Clero católico e conflitos na Região Colonial Italiana do Rio Grande do Sul (1870-1930)

Clero católico e conflitos na Região Colonial Italiana do Rio Grande Do Sul (1870-1930)

Roman Catholic clergy and the conflicts in the region of the Italian colonization of Rio Grande do Sul (1870-1930)

Vanildo Luiz Zugno[1]

Resumo: Tendo como base o material historiográfico disponível e os relatos de capuchinhos franceses que atuaram na região no final do séc. XIX e início do séc. XX, o texto apresenta uma relação de conflitos que envolveram o clero católico na Região de Colonização Italiana no Rio Grande do Sul. O objetivo é averiguar se os conflitos são ligados à tensão existente entre o estado republicano de inspiração positivista então sendo implantado no Brasil e no Rio Grande do Sul, e o desejo da Igreja Católica Romana em manter sua hegemonia religiosa e ideológica sobre a população da região. Conclui-se afirmando que, mesmo não sendo em todos os casos o fator ideológico o predominante no conflito, ele joga um papel importante mesmo quando a causa das tensões é de natureza econômica ou pessoal.

Palavras-chave: Igreja. Clero. República; Colonização Italiana; Positivismo; Maçonaria.

Abstract: Based on the available historiographical material and the accounts of the French Capuchin friars who have acted in the region by the end of the 19th. and the beginning of the 20th. centuries, this study presents a relation of conflicts involving the Roman Catholic clergy in the region of the Italian colonization of Rio Grande do Sul state, Brazil. The purpose of this study is to find out if the conflicts are connected to the tension between the republican state – inspired by the Positivist philosophy – then being implanted in Brazil and in Rio Grande do Sul state and the desire of the Roman Catholic Church to maintain its religious and ideological hegemony in the region. It was affirmatively concluded that, the ideological factor even when not being the predominant in all the cases of the conflict, plays an important role when the cause of the tensions is of personal or economical nature.

Keywords: Church. Clergy. Republic; Italian Colonization; Positivism; Masonry.

Publicado em: CADERNOS DA ESTEF, Porto Alegre, n. 60, p. 31-45, 2018/1.

Ao analisar as relações entre a Igreja e o Estado na América Latina, Richard apresenta os conflitos entre a Igreja Católica Romana (ICAR) e o estado liberal oligárquico em três etapas. A primeira, de 1804 a 1824, quando o Estado liberal combate a ICAR como um dos elementos da ordem colonial. A segunda se estende de 1824 a 1870 quando o Estado tenta utilizar a Igreja como força legitimadora de sua ação sobre a sociedade no sentido de unificá-la em torno a seu projeto. A terceira etapa se estende de 1870 a 1930 quando o estado busca eliminar a ICAR por considerá-la como “[…] como uma instituição social contrária ao ‘progresso científico’ da humanidade, por quem o Estado se sente responsável” (RICHARD, 1982, p. 87-88).

Mesmo que aconteça no campo político, a ação do Estado se fundamenta numa compreensão cultural que afirma ser a religião e a Igreja uma instituição anticientífica, defensora do irracional, inimiga do progresso e da modernização que os estados pretendem implantar no continente. A ideologia que sustenta o Estado na sua luta contra a Igreja nesse período, é o positivismo e o grupo social que a promove, a maçonaria.

No Brasil, esta terceira etapa coincide com a Proclamação da República e a consequente separação entre o Estado e a Igreja. Esta, de um momento para outro, passa da condição de protegida à de perseguida. Além da construção de estruturas que lhe permitam a manutenção sem os recursos públicos, a ICAR vê-se na necessidade de disputar as mentes e os corações dos brasileiros com a ideologia dominante e com as outras igrejas que agora tem liberdade para se instalar e pregar.

No Rio Grande do Sul, esta disputa foi ainda mais aguda pelo caráter peculiar do aparato público que aqui se construiu. Segundo Azzi, “foi no Rio Grande do Sul que se realizou a experiência mais completa de aplicação dos princípios de Augusto Comte na política brasileira, através dos sucessivos governos de Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros.” (AZZI, 1997, p. 219). Através das escolas, da imprensa e, principalmente, da Brigada Militar e dos coronéis burocratas, o Estado levava sua autoridade até os mais recônditos rincões do interior buscando configurar a sociedade ao modelo positivista (FRANCO, 2002, p. 132).

No mesmo Estado, no entanto, a ICAR, capitaneada por um destacado bispo reformador, Dom José Cláudio Gonçalves Ponce de Leão, passou a contar, neste período, com reforços para seu combate. Por um lado estavam as legiões de imigrantes, principalmente italianos e poloneses, que chegavam marcadas pelo catolicismo tridentino e sua mentalidade de submissão ao clero e ao Papa. Por outro, estavam as dezenas de Congregações de Vida Religiosa, tanto masculina como feminina, que, fugindo das perseguições anticlericais da Europa, buscavam no sul do Brasil um refúgio para reconstruir uma sociedade sob a inspiração da doutrina católica (MAESTRE, 2010, p. 219-220).

A Região Colonial Italina (RCI)[2], local onde se concentraram a maioria dos imigrantes e das congregações religiosas, tornou-se palco de frequentes enfrentamentos envolvendo clero, religiosos e autoridades locais. Conflitos que a parca historiografia eclesiástica existente tende a classificar como ideológicos e de perseguição das autoridades locais, normalmente ligadas à maçonaria, contra a Igreja.

