A COPA DE UM MUNDO DE CABEÇA PARA BAIXO

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Assistimos ontem o sofrível desemprenho da seleção brasileira. Surpresa  nenhuma. E não é culpa do Ancelotti. Há muito tempo a verde-amarela deixou de representar o Brasil. Agora o que interessa é o faturamento. O técnico italiano, assim como os que vieram antes dele, não convocam e nem escalam os jogadores que gostaria de chamar e colocar em campo. O caso Neymar é exemplar. Sem condições físicas, psíquicas e sociais de jogar, foi imposto pelos patrocinadores. Sua reação após o anúncio da convocação é exemplar: ao invés de agradecer a convocação e falar para os brasileiros e brasileiras, postou em suas redes sociais propaganda das bets que o patrocinam. Ele joga para as casas de apostas e não para a bandeira que o alberga.

No mundo do futebol brasileiro, Neymar é apresentado como o exemplo a ser seguido. É o que se propagandeia dia e noite nos jornais, rádios, televisão e mídias sociais que, não por coincidência, são patrocinados pelas mesmas casas de aposta que ganham milhões com as imagens dos jogadores que sonham um dia serem recompensados como o adulto disfuncional, chamado por alguns hipocritamente de “menino Nei”.

Nesse contexto, não há muito o que esperar da seleção brasileira em termos de resultado. Será uma grande zebra – para usar uma expressão bem antiga! – se chegar às finais e, maior ainda, quase um camelo passando pelo buraco de uma agulha, se conseguir trazer o propalado hexa.

Do outro lado no jogo de ontem, a seleção do Marrocos. Uma equipe com grandes destaques individuais, um esquema de jogo claro, disciplina tática e vontade de ganhar. E a grande maioria, vinte deles, com uma característica em comum: filhos de migrantes, nasceram na Europa e optaram por jogar pelo país de suas origens culturais. Jogar pelo Marrocos, para eles, foi uma opção. Poderiam, facilmente, ter um lugar nas seleções dos países onde nasceram.

Achraf Hakimi, Brahim Díaz e Yassine Bounou (Bono) jogam em grandes equipes e seriam facilmente convocados para compor as seleções de Espanha e Canadá. E outros tantos componentes da seleção argelina e de outras tantas poderiam fazer o mesmo. Mas optaram por não jogar pelo país onde nasceram e defender as cores dos países de seus pais.

Se olharmos o conjunto das 48 seleções em campo neste mundial, é surpreendente o número de jogadores nesta situação. São aproximadamente 287 os que nasceram em um país e jogam por outro. Um número nunca antes alcançado. Em copas anteriores, a quantidade era irrelevante e os casos isolados causavam estranheza e, em alguns casos, até severamente criticados e caracterizados como merceranismo. Hoje, o fato é aceito e até celebrado como expressão da globalização e do intercâmbio de culturas.

Mas, há um detalhe que surpreende. Dentre os 287 casos, são poucos os que nasceram na América do Sul, África ou Ásia e optaram por jogar na Europa. A grande maioria fez o caminho contrário. Nasceram na Europa e optaram por jogar pelos países de origem de seus pais. E aí talvez haja um indicativo de uma outra forma de globalização. Uma globalização anti-colonial ou, como se costuma dizer, decolonial. O sentimento de volta às origens, de recuperação das raízes, de reconstrução de identidades e de solidariedade que vence a tentação de acomodação às benesses do sistema imperial norte-atlântico.

A arte e os esporte – que também é uma arte – tem a sensibilidade para antecipar movimentos do conjunto da sociedade. Os jogadores de futebol estão construindo outros caminhos de deslocamento pelo mundo. Estão colocando o quadro das seleções mundiais de cabeça para baixo. O que antes estava acima, agora está abaixo e a copa está extravasando e mostrando que outros rios do mundo são possíveis.

Pobre pampa!

Foto por Alejandro Novoa em Pexels.com

Sem querer ser bairrista, gostaria de lembrar que há duas coisas que nenhum outro Estado do Brasil tem: o Bioma Pampa e a Lagoa dos Patos.

A Lagoa dos Patos é só nossa. Não a dividimos com nenhum outro Estado e com nenhum outro país. Já o Bioma Pampa, ele faz parte da cultura gaúcha e o compartilhamos com uruguaios, argentinos e paraguaios. Tudo isso até o presente momento. Pode ser que daqui a alguns anos não tenhamos mais nem Lagoa dos Patos e nem Bioma Pampa.

