A Mãe do Dia das Mães

Anna Jarvis. Assim se chamava ela. É a mãe do Dia das Mães. Ela nasceu no dia 1º de Maio de 1864, na pequena cidade de Webster, na Virgínia Ocidental, Estados Unidos. Era filha de Ann Reeves, uma piedosa senhora que teve treze filhos, dos quais somente quatro chegaram à idade adulta. Durante a guerra civil americana (1861-1865), Ann dedicou-se a cuidar dos soldados feridos, tanto os do Exército Confederado como os do Exército da União. Além de cuidar de suas feridas e reconectá-los com suas famílias, ela criava situações para que os feridos de ambos os lados se encontrassem, se conhecessem e se reconciliassem.

Não foi esse o primeiro trabalho humanitário da Senhora Jarvis. Antes da guerra, ela organizava as mulheres de sua comunidade para melhorar as condições sanitárias do local em que viviam. Findo o conflito, ela continuou seu trabalho para que as mães tivessem melhores condições de vida e a família se tornasse um espaço de proteção e cuidado.

Em 1870, outra mulher propôs a criação de um “Dia das Mães pela Paz”. Assim como outras tantas mães traumatizadas pela experiência da guerra, a poetisa, abolicionista e feminista Julia Ward Howe (1819-1910), queria que fosse reconhecido o direito sagrado de as mães protegerem a vida de seus filhos e que jamais voltassem a ser trucidados em guerras para defender interesses que lhes eram alheios.

As décadas passaram e, no segundo domingo do mês de maio de 1905, Ann Reeves faleceu. Para sua filha Anna, o choque foi terrível. Entrou em depressão. Para tentar aliviá-la, suas amigas passaram a encontrar-se regularmente com ela para lembrar a mãe falecida. Em 1907, no segundo domingo de maio, na Igreja Metodista de Grafton, Anna organizou um serviço religioso para lembrar os dois anos da morte da mãe. No ano seguinte, no mesmo segundo domingo de maio, o culto foi realizado na importante cidade de Filadélfia, no Estado da Pensilvânia. Na ocasião, Anna distribuiu entre as mães e filhos presentes um cravo branco. Em 1910, a data foi oficializada como dia feriado no Estado da Virgínia Ocidental e os cravos brancos se tornaram o símbolo do evento. A partir de então, Anna dedicou todo seu tempo, energia e dinheiro para que o “Dia das Mães” tivesse reconhecimento nacional. Tal aconteceu em 1914. Rapidamente, a data ganhou adesão em vários países. No Brasil foi celebrada pela primeira vez em 1918, em Porto Alegre, na Associação Cristã de Moços Católicos. Em 1932, Getúlio Vargas incluiu a data no calendário oficial brasileiro.

Assim como os filhos que uma mãe gera, Anna Jarvis não sabia o que seria de seu rebento. E o rumo que a festa do Dia das Mães tomou foi bem diferente do pensado por sua genitora. A popularidade da data despertou a cobiça dos industriais e comerciantes que logo fizeram do comércio de flores, cartões e presentes um negócio lucrativo que substituiu o ideal de humanização e respeito pela maternidade.

“Não criei o dia das mães para ter lucro”, foi a resposta que Anna deu a um repórter quando este lhe perguntou se estava feliz ao ver a data tão festejada. Sua indignação foi ao extremo quando o Dia das Mães passou a ser utilizada pela campanha belicista que tomou conta dos Estados Unidos na década de 1930. As “Mães para a Paz” sonhado por Júlia Ward Howe, foi transformado em “Mães Americanas pela Guerra”.

Juntamente com sua irmã Ellsinore, Anna lutou de todas as formas e com todos os recursos para que a data retomasse sua intenção original. Sua batalha foi inútil. O mercado é implacável e tudo transforma em mercadoria, até a mais belas intenções e, se permitirmos, até as próprias mães. Anna terminou seus dias em 24 de novembro de 1948, pobre, endividada, internada como louca num asilo para idosos.

