O voto de pobreza: reflexões a partir do Magistério do Papa Francisco

Vanildo Luiz Zugno[1]

Introdução

A Lumen Gentium (43-44), ao tratar dos conselhos evangélicos de castidade consagrada a Deus, de pobreza e de obediência, apresenta-os como a) um Dom de Deus, b) um serviço a Deus, c) um dom à Igreja, d) um serviço ao Reino, e) um sinal escatológico na Igreja e f) um sinal escatológico para o mundo.

Seguindo a perspectiva conciliar, a Exortação Apostólica Vita Consecrata apresenta o “ser sinal escatológico” como a dimensão profética “inerente à vida consagrada enquanto tal” (VC 84). Para João Paulo II, “devido ao radicalismo do seguimento de Cristo e da consequente dedicação à missão que o caracteriza”, para a/o religiosa/o, “nada pode ser preferido ao amor pessoal por Cristo e pelos pobres, nos quais ele vive”(VC 84).

Para viver a dimensão profética, há um pressuposto necessário: estar a serviço do desígnio de Deus sobre os homens e estar atentos aos sinais da ação providente de Deus na história. Ou, nas palavras de João Paulo II, “para cumprirem convenientemente tal serviço, as pessoas consagradas devem ter uma profunda experiência de Deus e tomar consciência dos desafios do seu tempo, identificando o sentido teológico profundo deles por meio do discernimento realizado com a ajuda do Espírito” (VC 73).

Com estes dois pressupostos cumpridos, será possível “trabalharmos segundo os seus planos com uma inserção ativa e fecunda nos acontecimentos do nosso tempo” (VC 73).

Nesse trabalho em que reunimos elementos do magistério do Papa Francisco para reler o voto de castidade no mundo de hoje, seguiremos metodologicamente os passos apontados pela VC. Num primeiro momento assinalaremos os “sinais dos tempos” relacionados à temática da pobreza apontados pelo Papa Francisco, em seguida veremos como ele os reflete a partir do desígnio de Deus sobre a humanidade e, para finalizar, como podemos trabalhar para que o plano de Deus seja realizado ativa e fecundamente em nosso tempo.

Por que ser pobre?

Segundo o Papa Francisco, o primeiro “sinal dos tempos” ao qual a VRC responde com a profissão da pobreza evangélica é o “materialismo ávido de riqueza, sem qualquer atenção pelas exigências e sofrimentos dos mais débeis, nem consideração pelo próprio equilíbrio dos recursos naturais” (EG 89).

Materialismo que não se expressa como proposição filosófica ou antirreligiosa, mas como um sistema econômico que transforma as pessoas e as outras criaturas de Deus em mercadoria. A economia, ao invés de “preocupar-se com o justo nível da produção, uma melhor distribuição da riqueza, um cuidado responsável do meio ambiente ou os direitos das gerações futuras” (LS 109), tornou-se “um economia da exclusão e da desigualdade social” (EG 53).

A primeira e mais nefasta consequência são relações econômicas que, ao invés de produzir e sustentar a vida, geram “esta economia que mata” e gera “exclusão” (EG 53). Morte e exclusão que constatadas tanto no quotidiano das relações quanto em fenômenos de caráter nacional ou global em que “grandes massas da população veem-se excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem perspectivas, num beco sem saída.” (EG 53).

Nessa economia, os seres humanos não são mais tratados como um valor em si mesmos. Eles são vistos como bens de consumo que, depois de usados, são lançados fora como sobras com as quais ninguém mais se importa. Esta cultura do descarte “afeta tanto os seres humanos excluídos como as coisas que se convertem rapidamente em lixo” (LS 22). Economia e ecologia estão intimamente unidos e a solução de uma passa necessariamente pela solução da outra questão.

No nível macroeconômico, vivemos a “globalização da indiferença” (EG 54) onde os excluídos do sistema econômico pouco ou nada importam. (EG 54). Se preocupante no âmbito global, a indiferença também o é na medida em se estabelece em cada pessoa quando, “quase sem nos dar conta, tornamo-nos incapazes de nos compadecer ao ouvir os clamores alheios, já não choramos à vista do drama dos outros, nem nos interessamos por cuidar deles, como se tudo fosse uma responsabilidade de outrem, que não nos incumbe” (EG 54).

