio da Igreja, a interpretação comum era a de que o poder das chaves deveria ser exercido de modo coletivo. Todos os bispos teriam o poder concedido por Jesus de ligar e desligar. As disputas de poder, no entanto, fizeram com que, no final do séc. XII, Inocêncio III, o bispo de Roma mais poderoso de toda a Idade Média, reclamasse para si a exclusividade das chaves petrinas. E com a força das armas e do saber, impôs esse modo de pensar aos outros bispos e aos príncipes e reis. As Igrejas orientais jamais aceitaram essa imposição e se afastaram ainda mais de Roma. Os príncipes e reis, não tendo alternativa, submeteram-se até aparecer a ocasião para se rebelar.

Alguém pode estar se perguntando o porquê de estar cavoucando estas histórias. Primeiro, claro, por causa das chaves de São Pedro, o último dos santos juninos. Segundamente, por causa da crise de poder que vivemos tanto na sociedade como nas Igrejas. E nisso, toda essa discussão pode nos ajudar. Assim como as chaves, o poder é simbólico. Dependendo do modo como o imaginamos, ele recai sobre nós. Se nós o pensamos monocraticamente, encontraremos um tirano para exercê-lo de forma autoritária. Se o pensamos coletiva e circularmente, teremos a possibilidade de construir uma democracia e caminhar para a fraternidade e a amizade social.

Nesta última festa junina, ao ver São Pedro com as chaves na mão, fiquemos atentos! Será que elas não estão também nas mãos dos outros discípulos? Não custa imaginar…

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O SEQUESTRO DE JESUS

Calma! Não foi bem um sequestro. Falando com mais propriedade, foi uma tentativa de sequestro. Melhor dizendo: conforme os evangelhos, foram três as tentativas. E, felizmente, as três falharam.

A primeira está descrita no Capítulo Três do Evangelho de Marcos. Uma tentativa estranha. Foram os próprios familiares de Jesus que tentaram tirá-lo de circulação à força. Ele apenas havia começado sua missão na Galileia e sua ação e pregação provocavam as reações mais controversas. Uns afirmavam ser ele o Messias esperado. Outros viam no pregador ambulante e curandeiro uma ameaça para a estabilidade religiosa e social. Quando ao redor dele começou a formar-se um grupo de seguidores, os familiares ficaram apreensivos com o que poderia acontecer. Aproveitando uma ocasião em que ele estava perto de casa, saíram para detê-lo à força sob o argumento de que enlouquecera. A tentativa de sequestro de Jesus por parte dos familiares não teve êxito pois ele, desconsiderando até os argumentos da mãe e dos irmãos, continuou a pregar e a curar à beira do Lago da Galileia.

A segunda tentativa de sequestro sofrida por Jesus é narrada no Evangelho de João. O objetivo aqui não era o de tirá-lo de circulação, mas buscá-lo para fazê-lo rei. Está no Capítulo Seis, no episódio da distribuição dos pães e dos peixes. A multidão estava faminta e, contra todo cálculo, os pães e os peixes que alguns traziam foram distribuídos e houve para todos e ainda sobraram doze cestos. O Evangelho diz que, vendo tal sinal, as pessoas o aclamaram como profeta e queriam que Jesus se tornasse o rei deles. O texto não diz exatamente quem queria fazê-lo rei. Supomos que seria a multidão antes faminta e agora saciada. No pano de fundo da memória de todo judeu fiel, estava o profeta Elias que fizera o punhadinho de farinha da viúva de Sarepta bastar para ela e sua família e o próprio Elias durante três anos. Diante desta segunda tentativa de tomá-lo pela força, Jesus se retira para as montanhas a fim de não ser sequestrado e obrigado a fazer o que não queria.

A terceira é a mais terna e a que mais faz pensar. Também é descrita por João. E a sequestradora é uma mulher, Maria Madalena. Ao reconhecê-lo ressuscitado, a discípula quer retê-lo para si. Jesus reage com um “não me detenhas” e se vai, segundo ele, para junto do Pai. Maria parte correndo contar tudo o que aconteceu aos companheiros de discipulado. A tentativa de sequestro termina em missão para a intencional sequestradora!

