A morte e o lucro.

Um dia como qualquer outro dia. Mas nem tanto. Um dia diferente. Um dia estranho. Um dia macabro. Macabro e normal. Tão normal que breve dele esqueceremos. Por isso temos que falar agora antes que olvidemos.

Um dia com muitos mortos. Mais que mortos: assassinatos. Em massa. Coletivos. Brutais. Oficiais. Por balas letais. 24 de maio de 2022. Não foi na Ucrânia. Não foram os mísseis russos nem as armas americanas enviadas agora para serem pagadas depois com o trigo dos campos do Donbass. Afinal, ninguém empresta armas. Armas são para serem vendidas e gerar lucros. A guerra é business, all right!

Não foi na Síria. Nem no Iêmen, Somália, Afeganistão, Congo, Paquistão, Moçambique, Serra Leoa, Camboja, Coreia do Norte ou em qualquer guerra esquecida de um distante país do que antigamente se chamava Terceiro Mundo.

Foi bem aqui. Pertinho de nós. Na nossa vizinhança. Nos três maiores países das Américas. Estados Unidos, México e Brasil. Em cada país, uma história diferente. A mesma dor, a mesma morte, o mesmo sangue quente correndo e pessoas morrendo. Nos Estados Unidos, no Estado do Texas, lugar de gente valente e onde andar armado é um direito de todo cidadão, um jovem de 18 anos executou, com tiros de pistola e fuzil, 19 crianças e duas professoras.

No México, na cidade de Celaya, Estado de Guanajuato, um grupo de homens armados passou de bar em bar atirando em todos os que encontrasse pela frente. Não saiu na imprensa brasileira. Os mortos foram poucos. Apenas onze. Sete mulheres e quatro homens. A polícia investiga.

No Rio de Janeiro, mais um massacre da polícia. Sem inteligência para deter os criminosos quando estão no asfalto, as forças da ordem, desordenadamente, sobem o morro e atira com precisão em alvos equivocados. As balas não são perdidas. São direcionadas. As balas são treinadas. Elas sempre acertam pretos, pobres e periféricos.

No ano que vai em curso, no país da liberdade das armas, a média é de um massacre por dia. As crianças não querem mais ir à escola nos Estados Unidos. A sua, pode ser a próxima. Em Guanajuato, nos bares, a música segue. Os mariachis continuam cantando os narcocorridos que embalam os sonhos de ir para o norte. Para quebrar a monotonia, uma cumbia lembra de onde vem o pó que segue para as narinas do império. O sangue dos mexicanos é o combustível que faz a loucura americana girar. No Complexo da Penha, as pessoas não podem não sair de casa. Tem que trabalhar, trazer o pão nosso de cada dia para o comer dos filhos. Mesmo com dor, com medo de ser o próximo, com o pavor de morrer e não saber o porquê.

Na outra página do jornal, o outro lado da notícia. Nos últimos vinte anos, a produção de armas para uso de civis, triplicou nos Estados Unidos. Em 2019, último ano do qual o governo norte-americano disponibilizou dados, 11 milhões de armas de fogo para uso de civis foram produzidas naquele país. Somadas aos 7 milhões de armas importadas, um total de 18 milhões de novas armas foram vendidas no ano de 2019 naquele país.

No Brasil, assistimos a uma semelhante escalada de produção e venda de instrumento de morte. Com pouco ou nenhum controle. E estimulada pelos atuais governantes. Tudo fica claro quando vemos que, nas eleições de 2018, pessoas ligadas a empresas fabricantes de armas estiveram entre os maiores doadores de campanhas eleitorais.

A realidade é cruel. Nos Estados Unidos, no México, no Brasil. E em muitos outros lugares. Só não a sente quem não se importa com os mortos porque os que jazem na rua não são dos seus. Mas nada acontece por acaso. Enquanto uns contam os mortos, outros contam os lucros. É a indústria da morte. Altamente lucrativa. Altamente nociva. É a civilização ocidental resumida ao lucro do capital.

Recuerdos de 1986.

Os amigos e as amigas que têm a paciência de ler estas letras devem estar sorrindo com o canto da boca só com o título deste texto. E imaginando minha idade, claro! Sem problemas. Já passei dos cinquenta e me abeiro dos sessenta. Falta pouco. É uma bela sensação, podem crer. Tem suas agruras, mas também suas gostosuras.