E não será por uma catástrofe cósmica. Será por uma irresponsabilidade ecológica mesclada com interesses políticos e pessoais. Essa conjunção catastrófica tem nome: duplicação da CMPC com a planejada unidade de Barra do Ribeiro. O Governo do Estado – Eduardo Leite e Gabriel Souza – diz que não se pode perder um investimento de vinte e poucos bilhões. Mas não falam das desonerações fiscais pactuadas que farão que o retorno para o Estado em termos de impostos seja quase nulo.

A imprensa empresarial só publica as notas de apoio de parte dos sócios – ocultos e não tão ocultos – da empresa chilena e dos interessados políticos coadjuvantes. Dos impactos ambientais e dos estudos que mostram o grave perigo do projeto, silêncio total! A CMPC é o maior patrocinador de quase todos os meios de comunicação empresarial do Estado.

A implantação do negócio é um risco para a Lagoa dos Patos. Nela serão despejados os rejeitos industriais com componentes tóxicos que poderão afetar a flora e a fauna nativas gerando desequilíbrios com consequências imprevisíveis. A plantação de eucaliptos, necessária para o suprimento de matéria prima, acabará com o pouco do Bioma Pampa que ainda resiste.

Até agora não ouvi nenhum tradicionalista, seja como pessoa física ou representante do Movimento Tradicionalista Gaúcho, pronunciar-se sobre a questão. Talvez também eles tenham medo de perder os patrocínios diretos e indiretos. Para o MTG, a Lagoa dos Patos e o Pampa são apenas símbolos atávicos de um passado que nunca existiu e não realidades vivas que precisam de cuidado. Se pelos menos, como diz a canção, houvesse algum caudilho prá lutar prá essa pampa pobre que ficou prá traz… Mas parece que a maioria se conformou a sequer ter a pampa pobre que herdou de seu pai. Triste gauchismo castrado em suas memórias ancestrais!

NEM TUDO ESTÁ PERDIDO!

Deu vontade de interromper a conversa dos dois para dar parabéns. Mas aí pensei: se eu fizer isso, estarei normalizando o fato de que os homens não deveriam se preocupar com seus filhos e deixar os cuidados necessários para as mães. Essa é a lógica machista e eu a estaria confirmando.
Melhor fiquei quieto. Talvez os dois sejam os representantes comuns das novas masculinidades em construção. Uma maioria silenciosa que se expressa sem vergonha em locais tipicamente masculinos. É bem provável que isso também aconteça corriqueiramente nos bares, nos estádios de futebol, nas saunas, nas borracharias e em outros tantos lugares antes impensáveis para a presença de homens que não se sentem desmasculinizados por serem simplesmente humanos.

Hoje, quem precisa gritar nas redes sociais, nos meios de comunicação, nos palanques políticos e nos púlpitos a sua crise de masculinidade são aqueles que perderem seu lugar de poder baseado no princípio falocrático. Os que deram o passo para relações de equidade de gênero e assumem a sua masculinidade de forma não competitiva e quiriarcal, vivem tranquila e serenamente sua nova identidade de gênero sem deixarem de ser masculinos.

É o caso do rapaz e do barbeiro que, animadamente, conversavam na barbearia ontem no final da manhã. Voltei prá casa feliz! Nem tudo está perdido.

O CULTO A MARIA E A MISOGINIA

Nestes sessenta anos pós Concílio Vaticano II, a devoção mariana tem sido tema constante nas reflexões do Magistério ordinário da Igreja Católica Romana. Temos pelos menos quatro intervenções papais sobre o assunto: a “Marialis Cultus” de Paulo VI (1974); a “Redemptoris Mater” de João Paulo II (1987); a “Rosarium Virginis Mariae” do mesmo João Paulo II (2002) e a “Mater Populus Fidelis” de Leão XIV (2026).

Em todas elas, a preocupação principal é a animar a devoção mariana na perspectiva eclesial proposta pelo Concílio Vaticano II, de modo especial na “Lumen Gentium” onde apresenta Maria como Mãe e Modelo de Igreja.

Nestes tempos de muitos “magistérios paralelos” na Igreja, bom e necessário se faz voltar ao Magistério autêntico para manter nossas devoções marianas protegidas de inovacionismos personalísticos, deformantes e mercadológicos onde a monetização é mais importante que a evangelização.

