Fratelli Tutti: a paz e a superação dos conflitos.

Escrevo este texto sobre o Capítulo VII da Fratelli Tutti no dia 20 de novembro. Uma data importante na história do Brasil. Talvez a data mais importante. Ela celebra o fato mais significativo da nação brasileira. Hoje é dia de Dandara e Zumbi de Palmares. Um homem e um mulher que, nas suas individualidades, representam os milhões de africanos – estima-se em cinco milhões – que foram arrancados de suas aldeias e cidades e trazidos à força para o trabalho escravo no Brasil. Deles e de seus descendentes que, durante três séculos, de geração em geração, foram submetidos à mais degradante condição humana que é a privação da liberdade e a serem considerados não como pessoas, mas como instrumentos de trabalho.

Os três séculos de escravidão marcaram de forma estrutural a sociedade brasileira. Somos uma sociedade racista. Racismo que se expressa na cultura, na economia, na política, na educação, na literatura, nos meios de comunicação, nas religiões, no esporte, na vida familiar… Não há um recôndito das relações sociais brasileiras, das mais íntimas às mais públicas, que não esteja marcada pela violência racial.

Este ano o dia 20 de novembro, para os que moramos em Porto Alegre, é ainda mais triste. Na noite de ontem, em um hipermercado da Zona Norte da cidade, um homem negro de 40 anos, foi espancado até a morte por um segurança e um policial militar. O assassinato foi filmado pelas câmeras do estabelecimento. As imagens circularam nas redes sociais causando indignação. E gerou uma pergunta: quantos homens e mulheres negras, a cada dia, a cada hora, em todo o Brasil, sofrem violência e são mortos, pelo simples fato de serem negros e negras?

Há dados disponíveis. Subestimados, é claro. Escondidos, disfarçados, negados. A polícia, a justiça e a estatística também são racistas.

O que fazer diante destes fatos e outros semelhantes que se repetem a cada dia? A Fratelli Tutti nos dá algumas dicas. Primeiro, é preciso fazer memória das violências e injustiças cometidas. Elas não podem ser esquecidas. Precisam ser lembradas e celebradas. O esquecimento só perpetua a injustiça. E com isso está indicado o segundo passo: é preciso fazer justiça para com as vítimas. Um passo adiante para novas relações sociais só será possível quando o sofrimento das vítimas for reparado. A sociedade como um todo deve assumir o compromisso de sanar as feridas do passado criando as condições para que suas consequências não afetem o presente e nem comprometam o futuro.

Para isso, segundo o Papa Francisco, é necessário uma arquitetura da paz que consiste em criar mecanismos econômicos, políticos, educacionais e culturais que compensem aqueles e aquelas que, hoje, sofrem a violência herdada do passado. Projetos estruturais que encontram seu complemento no artesanato da paz que consiste em que cada pessoa, nas suas relações cotidianas, se comprometa a evitar e impedir a reprodução dos mecanismos discriminatórios que sutilmente se mantém no consciente ou no inconsciente das pessoas.

Depois destes passos, será possível a reconciliação, que não consiste num retorno à situação anterior à violência, mas em uma nova convivência capaz de reconhecer, integrar e superar os conflitos de modo a não repetir os erros do passado. Teremos então, a possibilidade de uma fraternidade universal e da amizade social com que tanto sonhamos.

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Fratelli Tutti – Em Defesa da Política

Há um fenômeno que, a cada período eleitoral, volta e ganha força em nosso país. Falo dos políticos que dizem odiar a política. São detentores de cargos públicos ou candidatos, de situação ou de oposição, que dizem que política é tudo sujeira, que os políticos não prestam para nada, que são todos corruptos, ladrões, falsos…e, no entanto, estas mesmas pessoas lutam com unhas e dentes para manter ou conquistar cargos ou para elegerem seus amigos e aliados!

Estranho fenômeno. Mas fenômeno que é real. Todos podemos constatá-lo, desde o nível municipal até o federal. Onde ele nasce e como ele se alimenta? Em primeiro lugar, há de se dizer que não é um fenômeno moral. Se fosse um julgamento moral sincero, estas pessoas não seriam candidatas e, as que não o são, deixariam de participar dos processos políticos. De fato, o desprezo e a satanização da política fazem parte de um projeto político que consiste em afastar os cidadãos da sua responsabilidade nas decisões que dizem respeito a toda a comunidade. Para os mal intencionados, quanto menos as pessoas participam da política, melhor. Esse é o sonho de todos os ditadores e de todos os corruptos.

