Arquivo mensal: abril 2021

Morrer para dentro

Os números nos excedem. São tão monstruosos que ultrapassam nossa capacidade de mensuração. Não é que não saibamos mais contar ou que dois mil, três mil, quatro mil ou quatrocentos mil sejam quantidades que já não nos dizem nada. Nosso cérebro conta. Mas ele não consegue mais processar o que significa tal quantidade de mortos. A cifra e a dor embutidas nela são de tal monta que a única defesa é o anestesiamento auto infligido. Um anestesiamento emocional para poder suportar a dor e a vergonha de uma sociedade que se permite a morte das pessoas mais frágeis.

A eutanásia é algo não admitido pela maioria das pessoas em nossa sociedade. Muito menos a eugenia e o extermínio dos fracos e indigentes. Na história da humanidade, apenas regimes totalitários adotaram tais práticas. E as pessoas que lideraram tais processos genocidas são hoje apresentados como excrecências históricas. No entanto, o modo como está sendo abordada por alguns líderes brasileiros a crise da Covid19 faz com que nos coloquemos interrogações sobre as reais intenções que os animam. Quando um prefeito de uma capital apela a um cidadão para que “contribua com sua vida para que a gente salve a economia”, estamos muito perto da barbárie.

O peso é tanto, que muitos já não o suportam. A dose de autoanestiamento exigido para poder suportar o absurdo civilizatório em que fomos jogados é tão pesada que muitos já não conseguem emergir das trevas que nos rodeiam. São poucas as manchetes dos jornais e os espaços televisivos e radiofônicos que tratam de tal assunto. Mas cada um de nós – feliz de você se não está neste número – sabe de um familiar, amigo ou conhecido que, em meio à pandemia, tomou a decisão de acabar com a própria vida. Às vezes pessoas que imaginávamos nunca chegariam a tão trágica opção. Um médico, um professor, um padre, um pastor… Personalidades que sempre imaginamos fortes, conscientes, respeitosas da vida dos outros e da própria. Num gesto inexplicável e incompreensível decidem partir deste mundo que se tornou insuportável.

Alguns dos que desta maneira partem deixam uma mensagem de despedida. Outros partem sorrateiramente sem deixar qualquer vestígio. No primeiro caso, suas palavras são um chamado a ser escutado. No segundo, seu silêncio é um grito de dor a ser respeitado. Porque ninguém que parte desta maneira, parte sem dor. O suicídio é o ponto final de um longo e penoso processo de partidas interrompidas e nunca escutadas.

O suicídio é uma decisão individual. Mas ele revela um mal-estar social. Assim como não existe vida que nasça por si mesmo, toda morte carrega consigo um pedaço da vida dos outros. Cada suicídio é também um pouco de cada um de nós que morre. Em cada um que opta por partir, é denunciada a cultura tanatófila de nosso tempo que se tornou insensível à morte de milhões.

Vivemos uma explosão de mortes. É tamanha que ultrapassa tudo o que nossa geração já viveu. É preciso interrompê-la já. Mas é preciso estar também e desde já atentos às vidas que implodem por já não suportarem tanta dor. É preciso manter distância física para evitar o contágio viral. É indispensável aproximarmo-nos dos que estão à deriva e na ameaça de implosão e dar-lhes apoio emocional. A morte não é apenas o espetáculo morboso no jornal televisivo da noite. Há muitos morrendo silenciosamente para dentro. Para estes, não basta máscara, distanciamento e vacina. É preciso aproximação, carinho e compaixão.

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A Igreja não se fecha!

Escrevo este texto na terça-feira da Páscoa. Uma Páscoa diferente. Diferente como foi a do ano passado. Uma segunda Páscoa em meio à Pandemia. Uma Páscoa com celebrações restritas. E com poucas comemorações. Uma Páscoa com Igrejas fechadas ou com acesso limitado. Uma Páscoa com o comércio vazio e os cemitérios lotados. O choro da Paixão do Senhor continuou no sábado e domingo e segue ainda hoje pelo contágio, intubação e morte de pessoas cada vez mais próximas de nós.

O silêncio do sábado de espera foi rompido por uma notícia insólita. Um ministro do Supremo Tribunal Federal autorizou liminarmente a realização de cultos religiosos em todo o Brasil. Decisão monocrática e contrária a outras decisões anteriores do Pleno do STF. Prefeitos, governadores e até outros membros da Suprema Corte manifestaram-se contrários. As igrejas afiliadas ao Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) chamaram ao bom senso e à necessidade de não fazer dos templos um lugar de transmissão do vírus e de propagação da morte.

A intervenção de outro ministro do STF fez com que a disputa seja decidida amanhã, quarta-feira, no plenário do STF. Esperamos a decisão. Será uma decisão jurídica que todos os brasileiros e brasileiras terão como referência. Do ponto de vista religioso, no entanto, a polêmica veio colocar um ponto de não retorno no cristianismo brasileiro. E não apenas nesta ou naquela denominação religiosa. É um marco que atravessa todo o cristianismo porque, em todas as igrejas, há membros que defendem a abertura e membros que defendem o fechamento.

O que está em questão, é o que compreendemos por Igreja. Quando falamos a palavra “igreja”, pensamos no prédio em que nos reunimos ou pensamos na comunidade que é o Corpo de Cristo e o Templo do Espírito Santo? Se esta segunda compreensão é a que habita nossos corações, não há necessidade de templos abertos para praticar a fé. Onde dois ou mais estiverem reunidos, aí está Deus no meio de nós. Como diz a nota do CONIC, isto pode ser feito em família, online e no coração de cada um. E mais: onde houver um irmão ou uma irmã passando fome, com sede, nu, doente, preso… aí está o próprio Cristo. Não há necessidade de ir ao templo para encontrá-Lo. Ele está abandonado em nossas ruas, parques, praças perambulando por não ter casa e, desempregado, pedindo pão para seus filhos. Ele está clamando nos hospitais lotados e nas UTIs abarrotadas, esperando atendimento, intubado, morrendo… Os verdadeiros adoradores, já dizia Jesus, não são os que vão ao Templo de Jerusalém ou ao Monte Garizim para rezar, mas os que o adoram em Espírito e Verdade.

A decisão do STF será uma decisão jurídica. Prevalecerá a lei, a Constituição que esperamos seja interpretada com o bom senso que a situação merece. Mas a decisão de fé já está dada. As duas opções são claras: há os que adoram o Deus da Vida e os servidores da morte. Há os pastores que dão a vida pelas ovelhas (e os há em todas as igrejas) e há os mercenários que só pensam no dízimo e nas doações dos fieis. Há as Igrejas e há os grupos empresarias que exploram a fé dos pobres e desesperados. Essa é a divisão básica entre as igrejas e em todas as igrejas. Independentemente do que decida o Supremo Tribunal Federal, cada um e cada uma sabe o lado que está tomando. Não há mais o que fingir. Deus está vendo. E todos nós também. Amém.