Além de gerar indiferença para com os que sofrem – pessoas humanas e os outros seres da criação – a lógica da economia do mercado, “que não garante o desenvolvimento humano integral nem a inclusão social” (LS 109) e leva as pessoas ao consumismo, também afeta aos que se pensam como sujeitos de consumo. Conforme o Papa Francisco, “o grande risco do mundo atual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada” (EG 2). Ou, como diz ele na Gaudete et Exsultate, essa lógica acaba “por nos transformar em pobres insatisfeitos que tudo querem ter e provar” (GE 108).

Desejo de consumo que não se resume aos bens materiais. No atual contexto econômico, a compra e a venda não é apenas de bens palpáveis. O capitalismo apropriou-se da cultura e tudo aquilo que é simbólico se transforma em bem de mercado. Inclusive a religião. As novas tecnologias de comunicação possibilitam a disponibilização, venda e consumo de bens simbólicos em um mercado que não tem limitação física. O perigo, para o religioso e a religiosa, assim como para toda pessoa, é que o “consumo de informação superficial e as formas de comunicação rápida e virtual podem ser um fator de estonteamento que ocupa todo o nosso tempo e nos afasta da carne sofredora dos irmãos” (GE 108).

A consequência, além da indiferença para com os pobres, é a superficialidade nas relações: “Na cultura dominante, ocupa o primeiro lugar aquilo que é exterior, imediato, visível, rápido, superficial, provisório” (EG 62). O real deixa de ser importante e todas as preocupações se voltam para as aparências e acabamos condenados a viver como “pessoas ressentidas, queixosas, sem vida” (EG 2). Além de matar muitas pessoas pela miséria e pela fome, a atual estrutura econômica acaba matando as pessoas por dentro, em seu ânimo, em sua alma.

A face externa desta estrutura econômica é aquilo que o Papa Francisco chama de “nova idolatria do dinheiro”. Nela, “aceitamos pacificamente o seu domínio [do dinheiro] sobre nós e as nossas sociedades” (EG 55). Domínio que começa com a negação da primazia do ser humano e se expressa numa economia baseada na autonomia das finanças, na especulação financeira, na destruição do Estado e das políticas públicas que zelam pelo bem comum, no “sistema da dívida” que retira dinheiro dos pobres para entregá-lo aos ricos, nas políticas de juros que só beneficiam aos bancos e banqueiros, na evasão fiscal legalizada e na corrupção como forma de governo a serviço dos poderosos (EG 55-56).

O dinheiro, ao invés de servir, tornou-se o senhor das vidas humanas. Para o cristão, esta realidade não diz respeito apenas à economia. Ela diz respeito ao mais profundo da fé, pois, ao erigir-se o dinheiro como novo senhor, se deixa de lado o Senhorio do verdadeiro Deus. Consequentemente, é um problema também ético, pois a defesa da vida, que está no centro da experiência cristã de Deus, é substituída pela adoração da morte (EG 57).

A necrofilia que nasce da idolatria do dinheiro que tem suas raízes no materialismo prático que coloca os bens materiais acima da vida humana, se expressa diariamente na violência que assola a humanidade, seja nas guerras intermináveis que consomem milhões de vida ou no terror cotidiano a que são condenados a viver as populações pobres, tanto no campo como na cidade. A violência, com efeito, “não acontece apenas porque a desigualdade social provoca a reação violenta de quantos são excluídos do sistema, mas porque o sistema social e econômico é injusto na sua raiz” (EG 59).

Se pode haver um terrorismo provocado por grupos que buscam mudar o sistema ou já não tem nada a perder dentro do sistema, há, por outro lado, a violência organizada daqueles que querem manter o sistema tal qual está. Estes agem, às vezes através de forças paramilitares e, quando logram apropriar-se do Estado, utilizam as forças policiais e militares para exercer um terrorismo de Estado. Mas não será, conforme o Papa, com a força das armas que se alcançará a paz: “a desigualdade social gera uma violência que as corridas armamentistas não resolvem nem poderão resolver jamais” (EG 60).