Em cada uma das tentativas, um motivo bem diferente para detê-lo e uma razão para ele não se deixar. Em todas, Jesus mostrou-se cioso de sua liberdade e da originalidade de seu projeto libertador. Nunca se deixou sequestrar. Até quando vieram prendê-lo para matá-lo, segundo o Evangelho de João, ele só se entregou porque quis.

Jesus sempre foi e continua livre! É bom saber e é preciso repetir essa verdade. Ainda mais nestes tempos em que tantos tentam prender Jesus dentro de seus esquemas teológicos, religiosos, eclesiásticos, litúrgicos, morais, canônicos e, ultimamente de maneira acentuada, tenta-se tornar a pessoa de Jesus refém de projetos políticos e sociais idolátricos. Nem seus familiares, nem seus amigos e muito menos os inimigos poderão detê-lo. Sua mensagem sempre foi e sempre será libertadora de todas as prisões e de todos os grilhões. Podem tentar prendê-lo e até apoderar-se de seu nome por um tempo. Mas nunca poderão prendê-lo para sempre porque ele é libertação!

O futuro talvez não nos espere.

A frase que intitula este texto, pronunciado por um amigo em uma conversa em uma das recentes noites hibernais, caiu em mim como uma pedra em barra de metal. Depois do estalo do impacto, ficou ressoando, indo e vindo cada vez mais lentamente e mais profundamente até fazer-se silêncio. Um silêncio eloquente que não parava de clamar e de fazer pensar.

Nossa civilização ocidental tem entre seus fundamentos a ideia da temporalidade que tem na tradição judaico-cristã sua fonte principal. Ao fazer sua promessa a Abraão, Deus indica para ele e seus descendentes o caminho do futuro. O que importa agora é o amanhã e caminhar em direção a ele. Abraão põe-se a caminho. Um caminho geográfico. Mas também um caminho temporal à espera da descendência que virá.

Na promessa feita a Moisés e aos descendentes de Abraão escravizados no Egito, o futuro é outra vez evocado. Para entrar na Terra Prometida, é preciso vencer não apenas os longos caminhos entre as areias escaldantes do Sinai. É preciso também vencer o tempo. E este é cruel para os que saíram do Egito. Todos morrem no caminho. Apenas os frutos do tempo – os filhos e netos – logram ver as férteis terras de Canaã.

As sucessivas promessas feitas por Deus a Israel também o colocam na perspectiva do futuro que passa de temporal a atemporal. Mas não por isso menos futuro. No Exílio, os profetas apocalípticos afirmam que a Promessa de Deus se realizará quando o tempo for consumado. É preciso percorrer o tempo da história até o seu fim para entrar na Nova Terra Prometida celestial.

O cristianismo vê em Jesus ressuscitado a realização da promessa e o fim dos tempos. Mas é um fim provisório na espera da Segunda Vinda de Cristo que vai selar o fim definitivo dos tempos. Paulo de Tarso, o primeiro teórico do cristianismo, diz que somos convidados a viver no tempo como se não fôssemos do tempo. Uma estranha atemporalidade temporal é o que propõe o fariseu convertido. Nela, a atemporalidade é recebida, é dom, é graça. A temporalidade é compromisso, é tarefa, é obra.

As filosofias do Ocidente guardaram de Paulo a segunda parte. O capitalismo vê o futuro como resultado da capacidade de investimento no presente. Poupar hoje é a garantia da abundância do amanhã. O socialismo vê as contradições do presente como potencialidade inelutável para a construção da revolução futura. Quando mais acirrado o conflito no hoje, mais próximo está o amanhã glorioso.

Na disputa entre uma ideologia e outra, chegamos ao impasse atual. A crise ecológica que pode levar à extinção da humanidade; as guerras por disputa de mercado entre o império norte-americano e seus satélites norte-atlânticos e as potências emergentes do Oriente; a pandemia da Covid19 que colocou a humanidade de joelhos durante mais de dois anos e continua a fustigar; os 100 milhões de pessoas que vagam pelo mundo em busca de um lugar para morar; a fome que volta a assolar a humanidade; o fascismo que volta a espreitar os palácios públicos e privados… e tantos outros sinais estão aí a nos dizer que o futuro tão sonhado não só está distante, mas que é muito provável que nunca chegaremos a ele.