Quem compartilha comigo a faixa de idade dos acima do meio século, lembra que naquele memorável ano de 1986 muitas coisas importantes aconteceram no Brasil. A maior de todas, o Plano Cruzado para a estabilização da economia. Foi todo um fenômeno! De um dia para outro a inflação acabou, os preços estabilizaram, as pessoas puderam voltar a planejar seus ganhos e gastos. Quem não lembra dos “Fiscais do Sarney” fechando supermercados e dando voz de prisão a seus donos? O YouTube guarda vídeos interessantíssimos deste período.

Mas claro, era um plano artificial. E, artificialmente foi mantido até as eleições gerais de 15 de novembro. E, como não poderia deixar de ser, em meio a toda aquela euforia, o PMDB, partido no governo, teve uma vitória esmagadora elegendo 22 dos 23 governadores, 260 dos 487 deputados federais e 38 dos 49 senadores. Os partidos herdeiros da ditadura – PFL e PDS – ficaram em segundo e terceiro lugar. Na sequência, o PTB de Brizola, o PTB e o PT que fez apenas 16 deputados federais e nenhum senador.

Os deputados e senadores eleitos tinham também a missão de elaborar a nova Constituição Federal que resultou no texto de 1988 que ainda hoje vige.

Foi uma eleição importante. E complicada. Eram sete votos: dois senadores, um deputado federal, outro estadual, governador, prefeito e vereador. Tanto papel que às vezes ficávamos perdidos. E mais as confusões provocadas pelos fiscais que, na verdade, agiam como cabos eleitorais querendo, em alguns casos, votar no lugar dos eleitores que eles traziam em seus carros ou charretes. Não havia urna eletrônica, é bom lembrar. Era papel e uma sacola de lona verde.

E eu, estreando meu título eleitoral, fui nomeado Presidente da Mesa em uma cidade na qual passara a morar há apenas alguns meses. Era a Mesa com o maior número de eleitores inscritos do Capão do Leão. Muitos sequer imaginam onde fica Capão do Leão. É ao lado de Pelotas, no sul do Rio Grande do Sul. O município havia sido recém-criado e a política local era dominada por duas oligarquias que disputavam o poder com todas as armas à disposição. E a afirmação não é apenas uma figura de retórica. Imaginem vocês a tensão.

Foi uma votação dura que conseguimos levar a bom termo. E foi uma eleição importante pois era o início do fim da ditadura. E a vitória do PMDB, se teve o Plano Cruzado como grande motivador, foi também alavancada pelo desejo da população em deixar para traz o regime militar e as trágicas sequelas que deixou na sociedade brasileira.

Estamos em 2022. Vinte e dos anos se passaram. E estamos de novo caminhando para eleições. Desta vez mais simples. Elegeremos apenas o Presidente, um Senador para cada estado, o Governador, os Deputados Federais e os Deputados Estaduais. Cinco votos eletrônicos. Tecnicamente fácil. Mas politicamente desafiadora. Temos outra vez que deixar para traz um governo assumidamente que tentou a volta ao que éramos antes de 1986: um país autoritário e corrupto onde as riquezas nacionais eram entregues às empresas estrangeiras e os lucros acumulados por uma oligarquia mesquinha. Mais do que por este ou aquele candidato, é preciso votar, outra vez, pela democracia. É o que está em questão nestas eleições.

Ah! Em 1986 a Copa do Mundo foi no México e a Argentina, com o genial Maradona e sua “Mano de Dios”, levaram a taça. Quem será o campeão este ano?

Tempos de quebrar a canga.

A profecia sempre se manifesta em tempos difíceis. Não é fácil ser profeta. Há um alto preço a pagar. Às vezes com a própria vida. Profetas antigos e recentes tiveram seu sangue derramado por dizer e testemunhar a verdade. Dietrich Bonhoeffer, Mahatama Gandhi, Martin Luther King, Chico Mendes, Padre Rutílio Grande, Monsenhor Oscar Romero, as irmãs Adelaide Molinari e Dorothy Stang são alguns exemplos de nossos dias. Outros, como Nelson Mandela, não perderam a vida, mas amargaram anos e anos de prisão até que a verdade os libertasse.

A razão da perseguição aos profetas e profetisas é que eles e elas ousam dizer a verdade que muitos gostariam de dizer e não têm coragem. Verdades que, normalmente, incomodam aos poderosos de seu tempo. Em alguns casos, verdades que também incomodam aos amigos e companheiros de dores e sofrimentos. A verdade que precisa ser dita e ninguém quer dizer, normalmente, é inconveniente.

Lembro do profeta Jeremias. Viveu em Jerusalém no final do séc. VII e início do séc. VI a.C. O Reino de Judá havia sido dominado pelos babilônicos. Jerusalém e seu templo foram saqueados. A elite judaica desterrada para a sede do grande império. Os que ficaram na terra, a cada ano, tinham que pagar pesados tributos para não serem deportados também.