Para superar este sistema econômico, é necessária uma vida contra cultural. É preciso fazer uma opção radical em que Deus e os pobres (EG 2) ocupem a primazia nas opções de cada pessoa cristã e, de modo exemplar e profético, de cada consagrado e de cada consagrada.

A pobreza cristã

O que vem antes: o esquecimento de Deus ou o amor às riquezas? Difícil saber… A constatação, no entanto, parece segura: “quando o coração se sente rico, fica tão satisfeito de si mesmo que não tem espaço para a Palavra de Deus, para amar os irmãos, nem para gozar das coisas mais importantes da vida” (GE 68). Tal realidade é exemplificada por Jesus na parábola do rico insensato (Lc 12, 16-21) que colocava a segurança de sua vida no aumento de sua riqueza e, ao sentir-se ameaçado em sua posse, experimenta a perda de sentido da vida (GE 67).

Colocar toda a confiança nos bens materiais não é privilégio dos que possuem muitos bens. Pode acontecer também com pessoas que, tendo poucos bens, tiveram sua mente e seu coração tomado pela ideologia do materialismo e do consumismo. Toda pessoa, seja pobre ou seja rica, precisa viver a “pobreza de espírito” proclamada por Jesus nas “bem aventuranças” (Mt 5, 3-12; Lc 6, 20-23). A pobreza de espírito, que o Papa Francisco, a partir da tradição de Inácio de Loyola, chama de “santa indiferença”, possibilita viver a liberdade interior diante de todas as coisas criadas de modo que, independente da quantidade dos bens possuídos, possamos ter o nosso coração aberto para Deus (GE 69).

Ao lado da “pobreza de espírito”, tal qual aparece no Evangelho de Mateus, é necessário, segundo o Papa Francisco, viver também a “pobreza material” proposta no Evangelho de Lucas. Diferentemente de algumas interpretações limitadoras, pobreza espiritual e pobreza material não se opõem. Elas se exigem mutuamente. Aquele que sabe colocar toda a sua segurança em Deus, não tem medo de “compartilhar a vida dos mais necessitados, a vida que levaram os Apóstolos e, em última análise, a configurar-se a Jesus que, ‘sendo rico, se fez pobre’ (2Cor 8,9)” (GE 69). Em consequência, a vivência da pobreza espiritual leva necessariamente a um desapego das riquezas e “a uma vida austera e essencial” (GE 69).

Da capacidade de colocar a sua segurança apenas em Deus e, por isso, de desapegar-se dos bens materiais compartilhando-os com os outros, brota outra grande “bem aventurança”: a mansidão. Para o Papa Francisco, “a mansidão é outra expressão da pobreza interior, de quem deposita a sua confiança apenas em Deus” (GE 71). Num mundo marcado pela violência prepotente e pela disputa constante para ver quem é o mais rico e poderoso, apresentar-se como manso pode ser visto como insensatez, estupidez ou fragilidade. No entanto, tanto a tradição bíblica (Sl 37/36, 9.11; Is 66,2) como a experiência de Mahatma Ghandi, de Nelson Mandela, das Mães da Praça de Maio, dos povos indígenas e afrodescendentes, mostram que a mansidão é o caminho para a real superação das desigualdades e das violências que lhe são consequentes.

Se, como vimos na primeira parte desta reflexão, o acúmulo de riquezas encontra sua expressão teológica na idolatria, a partilha dos bens e a consciência de que tudo o que existe faz parte de uma herança comum e que os frutos da criação devem beneficiar a todos, “para os crentes, torna-se uma questão de fidelidade ao Criador, porque Deus criou o mundo para todos” (LS 93).