Necessários se faz, por exemplo, voltar à “Marialis Cultus” de Paulo VI, uma verdadeira preciosidade mariológica onde há um apontamento que fala alta na atualidade social, eclesial e nas devoções marianas.

Na segunda parte do documento, ao propor orientações para a renovação do culto mariano, Paulo VI apresenta “algumas orientações, de ordem bíblica, litúrgica, ecumênica e antropológica, para o culto à Virgem Maria”.

No n. 34, ao falar das orientações antropológicas, ele afirma que, “no culto à Santíssima Virgem devem ser tidas em atenta consideração também as aquisições seguras e comprovadas das ciências humanas; isso concorrerá, efetivamente, para que seja eliminada uma das causas de perturbação que se nota nesse mesmo campo do culto à Mãe do Senhor; quer dizer, aquele desconcerto entre certos dados deste culto e as hodiernas concepções antropológicas e a realidade psicossociológica, profundamente mudada, em que os homens do nosso tempo vivem e operam”.

Para o Papa, o modo como nos referimos a Maria precisa ser adequado ao modo de sentir e pensar dos tempos presentes e não ficar preso a padrões do passado que já não são compreendidos e muito menos aceitos.

De modo surpreendente para os padrões socioculturais e eclesiais da época (1974), Paulo VI faz menção explicita ao modo como se relaciona Maria à condição social das mulheres: “Observa-se, na realidade, que é difícil enquadrar a imagem da Virgem Maria conforme resulta de certa literatura devocional, nas condições de vida da sociedade contemporânea, e em particular nas da mulher. E isso, quer a consideremos no ambiente doméstico, onde tanto as leis como a evolução dos costumes tendem justamente para lhe reconhecer a igualdade e a co-responsabilidade com o homem, na direção da vida familiar; quer a consideremos no campo político, onde ela conquistou, em muitos Países, um poder de intervenção na coisa pública, a par do homem; quer a consideremos, ainda, no campo social, onde ela desenvolve a sua atividade, nos mais variados setores operativos, deixando cada dia mais o restrito ambiente do lar; quer a consideremos, enfim, no campo cultural, onde lhe são proporcionadas possibilidades novas de pesquisa científica e de afirmação intelectual.”

As devoções marianas, conforme vemos, não podem ser utilizadas como instrumento para a inferiorização da mulher na Igreja e na sociedade. Fazer isso é afrontar a própria pessoa de Maria e desconsiderar sua missão específica na ação salvadora realizada por Deus em Jesus Cristo e pelo Espírito.

Nesses tempos em que a devoção mariana é utilizada como ferramenta misógina por grupos e indivíduos católicos com interesses políticos e econômicos, voltar a “Marialis Cultus” e ao legítimo magistério eclesial é necessário e nos livra de muitos males presentes e previne contra males futuros, tanto aqui na terra como no céu.

*Deixo o link para a “Marialis Cultus” para que cada um/a possa conferir o texto na sua originalidade e confrontá-lo com certas práticas que hoje vemos no meio católico.

O ridículo também usa hábito

OBSERVAÇÃO: Normalmente, neste espaço, publico apenas textos de minha autoria. Hoje abro uma excessão para o texto de Júlio Cesar Meazza Lima, membro da Comunidade da Vigília e pessoa que, no serviço prestado aos empobrecidos de uma das tantas periferias de Porto Alegre, dá testemunho de sua fé no Deus da Vida dado a conhecer por Jesus Cristo. A publicação conta com a devida autorização do autor.

O ridículo também usa hábito

Julio Cesar Meazza Lima (Ir. Pascal, Obl. OSB)

(Estou ciente dos vários riscos, sob diferentes aspectos, ao compartilhar a reflexão que segue. Faço-o, contudo, movido pela inquietação diante da proliferação de certas atitudes travestidas de sagrado.)

Hábito ou fantasia? Tradição ou caricatura? O que acontece quando um símbolo de renúncia vira figurino de vaidade, ostentação e performance, tanto nas redes sociais quanto no cotidiano? Na era da superexposição, onde o que não é visto parece não existir, até o sagrado precisa recriar seu perfil, mas isso não isenta ninguém do cuidado, da coerência e da autocrítica.