A raiva e o desejo de revolta grassavam entre o povo. Jeremias faz uma canga para si, colocou-a no pescoço e desfilou por Jerusalém. Fez outras cangas e as enviou para os reis da região que também haviam sido dominados pelos babilônicos com a mensagem de que, por enquanto, era preciso suportar a canga, mas que, em breve, viria o tempo de quebrá-la e recuperar a liberdade. A polêmica se instaurou. Uns aceitaram a palavra do profeta. Outros a rejeitaram e quebraram a canga. Não é fácil discernir caminhos em tempos conturbados.

No dia de ontem, cinco de maio, o bispo de Itacoatiara, no Amazonas, Dom José Jonilton Lisboa de Oliveira, publicou um decreto proibindo, por tempo indeterminado, a todas as instituições diocesanas, receber doações de políticos, madeireiros, empresas de mineração e de exploração de petróleo e gás. A justificativa é de que essas pessoas e empresas são as causantes do desmatamento, da expulsão dos povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e pequenos agricultores de suas terras e que isso contradiz as orientações do Papa Francisco, a Doutrina da Igreja e a Palavra de Deus.

Dom José Jonilton tirou a canga do pescoço da Igreja de Itacoatiara. Um gesto profético que, esperamos, seja secundado por todas as dioceses da Amazônia e de todo o Brasil. A canga no pescoço dos pobres, hoje, já não é feita de madeira ou de ferro como no tempo de Jeremias. Ela é feita do dinheiro que cala e prende aqueles que deveriam gritar a justiça e libertar os pobres.

Que acontecerá com Dom Jonilton? Que passará com a Igreja de Itacoatiara? Tempos difíceis para eles se anunciam. Receberá muitas críticas dos poderosos de sua região. Calúnias e difamações serão levantadas contra ele. Até sua vida pode ser colocada em perigo. E isso não só de fora. Até de dentro da Igreja será questionada sua decisão. Como no tempo de Jeremias, falsos profetas também hoje abundam.

Mas, com certeza, não faltará a solidariedade, inclusive econômica, de cada um e cada uma que se sentem comprometidos com “uma Igreja pobre e para os pobres”, como o desejava o saudoso Papa João XXIII e o tem testemunhado o Papa Francisco. Uma coisa é certa: o vento da profecia voltou a soprar na Igreja do Brasil.

Adivinha quem vem para jantar?

O ano é 1924. Dia 4 de maio. O Cardeal do Rio de Janeiro, Dom Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, ou, simplesmente, Cardeal Arcoverde, completa 50 anos de ordenação sacerdotal. Bodas de Ouro. Um grande jantar é preparado. Uma festa original. Nunca havia acontecido antes no Brasil. Não pelas comidas e pompas. Mas pelos convivas. Algo inédito na história republicana. O Presidente da República, Artur Bernardes e todo o seu ministério foram convidados. Compareceram também diplomatas, políticos, militares e o entourage do Cardeal. Todos foram saudados no discurso pelo bispo de Diamantina Dom Joaquim Silvério de Souza.

O jantar deu o que falar. Tanto pelo lado católico como pelos republicanos. Afinal, há pouco mais de trinta anos, Igreja e Estado, no Brasil imperial, eram uma só e mesma coisa. Com a República, houve a separação, querida pelos republicanos e odiada pelos eclesiásticos. Foram trinta e cinco anos de guerra entre batinas e fardas. Sim. A Primeira República, mesmo com presidentes civis, nunca deixou de ser tutelada pelos militares de formação positivista, antirreligiosos e anticlericais que viam nos bispos, padres, religiosos e religiosas, os agentes inimigos que poderiam trazer de volta a expurgada monarquia. E há de reconhecer que eles não deixavam de ter razão.

A atitude do Cardeal Arcoverde e a afirmativa aceitação por parte de Artur Bernardes indicavam os novos tempos e os novos rumos desejados tanto pela Igreja como pelo Estado brasileiro. Não mais conflito. O tempo agora é de aproximação, de cooperação, de estender as mãos para o bem da Nação. O jantar foi um sucesso celebrado, no dia seguinte, em um almoço com a presença de todos os bispos do Brasil.