A partir da documentação a nossa alcance, tanto eclesiástica como de outros horizontes, apresentaremos um elenco de conflitos acontecidos na região ressaltando o modo como as diversas fontes interpretam os fatos. Para facilitar o leitor, apresentamos os eventos em ordem cronológica.

a)      1884 – Silveira Martins

Os primeiros colonos italianos chegaram à região central do Estado no ano de 1877 ocupando a Quarta Colônia que ganharia o nome de Silveira Martins. Entre os vários núcleos que ali se formaram estava o “Valle dei Bortoluzzi” que mais tarde passaria a se chamar Colônia Vale Vêneto.[3]

Logo após a chegada, liderados pelo comerciante Paolo Bortoluzzi, os moradores construíram uma capela de madeira dedicada a São Francisco. A capela foi inaugurada com a presença do pároco de Santa Maria, Pe. Marcelino de Souza Bittencourt. No ano de 1880, Paolo Bortoluzzi financiou a ida à Itália de Antônio Vernier. O objetivo era conseguir dois sacerdotes para se estabelecerem na localidade. O padre Vitório Arnofi, de Feltre, e o padre Antônio Sorio, de Beluno, aceitaram a proposta. Em 3 de novembro de 1881, o Pe. Arnoffi foi destinado pelo bispo para Silveira Martins e o padre Antônio Sorio, depois de breve estadia em Silveira Martins, passou a residir em Vale Vêneto. Em 25 de de abril de 1884, Pe. Arnoffi, aos 41 anos de idade foi encontrado morto em seu leito (BAREA, 1995, p. 68-69). Segundo Vandrame, Pe. Arnoffi suicidou-se diante da iminência do nascimento de seu filho com a funcionária da casa canônica (VENDRAME, 2013, p. 36-81). Segundo Rubert, “por obra dos carbonários e desafetos de Vale Vêneto foram espalhados boatos injuriosos à sua memória” (RUBERT, 1988, p. 287). Pe. Rubert não apresenta a causa da morte do padre Arnoffi. Apenas atribui aos carbonários os boatos injuriosos que davam conta do fator passional na sua morte.

b)      1889 – Jaguari

É um caso do qual há fonte única. Dele só faz menção o Pe. Rubert. Segundo ele, no ano de 1889, o Pe. Ottavio Cattaneo “[…] foi obrigado a fugir da cidade de Jaguari sob a perseguição de carbonários e anticlericais.” (COSTA, 1998, p. 195).

c)      1889 – Flores da Cunha

O lugar para a construção da igreja paroquial da então Nova Trento, foi motivo de graves divergências entre a população local. No início da ocupação, em 1882, formaram-se dois núcleos principais na localidade: um situado no vale e outro no alto do monte. Em cada local uma capela foi construída. A do vale foi dedicada a São Pedro; a situada no monte, dedicada a São José. Em 1899, Pe. Luigi Centin transferiu a sede do curato da capela São Pedro para a de São José. As divergências entre os dois núcleos levaram à retirada dos vários padres que ali tentaram se estabelecer. O conflito só concluiu em 1890 quando o Pe. Alessandro Pellegrini fixou a sede no vale (BAREA, 1995, p. 24-25). A razão da tensão, segundo o único testemunho de Barea, é relativo ao local de estabelecimento do curato e da consequente residência do pároco. Localização que traria vantagens aos comerciantes locais que aproveitariam do fluxo dos colonos em busca dos sacramentos e do atendimento religioso para realizar seu comércio.

d)      1891 – São Marcos

Um caso muito interessante de ser analisado é o do conflito ocorrido entre os colonos poloneses e os fiscais do Departamento de Terras e Colonização em São Marcos. Segundo Barea, o conflito teria ocorrido no ano de 1889 e o motivo seria a interrupção, por parte das novas autoridades republicanas, da construção da igreja iniciada durante o período imperial:

A construção da antiga igreja de tábuas, demolida há quatro anos, deu lugar a uma pequena revolta popular. Havia sido começada durante o império e os construtores eram pagos pelo governo. Mas com o advento da república, o novo governo não quis mais pagar os trabalhos que naquele ano deviam ser feitos na igreja. Os poloneses, porém, não se resignaram a esta disposição do novo governo. Um dia, enquanto trabalhavam em número superior a 200 na abertura da via principal da cidade, a um sinal combinado, todos, armados de facas, machados, foices, etc, se puserem a correr, com fortes gritos, em direção ao escritório dos fiscais do governo, o qual cercaram e atearam fogo. Os assediados, com grande esforço salvaram-se fugindo e refugiando-se no mato. (BAREA, 1995, p. 72).

Como podemos ver, na versão de Barea, trata-se de um conflito entre os católicos poloneses e os representantes locais do governo republicano que se negam a dar continuidade à construção da igreja. Tal versão é contestada por Rizzon e Possamai a partir da análise dos relatórios dos fiscais do Departamento de Terras e Colonização e de depoimentos de descendentes dos imigrantes poloneses que viveram o episódio. Segundo esta reconstrução, o fato não aconteceu em 1889, mas em 1991, ano que chegaram os primeiros poloneses em São Marcos. A revolta dos colonos poloneses, que realmente aconteceu, não teve como motivo a interrupção da construção da igreja, mas a negativa por parte do governo em continuar oferecendo alimentação e vales para os colonos que se negavam a continuar a trabalhar nas obras públicas (RIZZON; POSSAMAI, [1987]). Segundo os autores, não houve qualquer motivação religiosa para a revolta. Apenas a econômica.

e)      1891 – Garibaldi

Na então Conde d’Eu, o Pe. Bartolomeu Tiecher, que em 19 de março de 1886 assumira a recém-criada paróquia, enfrentou, no final de 1891, um conflito que o levou a retirar-se para Zamith (atual Monte Belo). Dom Cláudio manteve-o como pároco de Conde d’Eu até 1894 quando, diante da impossibilidade de seu retorno, foi substituído por Pe. Giovanni Fronchetti. Barea, ao relatar o episódio, atribui a saída do padre de Garibaldi à ação da maçonaria que, naquele momento, estaria se estabelecendo nas colônias italianas (BAREA, 1995, p. 82). Já para Costa, seriam os carbonários os que forçaram a saída do padre para Zamith, mas tal só teria acontecido “[…] devido a seu [do padre Tiecher] temperamento enérgico e zelo incontido […]” (COSTA, 1998, p. 181). Rubert (1998, p. 289) atribui a saída às hostilidades de carbonários e maçons. Segundo Rabuske, que apresenta como fonte uma reportagem publicada na edição de 2 de agosto de 1892 do jornal “Deutsche Volksblatt”, o conflito do Pe. Tiecher teria sido com os membros do Partido Liberal. No mesmo conflito estaria presente também o pastor evangélico alemão de nome Hätinger que acusava o Pe. Tiecher de haver roubado os ornamentos de ouro da imagem de Nossa Senhora. Segundo o pastor, várias famílias teriam deixado a igreja católica e passado ao protestantismo, fato este desmentido pelo “Deutsche Volksblatt” (RABUSKE, 2001, p. 292).