Se vamos ao sentido último da política, constatamos que ela é a arte de organizar a vida em sociedade. Ninguém nasce, nem vive e nem morre sozinho. Todo o percurso de nossa existência é feito em sociedade. Dependemos dos outros para viver e com nosso trabalho contribuímos para que outras pessoas vivam. A regulação dessa troca entre os seres humanos e os vários grupos que compõem a sociedade e a humanidade se chama política. Política local, regional, estadual, nacional, internacional. Toda a convivência humana, próxima ou distante, é uma convivência política.

Conforme a análise do Papa Francisco, no capítulo V da Fratelli Tutti, há dois modos de destruir a convivência social e geral o caos e a opressão. O primeiro, é o populismo demagógico. Fenômeno bastante conhecido entre nós: falsos líderes que utilizam as expectativas populares para manipular o povo. Estabelecendo uma relação direta entre o líder, o condutor, o coronel, o “mito” e as massas necessitadas, destroem as instâncias institucionais para impossibilitar qualquer forma de controle e limitação a seus projetos e seus poderes.

O outro modo de destruir a convivência política, é o projeto liberal – também bastante conhecido entre nós – que alimenta o “dogma de fé” de que não há necessidade de organização social ou do Estado. Na utopia liberal, cada um busca por sua própria conta e risco a solução para seus problemas, contra tudo e contra todos. Na verdade, nesse modelo, o que vale é a lei do mais forte: “quem pode mais, chora menos”. E os fracos sempre perdem…

Para construir a fraternidade universal e a amizade social, não há caminho fora da política. Em outras palavras, é no esforço perseverante em construir e reforçar as instituições sociais – associações, movimentos populares, sindicatos, partidos políticos – e, através delas, cuidar dos mais fracos e velar pelo bem comum, que se dão os passos para uma convivência humana digna para todos.

Nesse sentido, a política é a prática coletiva do amor cristão. Ajudando uma pessoa necessitada que está ao nosso lado, estamos praticando a caridade que ajuda essa pessoa concreta a sair de sua situação de dor, sofrimento ou miséria. Isso é importante e necessário. Envolvendo-nos na política, temos a possibilidade de ajudar não apenas uma pessoa, mas toda a coletividade a fim de que outras pessoas não venham a cair nessa situação ou mais rapidamente posam dela sair. É urgente que os cristãos passemos da caridade individual à caridade política.

Essa é a via para a remoção dos muitos obstáculos que impedem a fraternidade universal e a amizade social. Não há outra. Na convivência entre os humanos, sem política, não há salvação!

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Fratelli Tutti – De Babel a Pentecostes.

A globalização não é um fenômeno novo na história da humanidade. Na verdade, ela faz, desde os primórdios, parte do jeito humano de ser. Quando, há mais ou menos 130 mil anos, o homo sapiens saiu das savanas africanas para habitar a Ásia e, depois, a Europa, ali iniciou o processo de globalização. Nos contínuos deslocamentos em busca de sobrevivência, os vários grupos humanos que se formaram passaram a estabelecer intercâmbios sociais, econômicos, políticos, culturais, religiosos…

Na medida em que novos recursos tecnológicos foram desenvolvidos, as trocas se tornaram mais volumosas, intensas e rápidas. Imaginemos o que significou, há 5.500 anos, a invenção da roda para as viagens, o comércio e as guerras! Nos últimos 500 anos, trens, automóveis e aviões deixaram o longínquo cada vez mais próximo. Distâncias que foram reduzidas – no tempo e no espaço – pela imprensa, o rádio, a televisão e, hoje, a internet que possibilita conexões e intercâmbios imediatos com qualquer lugar do mundo.

O mundo está cada vez menor. E, paradoxalmente, temos a impressão que estamos cada vez mais longe uns dos outros. Distância de pessoas e distância de povos. Por que isso? Por uma razão simples. Mudam os tempos, mudam os suportes tecnológicos das relações, mas os encontros ou desencontros seguem basicamente dois padrões: Babel e Pentecostes.