Hoje, o Dia das Mães é a segunda data que “mais vende”. Diante do fato, convém lembrar uma frase da sua criadora em sua luta contra a comercialização do sentimento materno e filial: Um cartão impresso não significa nada mais que você é muito preguiçoso para escrever para a mulher que fez mais por você que qualquer outra pessoa no mundo. E tortas! Você leva uma caixa para a Mãe – e então come tudo você mesmo. Um belo sentimento!

Neste Dia das Mães, pensemos na mãe do Dia das Mães. Siga o conselho dela. Seja um bom filho. Não dê um presente. Dê um abraço, diga seu obrigado, permaneça ao lado de sua mãe o tempo que ela desejar. E, se ela já partiu para sempre, tenha-a no silêncio do seu coração e abrace a mãe mais próxima. Há muitas que, como Anna Jarvis, não tiveram filhos ou não os têm por perto. Neste Dia das Mães, seja para ela um filho. O filho que ela desejou.

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O 1º de Maio e a Doutrina Social da Igreja

Um segundo 1º de Maio de pandemia. O primeiro, foi o de 2020. E de lá prá cá, a situação só piorou. Não apenas chegamos aos 400 mil mortos pela Covid 19, o que já é, em si, trágico. Junto com os milhares de mortos e os que sobreviveram com sequelas, estão os familiares que padecem as dores da ausência não devidamente ritualizada. Ao lado, a crise econômica que não é só fruto da pandemia, mas tem muito de sua origem e manutenção na opção econômica do atual (des)governo que se oculta por trás da crise sanitária para alienar as riquezas do país aos interesses estrangeiros.

Um dos resultados mais perversos de tudo isso são os milhões de homens e mulheres que não tem a possibilidade de trabalhar. 14% da força de trabalho, numa estimativa bastante conservadora, está desocupada. E isso tem consequências não apenas para eles, mas para as famílias e toda a sociedade. E, os que ainda estão ocupados, vivem uma precariedade cada vez mais perversa. Podemos vê-los nos “empreendedores” que prestam serviço às plataformas digitais de intermediação de trabalho e serviços que se veem obrigados a labutar 12, 14 e até 16 horas diárias para poder alcançar uma renda mínima que lhes permita a sobrevivência. O caso mais gritante é o dos entregadores de comida que não tem o que comer e não conseguem levar para casa comida para seus filhos e filhas.

Diante disso, que palavra temos a dizer como cidadãos e como cristãos? No vídeo abaixo, oferecemos alguns elementos da Doutrina Social da Igreja sobre esta situação. Assista, compartilhe e inscreva-se em nosso canal no YouTube:

Os livros que eu nunca li

Aproveito a ocasião do Dia do Livro para tornar pública uma paixão que eu nunca ocultei de ninguém: sou viciado em livros. E não é vício novo. É antigo. Vem desde a infância. Aos sete anos, ganhei meus primeiros livros. Só aos sete? Sim. Livro, lá no interior, para uma família pobre como a nossa, era um luxo!

Estava eu no Segundo Ano do Primeiro Grau (era assim que se dizia na época), e a professora Maria Polesel Didoné, minha primeira professora, pediu aos pais que comprassem livros para seus filhos, alunos na brizoleta da Linha Aimoré, a Escola Estadual Rural João Ghellere.

Na primeira ida à cidade, meu pai voltou com três livros. Capa dura, coloridos, papel branco… Devem ter custado caro os meus três primeiros livros: “João e o Pé de Feijão”, “Os Três Porquinhos” e “Chapeuzinho Vermelho”. Três clássicos da Literatura Infantil certamente recomendados pela vendedora da Livraria Parisi, a única existente na época em Veranópolis.

Não sei quantas vezes li e reli aqueles três livros. Em seguida começaram a circular entre nós os gibis da Walt Disney. Fiz meu up grade com a leitura do “Príncipe Valente” do Harold Forster. Aí o vício estava instalado e não parei mais. Lia de tudo. O que viesse pela frente. Comecei a exercitar meu discernimento literário com a professora de Língua Portuguesa e Literatura no Segundo Grau, a incrível e inesquecível Professora Ida Sonda Pessin. Professora com “P” maiúsculo. Ela me apresentou os clássicos da Literatura Brasileira. Jorge Amado foi minha grande paixão. E na Biblioteca do Seminário estava todo o Jorge Amado: uma longa fila de livros de capa vermelha que fui degustando um a um, saboreando aquele mundo tão estranho para mim.