Pe. Bartholomeu Tiecher, em seu registro no Livro Tombo da paróquia São Pedro, afirma que o conflito deu-se em consequência da “revolução de novembro de 1891” pela qual “apoderou-se da pública direção das cousas neste lugar homens sem fé nem lei”.[4] Tendo-se retirado Pe. Tiecher para Zamith, parte dos paroquianos solicitou ao bispo a nomeação de Pe. Miguel Acri como novo pároco. Tal nomeação não foi confirmada pelo bispo que manteve Pe. Tiecher como pároco. As atividades pastorais da paróquia foram assumidas pelo Pe. Giovanni Fronchetti, então residente em Santo Antônio de Villas Boas.

Para um mesmo episódio, cinco explicações: os maçônicos, os carbonários, os liberais, os protestantes e a teimosia do padre…

f)       1893 – Veranópolis

Durante a Revolução Federalista de 1892-1895, Pe. Matheus Pascoali que, desde 1886 era pároco da cidade, “[…] abraçou abertamente o partido de Júlio de Castilhos, chefe dos Republicanos, e sustentou, desde o campanário da sua igreja, um cerco de vários dias feito pelas forças armadas do partido restaurador que buscava tomar Alfredo Chaves.” (GILLONNAY, 1921F, p. 188).[5]

A liderança política de Pe. Matheus se manteve por vários anos. No ano de 1900 entrou em atrito com o intendente Alfredo Lima. Este conseguiu de Dom Cláudio Gonçalves Ponce de Leão, bispo de Porto Alegre, a remoção de Pe. Matheus da paróquia. Apoiado pela população e por Júlio de Castilhos, em outubro de 1900, Pe. Matheus foi reconduzido à sua função de pároco.[6]

g)      1899 – Silveira Martins

Após a misteriosa morte do Pe. Arnoffi, Pe. Sorio, que residia em Vale Vêneto, assumiu a paróquia de Silveira Martins em 15 de agosto de 1884. Inconformado com a partida do sacerdote, os moradores de Vale Vêneto, liderados por Paolo Bortoluzzi, fecharam a igreja e enviaram correspondência ao Governo da Província solicitando o retorno do padre à localidade. Não sendo atendidos em sua demanda, negaram-se a prestar qualquer colaboração econômica a qualquer sacerdote que não tivesse sua residência em Vale Vêneto. O próprio Pe. Sorio foi impedido de celebrar na capela da localidade. Em carta ao bispo, relatou o acontecido em Vale Vêneto:

Ontem, depois de celebrar a missa na matriz desta freguesia, dirigi-me para aquele referido lugar, Vale Vêneto, a fim de ali dizer missa hoje. Ali chegando, encontrei a capela cheia de gente e o negociante Paolo Bortoluzzi (o mesmo que motivara o abaixo-assinado dos colonos, na carta anterior) junto ao altar fazendo uma prédica. Exortando ele ao povo para que de nenhum modo me reconhecessem como pároco daquele lugar, não devendo ninguém, em caso nenhum, reclamar os meus serviços, pois só por esse modo se poderia obter um padre para residir aqui. (Apud: COSTA, 1998, 170-171).

Não tendo sucesso a pressão para o retorno do padre ao local, o comerciante Paolo Bortoluzzi escreveu a seu delegado na Itália para que buscasse uma congregação religiosa que desejasse estabelecer-se na localidade. Depois da negativa dos salesianos, a proposta foi aceita pelos padres palotinos que, no ano de 1886, enviaram dois sacerdotes para Vale Vêneto (BAREA, 1995, p. 68).

Enquanto isso, em Silveira Martins, no ano de 1890, começou a construção da igreja que foi inaugurada em 1893. Em 29 de dezembro de 1899, em circunstâncias também misteriosas, morreu também o Pe. Antônio Sório.

Conforme Vandrame (2013), na morte do Pe. Sório estavam envolvidos fatores passionais (teria desonrado uma moça), políticos e econômicos (o padre disputava a liderança da colônia com o comerciante Paolo Bortoluzzi) e ideológico (ousara confrontar a maçonaria local).[7] Conforme Rubert, a morte teria sido provocado pela maçonaria (RUBERT, 1977, p. 68). Já Costa isenta a maçonaria e considera a hipótese de que, senão o assassinato, pelo menos as pressões exercidas em Silveria Martins, primeiramente sobre o padre Arnofi e, posteriormente, sobre o padre Sorio, tiveram sua origem no poderoso comerciante Paolo Bortoluzzi:

Percorrendo a documentação existente no Arquivo da Cúria Metropolitana de Porto Alegre, não se encontra uma insinuação sequer contra os procedimentos morais dos padres Vittorio Arnoffi e Antônio Sorio, que segundo alguns teriam provocado suas mortes. Seguramente, a reação contra o comportamento moral dos mesmos seria maior do que a provocada pela mudança de residência deste último. Acusar-se-á, então, a maçonaria? Por que não considerar a reação de comerciantes que queriam sacerdotes e igreja a serviço de seus interesses? (COSTA, 1998, p. 171).

Os dois últimos autores, ligados à igreja, isentam o padre de qualquer deslize moral que tivesse levado ao crime passional. Costa, por sua vez, isenta a maçonaria e lança suas suspeitas contra os comerciantes locais.

h)      1895 – Nova Roma

Tendo os primeiros colonos chegado à região no início da década de 1890, com a colaboração das diversas linhas foi construída, no ano de 1895, a capela do Sagrado Coração de Jesus, na localidade de Nova Treviso. Naquele mesmo ano, no entanto, o bispo decidiu que a sede do novo curato a ser instalado seria na localidade de Nova Roma. Tal decisão levou a uma violenta luta entre os moradores das duas localidades que chegaram a enfrentar-se com armas. O conflito se acentuou quando a comunidade da Linha Castro Alves, onde, de novembro de 1896 a outubro de 1897, se estabeleceu o Pe. Giosué Bardin, nomeado para a assistência religiosa dos poloneses de Antônio Prado, Alfredo Chaves e Bento Gonçalves, também passou a reivindicar a sede do curato. A luta foi tão violenta que, ao chegar o primeiro capelão, Pe. Alfredo Peregrino, em novembro de 1897, teve que comprar de seu próprio bolso uma barraca para celebrar as missas e dormir, pois não havia nem igreja e nem casa canônica! Até 1908 nenhum pároco conseguiu permanecer de forma estável em Nova Roma devido aos conflitos na origem da Paróquia. Foi só com a chegada, em 1908, de Pe. Antonio Rizzotto, que o conflito começou, pouco a pouco, a ser esquecido (BAREA, 1995, p. 44).