A nova política de relações entre Igreja e Estado foi consolidada sete anos depois quando, no dia 12 de outubro de 1931, Getúlio Vargas e o Cardeal Sebastião Leme da Silveira Cintra, sentaram lado a lado e conversaram animadamente na inauguração do Cristo Redentor. Getúlio precisava do apoio da Igreja para consolidar seu golpe. E o Cardeal Leme precisava do apoio e do dinheiro do Estado para a retomada católica. Era a reprodução nacional do Tratado de Latrão entre Pio XI e Benito Mussolini. Tanto lá como cá, os representantes eclesiásticos e os civis também compartilhavam visões muito próximas de sociedade e da necessidade de governos fortes para manter a ordem, a paz e o progresso.

No último dia 4 de abril, o mesmo local foi cena de um encontro entre um Presidente e um Cardeal. O atual ocupante do Palácio do Planalto foi ao Cristo Redentor onde foi recebido por Dom Orani Tempesta. O primeiro estava acompanhado por vários Ministros de Estado e pelo Governador do Rio de Janeiro, o cantor católico Claúdio Castro. O Cardeal também foi acompanhado por seu séquito facilmente identificável pelas batinas pretas e colarinhos eclesiásticos. A razão do encontro foi a assinatura de um Acordo de Convivência pelo qual a Arquidiocese do Rio de Janeiro tem livre acesso ao local e volta a participar nas receitas do parque. Um sopro financeiro para os combalidos cofres da igreja carioca.

A imprensa não noticiou se houve, após a cerimônia, um almoço com os convidados. Talvez não. Não sei, mas imagino que não. Afinal, já não estamos no tempo em que o comer junto era a demonstração de empatia e compromisso mútuo. Hoje bastam as fotos e os vídeos postados nas redes sociais. E essas foram abundantes. Além disso, comida, para um dos participantes do evento, é sempre um risco. Ainda mais se for um prato à base de frutos do mar. Pode trancar o intestino e exigir internação. Para os católicos que não estiveram presentes no evento, foi um motivo para um pouco mais de indigestão religiosa. E de indignação e apreensão que nos levam a perguntar sobre os rumos de nossa Igreja no atual momento brasileiro. A hora não é para se pensar em ganhos financeiros imediatos, mas no presente e no futuro da maioria da população que volta a sentir, no seu dia a dia, a miséria e a fome, frutos do desgoverno que aí temos e que usa o discurso e as imagens religiosas para ocultar sua necrofilia idolátrica.

Que o Cristo Redentor nos proteja!

Em tempo: o título desta reflexão faz menção ao filme de Stanley Kramer que, mesmo lançado no distante 1967, vale a pena revisitar.

A parusia e sua paródia – uma meditação sobre o Domingo de Ramos

Páscoa vem chegando. Mesmo em meio à pandemia e à crise econômica, coelhos e chocolates aparecem aqui e ali. Mas não vou falar da páscoa do comércio. Vou falar da Páscoa de Jesus Cristo, a verdadeira, a que ainda não foi sequestrada pelo mercado. A Páscoa da Semana Santa que abre com o Domingo de Ramos. Uma bela festa. A festa da Parusia. Sim. Esse é o verdadeiro nome. Hoje o aportuguesamos. Dizemos “entrada triunfal”. Pois em grego, a língua em que foram escritos os evangelhos, “entrada triunfal” se dizia “parusia”.

Na época, no grego popular, a palavra era usada para designar a chegada do imperador em alguma cidade. Era um evento e tanto. César era considerado um mito, um deus. Nas suas viagens, a divindade o acompanhava e tinha que ser devidamente reverenciada por onde passava. Era anunciado com antemão, a estrada por onde passaria era aplainada, limpa, ornamentada e bem guarnecida para que nenhum perigo pudesse ameaçar sua majestade. Os imperadores romanos, como todos os tiranos, imaginavam que por onde quer que andassem, poderia haver inimigos de tocaia para atacá-los. A tirania é sempre paranoica…

No dia em que o rei se aproximava, todos os homens eram obrigados a postar-se à entrada da cidade para saudar o chegante. As muralhas eram ornadas com panos brancos e, se houvesse, vermelhos, para saudar a divindade viva. E ai daquele que não gritasse vivas ao rei. O grito tinha que ser alegre, caso contrário, a espada ou a lança do soldado fá-lo-ia gritar de dor ou dar seu último grito de agonia. Aplaudir o imperador era uma obrigação, nem que fosse sob coação. Mulheres e crianças ficavam dentro de casa, espiando pelas frestas das janelas para ver o rei ou para ver se seus esposos e filhos tinham sobrevivido à parusia.