O Papa Francisco, retomando um dos temas clássicos do ensino social cristão, lembra que “o princípio da subordinação da propriedade privada ao destino universal dos bens e, consequentemente, o direito universal ao seu uso é uma ‘regra de ouro’ do comportamento social e o ‘primeiro princípio de toda a ordem ético social’ [pois] a tradição cristã nunca reconheceu como absoluto ou intocável o direito à propriedade privada, e salientou a função social de qualquer forma de propriedade privada” (LS 93). Em uma simples frase, podemos dizer que, se acreditamos que tudo é Deus, estamos dispostos a fazer com que tudo seja de todos.

Com efeito, a afirmação de que todos os seres humanos são filhos e filhas de Deus e que, por isso, carregam em si a mesma dignidade, tem como consequência econômica a necessidade de que todas as pessoas tenham acesso aos bens necessários para uma vida com dignidade (LS 93). Na mensagem aos participantes do Primeiro Encontro Mundial dos Movimentos Populares, o Papa Francisco lembrava a necessidade de suprir as três necessidades básicas do ser humano: terra, teto e trabalho (FRANCISCO, 2014).

Se a dinâmica do sistema econômico é seletiva e faz com que a pobreza, para a maioria das pessoas, não seja uma opção, mas uma condenação, o Papa Francisco, retomando a tradição da Igreja latino-americana, lembra que “a opção pelos pobres é mais uma categoria teológica que cultural, sociológica, política ou filosófica” (EG 198).

Nas palavras do Papa Francisco, a busca do bem comum e a opção preferencial pelos pobres estão intimamente ligadas:

Nas condições atuais da sociedade mundial, onde há tantas desigualdades e são cada vez mais numerosas as pessoas descartadas, privadas dos direitos humanos fundamentais, o princípio do bem comum torna-se imediatamente, como consequência lógica e inevitável, um apelo à solidariedade e uma opção preferencial pelos mais pobres. Esta opção implica tirar as consequências do destino comum dos bens da terra, mas – como procurei mostrar na exortação apostólica Evangelii gaudium – exige acima de tudo contemplar a imensa dignidade do pobre à luz das mais profundas convicções de fé. Basta observar a realidade para compreender que, hoje, esta opção é uma exigência ética fundamental para a efetiva realização do bem comum. (EG 158)

E, em sendo fundadas no jeito de ser de Deus, ela se torna vinculante e “tem consequências na vida de fé de todos os cristãos, chamados a possuírem ‘os mesmos sentimentos que estão em Cristo Jesus’ (Fl 2, 5)” (EG 198).

A primeira consequência se dá no âmbito prático-pastoral. Todo cristão, independente de sua condição pessoal, diante de pessoas empobrecidas, é chamado a “emprestar-lhes a nossa voz nas suas causas” (EG 198) e ajudar a “acompanhá-los adequadamente no seu caminho de libertação” (EG 199). É a dimensão política da vivência da pobreza cristão. Quando vivida nesta perspectiva, “a política, tão denegrida, [torna-se] uma sublime vocação, uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem comum” (EG 205).

A segunda consequência da consciência do bem comum e da opção preferencial pelos pobres se manifesta em nível existencial. Os pobres, nos lembra o Papa, não são apenas uma categoria política ou social. Eles são pessoas e exigem que os tratemos com a dignidade que carregam. Mais do que beneficiários de nossas ações, os pobres devem ser sentidos como amigos. Em primeiro lugar, porque “nas suas próprias dores conhecem Cristo sofredor” (EG 198). Por isso, “é necessário que todos nos deixemos evangelizar por eles” e que sejamos capazes de “reconhecer a força salvífica das suas vidas, e a colocá-los no centro do caminho da Igreja” (EG 198).