As razões do conflito foram explicitadas por Pe. Henrique Compagnoni quando, ao deixar a paróquia, no início de 1914, mandou publicar carta no jornal “Il Colono Italiano” agradecendo ao povo de Nova Roma pela acolhida:

Antes que aceitasse esta paróquia, todos me falavam mal dela, pintando-a com negras cores, mas agora tenho conhecimento que todas aquelas conversas tolas a respeito de Nova Roma, não passavam de exagerações, e se no passado houve qualquer dificuldade, nunca foi devido à má vontade do povo, mas, pelo contrário, à má vontade de algum sacerdote, seduzido por insignificantes negociantes que o dominavam e se serviam do sacerdote mais para próprios interesses materiais, que para a salvação das almas; negociantes que ainda existem, porém, mais sóbrios e que pretendiam para o sacerdote o ofício de falcão em favor do caçador, isto é, convocar os paroquianos para o negócio assim como o falcão chama os passarinhos para a insidiosa rede. (COMPAGNONI, 1914, p. 2).

A crer na afirmação do padre, não apensa os comerciantes disputavam a presença do padre no local. Alguns padres aproveitavam a disputa entre os negociantes para buscar os próprios interesses.

i)       1898 – Caxias do Sul

Talvez o episódio em que mais se tornou explícito a disputa entre a liderança exercida pelo padre e o poder público municipal capitaneado pelo PRR e, no seu interior, os membros da maçonaria, foi aquele que teve como protagonista o padre Pedro Nosadini em Caxias do Sul. Tendo assumido a paróquia no dia 15 de julho de 1896, Pe. Pedro iniciou um intenso trabalho de organização dos católicos para barrar a influência maçônica na localidade. Fundou o Comitê Católico Santa Teresa, o Círculo Católico São Luiz Gonzaga da Juventude Caxiense, dotado de uma boa biblioteca e promoveu a realização da 1º Congresso Católico, em Caxias do Sul, no dia 14 de outubro de 1897. Para combater os inimigos da Igreja e divulgar a doutrina cristã. Para articular todas as atividades, fundou, em 1898, o jornal “Il Colono Italiano” (MANICA, 1950, p. 243).

Segundo Gardelin

o Pe. Pedro Nosadini, eclesiasticamente, foi uma das pessoas mais importantes da história de Caxias. […] Ele veio para cá trazendo as ideias, choques e conflitos da Unificação italiana e ele era papalino, veio atritar aqui, em meio a duas coisas: em primeiro lugar, os ‘carbonários’ e, em segundo lugar, a Maçonaria brasileira, que são duas coisas completamente diferentes. […] Saiu daqui profundamente magoado e deve ter voltado para a Itália, mas aquele entusiasmo nunca mais renasceu nele, entretanto, ele teria perfeitamente atendido às necessidades da população. Agora, a pesquisa sobre a Maçonaria, a força da Fraternidade – e é impressionante a leitura das Atas da Loja Maçônica -, recomenda prudência e moderação. É que, dentro da Loja havia o grupo dos ‘carbonários’, foram estes que incendiaram. (Apud HENRICHS, 1988, p. 24).

Concretamente, o conflito maior deu-se entre o Pe. Nosadini e o Intendente Municipal, José Cândido de Campos Júnior. Na eleição para o Conselho Municipal de 1896, o Intendente buscou cooptar lideranças dos Comitês Católicos. Temendo perder sua influência sobre os imigrantes, Pe. Nosadini começou uma campanha contra o Intendente. A maçonaria reagiu espalhando, através de jornais de São Leopoldo e Porto Alegre, que o padre teria vindo ao Brasil como prófugo da justiça italiana. As posições se acirraram. No dia 7 de janeiro de 1897, o padre organizou uma reunião dos membros dos Comitês Católicos e desfilou com 150 homens em frente à Intendência. Na madrugada seguinte, um grupo de 22 encapuzados atacou a casa canônica, prendeu o padre e, colocando-lhe na cabeça um cabestro, levaram-no para fora da cidade a fim de executá-lo. Por intervenção de Guido Livi e Angelo Chitolini, a execução foi suspensa e o padre expulso para São Sebastião do Caí. Ao invés de seguir o caminho indicado pelos que o haviam libertado, Nosadini buscou refúgio na casa da família Costamilan na localidade de Loreto onde foi tratado dos ferimentos sofridos. Na madrugada do dia 9 de fevereiro, acompanhado por cerca de 700 cavaleiros, retornou a Caxias, passou com o cortejo em frente à Intendência e se dirigiu à Nova Pádua onde permaneceu até o dia 14 de junho quando, após intervenção do Presidente do Estado, Júlio de Castilhos, retornou a Caxias triunfalmente recebido pela população.

Em 14 de outubro de 1897, Pe. Nosadini organizou o I Congresso da Federação das Sociedades Católicas italianas. Participaram do evento mais de 800 colonos, inclusive representantes das colônias alemãs acompanhados pelo jesuíta José Von Lassberg. As escaramuças entre os dois grupos continuaram tanto no terreno prático como nos jornais “O Caxiense” e o “Il colono italiano” fundados, o primeiro pelo grupo do Intendente e o segundo pelo Pe. Nosadini. Em fins de 1898 a situação se tornou insustentável paro o padre que deixou Caxias e retornou à Itália. Campos Júnior continuou à frente da Intendência até 1903. A loja maçônica Força e Fraternidade entrou em hibernação em 1903.[8]