Babel é a globalização como projeto de dominação. É o encontro que leva à imposição de um povo, de uma cultura, de uma economia, de uma religião, de um poder sobre o outro. Enquanto um domina, o outro é anulado, calado, silenciado. A narrativa bíblica diz que a pretensão era construir uma torre, um equipamento militar, o mais poderoso da terra. O projeto foi impedido pela pluralidade das línguas, pela diversidade, que explodiu a uniformidade e criou a diversidade de povos, línguas e culturas.

O outro padrão é o Pentecostes. Sob a ação do Espírito Santo, a comunidade dos discípulos e discípulas de Jesus passa a falar as mais diversas línguas e, mesmo assim, todos se entendem. É o encontro daquilo que havia sido disperso em Babel, não mais sob o regime da uniformidade, mas sob o modo da diversidade comunicante. Nesse regime, cada um mantém a sua própria identidade e a coloca em diálogo com a identidade do outro para que ambos se enriqueçam.

O paradigma da diversidade comunicante é o proposto pelo Papa Francisco como caminho para o encontro de povos e culturas no mundo globalizado em que vivemos. Fora dele, há duas opções. A primeira é o fechamento dentro da própria cultura e do próprio país. Quem opta por ele, morre por asfixia cultural e perde a oportunidade de aproveitar da riqueza do diferente. A segunda opção, tão daninha como a primeira, é a de impor o próprio modo de ser sobre os outros. É a cultura do imperialismo, da dominação, da aniquilação do diferente.

A diversidade comunicante, a opção proposta pela Fratelli Tutti, permite dar do que é próprio para que o outro cresça e receber o que é do outro para com ele também aperfeiçoar. Em todos os âmbitos do humano: econômico, social, político, cultural, religioso e outros mais. É ela que garante a sobrevivência das identidades, a própria e a dos outros. O isolamento e a homogeneização levam à anulação e à morte. Podemos fazer isso por interesse de sobrevivência. Já é um passo… Como cristãos, temos um motivo a mais: a diversidade é graça, é dom de Deus, e tudo aquilo que dele recebemos, não é para que fique apenas conosco. É para ser partilhado com todos e todas.

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FRATELLI TUTTI – UMA POLÍTICA PARA ALÉM DA MODERNIDADE

SS. Papa Francesco – Udienza Movimenti Popolari 05-11-2016 @Servizio Fotografico – L’Osservatore Romano

A inclusão ou exclusão da pessoa que sofre na margem da estrada define todos os projetos económicos, políticos, sociais e religiosos. (Papa Francisco, FT 69).

De forma esquemática, podemos dizer que a história da relação do cristianismo com a política tem dois grandes marcos. O primeiro, a “virada constantiniana” do séc. IV, quando o Imperador Constantino se aproximou do cristianismo e as lideranças cristãs aceitaram esta oportunidade como um modo de viver pacificamente e expandir a fé cristã por todo o mundo conhecido de então.

Deste ponto inicial e numa série de movimentos muito variados configurou-se o que os historiadores chamam de cristandade: a união entre o poder político e o poder religioso. Foi um modus vivendi que se prolongou até o segundo grande evento, tão significativo quanto o primeiro: a Revolução Francesa e, nela, a separação entre Igreja e Estado. Separação traumática, consequência da ruptura de um laço profundo e sólido que se havia constituído ao longo dos séculos.

No período posterior à Revolução Francesa, para alguns, ser católico era ser contra a democracia, ser contra a soberania popular e negar os direitos humanos. Um modo de pensar que foi a doutrina oficial da Igreja durante o séc. XIX e só começou a mudar, lentamente, com o avanço da Doutrina Social da Igreja. O Vaticano II veio sepultar o sonho da volta das monarquias católicas e da união entre o trono e o altar. Sempre há alguns, claro, que sonham com esse passado. São os bufões da história cujas posturas caricaturais nem risos mais fazem despertar.