Só a aproximação aos pobres desprovida de qualquer interesse possibilita ver neles o rosto de Cristo e levar a uma verdadeira preocupação por sua pessoa e pela superação de sua situação de pobreza. Diante do pobre, é necessário o olhar contemplativo que permite “servir o outro não por necessidade ou vaidade, mas porque ele é belo, independentemente da sua aparência” (EG 199). É esta atitude contemplativa que permite ver o pobre em seu real valor que “diferencia a autêntica opção pelos pobres de qualquer ideologia, de qualquer tentativa de utilizar os pobres ao serviço de interesses pessoais ou políticos” (EG 199)

Como ser pobre

Neste terceiro momento de nossa reflexão, queremos nos perguntar sobre as consequências, no mundo atual, da opção pela pobreza evangélica na VRC. Isso é fundamental para que a nossa opção de vida seja conforme o Evangelho, ou seja, uma boa notícia para aqueles e aquelas que a vivem e também uma boa notícia para aqueles que conosco convivem. O fundamental, como lembra o Papa Francisco, é que “no meio deste turbilhão atual, volta a ressoar o Evangelho para nos oferecer uma vida diferente, mais saudável e mais feliz” (GE 108). O que fazer para alcançar esta condição em nossa vida pessoal e comunitária de modo que seja um sinal para todo cristão e todas as pessoas de boa vontade?

Um primeiro passo é viver a proximidade evangélica, “ir ao encontro” de todos aqueles e aquelas que são vítimas do sistema que produz a pobreza. Diante de uma economia em que o dinheiro, ao invés de servir, governa e massacra pessoas e nações, o Papa Francisco nos exorta “a uma solidariedade desinteressada e a um regresso da economia e das finanças a uma ética propícia ao ser humano” (EG 58).

A solidariedade para com os pobres é vinculante, pois nasce da própria experiência do Deus de Israel que se faz presente para libertar o seu povo e do Filho de Deus que se faz humano para libertar a humanidade. Segundo o Papa, “ficar surdo a este clamor, quando somos os instrumentos de Deus para ouvir o pobre, coloca-nos fora da vontade do Pai e do seu projeto, porque esse pobre ‘clamaria ao Senhor contra ti, e aquilo tornar-se-ia para ti um pecado’ (Dt 15, 9). E a falta de solidariedade, nas suas necessidades, influi diretamente sobre a nossa relação com Deus: ‘Se te amaldiçoa na amargura da sua alma, Aquele que o criou ouvirá a sua oração’ (Sir 4, 6).” (EG 187).

No âmbito econômico, a solidariedade enquanto expressão do voto de pobreza age em dois níveis. O primeiro, é o da resposta à necessidade imediata do pobre. Nesse nível, “a solidariedade é uma reação espontânea de quem reconhece a função social da propriedade e o destino universal dos bens como realidades anteriores à propriedade privada. A posse privada dos bens justifica-se para cuidar deles e aumentá-los de modo a servirem melhor o bem comum, pelo que a solidariedade deve ser vivida como a decisão de devolver ao pobre o que lhe corresponde” (EG 189).

As comunidades religiosas, assim como “qualquer comunidade da Igreja, na medida em que pretender subsistir tranquila sem se ocupar criativamente nem cooperar de forma eficaz para que os pobres vivam com dignidade e haja a inclusão de todos, correrá também o risco da sua dissolução, mesmo que fale de temas sociais ou critique os Governos” (EG 207). Se não o fizer, “facilmente acabará submersa pelo mundanismo espiritual, dissimulado em práticas religiosas, reuniões infecundas ou discursos vazios” (EG 207).

A VRC consagrada, desde as suas origens até as suas novas configurações, foi e é especialista em dar respostas às necessidades imediatas que se apresentam nas diferentes circunstâncias. Hospitais, escolas, obras assistências são exemplos de ações de religiosos e religiosas que deram e dão “uma sensível contribuição para a humanização do mundo” (EG 89).

Mas há um segundo nível em que o voto de pobreza pode expressar toda a sua potencialidade no mundo de hoje. Ele acontece quando as convicções e práticas de solidariedade abrem caminho a transformações estruturais que tornam possível não apenas a atenção aos empobrecidos que a sociedade produz, mas são capazes de criar uma sociedade que não mais produza pobres (EG 189).