Costa, também neste caso, mesmo reconhecendo a hostilidade da maçonaria para com a Igreja, apresenta a personalidade intransigente do padre como a causante do conflito: “Neste momento da história da Igreja em Caxias, o que graças a Deus se modificou mais tarde, um pouco por ideologia, um pouco pela personalidade intransigente de Pe. Nosadini, a maçonaria fez de fato hostilidade à Igreja.” (COSTA, 1998, p. 170)

j)       1902 – Protásio Alves

Conflito com causas desconhecidas aconteceu na Paróquia Nossa Senhora do Rosário do Turvo (atual Protásio Alves) envolvendo o padre carlista scalabriniano Giuseppe Pandolfi. Originário da Itália, foi ordenado em 1885. Depois de uma temporada em Boston, nos Estados Unidos, pediu para integrar-se à missão no Brasil. No ano de 1902 assumiu a recém-criada paróquia. Segundo Barea, “por graves motivos, este zeloso sacerdote deixou Turvo depois de um ano, passando o curato à administração dos [capuchinhos] de Alfredo Chaves” (BAREA, 1995, p. 53). Por ocasião da visita pastoral de 1905, o atendimento ao curato foi passado à responsabilidade do pároco de Capoeiras (atual Nova Prata). Somente em 1910 um padre voltou a residir no local. Pe. Antônio Serraglia tomou posse em 10 de fevereiro de 1910.

k)      1903-1905 – Vespasiano Correa

Apesar do cuidado com que os frades capuchinhos de origem saboaiarda administraram as relações nas cidades onde se estabeleceram, conflitos com lideranças políticas e econômicas locais também envolveram os frades. O mais notório teve como cenário a localidade de Vespasiano Correa (na época chamada Esperança) e se desenrolou em dois atos. O primeiro envolveu os frades que ali se estabeleceram em novembro de 1899 e o padre Teodósio Sanson. Este era pároco da localidade desde 1896 e havia solicitado a presença dos capuchinhos. O segundo ato será o da disputa entre os frades e os comerciantes do lugar aliados ao coronel Vespasiano Correa (D’APREMONT, 1976, p. 205-211).[9]

No conflito entre os frades e o pároco jogaram várias motivações, desde questões pessoais, como o provável concubinato entre o padre e uma jovem filha de uma família local, até a disputa sobre a propriedade do terreno em que fora construído o convento dos frades. Estes deixaram o local e retornaram a Garibaldi em maio de 1902. Em 1903, pressionado pelo bispo, o padre deixou a paróquia e a diocese e se retirou para Petrópolis. Os frades, a pedido do bispo, assumiram a paróquia e se iniciou então a segunda fase do conflito que é a que aqui nos interessa.

Ao preparar o retorno dos frades a Vespasiano Correa, Frei Bruno de Gillonnay, superior da missão capuchinha, propôs à Comissão da Igreja assumir a dívida restante e ficar com a propriedade do convento. A comissão era composta pelos principais comerciantes da cidade e por abastados colonos amigos do Pe. Teodósio (D’APREMONT, 1976, p. 209). Ausente da cidade, Pe. Teodósio nomeou como seu representante nas negociações ao coronel Vespasiano Correa, Intendente de Guaporé. Este mandou soldados ocupar o convento e a paróquia e impedir qualquer pessoa de ali entrar. Frei Bruno, em visita à localidade, foi impedido de entrar na igreja paroquial.[10]

Os frades, com autorização do bispo e de seus superiores, construíram outra igreja com casa canônica, ambas em madeira, fora do povoado, em terreno doado por Basílio Rossatti.[11] Enquanto a construção avançava, os frades residiam na casa de Giovanni Gionta, quatro quilômetros da cidade. Ali permaneceram por 14 meses (BAREA, 1995, p. 58).

A decisão dos frades desagradou ao coronel que viu sua autoridade contestada e também aos comerciantes que, nos domingos, já não podiam contar com o público do interior que se deslocava para a cidade para assistir às celebrações litúrgicas e fazer suas compras. O risco maior para eles era o de que, no entorno da nova igreja, surgissem outras casas de comércio. Para que tal não ocorresse, apelaram para a autoridade do coronel Vespasiano Correa o qual “[…] fazia o possível para impedir às pessoas assistirem às cerimônias, por ódio pela nova capela, cuja ereção deixava cair a antiga, de velha.”( D’APREMONT; GILLONNAY, 1976, p. 210).

O desenlace do conflito aconteceu por ocasião da visita pastoral de Dom Cláudio ao local nos dias 26 e 27 de janeiro de 1905. Informado da situação pelos frades, o bispo, no dia 26 ordenou à população transportar em procissão os ornamentos sagrados da igreja velha para a nova. No dia seguinte, a ordem foi executada. Na noite do dia 27, enquanto todos dormiam, a casa canônica onde estava o bispo e toda a sua comitiva foi atacada por forte tiroteio que durou mais de meia hora. O bispo foi atingido de raspão. Nenhuma outra pessoa foi ferida. Em meio à confusão, os objetos sagrados foram de novo transportados por pessoas não identificadas da igreja nova para a velha. No dia 28 o bispo retirou-se da cidade. Os frades voltaram a residir na propriedade de Giovanni Gionta onde celebravam privadamente e atendiam às pessoas.[12] Alguns meses depois regressaram a Garibaldi. A paróquia permaneceu vacante por um ano. Em pouco tempo o convento foi destruído e os tijolos usados em outras edificações. Em 1906 foi nomeado como pároco o Pe. Francisco Acierno o qual transferiu a sede da paróquia para a antiga igreja, sendo a nova abandonada (BAREA, 1995, p. 58; D’APREMONT; GILLONNAY, 1976, p. 210-211).

Não querendo tensionar mais ainda a situação, Dom Cláudio não apresentou queixa judiciária. O promotor público, por sua vez, sabendo que no fato estava envolvido o coronel Vespasiano Correa, conduziu o caso sem pressa e este acabou sendo esquecido.

l)       1904 – Antonio Prado

Nascido na Itália no ano de 1865 e ordenado em 1890, Pe. Carmine Fasulo, para vir ao Brasil, integrou-se à Congregação dos Padres Palotinos. Em 1893 passou ao clero da diocese do Rio Grande do Sul e foi o primeiro cura da Linha Palmiro onde estava situado o Santuário de Nossa Senhora de Caravaggio. Em 18 de novembro de 1897 assumiu o curato de Antônio Prado (COSTA, 2007, p. 290-291). Em 1899, foi candidato a Intendente e recebeu a grande maioria dos votos. Por ser sua candidatura de oposição ao PRR, a eleição foi anulada e assumiu o candidato do partido oficialista que fizera apenas 50 votos.[13] Em 31 de maio de 1900 o curato foi elevado a Paróquia. Em 1903, um conflito fez com que o padre se retirasse temporariamente para a localidade de São Luiz do Formigueiro (atual Ipê). Barea apresenta como motivo para a retirada do padre da cidade “[…] uma pequena luta religiosa […]” (BAREA, 1995, p. 91). Já Frei Bruno de Gillonnay, associando a saída com um conflito que o pároco tivera com as irmãs, afirma apenas que “em Antônio Prado, o Pároco foi expulso pelo povo.” (GILLONNAY, 2007, p. 283-284).