O fato é que o ideal iluminista da “liberdade, igualdade e fraternidade” se impôs como parâmetro político. Da diferente articulação dos três elementos surgiram variados modelos políticos. Por um lado, tivemos as sociedades que privilegiaram a liberdade e deixaram em segundo plano a igualdade. O indivíduo como sujeito político e a livre iniciativa econômica se tornaram os grandes valores neste modelo. Do outro lado, as sociedades que colocaram a igualdade no centro e deixaram a liberdade em segundo plano. A coletividade como sujeito político e o planejamento estatal tiveram mais importância neste modelo.

Os dois modelos tiveram seus êxitos e seus limites. Processos criativos houve em ambos os lados. Assim como em ambos os lados houve exacerbações que culminaram em individualismos excludentes ou regimes totalitários.

Para dar um passo adiante e sanar a crise que acossa a humanidade, o Papa Francisco propõe que resgatemos o terceiro elemento: a fraternidade. Ela ficou na sombra tanto no modelo liberal como nos projetos socialistas reais. Mas o que seria um projeto político baseado na fraternidade? Simples: pensar a vida em sociedade não apenas como um pacto entre sócios. O pacto é importante e não pode ser negado. É a partir dele que se formam as democracias. Mas é preciso ir além. É preciso incorporar na lógica política aqueles e aquelas que sequer tem condições para participar de um pacto social.

É preciso incorporar no fazer político a categoria de “próximo”, ou seja, incluir como sujeitos os grupos sociais e as nações que hoje jazem à beira do caminho da humanidade. É preciso acolher e colocar no centro da ação política os clamores que hoje não são ouvidos. No interno dos países, estados e cidades, escutar os fracos da sociedade: minorias sociais, étnicas, sexuais, de gênero, idade, condição sanitária… Na política internacional, as nações que, de tão empobrecidas, sequer contam no jogo político e econômico mundial. E o grande próximo e esquecido de quase todos os projetos políticos: a criação, tanto em seus seres particulares como nos grandes biomas.

Nas democracias, o poder emana das maiorias. Essa é a virtude da política moderna. Mas é também o seu defeito. Para superá-lo, não se anda para trás. É preciso radicalizar a democracia incluindo nela as vozes das minorias. Só assim liberdade e igualdade chegarão ao justo equilíbrio, pois cada um será considerado na igual dignidade a partir daquilo que o faz diferente de todos os outros. Teremos então uma sociedade fraterna para todos e todas.

Em seus encontros com os Movimentos Populares e na Laudato Sì, o Papa Francisco deu o exemplo deste novo jeito de fazer política. É nessa direção que os cristãos são convidados a impulsionar o jogo político. Não para trás, para a Idade Média. Caminhamos para o futuro, para além da modernidade.

Fratelli Tutti – Extra Misericordiam Nulla Salus

Fratelli Tutti se situa explicitamente na corrente do Ensino Social da Igreja. Ela se propõe a orientar o viver e o agir dos cristãos no mundo de hoje. E o faz a partir da fé, de uma leitura teológica da realidade e da ação necessária para transformá-la. Entre os muitos elementos teológicos presentes no texto, dois se destacam. Um de fundo e outro operacional. O primeiro responde à questão “por que ser irmãos e amigos”. A resposta é simples: porque somos filhos do mesmo Deus que é Pai de toda a humanidade. Desde a referência inicial a Francisco de Assis até a Oração Ecumênica final onde invoca “Deus nosso Trindade de Amor”, este motivo está explicitamente presente.

Mas o mais provocador e longamente tratado é o “como ser irmão e amigo”. É o teológico operacional da Encíclica e ocupa todo o segundo capítulo. Trata-se do Princípio Misericórdia. Esta é uma expressão elaborada pelo teólogo jesuíta Jon Sobrino, que é, inclusive, título de um livro seu. Para quem segue os passos, as falas e os textos do Papa, a argumentação não é desconhecida.

Em seu terceiro ano de pontificado, em 2015, como todos lembramos, o Papa Francisco proclamou um Ano Santo Extraordinário. Na Bula “O Rosto da Misericórdia”, o texto que faz a conexão com o Concílio Vaticano II é o do samaritano. João XXIII, ao convocar o Concílio, afirmou que a misericórdia é o modo como a Igreja deve situar-se no mundo moderno. Essa mesma parábola, tão rica em imagens e ensinamentos, é retomada como paradigma para a construção de uma nova humanidade e uma nova sociedade.