De fato, “embora um pouco desgastada e, por vezes, até mal interpretada, a palavra ‘solidariedade’ significa muito mais do que alguns atos esporádicos de generosidade; supõe a criação duma nova mentalidade que pense em termos de comunidade, de prioridade da vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns” (EG 188). É a dimensão cidadã do voto de pobreza que também não é opcional, mas faz parte da própria vivência da fé:

Em cada nação, os habitantes desenvolvem a dimensão social da sua vida, configurando-se como cidadãos responsáveis dentro de um povo e não como massa arrastada pelas forças dominantes. Lembremo-nos que ser cidadão fiel é uma virtude, e a participação na vida política é uma obrigação moral. Mas, tornar-se um povo é algo mais, exigindo um processo constante no qual cada nova geração está envolvida. É um trabalho lento e árduo que exige querer integrar-se e aprender a fazê-lo até se desenvolver uma cultura do encontro numa harmonia pluriforme (EG 220).

Com efeito, a economia não pode ser relegada à simples lógica do mercado que, “por si mesmo, não garante o desenvolvimento humano integral nem a inclusão social” (LS 109). No contexto em que vivemos, onde se afirma que o paradigma tecnocrático tem a capacidade de gerir a economia, é preciso lembrar que a atividade econômica precisa ser orientada por uma lógica política, ou seja, pelas necessidades da sociedade e não apenas pelo interesse do lucro ou da auto reprodução do capital.

Cabe mais uma vez lembrar: isso vale para todos os cristãos, incluídos os religiosos e religiosas, pois “todos os cristãos, incluindo os Pastores, são chamados a preocupar-se com a construção dum mundo melhor” (EG 183).

No contexto de globalização, a solidariedade, tanto no nível da assistência como no da transformação das estruturas que geram pobreza, adquire um sentido ainda mais amplo e abrange espaços cada vez mais complexos. Há casos em que países inteiros ou regiões inteiras de continentes passam por situações de calamidade ou sofrem as consequências de um sistema que relega povos inteiros à morte (EG 150). É o caso, por exemplo, de regiões inteiras da Ásia, da África ou da própria América Latina e Caribe. Ou então, dos setenta milhões de refugiados e dos milhares de migrantes que morrem ao tentar cruzar o Mediterrâneo para entrar na Europa ou o Rio Grande e os muros da fronteira entre México e Estados Unidos. “Respeitando a independência e a cultura de cada nação, é preciso recordar-se sempre de que o planeta é de toda a humanidade e para toda a humanidade, e que o simples fato de ter nascido num lugar com menores recursos ou menor desenvolvimento não justifica que algumas pessoas vivam menos dignamente” (EG 190), nos lembra o Papa. Estar solidário e presente com estes povos é um modo de viver o voto de pobreza (EG 190).

Num mundo pluricultural e multireligioso, e a solidariedade e a preocupação pelos mais indigentes que dá credibilidade à Igreja e, nela, à VRC, tanto nos países onde o cristianismo é minoritário como nos países onde a religião não é mais referência cultural para as pessoas (EG 65).

Com efeito, a solidariedade, mesmo naqueles espaços onde a fé cristã não é explicitada, é um efeito do Evangelho que um dia aí foi vivido ou é uma semente do Evangelho já presente no coração humana. Por isso, a solidariedade presente na cultura popular possui a capacidade de “provocar o desenvolvimento duma sociedade mais justa e crente, e possui uma sabedoria peculiar que devemos saber reconhecer com olhar agradecido” (EG 68).

Praticar a solidariedade é um desafio para religiosos e religiosas adultas. Mas é um desafio sobretudo para as novas gerações da VRC. Num tempo em que escasseiam as vocações, a preocupação não pode ser apenas numérica. Ela tem que ser qualitativa. Não basta encher os conventos e as casas de formação se essas entradas “estão relacionadas com insegurança afetiva, busca de formas de poder, glória humana ou bem-estar econômico” (EG 108). A vocação só é autêntica quando se fundamenta na experiência de Jesus de dar a sua própria vida pela salvação dos outros.