Em outras palavras, como dizia meu amigo João, o futuro talvez não tenha paciência para esperar por nós. Ou, quem sabe, ele queira nos dizer que, para deixar que ele venha a nós, temos que reaprender a, simplesmente, viver o presente que o tempo nos dá. Enquanto ele está lá. Antes que se vá. Antes que a ânsia pelo amanhã nos devore qual Cronos a seus próprios filhos.

Édipo: tragédia ou crime?

TRAGÉDIA OU CRIME?

Podia Édipo ter evitado casar-se com sua própria mãe? Sim, se ele soubesse que Jocasta, a viúva de seu pai, o Rei Laio que ele acabara de matar numa encruzilhada do caminho, era aquela que o tinha gerado. Mas ele não sabia nem que aquele desconhecido era seu pai e nem que a rainha viúva de Tebas era sua mãe.

Toda a vida de Édipo, desde o nascimento até o retorno à cidade que o vira nascer , foi conduzida por uma força, já anunciada pelo Oráculo de Delfos, que superava sua capacidade de decisão e que o levou inevitavelmente a matar seu pai e casar-se com sua mãe. Ao dar-se conta que a profecia, com a contribuição involuntária de suas opções, enfim se realizara, Édipo arranca os próprios olhos para não ver a desgraça que sobre ele tinha caído. Jocasta, por sua vez, vai além: tira a própria vida. Um fim trágico para uma vida trágica. É a única decisão livre que eles tomam na vida. Tudo o mais, já estava escrito e, com ou sem a sua colaboração, iria, cedo ou tarde, acontecer.

Dentre todas as tragédias gregas, este gênero literário que surgiu em Atenas no séc. IV a.C., Édipo Rei é uma das mais conhecidas. Freud a utilizou para explicar o desenvolvimento psicossexual dos meninos a partir do relacionamento com a mãe e o pai. É um dos tantos usos que desta tragédia de Sófocles foi feito em nossa cultura ocidental.

Pela capacidade de retratar situações existenciais em que parece que a decisão se nos escapa das mãos e que há uma força superior que conduz nossas vidas, a palavra tragédia entrou na linguagem popular e hoje é utilizada amplamente. É comum nos noticiários, tanto nos meios tradicionais como nos novos meios digitais, que fatos fortes que impactam a sociedade e causam dor sejam descritos como tragédias. Um furacão é uma tragédia; um terremoto é uma tragédia; uma guerra é uma tragédia; o deslizamento de encostas e o soterramento de casas e pessoas é uma tragédia; o transbordamento de um rio é uma tragédia; o rompimento de uma barragem de rejeitos de mineração é uma tragédia; a invasão de uma favela pela polícia e a execução de dezenas de pessoas é uma tragédia; o assassinato de um homem doente por três policiais em uma câmera de gás improvisada em uma viatura é uma tragédia; um jovem armado que invade uma escola e mata dezenas de crianças e suas professoras e uma tragédia; a seca que leva à destruição das plantações e à falta de água nas cidades é uma tragédia; a mãe que atira o filho do décimo andar é uma tragédia; o ex-companheiro que assassina brutalmente a mulher que ele espancava e não quer mais conviver com ele é uma tragédia; a fome de milhões de pessoas é uma tragédia… Tragédias, tragédias, tragédias!

Será que tudo isso são tragédias? Na sua origem grega, tragédia é aquilo que não pode ser evitado pois sua força é superior à capacidade humana de escolha. Terremotos, furacões, cheias de rios, secas… são fenômenos naturais que sempre aconteceram. E continuarão acontecendo. Mas todos sabemos que seus efeitos podem ser minimizados ou até anulados. Um terremoto de sete graus no Japão não provoca nenhuma morte. No Haiti, um sismo da mesma magnitude provocou mais de 200.000 mortos. A força da natureza é superior à nossa. Mas podemos aprender a conviver com ela.

Já as ações humanas deliberadas que resultam na morte de dezenas, centenas, milhares de pessoas, essas não são tragédias. Há que se chamá-las pelo nome que lhe é devido. São ações criminosas que poderiam ser evitadas e precisam ser punidas.