O fenômeno que se observa é o engajamento de seminaristas e padres, religiosas e religiosos em coreografias e trends esdrúxulas, para dizer o mínimo, fazendo piadas em reels ou jogando futebol com a batina amarrada na cintura, atitudes que ganham enorme visibilidade nas redes sociais, mas que refletem um comportamento já visto na vida cotidiana, conventual e paroquial.

A inadequação, contudo, torna-se ainda mais flagrante quando o fazem usando paramentos litúrgicos, pois o uso dessas vestimentas específicas não deve ser encarado como um mero traje de trabalho. Banalizá-los é ignorar o que representam.

Tudo isso, portanto, não é mero detalhe pitoresco. É um profundo esvaziamento simbólico e o sintoma aguçado de uma crise de identidade, que não é apenas pessoal, mas institucional, onde a ordem ou congregação religiosa, a diocese ou o seminário, por medo de se tornarem irrelevantes, incentivam ou permitem esse tipo de comportamento.

Como, então, compreender o dito amor pelo hábito e o desejo de diferenciar-se por seu uso, ao mesmo tempo em que se tenta igualar-se a qualquer um que não o usa? A resposta, na verdade, é um paradoxo. E o resultado dessa tensão é a neutralização do símbolo.

O hábito e a batina, para muitos, deixaram de ser sinais de consagração para se tornarem figurinos de performance que, ironicamente, buscam aplausos justamente daquilo contra o que deveriam alertar: a vaidade. Puxado pelo desejo simultâneo de ser sagrado e popular, o símbolo é anulado e perde sua função.

Nada aqui é novo. Em essência, é a mesma crítica que Jesus fazia aos fariseus, cujo problema, necessariamente, não era o uso dos símbolos de piedade, mas a sua amplificação e ostentação, ou seja, o alargar das faixas na testa e nos braços e o alongar das franjas, feito unicamente “para serem vistos pelos outros” (cf. Mateus 23:5). É a troca da consagração pela performance. A praça pública onde se buscava a saudação é o feed onde se mendiga o like. O esvaziamento do símbolo é o mesmo.

Essa inversão é um problema porque, historicamente, o argumento para uma vestimenta exclusivamente religiosa era o diferenciar-se. Ela era uma fronteira visível entre o sagrado e o secular; um testemunho silencioso de que aquela pessoa vivia, ou aspirava viver, sob um conjunto diferente de valores. Sua força estava numa inadequação deliberada. De muitos modos, ele apontava para o transcendente. Era um uniforme de renúncia.

A vestimenta evangeliza pela estética. Partindo desse princípio, é preciso ponderar que o zelo pela visibilidade da vocação se expressa de forma plena e, por vezes, mais profética, através do traje comum e secular. Para muitos, esta é uma opção evangélica consciente, isto é, buscar a identificação profunda com o cotidiano das pessoas, especialmente das mais empobrecidas, suas causas e suas lutas. Nesse gesto, a busca não é por igualar-se, mas identificar-se com a humanidade concreta e sofredora do outro.

A partir do momento, porém, em que se faz a opção de usar vestimentas exclusivamente religiosas como hábito, batina, clergyman, essa escolha pede uma postura diferenciada e explicitamente adequada ao que se veste. Se uma opção pelo símbolo visível da diferença é feita, também se deve optar por posturas que lhe sejam explicitamente afins.

O religioso midiatizado compreendeu que, no mercado da atenção, ele precisa de um diferencial. O hábito tornou-se sua marca, sua identidade visual. É o que o faz ser notado na disputa pela atenção, seja ela online ou ao vivo. Mas essa ferramenta de marketing pessoal tem um custo, e esse custo é a própria alma do símbolo.

Após capturar a atenção com o diferente, sente-se a necessidade imediata de ser aceito, de gerar engajamento. Na esfera pública atual, a moeda de troca é o igualar-se. O religioso precisa provar que é gente como a gente.

É aqui que a estratégia implode. Para se igualar, ele adota o comportamento mais banal do mundo secular: a dancinha esdrúxula, o esporte performático. O religioso quer os dois mundos, ou seja, a autoridade simbólica do sagrado conferida pela vestimenta e a aprovação popular do profano conferida pelos aplausos e likes, numa tentativa de animação vocacional às avessas. Nessa troca, a autoridade é inevitavelmente devorada pela popularidade.