Foi a professora Ida quem me apresentou aquele que para mim é, até hoje, o clássico dos clássicos brasileiros: “Grande Sertão: Veredas” do João Guimarães Rosa. No final do ano, no último dia de aula, ela veio até mim, me estendeu o livro e me disse: “Aproveita para ler esse livro nas férias”. Não li de uma sentada só porque isso é impossível! Mas não conseguia parar… Foi uma experiência espetacular que só se repetiria em outras duas ocasiões com outros dois livros: “O Nome da Rosa” de Umberto Eco e o “Ciem Años de Soledad”, de Gabo Márquez. Uma experiência da qual se aproximaria a leitura de “La Ciudad y los Perros” de Vargas Llosa, “Waslala” de Gioconda Belli e “La Casa de los Espiritos” de Isabel Allende.

Minha paixão por livros é tanta que as bibliotecas são o meu playground preferido. O cheiro dos livros é perfume comparável aos das flores do jardim. Passear entre as estantes, um verdadeiro prazer. Passeando as mãos nos livros enfileirados, me sinto como Mário Quintana olhando o mapa de Porto Alegre:

Olhos os livros da biblioteca
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo
(E nem que fosse o meu corpo!)
Sinto uma dor infinita
Dos livros da biblioteca
Que jamais eu lerei…

O outro lado desta história é que o meu vício virou profissão quando meu tornei professor. E os livros que antes eram diversão, transformaram-se em instrumentos de trabalho. O que era prazer, virou obrigação. Não que haja oposição entre as duas versões da paixão. Leio com prazer o que é obrigação e faço da obrigação um prazer. Mais ou menos como o amante de vinhos que vira enólogo. Só não leio com moderação! Não me peçam isso jamais… Leio e sempre lerei com devoção e com tesão.
Até quando lerei? Não sei… Só sei que gostaria de morrer com a cabeça descansando sobre um livro. Ou com um livro nas mãos. Ou no meio de uma leitura, o livro caído ao lado da cama, leitura inconclusa de uma vida que se vai.

Hoje, olhando para trás nessa história toda, me faço uma pergunta: e se meu pai, em vez de ouvir as palavras da professora Maria e comprar meus três primeiros livros, tivesse comprado e me presenteado com uma arma de brinquedo? O que eu teria me tornado se tivesse ganho, aos sete anos, uma imitação de um revólver, espingarda ou metralhadora?

É muito provável que eu não teria lido tantos livros em minha vida… E hoje, certamente, eu não seria professor. Poderia ser algo bem diferente. Talvez Capitão Presidente ou General Ministro de Estado. Ou simplesmente um miliciano.

Os livros traçam destinos. Tanto os que lemos como os que não lemos. Tenho gratidão pelos livros que eu li. E tenho saudades dos que ainda não li e ficam na esperança de que um dia talvez possa ler.

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Morrer para dentro

Os números nos excedem. São tão monstruosos que ultrapassam nossa capacidade de mensuração. Não é que não saibamos mais contar ou que dois mil, três mil, quatro mil ou quatrocentos mil sejam quantidades que já não nos dizem nada. Nosso cérebro conta. Mas ele não consegue mais processar o que significa tal quantidade de mortos. A cifra e a dor embutidas nela são de tal monta que a única defesa é o anestesiamento auto infligido. Um anestesiamento emocional para poder suportar a dor e a vergonha de uma sociedade que se permite a morte das pessoas mais frágeis.

A eutanásia é algo não admitido pela maioria das pessoas em nossa sociedade. Muito menos a eugenia e o extermínio dos fracos e indigentes. Na história da humanidade, apenas regimes totalitários adotaram tais práticas. E as pessoas que lideraram tais processos genocidas são hoje apresentados como excrecências históricas. No entanto, o modo como está sendo abordada por alguns líderes brasileiros a crise da Covid19 faz com que nos coloquemos interrogações sobre as reais intenções que os animam. Quando um prefeito de uma capital apela a um cidadão para que “contribua com sua vida para que a gente salve a economia”, estamos muito perto da barbárie.