Barbosa apresenta como causa da retirada do padre para Formigueiro a perseguição de um grupo de carbonários anticlericais que se sentiram incomodados com o incremento das atividades religiosas promovidas pelo novo pároco na localidade. Com a colaboração de alguns imigrantes, alegando razões de ordem moral – o padre haveria assediado sexualmente as mulheres do grupo das Filhas de Maria -, armaram uma cilada a fim de expulsá-lo da localidade. O padre conseguiu evadir-se e refugiou-se na localidade de Formigueiro onde permaneceu por dois meses. De lá, retirou-se para Caxias e voltou a assumir o curato de Caravaggio. Em 1909 fundou o jornal “La Libertá” que seria posteriormente adquirido pelo padre João Fronchetti de Garibaldi (BARBOSA, 1980, p. 40-42). Grazziotin, a partir da investigação da presença da Loja Maçônica em Antônio Prado, afirma que o conflito não poderia ter sido com os maçons, pois não existia loja na cidade naquele momento, mas com carbonários abrigados na Sociedade de Mútuo Socorro Vitorio Emmanuelle III (GRAZZIOTIN, 2008, p. 87-95).

Já um frade francês que residia na vizinha Nova Trento, narra, sob o pseudônimo de “José da Silva”, no ano de 1904, ou seja, logo após os fatos acontecidos, uma versão com algumas variantes e que devem ser considerados, dada a proximidade do narrador:

O pároco, homem ardente e zeloso, tinha tido suas complicações com alguns membros da administração. Estes, que não tinham a resignação dos monges, resolveram vingar-se. Tendo o cura ido celebrar a missa numa de suas capelas, lá pela meia-noite, uma tropa de satéllites tomara a casa, invadiram o quarto onde o padre dormia tranquilamente e, colocando-lhe a pistola na garganta, obrigaram-no a sair da paróquia. No caminho, o padre conseguiu escapar e correu para Antônio Prado onde o povo lhe fez uma festa. Mas sua posição se tornava insustentável. Obrigado a ir a Porto Alegre para obter justiça, ele retornou pouco depois e transferiu a sede da paróquia para Formigueiro. Formigueiro é um grupo de casas situado na paróquia de Antônio Prado, mas dependendo, no civil, do município de Vacaria. Tu compreendes, caro amigo, a raiva dos franco-maçons presos na sua própria armadilha. O comércio morria e no domingo o povo ia para Formigueiro, enquanto que Antônio Prado ficava deserto. Dizia-se que o cura ficaria no seu novo lugar até que seus inimigos fossem castigados e humilhados. Estes espalhavam que, se o padre voltasse para Antônio Prado, daí ele não sairia vivo, etc. (SILVA, 1904, p. 340).

A primeira diferença é em relação à sequência dos fatos. Enquanto nas outras narrativas o atentado se dá no caminho em direção ao Passo do Simão, aqui há um sequestro que é iniciado na própria casa do padre. Nas duas versões a fuga se dá no caminho em direção ao Rio das Antas, mas enquanto nas outras narrativas o padre foge para Formigueiro, na narrativa de José da Silva o padre retorna a Antônio Prado, dali vai a Porto Alegre e, no retorno, por não encontrar condições para permanecer em Antônio Padre, estabelece-se em Formigueiro. O episódio, na narrativa de José da Silva, tem sua origem no conflito do padre com os membros da administração municipal. Na época do fato, o intendente de Antônio Prado era o Tenente Coronel da Guarda Nacional Inocêncio de Matos Miller. Originário de Passo Fundo, foi nomeado por Borges de Medeiros em 1899 e reeleito por unanimidade nos anos de 1903, 1907, 1910, 1911, 1915 e 1919. Nas eleições de 1922 foi derrotado pela candidato do Partido Libertador. A votação de Antônio Prado, no entanto, foi anulada pelo relator da eleição na Assembleia, o deputado Getúlio Vargas. Inocêncio de Matos Miller continuou como Intendente, renunciando no ano seguinte, em função da avançada idade (BARBOSA, 1980, p. 34-37).

Mesmo não havendo loja maçônica em Antônio Prado, é provável que o Intendente tivesse vínculo com tal associação, daí a associação feita por José da Silva dos membros da administração com os franco-maçons. Mas o mais interessante e novo do relato é que, os que mais foram prejudicados com a transferência da sede da paróquia para Formigueiro foram os comerciantes locais que não mais recebiam o povo nos domingos por ocasião da missa.

O capuchinho francês termina sua narrativa com uma expressão de admiração pelo modo como o episódio foi concluído:

Quando cheguei [em Formigueiro], o padre, bastante sofrido, ainda estava na cama. Ele me fez entrar e depois das saudações habituais, eu lhe contei, em segredo, os propósitos e as ameaças que eu tinha escutado na véspera. “Tudo bem! Me respondeu ele, se eles querem me matar, eu os entendo.” Ou seja, ele esperava os seus inimigos sem medo. O intendente de Vacaria tinha enviado seus soldados para fazer a guarda do pároco de Antônio Prado, refugiado em seu território. Dia e noite, negros em uniformes velavam ao redor da casa de madeira habitada pelo cura. Na porta da capela que servia de igreja paroquial, era mantido continuamente um posto de guarda, e eu não estava pouco surpreso ao ver tal guarda. Pensas, talvez, meu amigo, que estas questões se terminaram em sangue. Nada disso. Hoje tudo está calmo: o padre foi embora, seus agressores voltaram tranquilamente para casa, os soldados de Vacaria foram retirados, e ninguém mais fala nessas coisas. Esse é o jeito como as coisas se resolvem no Brasil. (SILVA, 1904, p. 369).

