Arquivo mensal: dezembro 2011

La piel que habito

“Não sentir-se bem na própria pele” é um sentimento que, todos e muitas vezes na vida, já experimentamos e, com certeza, voltaremos a experimentar. Por opção ou por circunstâncias alheias à nossa vontade somos levados a “vestir peles” que nunca imaginamos poderíamos tomar por nossas ou então somos obrigados a “vestir peles” contra a nossa vontade. A vida é um jogo de relações onde nem sempre somos sujeitos absolutos. Em cada relação, ao mesmo tempo que desenhamos a pele dos outros, também somos por eles desenhados…
É sobre este sentimento de ser obrigado a vestir uma pele que nos incomoda e da qual não podemos fugir que versa o filme “A pele que habito” de Pedro Almodóvar. Polêmico por opção e por arte, Almodóvar nos faz refletir a partir da relação extrema entre um cirurgião plástico e um jovem que, por azar, cruza em seu caminho e se torna, ao mesmo tempo, vítima de sua vontade de vingança e de sua busca científica.
Como não poderia deixar de ser, a história termina em tragédia. Aliás, na verdade, a história não termina… O personagem que é obrigado a viver em uma pele que não é a sua e que nunca a quiz, é o único que continua vivo e sem nenhuma indicação do que com ele poderá acontecer. Como todo bom final, o final não é feliz, mas cabe a cada expectador colocar-se no lugar do personagem e imaginar o seu próprio fim.
Com certeza, mais um bom filme de Almodóvar que vale a pena.
Para detalhes ver a página oficial do filme em http://www.lapielquehabito.com

Feliz Natal

Neste tempo de Natal com muito comércio, muita religião e pouca fé, uma poesia de Fernando Pessoa pode nos ajudar a colocar no espírito de Natal com palavras que só poetas são capazes de dizer. Um bom Natal a cada um e cada uma.

O guardador de rebanhos – VIII
Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)

Num meio dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra,
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu,
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras,
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas –
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três,
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz no braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras nos burros,
Rouba as frutas dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas,
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus,
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia,
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou –
“Se é que as criou, do que duvido” –
“Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
mas os seres não cantam nada,
se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres”.
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos a dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.
Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales,
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos,
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu no colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

Esta é a história do meu Menino Jesus,
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?

Desrmamento e armas de fogo

No dia 23 de outubro de 2005, os eleitores brasileiros foram convidados a expressar sua decisão sobre a continuidade ou não da venda de armas de fogo no Brasil. Tratava-se de permitir o u n ão a entrada em vigor do artigo 35 do Estatuto do Desarmamento (Lei 10826 de 23 de dezembro de 2003) que dizia: “É proibida a comercialização de arma de fogo e munição em todo o território nacional, salvo para as entidades previstas no art. 6 desta Lei”.
Como é do conhecimento de todos, o resultado final foi de 59.109.265 votos rejeitando a proposta (63,94%), enquanto 33.333.045 votaram pelo “sim” (36,06%). E o comércio de armas de fogo e munição continuou legal no Brasil.
Seis anos depois, dados do Ministério da Saúde indicam que 35.233 brasileiros morreram, em 2010, vítimas de armas de fogo. O número corresponde a 70,5% dos 49.932 assassinatos comet idos no país, no ano passado. Se forem considerados os suicídios, os acidentes e mortes de intenção indeterminada, as armas de fogo foram os instrumentos responsáveis pela morte de mais de 38 mil pessoas. O levantamento faz parte do Sistema de Informações de Mortalidade publicado regularmente pelo ministério em seu site
Os números, que ainda são preliminares, são inferiores aos registrados em 2009 (39,6 mil mortes violentas, sendo 36,6 mil homicídios provocados por armas de fogo), mas ainda são consideradas “altas taxas”.
Os dados objetivos – 38 mil pessoas mortas! – e, de por si, assustador. Mas também convida a olhar o lado subjetivo: cada uma dessas 38 mil pessoas faz parte de uma família, de uma comunidade, tem um grupo de relações, pessoas que a amam e depende delas. E que, diante da morte violenta de uma pessoa querida se dizem: por que isso foi acontecer!
Há muitas razões… mas uma delas tem que ser lembrada: porque havia uma arma de fogo à mão! Se não houvesse tantas armas de fogo à disposição de pessoas – equilibradas ou desiquilibras, não importa – muito menos mortes aconteceriam.
E uma pergunta: aqueles e aquelas que, no dia 23 de outubro de 2005, votaram a favor da continuidade da comercialização de armas de fogo e munição, como se sentem quando uma pessoa de suas relações (familiar, amigo, vizinho, colega de trabalho…) é assassinado+ Será que, se o plebiscito fosse novamente proposto, votaria da mesma forma+
Certamente é algo a se pensar…

A vida quer é coragem

 A revista brasileira “Época ” publicou, este fim de semana, uma fotografia inédita da Presidente do Brasil. Na imagem, Dilma Roussef tinha 22 anos e estava há 22 dias a ser torturada e interrogada pelas autoridades militares. A fotografia faz parte de uma biografia, feita por antigo assessor, Ricardo Amaral, e foi descoberta no processo da justiça militar contra Dilma. “A vida quer é coragem” relata o percurso de Dilma desde a sua participação na luta armada contra o regime militar até chegar ao Palácio do Planalto. O livro chega às bancas ainda este mês.
Dizem que “uma imagem vale por mil palavras”. Nesta foto, este dito é mais válido do que nunca. Não se sabe quem foi o fotógrafo e, por isso, se a pose foi intencional. Dilma, depois de 22 dias de tortura, se mantém de corpo e cabeça erguida, o olhar tranquilo e seguro e a boca a esboçar um sorriso, não se sabe se de dor ou de ironia frente a seus algozes e ao fotógrafo que quer deixar tudo registrado. As mãos tranquilas descansam sobre as pernas como a dizer: a luta segue!
Quanto aos inquisidores… parece que estão com vergonha de ter que posar ante cena tão degradante. Na atitude de todo subordinado insano que se refugia na desculpa de que estão apenas cumprindo ordens, abaixam a cabeça e escondem o rosto. Não querem que seu rosto e seu nome fiquem para a posteridade. Isso que jamais poderia passar por suas cabeças que aquela que estava na sua frente um dia seria Presidenta do Brasil e Comandante em Chefe das Forças Armadas que aí a estavam torturando.
Esta foto só veio à tona agora. Mas todos podemos imaginar o que passou pela cabeça de Dilma e pelas dos militares que a torturaram no dia 1º de Janeiro de 2011 quando a ex-guerrilheira tomou posse e, dentro da cerimônia, passou em revista as tropas. Certamente toda a história recente do Brasil, especialmente a dos últimos 50 anos, se condensou nas suas memórias e nas de muitos brasileiros e brasileiras.
Oxalá que como nação brasileira possamos fazer memória de nosso passado para construir um futuro com democracia e justiça.