Jerusalém, a cidade para a qual Jesus se dirigia, também tinha a sua parusia. Não era a do Imperador Romano. Jerusalém ficava tão longe de Roma que o César a conhecia apenas por sua má fama. Quem fazia sua parusia anual na Cidade Sagrada era Herodes Antipas, alcunhado de “O Pequeno”. Na véspera de cada Páscoa, Herodes, montado em seu cavalo branco, saia da fortaleza de Cesareia e, com sua milícia de legionários, subia a Jerusalém. E, como todo tiranete de quinta categoria, gostava de receber honras semelhantes ao tirano máximo. Ele obrigava a cidade de Jerusalém a preparar-lhe uma entrada triunfal. E os grandes da cidade, para agradar o pequeno ditador, obrigavam todo o povo àquela representação de subserviência. A estrada era enfeitada, as muralhas adornadas e os homens perfilados para serem devidamente humilhados pelos milicianos romanos.

Jesus sabia que isso iria acontecer naqueles dias. Todo judeu sabia. E todo judeu odiava esse dia em que Herodes Antipas entrava em Jerusalém pela porta do Ocidente para dar segurança e tornar a Páscoa impura.

Jesus desobedece. Não vai fazer reverências ao militar romano. Vai ao Monte das Oliveiras e, dali, com seus discípulos, mulheres e crianças, entra na Cidade Santa. Não há panos brancos e vermelhos para saudá-lo. Apenas palmas e flores do campo. Nenhum militar o acompanha. Vai montado num inofensivo jumento. Não entra pela porta principal. Entra pelo Leste, pela porta dos fundos. Para todo judeu, aquilo era claro: Jesus fazia uma paródia informal da parusia oficial. Todos entendem e, entrando na brincadeira, o aclamam como “Rei dos Judeus”. Um rei não como César e seu títere Herodes. Um verdadeiro rei. Um rei como Davi, o libertador.

Os fariseus também entendem e pedem que Jesus mande calar os discípulos e a multidão. Jesus não manda. Deixa que o povo cante, ria, dance. Entra em Jerusalém e a confusão se arma. E a história todos sabemos como terminou… Os poderosos não gostam de paródias. Especialmente quando satirizam seu obsceno poder e expõem o ridículo papel dos testas de ferro que oprimem o povo em nome de interesses alheios.

O humor é perigoso. Ele desmascara o poder. Ao provocar o riso, faz com que caiam as máscaras e as faces se exponham em sua grandeza ou mediocridade. Jesus sabia disso. Hoje também o sabemos. Por isso, mesmo na dor, não podemos deixar de viver com humor. Ele faz parte do dom maior que é o Amor, a cidade onde todos queremos habitar.

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Por menos pedras e menos cruzes.

Fim de semana passada participei, como todos os católicos que tem possibilidade, da celebração dominical. Tempo especial em preparação à Páscoa. A sequência da liturgia quaresma nos convida à revisão de vida e conversão para acolher a Salvação sempre dada por Deus, independentemente de nossa condição pecadora.

As leituras da Palavra de Deus do Quinto Domingo do Tempo da Quaresma têm como tema a misericórdia de Deus. No Evangelho de João, Jesus é colocado diante da situação da mulher que teria sido flagrada em adultério. Todos conhecemos o episódio. Só a mulher é levada até Jesus. O homem que teria cometido adultério com ela é isentado pelas “pessoas de bem” que se julgam cumpridores da Lei. Jesus desarma os moralistas agressores convidando a quem não tivesse pecado a atirar a primeira pedra. E todos se afastam, começando pelos mais velhos. Talvez fossem eles os que tivessem cometido adultério com a mulher. Jesus também não condena a mulher. Ele não veio para condenar, mas para salvar. E o faz com carinho, abaixando-se, colocando-se na mesma condição da mulher. Bem diferente dos homens que, de pé, julgavam a mulher e queriam também julgar a Jesus.

Minha tristeza, na celebração em que participei, foi a de ouvir o presidente, na sua reflexão, colocar-se do lado dos apedrejadores e não do lado da mulher e de Jesus. Durante os doze minutos do sermão, todo o acento foi colocado no “vai e não peques mais”, ressaltando que, de fato, a mulher era pecadora e devia ser condenada e que só a misericórdia de Jesus a salvou. Com o deslocamento do centro de atenção, as pedras voltaram a voar e a misericórdia de Deus desapareceu do horizonte. A insistência nos pecados da mulher foi tanta que a ação libertadora de Jesus foi transformada em um verdadeiro apedrejamento verbal. Uma pena! O legalismo condenado por Jesus parece muitas vezes presidir a leitura que fazemos do Evangelho. Como seria bom colocar-se outra vez na mesma posição de Jesus, sentado, no pó do chão, ao lado das que sofrem. Isso nos faria entender e anunciar.