Édipo e Jocasta, mesmo sabendo que não tinham poder sobre suas vidas, um arrancou os olhos e o outro tirou a própria vida. Auto infligiram-se um castigo por um crime que, sem saber e sem querer, haviam cometido. E os que cometem crimes conscientes das consequências desastrosas, para a natureza e para os humanos, de suas ações, podemos ainda desculpá-los com a escusa da inevitável tragédia? É hora de chamar cada coisa pelo nome. Tragédia é tragédia. Crime é crime.

A morte e o lucro.

Um dia como qualquer outro dia. Mas nem tanto. Um dia diferente. Um dia estranho. Um dia macabro. Macabro e normal. Tão normal que breve dele esqueceremos. Por isso temos que falar agora antes que olvidemos.

Um dia com muitos mortos. Mais que mortos: assassinatos. Em massa. Coletivos. Brutais. Oficiais. Por balas letais. 24 de maio de 2022. Não foi na Ucrânia. Não foram os mísseis russos nem as armas americanas enviadas agora para serem pagadas depois com o trigo dos campos do Donbass. Afinal, ninguém empresta armas. Armas são para serem vendidas e gerar lucros. A guerra é business, all right!

Não foi na Síria. Nem no Iêmen, Somália, Afeganistão, Congo, Paquistão, Moçambique, Serra Leoa, Camboja, Coreia do Norte ou em qualquer guerra esquecida de um distante país do que antigamente se chamava Terceiro Mundo.

Foi bem aqui. Pertinho de nós. Na nossa vizinhança. Nos três maiores países das Américas. Estados Unidos, México e Brasil. Em cada país, uma história diferente. A mesma dor, a mesma morte, o mesmo sangue quente correndo e pessoas morrendo. Nos Estados Unidos, no Estado do Texas, lugar de gente valente e onde andar armado é um direito de todo cidadão, um jovem de 18 anos executou, com tiros de pistola e fuzil, 19 crianças e duas professoras.

No México, na cidade de Celaya, Estado de Guanajuato, um grupo de homens armados passou de bar em bar atirando em todos os que encontrasse pela frente. Não saiu na imprensa brasileira. Os mortos foram poucos. Apenas onze. Sete mulheres e quatro homens. A polícia investiga.

No Rio de Janeiro, mais um massacre da polícia. Sem inteligência para deter os criminosos quando estão no asfalto, as forças da ordem, desordenadamente, sobem o morro e atira com precisão em alvos equivocados. As balas não são perdidas. São direcionadas. As balas são treinadas. Elas sempre acertam pretos, pobres e periféricos.

No ano que vai em curso, no país da liberdade das armas, a média é de um massacre por dia. As crianças não querem mais ir à escola nos Estados Unidos. A sua, pode ser a próxima. Em Guanajuato, nos bares, a música segue. Os mariachis continuam cantando os narcocorridos que embalam os sonhos de ir para o norte. Para quebrar a monotonia, uma cumbia lembra de onde vem o pó que segue para as narinas do império. O sangue dos mexicanos é o combustível que faz a loucura americana girar. No Complexo da Penha, as pessoas não podem não sair de casa. Tem que trabalhar, trazer o pão nosso de cada dia para o comer dos filhos. Mesmo com dor, com medo de ser o próximo, com o pavor de morrer e não saber o porquê.

Na outra página do jornal, o outro lado da notícia. Nos últimos vinte anos, a produção de armas para uso de civis, triplicou nos Estados Unidos. Em 2019, último ano do qual o governo norte-americano disponibilizou dados, 11 milhões de armas de fogo para uso de civis foram produzidas naquele país. Somadas aos 7 milhões de armas importadas, um total de 18 milhões de novas armas foram vendidas no ano de 2019 naquele país.

No Brasil, assistimos a uma semelhante escalada de produção e venda de instrumento de morte. Com pouco ou nenhum controle. E estimulada pelos atuais governantes. Tudo fica claro quando vemos que, nas eleições de 2018, pessoas ligadas a empresas fabricantes de armas estiveram entre os maiores doadores de campanhas eleitorais.

A realidade é cruel. Nos Estados Unidos, no México, no Brasil. E em muitos outros lugares. Só não a sente quem não se importa com os mortos porque os que jazem na rua não são dos seus. Mas nada acontece por acaso. Enquanto uns contam os mortos, outros contam os lucros. É a indústria da morte. Altamente lucrativa. Altamente nociva. É a civilização ocidental resumida ao lucro do capital.