O peso é tanto, que muitos já não o suportam. A dose de autoanestiamento exigido para poder suportar o absurdo civilizatório em que fomos jogados é tão pesada que muitos já não conseguem emergir das trevas que nos rodeiam. São poucas as manchetes dos jornais e os espaços televisivos e radiofônicos que tratam de tal assunto. Mas cada um de nós – feliz de você se não está neste número – sabe de um familiar, amigo ou conhecido que, em meio à pandemia, tomou a decisão de acabar com a própria vida. Às vezes pessoas que imaginávamos nunca chegariam a tão trágica opção. Um médico, um professor, um padre, um pastor… Personalidades que sempre imaginamos fortes, conscientes, respeitosas da vida dos outros e da própria. Num gesto inexplicável e incompreensível decidem partir deste mundo que se tornou insuportável.

Alguns dos que desta maneira partem deixam uma mensagem de despedida. Outros partem sorrateiramente sem deixar qualquer vestígio. No primeiro caso, suas palavras são um chamado a ser escutado. No segundo, seu silêncio é um grito de dor a ser respeitado. Porque ninguém que parte desta maneira, parte sem dor. O suicídio é o ponto final de um longo e penoso processo de partidas interrompidas e nunca escutadas.

O suicídio é uma decisão individual. Mas ele revela um mal-estar social. Assim como não existe vida que nasça por si mesmo, toda morte carrega consigo um pedaço da vida dos outros. Cada suicídio é também um pouco de cada um de nós que morre. Em cada um que opta por partir, é denunciada a cultura tanatófila de nosso tempo que se tornou insensível à morte de milhões.

Vivemos uma explosão de mortes. É tamanha que ultrapassa tudo o que nossa geração já viveu. É preciso interrompê-la já. Mas é preciso estar também e desde já atentos às vidas que implodem por já não suportarem tanta dor. É preciso manter distância física para evitar o contágio viral. É indispensável aproximarmo-nos dos que estão à deriva e na ameaça de implosão e dar-lhes apoio emocional. A morte não é apenas o espetáculo morboso no jornal televisivo da noite. Há muitos morrendo silenciosamente para dentro. Para estes, não basta máscara, distanciamento e vacina. É preciso aproximação, carinho e compaixão.

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A Igreja não se fecha!

Escrevo este texto na terça-feira da Páscoa. Uma Páscoa diferente. Diferente como foi a do ano passado. Uma segunda Páscoa em meio à Pandemia. Uma Páscoa com celebrações restritas. E com poucas comemorações. Uma Páscoa com Igrejas fechadas ou com acesso limitado. Uma Páscoa com o comércio vazio e os cemitérios lotados. O choro da Paixão do Senhor continuou no sábado e domingo e segue ainda hoje pelo contágio, intubação e morte de pessoas cada vez mais próximas de nós.

O silêncio do sábado de espera foi rompido por uma notícia insólita. Um ministro do Supremo Tribunal Federal autorizou liminarmente a realização de cultos religiosos em todo o Brasil. Decisão monocrática e contrária a outras decisões anteriores do Pleno do STF. Prefeitos, governadores e até outros membros da Suprema Corte manifestaram-se contrários. As igrejas afiliadas ao Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) chamaram ao bom senso e à necessidade de não fazer dos templos um lugar de transmissão do vírus e de propagação da morte.

A intervenção de outro ministro do STF fez com que a disputa seja decidida amanhã, quarta-feira, no plenário do STF. Esperamos a decisão. Será uma decisão jurídica que todos os brasileiros e brasileiras terão como referência. Do ponto de vista religioso, no entanto, a polêmica veio colocar um ponto de não retorno no cristianismo brasileiro. E não apenas nesta ou naquela denominação religiosa. É um marco que atravessa todo o cristianismo porque, em todas as igrejas, há membros que defendem a abertura e membros que defendem o fechamento.