O resultado é a dessacralização. O hábito, que deveria restringir certos comportamentos, torna-se irrelevante. A velha máxima de que “não se vai onde o hábito não for adequado”, um freio que validava o símbolo, evaporou. O hábito funcionava como uma clausura portátil, um lembrete visível de um espaço interior que devia ser preservado. Se hoje o hábito pode estar em qualquer lugar, fazendo qualquer coisa, ele não significa mais nada. Voltou a ser apenas um pano. Então, por que continuar usando-o?

Para usá-lo assim, como um pano banalizado, talvez fosse melhor, de fato, não o usar. A única justificativa para manter o símbolo é resgatar sua força original, vivendo a coerência que ele exige e pela qual o mundo, sedento de autenticidade, ainda anseia, o que não significa rigorismo triste, fé sisuda, cara de vinagre ou carisma de múmia.

A desculpa da humanização, que muitas vezes é usada para justificar essa banalização, é falha. Não se trata, evidentemente, de condenar a presença no mundo digital, que é um campo de apostolado fecundo, nem de exigir que o religioso seja um anjo etéreo. Mas a humanização que se espera dele não é a trivialidade superficial, por vezes ingênua, outras, ridícula, travestida de proximidade. A humanização autêntica é a proximidade, a misericórdia, a profundidade, a escuta; é a humanidade que se revela na luta, na dúvida compartilhada, na caridade que não é performance, mas serviço anônimo.

Não raro, aliás, a mesma figura que se entrega à performance banal é a que, em outro momento, revela o oposto exato da misericórdia, isto é, o discurso de ódio e o preconceito. Ambas as atitudes, o ridículo e a agressão, provam ser, assim, manifestações da mesma crise de identidade.

O sentido que enfatizava o Papa Francisco ao dizer que “onde há os consagrados, há alegria,” é o da alegria que brota da convicção, e não do engajamento fácil; não é o da trend viral, nem das risadinhas e brincadeirinhas ingênuas divulgadas como sinônimo de vocação feliz e consagração descolada. Ao trocar a profundidade pela performance viral, o religioso não eleva o mundo, ele apenas se rebaixa à sua banalidade.

Isso nos leva à dimensão da ostentação, que não é, necessariamente, material, embora também o seja, especialmente por parte do clero. É uma ostentação de relevância. É o pânico de se tornar irrelevante na sociedade do espetáculo, metamorfoseado no consagrado-show.

Diante disso, o velho argumento de que “o hábito não faz o monge” ganha um novo sentido. Hoje, o hábito não faz o monge porque o próprio monge está tratando o hábito como fantasia. Quando um símbolo de eternidade é usado para mendigar a aprovação do efêmero, seja um like ou aplauso fácil, ele se torna, de fato, ridículo, caricato e bufão. É a dissonância cognitiva de ver um sinal do transcendente sendo usado para celebrar o trivial. É o sagrado pedindo licença ao banal para poder existir.

Um canto de amor

Na última quarta-feira, 9 de outubro, o Papa Leão XIV tornou pública a primeira exortação apostólica que leva sua assinatura. Na verdade, um texto escrito a quatro mãos. Foi iniciado pelo saudoso Papa Francisco que, pela doença e consequente morte, não pode levá-la até o fim. Deixou-a inconclusa e aberta para que seu sucessor, se quisesse, continuasse a reflexão. E foi o que Leão fez. Tomou o texto de seu predecessor e continuou a elaboração do canto de amor.

Sim! Um canto de amor. A Dilexit te é um canto de amor onde o grande cantor é Deus. Ela diz a cada um “Ele te amou” e quer que Seu amor presente em ti se espalhe para todos os humanos e toda a criação. Amor que, sendo divino, é acima de tudo, comiseração, solidariedade, misericórdia, compaixão. Um Deus que sente amor, parte em direção da sua criação amada para que seja redimida e viva em terna harmonia com Ele e entre si. Um Deus que convida os humanos a fazer-se próximos dos que vivem a dor da fome, da violência, do abandono, do descarte, da solidão provocada pelos pecados dos próprios humanos e pelos sistemas econômicos, políticos e culturais que esquecem de onde viemos e pretendem fazer-se divinos.

A Dilexit Te, em sua linguagem pastoral característica do Papa Francisco, é uma obra de fina Teologia em sentido estrito ao dizer-nos quem é Deus. O Deus em quem acreditamos é o Deus de Jesus Cristo que se esvaziou de Sua divindade para assumir a fragilidade humano e cuidar dos mais pobres de seu tempo. É um Deus, que Ele mesmo, faz a opção preferencial pelos pobres.