O marco da parábola é um diálogo entre Jesus e um perito em leis. Este pergunta a Jesus o que deve fazer para alcançar a salvação. A parábola com a qual Jesus responde todos a conhecemos… e por isso vamos diretamente ao fim quando Jesus, diante do desconcertado legista, cita uma frase do Livro dos Provérbios: “Fazer misericórdia e fazer justiça agrada mais a Deus do que oferecer muitos sacrifícios”. Todos lembramos que, na parábola, um sacerdote e um levita haviam passado pelo caído sem fazer nada porque tinham que ir ao Templo oferecer sacrifícios. Com uma simples narrativa, Jesus coloca em questão todo o sistema religioso da época, tanto os legalistas como os ritualistas. E, para espanto dos moralistas, um samaritano, estrangeiro, herege e impuro, é apresentado como modelo de salvação.

Para quem, como o Papa Francisco, se coloca na tradição de Francisco de Assis, a parábola é ainda mais instigante. Ela remete à conversão do jovem Bernardone. No seu Testamento, ao descrever a conversão provocada pelo encontro com os leprosos, São Francisco utiliza a expressão do Livro dos Provérbios e da parábola do samaritano misericordioso: “…como estava em pecados, parecia-me por demais amargo ver os leprosos. E o próprio Senhor me levou para o meio deles, e fiz misericórdia com eles”.

Fazer misericórdia! Este é o imperativo para a construção de uma nova humanidade e de uma nova sociedade. Não basta “ter” misericórdia. É preciso “fazer” misericórdia. Ter é para si. Fazer, é para o outro, para aquele que foi assaltado, espancado e abandonado na beira do caminho. Para Francisco de Assis, o apelo por misericórdia vem dos leprosos jogados para fora das cidades medievais. Vai ao encontro, desce do cavalo, beija, cuida, recoloca em humanidade. Jon Sobrino, nosso teólogo salvadorenho, no subtítulo de seu livro, chama os cristãos a “descer da cruz os povos crucificados”. Com efeito, a misericórdia não é uma atitude individual. Ela é comunitária, coletiva, política. É o princípio que rege a salvação de cada pessoa, sim, mas também da Igreja e toda a sociedade.

Fora da misericórdia, não há salvação. É o apelo da fé que precisa chegar à razão e ser transformado em ação.

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Num mundo em conflito, Todos Irmãos!

Papa Francisco e o Grande Imã Ahmed At-Tayyeb,

De tanto surpreender-nos, o Papa Francisco já não surpreende ninguém! A  novidade que, desde o início de seu pontificado, emerge a cada pronunciamento e texto publicado, fez com que nos acostumássemos com o novo que se renova e nos surpreende a cada vez.

Não foi diferente com sua última encíclica, a Fratelli Tutti. Ele já vinha cozinhando o assunto há tempo. A primeira parte, a que trata das relações da humanidade com a Casa Comum, resultou na Encíclica Laudato Sì. Faltava a segunda parte sobre as relações entre os humanos, no nível internacional e dentro de cada nação. Agora aí está. É a segunda encíclica social de Francisco. Se a Laudato Sì inovou ao tratar pela primeira vez num documento papal da questão ecológica, a Fratelli Tutti retoma a intuição original do Ensino Social da Igreja ao abordar os dilemas econômicos e sociais que afligem a sociedade.

Pela forma e pelo conteúdo, ela é herdeira de um longo processo que começou em 1891, com a primeira encíclica social, a Rerum Novarum do Papa Leão XIII. No final do séc. XIX, a Europa vivia o caos do liberalismo econômico que havia criado riquezas como nunca antes na história da humanidade ao custo de milhões de homens, mulheres e crianças forçados a viver na mais absoluta miséria ou obrigados a migrar para outros continentes em busca de melhores condições de vida.

Em reação ao liberalismo, surgira o movimento operário e suas expressões políticas socialistas e comunistas que se elevavam no horizonte como um fantasma aterrador. O caos parecia estar à porta. E, de fato, estava. A voz firme e serena do Papa Leão XIII não foi ouvida e a Europa mergulhou na Primeira Guerra Mundial.