O que está em questão, é o que compreendemos por Igreja. Quando falamos a palavra “igreja”, pensamos no prédio em que nos reunimos ou pensamos na comunidade que é o Corpo de Cristo e o Templo do Espírito Santo? Se esta segunda compreensão é a que habita nossos corações, não há necessidade de templos abertos para praticar a fé. Onde dois ou mais estiverem reunidos, aí está Deus no meio de nós. Como diz a nota do CONIC, isto pode ser feito em família, online e no coração de cada um. E mais: onde houver um irmão ou uma irmã passando fome, com sede, nu, doente, preso… aí está o próprio Cristo. Não há necessidade de ir ao templo para encontrá-Lo. Ele está abandonado em nossas ruas, parques, praças perambulando por não ter casa e, desempregado, pedindo pão para seus filhos. Ele está clamando nos hospitais lotados e nas UTIs abarrotadas, esperando atendimento, intubado, morrendo… Os verdadeiros adoradores, já dizia Jesus, não são os que vão ao Templo de Jerusalém ou ao Monte Garizim para rezar, mas os que o adoram em Espírito e Verdade.

A decisão do STF será uma decisão jurídica. Prevalecerá a lei, a Constituição que esperamos seja interpretada com o bom senso que a situação merece. Mas a decisão de fé já está dada. As duas opções são claras: há os que adoram o Deus da Vida e os servidores da morte. Há os pastores que dão a vida pelas ovelhas (e os há em todas as igrejas) e há os mercenários que só pensam no dízimo e nas doações dos fieis. Há as Igrejas e há os grupos empresarias que exploram a fé dos pobres e desesperados. Essa é a divisão básica entre as igrejas e em todas as igrejas. Independentemente do que decida o Supremo Tribunal Federal, cada um e cada uma sabe o lado que está tomando. Não há mais o que fingir. Deus está vendo. E todos nós também. Amém.

Sexta-feira de Páscoa

Por que no Brasil as celebrações da Sexta-feira Santa são muito mais concorridas que as do Domingo da Ressurreição? Muitos agentes de pastoral se fazem essa pergunta e a respondem, geralmente, culpando a ignorância religiosa dos fieis. Nessa resposta há um equívoco que nasce do desconhecimento da história do catolicismo no Brasil e de um lapso teológico grave.

Nós também nos fazemos esta pergunta e buscamos respondê-la no vídeo abaixo. Confira e pense conosco:

A parusia e sua paródia – uma meditação sobre o Domingo de Ramos

Páscoa vem chegando. Mesmo em meio à pandemia, coelhos e chocolates aparecem aqui e ali. Mas não vou falar da páscoa do comércio. Vou falar da Páscoa de Jesus Cristo, a verdadeira, a que ainda não foi sequestrada pelo mercado. A Páscoa da Semana Santa que abre com o Domingo de Ramos. Uma bela festa. A festa da Parusia. Sim. Esse é o verdadeiro nome. Hoje o aportuguesamos. Dizemos “entrada triunfal”. Pois em grego, a língua em que foram escritos os evangelhos, “entrada triunfal” se dizia “parusia”.

Na época, no grego popular, a palavra era usada para designar a chegada do imperador em alguma cidade. Era um evento e tanto. César era considerado um mito, um deus. Nas suas viagens, a divindade o acompanhava e tinha que ser devidamente reverenciada por onde passava. Era anunciado com antemão, a estrada por onde passaria era aplainada, limpa, ornamentada e bem guarnecida para que nenhum perigo pudesse ameaçar sua majestade. Os imperadores romanos, como todos os tiranos, imaginavam que por onde quer que andassem, poderia haver inimigos de tocaia para atacá-los. A tirania é sempre paranoica…

No dia em que o rei se aproximava, todos os homens eram obrigados a postar-se à entrada da cidade para saudar o chegante. As muralhas eram ornadas com panos brancos e, se houvesse, vermelhos, para saudar a divindade viva. E ai daquele que não gritasse vivas ao rei. O grito tinha que ser alegre, caso contrário, a espada ou a lança do soldado fá-lo-ia gritar de dor ou dar seu último grito de agonia. Aplaudir o imperador era uma obrigação, nem que fosse sob coação. Mulheres e crianças ficavam dentro de casa, espiando pelas frestas das janelas para ver o rei ou para ver se seus esposos e filhos tinham sobrevivido à parusia.