É uma obra de Eclesiologia, pois nos diz quem é a Igreja e sua razão de ser. Ela é o Povo de Deus que cuida dos mais fragilizados da humanidade. Para Leão XIV, “se não quisermos sair da corrente viva da Igreja que brota do Evangelho e fecunda cada momento histórico, não podemos esquecer os pobres”.

É uma obra de Antropologia Cristã ao nos lembrar que a nossa humanidade só é verdadeiramente humana quando nos identificamos com o agir do Filho de Deus que fez de sua vida uma um doar-se a quem dele precisava. É uma lição de Liturgia ao reafirmar, com o Vaticano II, que “no centro da liturgia cristã, não se podem separar o culto a Deus da atenção aos pobres”.

É uma aula de Eclesiologia ao tecer o fio do caminhar do Povo de Deus a partir da figura de homens e mulheres que, no decorrer dos séculos, mantiveram vivo e vibrante na comunidade cristã o cuidado pelos empobrecidos de seu tempo.

Muitas outras lições poderiam ser assinaladas nesta exortação apostólica de dois papas. E é esse aspecto que também pode ser um grande ensinamento. O caminhar de renovação eclesial do Concílio não pode ser detido pois ele é obra do Espírito Santo. Entre Francisco e Leão, não há contradição. Cada um com seu estilo pessoal forjada nas tradições de suas famílias religiosas, continua a testemunhar e convocar para a vivência do essencial do Evangelho: os pobres não podem ser esquecidos pela comunidade cristã! Se uma comunidade cristã se esquece dos seus empobrecidos e dos pobres de seu lugar, não é mais Igreja, é apenas uma sociedade, uma entidade jurídica, uma instituição que nada mais tem a ver com o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Viver para contar

Termino esta segunda semana de setembro de 2025 com duas lembranças. A primeira, de dimensão mais pessoal, é a epígrafe do livro de memórias postumamente publicado do escritor colombiano Gabriel Garcia Marquez. Diz ele na frase inicial com a qual nos dá a chave do sentido de sua obra: “A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la”.

Nesta semana, aqui na capital federal, na qual estou temporariamente residindo, vivemos não apenas o juízo de um grupo de homens (só homens, nenhuma mulher!) que, como sentenciou o STF, tentou manter-se no poder contra a vontade popular e, para isso, conspirou contra as instituições democráticas que constituem a nação brasileira.

Da minha sala de trabalho num prédio exatamente em frente à Esplanada dos Ministérios, como outros tantos brasileiros e brasileiras, enquanto dava conta da rotina de trabalho, acompanhei atentamente o julgamento. Das muitas frases ditas pela Procuradoria, pelos advogados de defesa e pelos juízes da Primeira Turma do STF, uma me impactou e me fez repensar meu percurso enquanto cidadão brasileiro. Disse a Ministra Carmem Lúcia em seu voto: “A essência deste processo é quase um encontro do Brasil com o seu passado, com o seu presente e com o seu futuro”.

E dessa primeira lembrança, nasce a segunda, a lembranda social, os muitos eventos que, como cidadão brasileiro, tive a oportunidade de viver nestas minhas quase seis décadas de existência.

Enquanto escutava o julgamento da camarilha, um longo filme passou na minha cabeça. Uma retrospectiva que inicia nos anos de 1970 com as campanhas da ARENA X MDB, passa pela década de 1980 quando, já estudante universitário, tive a felicidade de viver as Diretas Já e, em seguida, a Assembleia Constituinte e a épica eleição presidencial de 1989 que culminou com o impeachment do Collor que deu lugar aos anos neoliberais de FHC que, com seu fracasso tornaram possível a primeira eleição de Lula que as velhas forças políticas tentaram sabotar com o dito “mensalão” que não impediu os avanços econômicos e sociais do segundo mandato de Lula e o primeiro de Dilma e que só foi detido com o golpe jurídico-midiático-empresarial de 2016 e, na sua sequência, o desastre econômico, social, cultural e político dos quais a organização criminosa que nesta semana foi julgada por tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e Golpe de Estado é a memória viva julgada e condenada pelas instituições do Estado Democrático de  Direito.