Na Exortação Apostólica Pós-Sinodal Christus Vivit, o Papa destaca a solidariedade como algo inerente e significativo nas gerações jovens atuais:

O Sínodo reconheceu que, embora sob forma diferente relativamente às gerações passadas, o compromisso social é um traço caraterístico dos jovens de hoje. Ao lado de alguns indiferentes, há muitos outros disponíveis para se comprometerem em iniciativas de voluntariado, cidadania ativa e solidariedade social, o que é preciso acompanhar e encorajar para fazer surgir os talentos, as competências e a criatividade dos jovens e estimular a assunção de responsabilidades por parte deles. O empenho social e o contato direto com os pobres continuam a ser uma oportunidade fundamental para descobrir ou aprofundar a fé e para discernir a própria vocação. (…) Assinalou-se também a disponibilidade a empenhar-se em campo político para a construção do bem comum. (CV 170).

A formação para a VRC não pode apagar este traço. Pelo contrário, deve potencializá-lo para que, através do voto de pobreza, torne-se ainda mais expressivo e significativo nas novas gerações da VRC.

Novas gerações que devem estar presentes não apenas nas preocupações do hoje, mas também nas preocupações futuras. Com efeito, quando falamos em economia – e o voto de pobreza se baseia nesta realidade humana, precisamos nos perguntar: “Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos?” (LS 159). Essa preocupação com o futuro deve estar presente no modo como gerenciamos as economias institucionais na VRC. Cabe perguntarmo-nos: qual o legado econômico que deixamos para os futuros irmãos e as futuras irmãs? Cada decisão econômica de hoje, implica em consequências para as futuras gerações. As estruturas econômicas que construímos hoje, facilitarão ou dificultarão a vivência concreta do voto de pobreza daqueles e daquelas que irão nos suceder? Será que o acúmulo de bens não os impedirá na liberdade para a ação missionária e profética?

Esta reflexão é importante também porque nos faz pensar sobre o sentido do trabalho. Com efeito, ele não pode ser visto apenas como um modo de produzir e acumular riquezas. No sentido cristão, “o trabalho deveria ser o âmbito deste multiforme desenvolvimento pessoas, onde estão em jogo muitas dimensões da vida: a criatividade, a projetação do futuro, o desenvolvimento das capacidades, a exercitação dos valores, a comunicação com os outros, uma atitude de adoração” (LS 127).

Por uma série de fatores, tanto culturais como sociais, muitas vezes, tanto na sociedade como na VRC, o trabalho se tornou um fim em si mesmo e a capacidade de produção uma medida para classificar a pessoa que passa a ser vista pelo que produz e não como um valor em si mesmo. Em outras palavras, o produto passa a ser mais importante que o seu produtor. O suporte religioso para este tipo de pensamento é o difuso pelagianismo que insiste em seguir o caminho “da justificação pelas suas próprias forças, o da adoração da vontade humana e da própria capacidade, que se traduz numa auto complacência egocêntrica e elitista, desprovida do verdadeiro amor” (GE 57). Segundo o Papa, preocupar-se excessivamente com a capacidade de produzir, sem perguntar-se sobre a finalidade da produção, é uma atitude de autorreferencialidade que afasta os religiosos e religiosas do caminho do Evangelho.

Na raiz de todas estas atitudes, está a necessidade de se recuperar uma das virtudes tradicionais da espiritualidade cristã: a austeridade. Na sociedade de consumo em que vivemos, é uma virtude que não goza de boa fama. Mas ela precisa ser redescoberta como um caminho para a vivência da pobreza na VRC:

O consumismo hedonista pode-nos enganar, porque, na obsessão de divertir-nos, acabamos por estar excessivamente concentrados em nós mesmos, nos nossos direitos e na exacerbação de ter tempo livre para gozar a vida. Será difícil que nos comprometamos e dediquemos energias a dar uma mão a quem está mal, se não cultivarmos uma certa austeridade, se não lutarmos contra esta febre que a sociedade de consumo nos impõe para nos vender coisas, acabando por nos transformar em pobres insatisfeitos que tudo querem ter e provar. (GE 108)

A primeira razão da opção pela austeridade é que ela nos afasta de um dos pilares do sistema econômico que hoje devora as pessoas: o consumismo. Com efeito, “o mercado tende a criar um mecanismo consumista compulsivo para vender os seus produtos, [e] as pessoas acabam por ser arrastadas pelo turbilhão das compras e gastos supérfluos” que “faz crer a todos que são livres pois conservam uma suposta liberdade de consumir, quando na realidade apenas possui a liberdade a minoria que detém o poder económico e financeiro” (LS 203). Na realidade, a pessoa se torna escrava do consumo e uma peça no mecanismo econômico que produz pobres. Deixar de consumir, ou consumir apenas o necessário, é uma forma profética de viver o voto de pobreza nos dias de hoje.