Os acordos de 1918 não significaram o fim dos problemas. Como não se foi à raiz econômica e social, os conflitos do capitalismo encontraram expressão nas ideologias totalitárias. Outra vez a voz da Igreja se se fez ouvir. Em 1931, o Papa Pio XI, na Encíclica Non Abbiamo Bisogno (Não Temos Necessidade) condenou veementemente o fascismo. Seis anos depois, em 1937, o mesmo Papa, na Encíclica Mit Brennender Sorge (Com Grande Preocupação), condenou o nazismo. No mesmo ano, a Encíclica Divini Redemptoris (O Divino Redentor), condenou o comunismo. O alerta não foi ouvido e o mundo mergulhou na Segunda Guerra Mundial com suas catastróficas consequências.

E, mais uma vez, como o problema de fundo não foi resolvido, o fim da guerra não significou a instauração da paz. O conflito continuou na Guerra Fria que dividiu a humanidade em duas partes em constante tensão. Em 1963, o Papa João XXIII, na Encíclica Pacem in Terris (Paz na Terra), lembrava ao mundo que a paz de todos os povos só seria alcançada na base da verdade, justiça, caridade e liberdade.

Caminho difícil que os poderosos renegaram. A Guerra Fria se transmutou em guerra econômica global e a humanidade, ao invés de caminhar para a integração e harmonia, é arrastada para a beligerância e caos de um neoliberalismo em que os seres humanos são, ao mesmo tempo e apenas, consumidores e mercadoria.

Na Fratelli Tutti, o Papa Francisco, retomando a intuição de Francisco de Assis, convida a redescobrir que cada ser humano, distante ou próximo, é nosso irmão e com ele somos convidados a conviver na fraternidade e na amizade. Teremos disponibilidade para ouvir a voz que clama no deserto dos poderes deste mundo? A esperança me diz que sim. o resalismo me faz temer…

A cada um de nós o desafio de dar resposta e trabalhar para que ela se torne real no nosso dia a dia e no mundo todo.

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Aparecida!

Basta falar o nome e todos já conhecem a história do Santuário mais famoso do Brasil. O Santuário de Aparecida, na beira do Rio Paraíba, no interior de São Paulo. Foi lá que, no ano de 1717, três pescadores – Domingos, Filipe e João – ao buscar peixes para o almoço de uma comitiva que baixava de Minas para o litoral, antes que as redes se enchessem, encontraram, primeiro o corpo, depois, a cabeça de uma santa.

Juntadas as duas peças, era a imagem de Nossa Senhora da Conceição. Mas ela tinha algo de especial. Era uma imagem ao mesmo tempo diferente e igual. Era igual porque nela se reconhecia claramente a Imaculada Conceição. Mas era diferente, porque seu rosto era semelhante ao dos pescadores que a encontraram nas águas do Paraíba. Tinha o rosto deles, de suas esposas, de suas filhas, de suas mães. Um rosto negro, a pele negra, as mãos negras. E os anjos que descansavam a seus pés também eram negros. Anjos negros, bem diferentes dos que, com suas peles alvas e rostos rosados, enfeitavam as igrejas dos brancos da cidade de Guaratinguetá e das barrocas igrejas das Minas Gerais de onde vinham os ilustres viajantes.

Quem fez aquela imagem? E por que a fez daquele jeito? Ninguém sabia. Até hoje ninguém sabe. Não há outras iguais em outros lugares. É única. Tão diferente das outras imagens da Conceição. E há tantas e tão variadas. Mas só a encontrada no Rio Paraíba é negra. Só ela tem o rosto, a pele, as mãos, os anjos reproduzindo a carne dos homens e das mulheres que, sob o jugo da escravidão, foram trazidos da África para padecer nas plantações de cana e nos engenhos de açúcar, nas lavouras de cacau e café, nas minas, campos e cidades.

Talvez seu escultor tenha sido um dos tantos milhões de africanos que, no escondido da noite, no fundo da senzala, longe dos olhos do seu senhor, tomou um pedaço de madeira e, com a força e a suavidade de quem chora a dor da escravidão e sonha com um futuro de liberdade, cinzelou pensando no rosto e no corpo de sua esposa, de sua mãe, de suas filhas, que na África ficaram.