Escrevo isso pensando na semana litúrgica da qual estamos nos aproximando, a Semana Santa. Passa-me pela cabeça a terrível ideia de que a Paixão e Morte de Cristo na cruz também possa ser interpretada a partir da condenação das autoridades religiosas daquele tempo e de seus gritos de “crucifica-o, crucifica-o”. Meu medo é que apareça alguém pregando que a morte de Jesus, assim como afirmavam seus acusadores, devia mesmo acontecer. Afinal, ele ensinava os pobres, anunciava o Reino de Deus, convivia com pessoas tidas por impuras e indignas da graça de Deus, com hereges e estrangeiros, infringia a Lei e não respeitava as autoridades religiosas. E que os que o mataram, nada mais fizeram que cumprir a lei.

Oxalá que isso não aconteça. Mas tenho medo. E temo. Temo muito. Afinal, estamos vivendo tempos em que a religião da pedra e da cruz parece prevalecer sobre a comunhão do pão e a esperança da ressurreição. Rezemos pela nossa conversão!

São José e a santidade que mora ao lado.

Hoje, 19 de março, venho a público confessar que durante muito tempo tive dificuldade em lidar com as devoções a São José, o carpinteiro, esposo de Maria e pai de Jesus. A dificuldade não se enraizava numa falta de fé de minha parte ou em uma presenta desconfiança na exemplaridade da vida do homem de Nazaré. Muito antes pelo contrário. José, ao aceitar Maria grávida e criar um filho que não era dele, transgrediu as leis judaicas que regulamentavam o casamento e a procriação e pagou caro as consequências de ter assumido o cuidado do Filho de Deus.

A vida em Nazaré não foi fácil para o jovem casal. As “pessoas de bem” olhavam para os dois com desconfiança e até com desprezo. Especialmente para José que tomou por esposa uma mulher que, segundo a lei, deveria ter sido apedrejada porque ficara grávida antes do casamento. E, se o filho fosse dele, segundo a mesma lei, José deveria ter sido apedrejado também, por engravidar uma virgem antes de coabitar com ela. Os moradores de Nazaré nada sabiam dos anjos que, segundo os evangelhos de Mateus e Lucas, tinham falado a José e a Maria.

A viagem a Belém, a fuga para o Egito e o retorno a Nazaré não foram fáceis para José e Maria. Os evangelhos nos fornecem pouca informação sobre a vida da família de Nazaré. Apenas dizem que eles cumpriam suas obrigações religiosas – frequentavam a sinagoga e faziam a peregrinação a Jerusalém – e que José era um sem-terra que sobrevivia trabalhando como diarista na construção civil. Talvez, como tantos outros conterrâneos seus, passasse a semana trabalhando nas grandes obras que a administração romana levava adiante nas vizinhas cidades de Séforis e Tiberíades e só voltasse para Nazaré onde morava Maria com o menino no sábado. Mas são apenas suposições. O fato é que nos Evangelhos, depois das narrativas iniciais de Mateus e Lucas, são poucas as referências a José. Nenhuma no evangelho de Marcos; uma nos evangelhos de Mateus e Lucas; duas no evangelho de João. Em três delas, a menção a José é feita com o intuito de desqualificar a pregação e a atividade de Jesus por ser ele “o filho do carpinteiro José”! Depois isso, José desaparece completamente dos relatos bíblicos.

De onde vem, então, as tantas informações sobre a vida de José que encontramos nas vidas dos santos? A maioria vem da literatura apócrifa e gnóstica ou então da imaginação dos devotos que atribuem a José coisas que os evangelistas sequer ousavam pensar e muito menos descrever porque, de fato, não existiram. Como pode alguém, com tão poucas informações sobre o carpinteiro de Nazaré escrever uma biografia de São José com mais de seiscentas páginas? Haja imaginação!…

Minha reconciliação com as devoções a São José foi despertada pela Encíclica “Gaudete et Exsultate” do Papa Francisco. Nela, ele chama a atenção para a “santidade que mora ao lado”, a santidade dos “pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir […] daqueles e daquelas que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus”.

Essa é a santidade do carpinteiro José, a santidade ordinária, a “classe média” da santidade, como diz o Papa Francisco. Santidade que muitas vezes passa desapercebida porque não se expressa em grandes fatos ou em discursos eloquentes. Ela se realiza no quotidiano e só é perceptível para aqueles e aquelas que tem a graça de sentir a presença de Deus no ordinário da vida. E esse é o caminho da revelação que Deus nos mostrou em Jesus Cristo, aquele que foi cuidado e ensinado por José, o carpinteiro de Nazaré, que, por isso, merece toda nossa reverência.