Um longo filme. Cenas alegres e também tristes. Muito para recordar, muito para chorar e também, porque não, muito para rir. E, sobretudo, muito para contar porque, como diz o escritor, o que importa, não é o que a gente viveu, mas como viveu e como o recordamos para contar para aqueles que não o viveram mas virão depois de nós fazer parte desta nação que chamamos Brasil.

Coisas horríveis nos são anunciadas!

No ano de 410 d.C., o inimaginável aconteceu. Os godos, um povo vindo das estepes da Ásia Central, agora sob o comando de Alarico, venceram as muralhas de Roma e, para terror de seus habitantes, saquearam a cidade. Pela primeira vez, o fogo e o sangue que o Império havia levado até os confins do mundo conhecido, corriam e consumiam a cidade até então considerada inexpugnável.

O medo das consequências deste fato inesperado e inexplicável tomou conta não apenas dos que habitavam dentro das muralhas agora em frangalhos. Rapidamente a inquietação espalhou-se por todo a orbe romana. Como tal fato poderia ter acontecido? Qual era a causa de tamanha desgraça?

Para piorar a situação, os godos não se detiveram em Roma. Continuaram avançando pelos domínios romanos na Europa e no Norte da África desestruturando a rede de comércio e sustentação do Império que, pouco a pouco, entrou em declínio até ser finalmente derrocado em 476 d.C. pela ação de Odoacro, comandante dos hérulos que depôs Rômulo Augusto, último imperador romano.

Voltando ao ano de 410 d.C., quando Alarico entrou em Roma e a saqueou, a notícia chegou rapidamente ao norte da África onde, na cidade de Cartago, Agostinho de Hipona era bispo. Impactado pela notícia, o filho de Mônica buscou compreender o que Deus queria dizer com aquela desgraça. Afinal, tanto para pagãos como para cristãos, Roma sempre fora considerada uma cidade sagrada, com especial proteção divina. Daí a pergunta que não queria calar: por que Deus permitiu que tal desgraça acontecesse?

Em um domingo, diante da comunidade reunida, Agostinho tenta dar uma resposta que ficou consignada no sermão intitulado “De urbis excídio”, ou seja, “Sobre a destruição da cidade”.

O sermão começa afirmando a dimensão da tragédia: “Coisas horríveis nos são anunciadas: devastação, incêndios, rapinas, mortes e tormentos de homens. É verdade. Ouvimos muitos relatos, gememos e muito choramos por tudo isso, não podemos consolar-nos ante tantas desgraças que se abateram sobre a cidade”.

Como pastor e teólogo, Agostinho dá uma resposta a partir da fé que ele professa e cultiva entre as ovelhas que lhe foram confiadas. Para ele, a resposta é clara: Roma foi destruída porque seus chefes afastaram-se da vontade divina e, deixando de cuidar da vida do povo romano, ocupavam-se apenas de seus interesses pessoais. O mais triste, para Agostinho, é que a maldade de alguns poucos acabou tendo consequências para toda a população e a dor e o sofrimento tenha recaído sobretudo sobre os mais fracos.

Na tentativa de dar uma resposta consistente para a questão que continuava a atordoa-lo a ele e a toda a comunidade, nos anos posteriores, Agostinho concebeu a monumental obra “A Cidade de Deus” que pode ser considerada o primeiro grande escrito cristão de uma Teologia do Político e que continua até hoje a desafiar os cristãos para compreender os desígnios de Deus em meio aos acontecimentos do mundo.

Quinze séculos depois, um filho de Agostinho, o Papa Leão XIV, tem repetido inúmeros vezes palavras muito semelhantes às de seu pai espiritual: “Coisas horríveis nos são anunciadas…” Não são agora os godos comandados por Alarico que provocam “devastação, incêndios, rapinas, mortes e tormentos de homens”. São os “mercadores da morte” que estão no coração dos impérios que dominam o mundo e disputam a hegemonia entre si. A guerra nasce do coração dos Impérios e se espalha pelo mundo levando morte e destruição para os mais fracos. Aonde isso vai nos levar?

Papa Leão afirma aquilo que todas as pessoas de bom senso dizem: se continuarmos nesse caminho, não apenas os impérios cairão. No peso de seu tombo, levarão consigo toda a humanidade e – hipótese não absurda – toda a criação.