Neste episódio, o padre, apesar de sua popularidade, foi derrotado. O intendente, os comerciantes e os carbonários, foram os vitoriosos e mantiveram o seu domínio sobre a população local.

m)    1905 – Serafina Correa

No ano de 1905, em visita pastoral à região, Dom Cláudio Gonçalves Ponce de Leão, depois de passar por Guaporé, visitou também a Linha XI e, diante da numerosa população, prometeu enviar um sacerdote para ali residir. Em Guaporé, tal promessa suscitou enorme oposição. Apesar disso, a paróquia foi criada no final do ano de 1905.[14]

n)      1913 – Fagundes Varela

Os primeiros colonos estabeleceram-se na região em 1888 e construíram sua primeira capela em 1891 na localidade conhecida por “Cem do Barro Preto”. No início, a capela era visitada pelo pároco da vizinha Veranópolis, Pe. Matheus Paschoali. Com o estabelecimento dos carlistas, no ano de 1900, em Nova Bassano, estes passaram a dar atendimento à capela. Com a construção da estrada ligando Veranópolis a Guaporé, a região ganhou importância e passou a reivindicar a criação de um curato. A divergência era quanto ao local, pois várias capelas disputavam a sede. Em 1904, Pe. Massimo Rinaldi foi nomeado para estabelecer a sede do curato na localidade conhecida como Bela Vista, mas, “[…] devido às divergências sobre o local da sede, retirou-se depois de algum tempo e, por isso, não concretizou-se a criação do curato. A paróquia de Bela Vista só seria criada no ano de 1913 quando ali se estabeleceu o Pe. Giuseppe Pandolfi.” (BAREA, 1995, p. 51-52).

o)      1913 – Sananduva

Em Sananduva, na região norte do Estado, filhos de colonos italianos oriundos das Colônias Velhas, passaram a ocupar os extensos bosques da região então habitados por kaingangs. Presentes na região desde 1903, frades capuchinhos de Saboia passaram a residir na cidade em 1911 e, em 24 de março de 1912, Frei Léonard de Chambéry assumiu o curato. Quinze meses depois, Frei Léonard retirou-se do local devido às disputas suscitadas em torno ao local para a construção de uma nova igreja (BAREA, 1995, p. 54). A antiga fora construída na praça central. Segundo o visitador diocesano, Cônego João Peres, era uma igreja “[…] de magnífico aspecto, de elegante estilo gótico, pintada interna e externamente, não tendo nada a invejar em beleza a muitas outras Igrejas de alvenaria.” (Apud BAREA, 1995, p. 54-55).

Para Frei Léonard a igreja era pequena demais para a população que a cada dia crescia. Adquiriu ele 50 hectares de terra afastados do centro da cidade para, no alto de uma colina, construir uma nova igreja. A população da cidade opôs-se ao projeto. Os moradores do interior tomaram a defesa do pároco. Assim resume Stavinski o conflito:

Acaloraram-se as dissensões entre os moradores da sede e os da colônia. Estes queriam que a Igreja nova fosse erguida na referida colina. Aqueles, movidos por fins interesseiros, obstinavam-se em querer que a Igreja não fosse afastada da praça. (STAVINSKI, 1970, p. 103).

Zambonin também afirma ter sido a mescla de interesses religiosos, comerciais e políticos a causa da disputa quanto ao local da Igreja:

Tão logo se soube dos novos planos e projetos do Frei Léonardo, houve veementes protestos por parte da população, principalmente dos comerciantes que, misturando assuntos religiosos com comerciais e políticos, procuraram por todos os meios possíveis dissuadir o cura de sua intenção. Frei Léonardo, todavia, ficou firme em seus propósitos, ocorrendo, por isso, um grave incidente com ele. Os descontentes quiseram, segundo uns, dar uma lição ao teimoso sacerdote e planejaram mandá-lo de volta montado num burro, ao passo que outros queriam matá-lo. Tanto é verdade que o Frei Léonardo safou-se dessa incômoda situação vexatória, por interferência direta de Isidoro José Machado que, percebendo as más intenções de algumas pessoas, logrou escondê-lo, à noite, em sua casa e pela madrugada conseguiu dar-lhe fuga, tendo o padre, a cavalo, fugido para Caseiros, acompanhado de Isidoro José Machado. Tal incidente ocorreu em julho de 1913. (ZAMBONIN, 1996, p. 309).

Frei Gentil Giacomel, que sucedeu a Frei Léonard na paróquia de Sananduva, apresenta a disputa com mais detalhes e a situa no contexto político da cidade. Conforme seu relato, a cidade estava dividida pela disputa entre os coronéis Maximiliano de Almeida e Helidoro de Morais Branco:

Após uma intensa luta a fim de escolher o local para a nova Igreja, o Pe. Fr. Léonardo de Chambéry com Suzanna, Biolo e Boaretto [apoiados pelo coronel Maximiliano de Almeida] opinava e propugnava que se abandonasse a praça central e se construísse a nova Igreja fora do barulho, na colônia da mitra. Raimundi, Vecchi, Dall’Igna e Mesquita [apoiados por Helidoro de Morais Branco] defendiam que se construísse no centro. Uma verdadeira divisão. (GIACOMEL, 1975, p. 16).

Afastar a Igreja da praça significava para os comerciantes ligados ao grupo do coronel Helidoro de Morais Branco, ver o fluxo de pessoas afastar-se de seus locais de comércio e os seus ganhos prejudicados. Ou então teriam que mudar-se para local próximo da nova igreja, o que demandava novo investimento.

Após a saída de Frei Léonard da cidade, Dom Miguel de Lima Valverde, bispo de Santa Maria, suprimiu o curato que só foi restabelecido em 1914. Quanto à construção da igreja, o projeto foi retomado no final de 1915. Por determinação do bispo, a igreja foi construída na praça da cidade. Para coordenar a comissão de construção, juntamente com o pároco, Frei Gentil de Caravaggio, o bispo nomeou o Coronel Helidoro de Moraes Branco, o qual era, nas palavras de Dom Miguel, um homem “em cujas qualidades de espírito e de coração muito confiamos.” (STAWINSKI, 1970, p. 106). O local era o desejado pelos comerciantes da cidade. Da comissão de construção foram excluídos os representantes dos colonos.