Obs.: A tradução portuguesa da “Gaudete et Exsultate” fala de “santidade ao pé da porta”. Nós preferimos, a partir do original francês da expressão, traduzir como “a santidade que mora ao lado”.

Sobre oligarcas e grandes marcas.

Para tentar conter o ímpeto bélico da Rússia, os países ocidentais – Estados Unidos à frente – estão tomando algumas medidas extraordinárias para os padrões capitalistas que regem a economia deste lado do globo terrestre. O mais surpreendente é o sequestro dos bens dos ditos oligarcas russos. Uma medida surpreendente, já que os liberais ocidentais defendem o direito absoluto à propriedade e à livre iniciativa. É uma medida extrema, só aceitável em tempo de guerra e contra estrangeiros, dizem eles.
Outra medida extrema, foi a retirada de marcas mundialmente famosas – American Expresses, Visa, Master Card, Zara, Coca Cola, Starbucks e Mac Donalds – do mercado russo. Essas empresas vão perder bilhões de dólares que certamente não deixarão de circular na 10ª economia do mundo que é a russa. Mas é o “sacrifício” que estas empresas farão para restabelecer a democracia e salvar o mundo da volta do regime soviético capitaneado pelo novo Stalin em que Putin se transformou. São medidas extremas, só aceitáveis em tempo de guerra e em países estrangeiros, dizem eles.
Tais medidas extremas me fizeram pensar em algo insólito. No Brasil não vivemos uma situação de guerra declarada. Há as chacinas diárias onde morrem mais civis do que na guerra da Ucrânia e as pessoas andam de um lado para outro, não fugindo da guerra – graças a Deus! – mas buscando sim, um lugar para ganhar o pão de cada dia e sobreviver com suas famílias destroçadas pelo desemprego e pela miséria. Nessa situação extrema, não seria justificável desapropriar os bens dos oligarcas brasileiros para prover aos milhões de cidadãos que não tem o que colocar na mesa hoje? Proporcionalmente falando, os oligarcas brasileiros são muito mais oligárquicos que os russos. Enquanto por lá 300 pessoas detém a metade da riqueza russa, aqui, na “terra brasilis”, os seis homens mais ricos detém a mesma riqueza que a metade mais pobre da população. Em termos de oligarquias, damos de goleada nos russos. Quase um 7 X 1!
Quanto a banir as marcas americanas, isso seria uma graça. Poucos brasileiros sentiriam a falta da Zara, Starbucks e Mac Donalds. E a Coca Cola pode ser substituída por um Jesus Cola ou Fruki Cola e por um bom café nacional. Tudo, claro, pago através de um cartão de débito ou crédito chinês que substituiria os American Express, Visa e Master Card como aconteceu na Rússia.
Se alguém estranhou a minha matinal divagação, talvez ela se deva à dose excessiva de café que tomei essa manhã…

Rússia X Ucrânia: o falso dilema.

Fui interpelado ontem por uma pessoa de minhas relações sobre o meu posicionamento ante a guerra entre a Rússia e Ucrânia. Vendo minhas postagens nas redes sociais, essa pessoa não conseguia saber se eu apoiava Putin ou Zelinsky.

Tentei logo esclarecer: não torço nem prá um e nem prá outro. Numa guerra, quem torce para que um ou outro seja vencedor, dá uma demonstração de desconhecimento do que está em jogo. E, no caso, o que se disputa não é o domínio da Ucrânia simplesmente. O problema é muito mais profundo. Trata-se do fim da hegemonia global norte-americana e da emergência de uma nova configuração nas relações internacionais.

Com a expansão da OTAN para o Leste, os Estados Unidos tentam manter militarmente a hegemonia que a força econômica e política já nãos lhes proporciona. China, Rússia e Índia – sem contar outros países – estão hoje dispostos a assumir um papel protagônico nas relações internacionais.

Putin não é um louco ou um novo hitler. Ele sabe muito bem o que está fazendo e vem planejando isso desde que assumiu o poder. E não vai voltar atrás. E Biden também sabe disso. E não vai voltar atrás… Por isso o desenlace da crise não será para logo. E quem mais sofrerá será o povo ucraniano que, instigado por um fantoche dos Estados Unidos, foi jogado para uma guerra sem qualquer perspectiva de vender. Até porque numa guerra nunca há vencedores, a não ser os que vendem armas e os que depois ganharão dinheiro com a reconstrução da infra estrutura destruída.