Jerusalém, a cidade para a qual Jesus se dirigia, também tinha a sua parusia. Não era a do Imperador Romano. Jerusalém ficava tão longe de Roma que o César a conhecia apenas por sua má fama. Quem fazia sua parusia anual na Cidade Sagrada era Herodes Antipas, alcunhado de “O Pequeno”. Na véspera de cada Páscoa, Herodes, montado em seu cavalo branco, saia da fortaleza de Cesareia e, com sua milícia de legionários, subia a Jerusalém. E, como todo tiranete de quinta categoria, gostava de receber honras semelhantes ao tirano máximo. Ele obrigava a cidade de Jerusalém a preparar-lhe uma entrada triunfal. E os grandes da cidade, para agradar o pequeno ditador, obrigavam todo o povo àquela representação de subserviência. A estrada era enfeitada, as muralhas adornadas e os homens perfilados para serem devidamente humilhados pelos milicianos romanos.

Jesus sabia que isso iria acontecer naqueles dias. Todo judeu sabia. E todo judeu odiava esse dia em que Herodes Antipas entrava em Jerusalém pela porta do Ocidente para dar segurança e tornar a Páscoa impura.

Jesus desobedece. Não vai fazer reverências ao militar romano. Vai ao Monte das Oliveiras e, dali, com seus discípulos, mulheres e crianças, entra na Cidade Santa. Não há panos brancos e vermelhos para saudá-lo. Apenas palmas e flores do campo. Nenhum militar o acompanha. Vai montado num inofensivo jumento. Não entra pela porta principal. Entra pelo Leste, pela porta dos fundos. Para todo judeu, aquilo era claro: Jesus fazia uma paródia informal da parusia oficial. Todos entendem e, entrando na brincadeira, o aclamam como “Rei dos Judeus”. Um rei não como César e seu títere Herodes. Um verdadeiro rei. Um rei como Davi, o libertador.

Os fariseus também entendem e pedem que Jesus mande calar os discípulos e a multidão. Jesus não manda. Deixa que o povo cante, ria, dance. Entra em Jerusalém e a confusão se arma. E a história todos sabemos como terminou… Os poderosos não gostam de paródias. Especialmente quando satirizam seu obsceno poder e expõem o ridículo papel dos testas de ferro que oprimem o povo em nome de interesses alheios.

O humor é perigoso. Ele desmascara o poder. Ao provocar o riso, faz com que caiam as máscaras e as faces se exponham em sua grandeza ou mediocridade. Jesus sabia disso. Hoje também o sabemos. Por isso, mesmo na dor, não podemos deixar de viver com humor. Ele faz parte do dom maior que é o Amor, a cidade onde todos queremos habitar.

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Meus medos.

Sou uma pessoa medrosa, sim, e não tenho escrúpulos em confessá-lo. E não tenho um medo só. Tenho muitos medos. Inumeráveis medos. Um deles é o medo das alturas. Não gosto de chegar perto de precipícios. O Cânion do Itaimbezinho é um dos meus lugares preferidos para passear. Mas nada de me aproximar da borda do precipício. Fico bem longe! Só olhando…

Também tenho medo de velocidade. Quando dirijo, nunca ultrapasso os cem quilômetros por hora. Mesmo na autoestrada onde isso é possível. É o meu limite! Por mais que zombem de mim e da lentidão com que ando… E se estou de carona e o motorista passa dos cem, já fico incômodo e peço para andar mais devagar.

Também tenho medo de instalações elétricas. Nunca levei um choque nem presenciei algum acidente elétrico mais grave. Mas quando vejo um emaranhado de fios, ainda mais se houver algum velho, solto ou desencapado, eu é que fico pilhado!