Que podemos fazer? Como cidadãos, fazer saber aos governantes que queremos a paz. Não podemos ficar calados vendo, a cada dia, “coisas horríveis nos sendo anunciadas”, e ficar calados. É preciso manifestar-se, individual e coletivamente. Repercutir as palavras do Papa Leão: “A guerra não resolve os problemas, mas os amplifica e produz feridas profundas na história dos povos, que levam gerações para cicatrizar. Nenhuma vitória armada poderá compensar a dor das mães, o medo das crianças, o futuro roubado.”

Pessoalmente, como pessoas que tem fé no Deus da vida, o que podemos fazer é desarmar nossas mentes, nossos corações e livrar nossas mãos de toda tentação e ação belicosa. E, ativamente, sermos em cada momento e cada lugar, presença e sinal de paz para as pessoas que nos cercam. Parece pouco, mas pode ser o recomeço de uma cultura de paz depois de tempos em que se cultivou o ódio e a violência. Comecemos hoje, pois amanhã pode ser tarde!

Pouco menor que os anjos…

Foto por Ellie Burgin em Pexels.com

Dentre os 150 salmos da Bíblia, um dos que mais me fascinam é o Salmo 8. O poema inicia e termina com uma grande louvação a Deus. É o tema central dessa fascinante oração. No seu núcleo, o louvor a Deus é feito utilizando o contraste com o ser humano. Mas diferentemente do que se poderia esperar, a grandeza de Deus não é descrita através da pequenez humana e das outras criaturas. Pelo contrário. É na grandeza das criaturas celestes e terrestres e da última obra de Sua criação que a magnificência de Deus se faz conhecer.

Escrito em contexto pastoril, o poema canta a capacidade do ser humano em gerir a vida dos outros animais que com ele compartilham o espaço vital: as ovelhas e bois, os animais do campo, as aves dos céus, os peixes do mar e tudo o que passa pelas veredas dos mares.

Ao recitar os versos desta oração, fico a imaginar como seria este salmo se fosse escrito nos dias atuais. Certamente as capacidades tecnológicas desenvolvidas pela humanidade nos últimos séculos e, de modo acelerado, nos últimos decênios, seriam incluídos entre os motivos para louvar a Deus por ter feito o ser humano apenas um pouco menor que os anjos. A produção agrícola, os meios de transporte e comunicação, as cidades, a vida em sociedade. Tantas coisas maravilhosas que nos dão motivo para cantar a glória de Deus através das capacidades quase angélicas dos humanos.

Em meio às divagações, no entanto, sou lembrado de que um dos anjos optou por um caminho diferente do proposto por seu criador. Lúcifer, o Brilho da Manhã, preferiu voltar sua face para o outro lado da fonte de toda luz e se transformou no Ser das Trevas. E aí a pergunta terrível que, ao olhar a realidade do mundo de hoje, sou tentado a fazer: será que o ser humano, ao ser criado, não estava também um pouco abaixo deste anjo que se rebelou contra Deus?

Se fomos feitos um pouco menores que os anjos, por que num mundo em que são produzidos mais alimentos do que os necessários para alimentar os oito bilhões de pessoas que somos, ainda há 800 milhões de pessoas passando fome? Por quê num mundo em que já se decifrou o DNA e se produzem medicamentos para emagrecer os que ficam obesos por consumir mais do que precisam, ainda morrem crianças por diarreia, mulheres por infecções perinatais, adultos por tuberculose, lepra, malária, dengue, febre amarela, câncer e AIDS? Por quê os oito homens mais ricos do mundo detêm mais riqueza que os 50% mais pobres? Por quê, com toda a informação científica disponível, ainda nos negamos a reconhecer a emergência climática que a cada dia bate à nossa porta? Por quê num mundo de comunicação instantânea, os poderosos deste mundo assistem impassíveis ao genocídio de todo um povo espoliado de seu território, negado em sua cultura e em sua religião? Por quê em países até pouco democráticos renascem e vicejam agrupações políticas xenófobas, racistas e fascistas?

“Pouco menor que os anjos o fizestes…” Assim diz o salmo. No plural: anjos. Talvez todos nós trazemos dentro de nós um pouco dos anjos bons e um pouco de Lúcifer. Ele era um dos anjos…Voltando o rosto para o outro lado, muitas vezes, como fez Caim, pretendemos escondermo-nos do rosto de Deus presente no rosto de cada irmão e irmã que tem seu sangue derramado.

Um salmo que faz pensar: “que é o ser humano mortal”?