Os países da Europa tampouco serão vencedores. As sanções impostas à Rússia logo se voltarão contra os próprios europeus que terão que pagar cada vez mais caro pelo petróleo, gás, trigo… Sem contar, é claro, com o custo absurdo de uma guerra que os Estados Unidos lhes repassarão. E o custo dos milhões de refugiados que continuarão a afluir para o Oeste.

A perspectiva é muito triste… O único caminho seria a total desnuclearização e desmilitarização da Europa com os Estados Unidos retirando suas forças de ocupação do solo europeu e a Rússia fazendo o mesmo movimento em seu território. Mas, a essas alturas, sonhar com isso é uma absurda divagação pacifista que só seria alcançada com uma ampla mobilização da população europeia. Algo que, claro, não está à vista na esquina das ruas de Berlim, Paris, Londres, Madrid ou Roma.

O que nos resta a fazer, além de rezar e ser solidários com as vítimas, é fortalecer e espalhar a convicção de que todo recursos à violência e às armas nunca é caminho para a solução dos problemas que vivemos, tanto nos relacionamentos próximos como nas relações internacionais.

Ah! Prá não esquecer… Se sobrevivermos, nem Rússia nem Estados Unidos serão os vencedores. Quem ganhará com a presente guerra é a China e os países que com ela se alinharão. Basta acompanhar nos portais oficiais do governo chinês os movimentos da diplomacia daquele país e logo perceberemos como eles estão conduzindo seus negócios em meio à crise.

Caminhar, comer e meditar.

O que fazer para mudar o mundo? É a pergunta que todos os que temos um mínimo sentimento de humanidade fazemos. Só quem é insensível diante de tudo o que está acontecendo – guerras, fome, peste, ecocídio, feminicídio, racismo, genocídios… – pode abdicar de preocupar-se com o futuro da humanidade e do planeta que nos cabe habitar.

Muitos talvez desistam da inquietação diante da enormidade das situações que se apresentam. Os problemas são grandes demais para que um indivíduo sozinho ou com seu pequeno círculo de relações possa fazer algo. Então, é melhor não fazer nada pois, agindo, podemos piorar ainda mais a situação.

Pior que este temor muitas vesses pode ser verdadeiro! Afinal, para enfrentar os Cavaleiros do Apocalipse que ameaçam tudo destruir, é preciso uma ação conjunta que reúna forças para enfrentar aqueles – pessoas, grupos econômicos e países – que ganham com o mercado da morte. A tanatofilia não é apenas um distúrbio psicológico. Ela é um programa político e um mercado rentável. Basta ver o lucro das empresas produtoras de armas e o modo como alguns candidatos se alçam ao poder.

A política é o único caminho para se construir uma alternativa que defenda a vida de todas as pessoas e dos demais seres vivos e do Planeta Terra. Não há outro caminho. Ele é longo. Exige serenidade e perseverança. Trilhá-lo com paixão e compaixão é a única alternativa possível a longo prazo.

O problema é que quem tem fome e tem a vida ameaçada, não pode esperar tanto. E aí emerge o outro lado de uma possível solução. Precisamos iniciar logo a mudança e dar os primeiros passos com nossos próprios pés. E isso literalmente! Afinal, na raiz das muitas ameaças à vida sobre a Terra, está a demanda insaciável por energia que o modo atual de organizar a vida sobre a Terra – aquilo que pomposamente chamamos de Economia – exige. Por trás das guerras, da destruição ambiental e da fome, está a necessidade de petróleo, gás, energia elétrica, nuclear… E o carro é o vilão simbólico do consumo desenfreado de energia. Andar a pé, de bicicleta ou em transporte coletivo, é o início de uma verdadeira revolução.

Ao andar a pé, gastamos energia. E para repô-la, temos que comer! E aí vem a segunda opção: comer menos carne. Efetivamente, a produção de “proteína animal” é a principal causa do desmatamento, do desperdício de água e do desequilíbrio ambiental. A cada quilo a menos de carne que comemos, estamos ajudando a manter viva a criação e a harmonia entre os humanos e destes com o meio ambiente. Para manter estas difíceis opções, é preciso pararmos para pensar no sentido da curta e frágil vida humana. Afinal, dificilmente passaremos dos cem anos! Vale a pena passar este curto tempo correndo pelas estradas reais e virtuais sem sentir o sabor da paisagem que se esvai e da qual só ficam em nossa memória vagos fantasmas? Melhor ir devagar… suavemente, docemente, calmamente, tomando tempo para saborear cada passo, cada espaço, cada momento. Meditar é a solução. Menos agitação e mais contemplação, certamente nos ajudarão a sentir, pensar, viver e construir um mundo melhor.