Teria muitos outros medos a confessar. Mas fico por aqui. São suficientes para dizer que não tenho medo dos meus medos. Aprendi a conviver e até gostar deles quando me dei conta que são uma proteção. Cair do alto de um prédio ou de um penhasco, fazer um acidente em alta velocidade, levar um choque de 220 volts, é um risco de morte. Ter medo é uma forma instintiva ou aprendida de preservar a vida.

Os medos são bons. Todos precisamos deles para sobreviver. O contrário do medo não é a coragem e a valentia. Muitos dicionários dizem isso. E o senso comum também. Mas é preciso pensar. E se formos a fundo, veremos que o contrário do medo é a imprudência e a inconsequência. Quem não tem medo de nada, muito facilmente acaba tomando atitudes e assumindo comportamentos que provocam dano a si mesmo ou fazem mal aos outros. Não ter medo de dirigir em alta velocidade pode levar à morte do motorista, de quem está com ele no carro e de outras pessoas que se tornam vítimas inocentes da suposta coragem do dito motorista. Não ter medo de ficar doente, nestes tempos de pandemia, está levando à morte de muitos valentões e, o que é pior, de seus familiares e amigos que sofrem as consequências de seus comportamentos desatinados.

Não sei se existe uma palavra que possa ser tida como expressão exata daquilo que é contrário ao medo. Mas, naquilo que a vida me ensinou, considero que, para viver com os medos do dia a dia, duas atitudes são necessárias. A primeira, é a prudência. Uma virtude que anda bastante esquecida nestes tempos de muita pressa. Ser prudente, no entanto, não é ir devagar. Muito menos desistir do que se quer. Ser prudente é analisar as diversas possibilidades e discernir o melhor caminho para atingir o fim almejado.

Pode não ser o caminho mais fácil. E nem o mais rápido. Mas aquele que, ao fim e ao cabo, resulta no objetivo almejado. Ao lado da prudência, para conviver com os medos, é preciso a serenidade. Todos sabemos o que é um céu sereno. E todos deveríamos saber que, quem tem um espaço interior despejado, limpo, sem nuvens escuras e tempestuosas, consegue aceitar e superar seus medos e não se deixar intimidar pelos perigos que vem de fora.

Hoje, assim como em todos os tempos, não ter medo, é um perigo. Para si e para os outros. E uma confissão de fraqueza disfarçada em aparente valentia. Com meus medos, procuro cultivá-los e conviver com eles. Dos que não sabem conviver com os próprios medos, guardo distância e um indisfarçável desprezo: coitados, são covardes a ponto de ter medo de seus medos!

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Plenamente humano, simplesmente irmão!

2020 foi o Ano da Pandemia. Tivemos que nos isolar e reinventar para continuar trabalhando. Entre as tarefas extras do ano que passou, tive a alegria de organizar, junto com o Irmão Edimar Moreira, este livro sobre a Vida Religiosa de Irmãos.

Foi um compromisso e um privilégio. O resultado foi publicado agora no início de 2021. É um trabalho a muitas mãos, dentre elas as da querida Irmã Annete Havenne, de Rivadalve Paz Torquato, Paulo Dullius, Epifânio Barbosa Lima, Jorge Luiz de Paula, Oton da Silva A. Junior, Edgar Genuíno Nicodem, João Gutenberg Mariano C. Sampaio, Lucas José Ramos Lopes, Otalívio Sarturi, Rubens Nunes da Mota, Edimar Fernando Moreira e Cláudio André Dierings. E, claro, também tem um texto de minha autoria.

O livro pode ser adquirido na página da CRB Nacional.

Sobre escrófulas e cloroquina

Cloroquina todo mundo já sabe o que é: um medicamente usado para prevenir ou controlar os efeitos da malária. Eu o conheço pessoalmente. Durante cinco anos tomei cloroquina como preventivo à malária e, até o fim dos meus dias, guardarei seus efeitos colaterais. O primeiro, pequenas coagulações no humor vítreo do olho direito. Elas fazem que, ao olhar para um fundo claro, eu enxergue pequenos pontos pretos movendo-se de um lado para outro. O outro é uma taquicardia que, graças aos medicamentos que tomo diariamente, está sob controle.