Ou talvez seja obra de uma mulher negra que, privada de seus filhos e obrigada a cuidar de rebentos que não eram seus, colocou na imagem a força e o vigor da Mãe África, tão distante na geografia e tão presente no seu rosto, na sua pele, em suas mãos e nos seus pés.

São hipóteses. Apenas hipóteses. Não sabemos quem esculpiu aquela Imaculada Conceição. Assim como não sabemos como ela foi parar no fundo do Rio Paraíba. E por que lá foi jogada depois de ser quebrada em dois pedaços. Quem a quebrou? Quem no rio a jogou? Não sabemos. Ninguém nunca perguntou. Ninguém investigou. É possível que nunca saibamos. Só podemos imaginar…

Talvez tenha sido um daqueles senhores, incomodado com o escravizado que perdia seu tempo a esculpir uma imagem de uma santa. Ou talvez uma senhora perturbada porque a santa era negra, de pele negra, de mãos negras, acompanhada por anjos negros. Não sabemos. É apenas uma hipótese. Mas uma hipótese a se cogitar. Uma hipótese que nos leva a perguntar: porque a Mãe Negra Aparecida se deixou encontrar por Domingos, Filipe e João, nas turvas águas do Paraíba? Não sabemos. Mas podemos a ela perguntar. Ela está no Santuário. Ela está em todo lugar. Basta abrir o coração. Basta rezar.

Vestido para irmanar.

Existe roupa para tudo. Roupa para casar, para trabalhar, para jogar futebol, para dormir, para descansar… Sim! Ninguém descansa de terno e gravata ou de macacão. Para relaxar, bermuda, camiseta e chinelo é o ideal. Ou alguém já foi para a praia de roupa camuflada e bota de borracha? Só quem trabalha na limpeza da orla faz isso. Mas aí já não está descansando. Está trabalhando e com a roupa adequada para a tarefa que está desempenhando.

E para irmanar, para ser irmão, existe roupa adequada? Pergunta estranha. Mas ela tem sentido. Francisco de Assis, o irmão universal, nos mostra que sim. E num episódio muito conhecido de sua vida. A cena foi imortalizada no cinema pela obra “Irmão Sol, Irmã Lua”, de Franco Zefirelli. Francisco, diante do bispo de Assis, do pai e da mãe e de toda a cidade, despe-se das roupas e, completamente nu, proclama que, daquele dia em diante, não mais chamará de pai a Pedro Bernardone, mas seu único pai, será o Pai que está nos céus.

O detalhe, registrado pelos biógrafos do santo e que aparece no filme de Zefirelli, é que as roupas que Francisco despiu, eram coloridas. Tomás de Celano, o biógrafo oficial, é mais preciso no detalhe simbólico da cor. Segundo ele, no tempo em que morava e trabalhava com o pai, levando vida de burguês, Francisco usava roupas de cor escarlate.

Na sociedade medieval, a cor da roupa identificava o grupo social ao qual a pessoa pertencia. O vermelho ou escarlate, era a cor reservada à nobreza. Apenas os príncipes, entre eles os bispos, tinham condição e permissão para vestir-se com tal cor. Francisco era de família burguesa. E, para estes, a cor apropriada era o verde. Apenas na medida em que seu poder econômico e social avançava, aos burgueses era tolerado o uso das cores antes reservadas à nobreza. Esse era o caso de Francisco. Para os pobres, não havia coloração de roupa. As roupas que usavam tinham a cor da fibra natural, geralmente o terroso ou bege.

São Boaventura, na Legenda Maior, descreve Francisco abandonando as vestes finas e sendo revestido por um manto pobre que pertencia a um dos camponeses a serviço do bispo. Deixando o lugar de nobre, Francisco passa a viver como um camponês pobre. É a partir dessa nova posição social, mostrada simbolicamente pelas vestes que passa a usar, que Francisco encontra a possibilidade de tornar-se irmão de todos.