Concluindo

A precariedade dos registros e a complexidade das situações por nós elencadas faz com que, na maioria dos casos, possa ser afirmada a existência de um conflito e, nele, o envolvimento do clero. Com exceção, talvez, do episódio envolvendo o Pe. Nosadini em Caxias do Sul, todos apresentam, além do fator político e ideológico, também interesses econômicos, questões de personalidade dos envolvidos e também elementos passionais.

Tudo isso, no entanto, não impede de afirmar que as tensões e os conflitos entre a Igreja e o Estado no Rio Grande do Sul e, especificamente, na RCI, são fruto das profundas transformações vividas pela sociedade brasileira no final do séc. XIX e início do séc. XX. No campo religioso, a transformação mais significativa foi a separação entre igreja e estado e a afirmação da liberdade de culto, tanto pessoal como institucional.

É neste horizonte amplo de tensão entre o projeto de sociedade positivista e o projeto eclesial que podem ser situados os conflitos que pipocaram na RCI e, como com certeza podem demonstrar outros estudos, em muitas das cidades do Rio Grande do Sul.

Também dificulta o entendimento do conflito a simplificação, feita por muitos historiadores eclesiásticos, especialmente os ligados à corrente apologética, de atribuir todos os conflitos à perseguição maçônica e carbonária contra a Igreja. Tal simplificação não dá conta da complexidade da situação e das alianças que, como vimos acima, se constituíam a nível local, entre os interesses políticos dos intendentes e demais autoridades nomeadas pelo PRR e os comerciantes, industriais e profissionais liberais locais que buscavam constituir-se como liderança econômica e política em tensão com os colonos e os clérigos.

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[1] Licenciado em Filosofia, Mestre e Doutor em Teologia (Faculdades EST, São Leopoldo, RS, 2017). Professor na Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana (ESTEF – Porto Alegre)

[2] Incluímos neste nosso estudo, além das colônias italianas da Região da Serra do Nordeste, também a chamada Quarta Colônia (Região de Santa Maria).

[3] A saga da família Bortoluzzi é contada em forma de romance em: BERNARDO, Ulderico. Il lungo viaggio. Dalle terre venete ala selva brasiliana. Treviso: Santi Quaranta, 2007.

[4] PARÓQUIA São Pedro. Livro Tombo I, p. 10. Conde d’Eu, 29 de janeiro de 1893.

[5] Ver também: PAROQUIA São Luiz Gonzaga. Livro Tombo I (1896-1934), p. 3-3B. Alfredo Chaves, [s.d]. Um histórico da atuação do Pe. Mateus Pasquali em Alfredo Chaves pode ser encontrado em: DUARTE, Eduardo. Padre Mateus Pasquali e seu curato. Veranópolis: Tipografia Pessato, 1953. O fato é assim descrito por Frei Bernardin: Par la revolution: le chef des féderaux lui fend le crâne avec son sable, le surprent prêt la récitation de l’office; mais don Matteo saisit l’adversaire et le contient. Caché dans l’église, pour 3 jours, posté à l’unique ouverture avec une hache: ‘s’ils viennent, je ferai jouer l’instrument’. Reçut les félicitations du gouvernement en étant un des fidèles de la Repúblique. (D’APREMONT, Bernardin. Journalier 5(1898-1899), p. 57. Archive des Capucins/11A).

[6] PAROQUIA São Luiz Gonzaga. Livro Tombo I (1896-1934), p. 5B-6. Alfredo Chaves, [s.d].

[7] Embora com argumentação diferenciada, as conclusões de Vescio sobre o caso são muito semelhantes às de Vendrame (VÉSCIO, Luiz E. O Crime do Padre Sório : Maçonaria e Igreja Católica no Rio Grande do Sul. (1893-1925). Porto Alegre: Editora da UFRGS; Santa Maria: Editora UFSM, 2001.

[8] O conflito é apresentado, na perspectiva católica, com ampla documentação e detalhes de pessoas que o viveram em: COSTAMILAN, Ângelo Ricardo. Homens e mitos na história de Caxias. Porto Alegre: Posenato Arte e Cultura, 1989. Ver também: ADAMI, João Spadari. História de Caxias do Sul; 1864-1962. T. 1. Caxias do Sul: São Miguel, 1971.

[9] No Livro Tombo da Paróquia São João Batista de Vespasiano Correa, no Termo de Abertura redigido em 1929 pelo Pe. Alfredo Criúschero, é feita menção à segunda fase do conflito. Nada se fala, no entanto, das razões e das pessoas envolvidas nele (PARÓQUIA São João Batista, Livro Tombo I, 1915-1974). Termo de Abertura. No “Termo de Visita” redigido em 15 de maio de 1915 por Dom João Becker, fala-se da abertura de “um novo Livro Tombo”, o que pode significar que existia um Livro Tombo anterior onde poderiam estar registrados os eventos aqui mencionados e que foi suprimido por Dom João Becker por ocasião da visita (PARÓQUIA São João Batista, Livro Tombo I. Vespasiano Correa, 1915-1974, p. 1B).

[10] D’APREMONT, Bernardin. Journalier 10 (1904), p. 12. Paris, Archive des Capucins/11A.

[11] D’APREMONT, Bernardin. Journalier 10 (1904), p. 4. Paris, Archive des Capucins/11A; PONCE DE LEÃO, Cláudio José. Lettre de Mgr. Claudio Gonzalves, ev. de St. Pierre sur la situation matérielle des maisons de la Mission. Porto Alegre, 30 mars 1906. Paris, Archive des Capucins/5P/Archives Généralices/2; GILLONNAY, Bruno de. A Igreja e os capuchinhos do Rio Grande do Sul: correspondência – 1895-1909. Porto Alegre: EST, 2007. P. 308.

[12] PARÓQUIA São João Batista, Livro Tombo I (1915-1974). Termo de Abertura.

[13] D’APREMONT, Bernardin. Journalier 5 (1898-1899), para 78. Paris, Archives des Capucins/11A.

[14] BAREA, op. cit., p. 58.

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