Tem gente que, contra todas as evidências disponíveis, acha que a cloroquina também serve para prevenir a Covid19. Resultado dessa crença é que, no final da pandemia – espero que seja para breve – haverá muitos brasileiros com problemas oculares, cardíacos e hepáticos (que eu não tive, graças a Deus!).

Já sobre as escrófulas, só fiquei sabendo delas ao ler as obras de Marc Bloch. No livro “Os Reis Taumaturgos”, o historiador francês faz um estudo sobre um curioso fenômeno medieval: a crença de que os reis da França e da Inglaterra tinham o poder de, com o toque das mãos, curar os doentes afetados por este terrível mal. Geralmente associadas à tuberculose, as escrófulas têm sua origem na inflamação dos gânglios linfáticos na região do pescoço. Nos casos graves, a inflamação chega à fistulização e o aspecto do paciente se torna deveras repugnante.

Do séc. XII ao séc. XVII, tanto na França como na Inglaterra, milhares de pessoas, anualmente, vinham até o rei para serem tocadas e curadas. Em ambas as nações, estabeleceu-se um ritual litúrgico que era praticado regularmente pelo monarca de turno.

Tal prática se baseava na afirmação de que o rei, pela unção recebida no dia da sua entronização, passava a ser uma pessoa sagrada e, como tal, tinha o poder de curar. Era o mesmo poder exercido por Jesus e pelos santos. E com uma vantagem: tal poder não dependia da santidade pessoal do rei, mas da unção por ele recebida na entronização.

A essas alturas você já deve estar se perguntando: mas, e as pessoas, realmente ficavam curadas? A resposta é “sim”! Quem vinha ao rei e recebia seu toque e sua bênção, efetivamente ficavam curado… Como? Simples: as escrófulas são uma inflamação cíclica. Após a supuração, elas, por si mesmas, fecham seu ciclo e cicatrizam. Tal processo era favorecido pelo fato de os doentes terem que aguardar perto do palácio por alguns dias à espera do ritual. E enquanto aguardavam recebiam boa alimentação. E, depois do toque, ainda recebiam do rei uma esmola que lhes permitia manter a boa alimentação. Com descanso e comida, a imunidade aumentava e as escrófulas fechavam seu ciclo até nova irrupção.

Naquela época, claro, não havia os conhecimentos médicos que temos hoje. E os milagres faziam parte do cotidiano. Aconteciam todos os dias e em toda parte. E isso não porque naquele tempo Deus interviesse mais que hoje no cotidiano das pessoas. Mas porque as pessoas estavam predispostas a acreditar neles. Dentro da compreensão medieval, não havia separação entre o sagrado e o profano. Deus e seus auxiliares, os santos e os anjos, bem como Satanás e seus diabinhos, conviviam lado a lado com as pessoas e intervinham no dia a dia e em todos os âmbitos da vida.

O que os reis fizeram – e nisso esteve a sua genialidade política – foi usar a ignorância e a crença nos milagres para consolidar a instituição real. Assim explica Marc Bloch essa jogada fenomenal dos monarcas franceses e ingleses: “Para que uma instituição destinada a atender a fins precisos indicados por uma vontade individual possa impor-se a todo um povo, é necessário ainda que ela seja sustentada pelas tendências profundas da consciência coletiva; e talvez, reciprocamente, para que uma crença um pouco vaga possa concretizar-se num rito regular, não seja indiferente que algumas vontades conscientes ajudem-na a tomar forma.”

Voltando à nossa conhecida cloroquina e outras crenças sem evidência científica, devemos nos perguntar não apenas sobre as intenções dos que as querem impor à população. Devemos nos perguntar também quais são as “tendências profundas da consciência coletiva” que tornam essas mentiras aceitáveis para uma parcela significativa da população.

A Covid19 é um desafio à medicina. No Brasil, tornou-se uma questão política. Mas o mais profundo e grave, é que ela está revelando muito sobre as profundezas culturais de nossa nação.
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