Para irmanar, para sentir-se e ser irmão de cada um e cada uma, é preciso colocar-se dentro do sapato do outro, dentro da roupa do outro, no lugar social e existencial em que ele habita. E perguntar-se: e se eu estivesse no seu lugar, como eu veria o mundo? E assim, com os novos olhos capazes de ver novas roupas e perceber outras cores, poderemos viver a fraternidade universal e rezar “Pai nosso que está nos céus”.

Pasolini e a Biblia

Enrique Irazoqui, o ator que viveu Cristo, e Pier Paolo Pasolini nos bastidores de O evangelho segundo Mateus | Imagem: reprodução http://cineugenio.blogspot.com

No dia 16 de setembro passado, na Itália, faleceu o ator Enrique Irazoqui. Sua morte pouco foi noticiada. Poucas pessoas sabem quem foi Enrique Irazoqui. Não é de estranhar. Ele atuou em poucos filmes. E o único que se tornou conhecido foi seu primeiro, no qual representou o principal personagem. E isso faz tempo. Muito tempo. Foi na década de 1960.

Enrique Irazoqui era estudante em Barcelona e, durante a ditadura de Franco, foi à Itália buscar apoio para o movimento estudantil espanhol. Em Roma, encontrou-se com o cineasta Pier Paolo Pasolini. Ateu, anticlerical, comunista e homossexual, Pasolini estava trabalhando num projeto controverso: produzir um filme sobre a vida de Jesus tendo como roteiro o Evangelho de Mateus.

Pelo seu perfil pessoal e pela sua proposta, ninguém se arriscava a financiar o projeto. Sem dinheiro, Pasolini buscava atores amadores que custassem pouco e dessem um tom realista à produção. O jovem Irazoqui lhe pareceu o ideal para representar a Jesus.

Diante da insistência de Pasolini, o estudante aceitou a proposta. Enfrentando muitas dificuldades e a oposição da Igreja, o projeto foi adiante. Na sua estreia no Festival de Veneza, em 1964, o filme recebeu o Prêmio Especial do Júri. Sucesso em todo o mundo, em 2004, L’Osservatore Romano, o jornal do Vaticano, considerou a produção de Pasolini o melhor filme sobre Jesus Cristo de todos os tempos.

O que havia de diferente neste filme que o fez tão especial? Dentre as muitas qualidade da obra, uma foi fundamental. Ateu, anticlerical, comunista e homossexual, Pasolini leu o texto do Evangelho de Mateus e o transportou, literalmente, para a tela, despido de qualquer preconceito religioso. O Jesus de Pasolini interpretado por Enrique Irazoqui é tal e qual o apresentado pelo Evangelho de Mateus: um Jesus humano, simplesmente humano, profundamente humano, tão humano que criava o espaço pleno para que Deus nele se manifestasse totalmente.

Além de uma excepcional obra de arte, o Jesus de Pasolini interpretado por Irazoqui é uma magistral lição de como ler a Bíblia. Para entender os Evangelhos e todo o texto sagrado, o caminho adequado é deixar que o texto nos leia no seu realismo humano. E isso tem sua razão. A Bíblia é a Palavra de Deus dita nas mais diversas situações humanas. Situações de alegria, de esperança, de desespero, de dor, de desolação e desilusão. É nelas, no mais humano do humano, que a presença de Deus faz nascer a fé e, através da caridade, alimenta a esperança.

Como bem lembrou o Concílio Vaticano II e insistentemente reiterou o Papa Bento XVI na Exortação Apostólica Verbum Domini, a palavra de Deus por excelência não é o texto que lemos. A mais concreta e verdadeira palavra divina está na humanidade de Jesus que os textos escritos e transmitidos nos permitem reconhecer e constrói o caminho que nos conduz a Deus. Se não reconhecemos na humanidade de Jesus e na humanidade dos humanos a presença viva de Deus, a Bíblia não passa de um simples texto, letra morta, que em nada edifica. Assim como Pasolini o fez através do personagem de Enrique Irazoqui, para reconhecer o verdadeiro rosto de Jesus presente na Bíblia, é preciso muitas vezes despir-nos dos preconceitos religiosos e deixar que ela nos fale e nos leia em nossa própria humanidade. Então, sim, ela será palavra viva e vivificante para o mundo.