Mas a negativa ao consumismo, além da dimensão econômica, tem também uma perspectiva espiritual. Com efeito, segundo o Papa Francisco,

A espiritualidade cristã propõe uma forma alternativa de entender a qualidade de vida, encorajando um estilo de vida profético e contemplativo, capaz de gerar profunda alegria sem estar obcecado pelo consumo. […] … a acumulação constante de possibilidades para consumir distrai o coração e impede de dar o devido apreço a cada coisa e a cada momento. Pelo contrário, tornar-se serenamente presente diante de cada realidade, por mais pequena que seja, abre-nos muitas mais possibilidades de compreensão e realização pessoal. A espiritualidade cristã propõe um crescimento na sobriedade e uma capacidade de se alegrar com pouco. É um regresso à simplicidade que nos permite parar a saborear as pequenas coisas, agradecer as possibilidades que a vida oferece sem nos apegarmos ao que temos nem entristecermos por aquilo que não possuímos. Isto exige evitar a dinâmica do domínio e da mera acumulação de prazeres. (LS 222)

Para viver a sobriedade com convicção, é preciso superar o conceito apresentado pelo sistema capitalismo de que a qualidade de vida de mede pela capacidade de consumo. Consumir menos não implica em menos vida e nem em vida de baixa intensidade. Pelo contrário:

as pessoas que saboreiam mais e vivem melhor cada momento são aquelas que deixam de debicar aqui e ali, sempre à procura do que não têm, e experimentam o que significa dar apreço a cada pessoa e a cada coisa, aprendem a familiarizar com as coisas mais simples e sabem alegrar-se com elas. (LS 233).

Por fim, mas não por isso menos importante, evocamos o convite do Papa Francisco a ampliar o horizonte do voto de pobreza e vê-lo associado ao grande desafio do mundo atual: a proteção da Casa Comum. A solidariedade, segundo o Papa, deve ultrapassar o âmbito da pobreza conjuntural e da necessidade das transformações estruturais e derramar-se através das relações entre os seres humanos e as outras criaturas.

Na Laudato Sì, o Papa lembra que a raiz da atual crise ecológica reside no fato de nos pensarmos como donos da Terra e de seus recursos: “Esta irmã clama contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou. Crescemos a pensar que éramos seus proprietários e dominadores, autorizados a saqueá-la.” (LS 2. Grifos nossos).

É preciso superar a interpretação equivocada de Gn 1,28 e compreender o mandato de Deus não como a autorização da exploração selvagem da natureza por parte do ser humano, mas como o convite a construir “uma relação de reciprocidade responsável entre o ser humano e a natureza” (LS 67) e ir além de um “antropocentrismo despótico, que se desinteressa das outras criaturas” (LS 68) até chegar a reconhecer que os outros seres vivos têm um valor próprio diante de Deus e, pelo simples facto de existirem, eles O bendizem e Lhe dão glória, porque ‘o Senhor Se alegra em suas obras’ (Sl 104/103, 31)” (LS 68).

Concluindo

Na Exortação Apostólica Vita Consecrata (n. 87), o Papa João Paulo II nos lembrava que os votos não podem ser vistos como “um empobrecimento de valores autenticamente humanos”, no caso da pobreza, do “legítimo desejo de usufruir dos bens materiais”. A verdadeira teologia dos votos compreende-os como “uma transfiguração” que aponta para “Deus como bem absoluto” tornando-se um caminho não apenas para a salvação pessoal da/o religios/ao, mas “uma ‘terapia espiritual’ para a humanidade, porque recusam a idolatria da criatura e tornam de algum modo visível o Deus vivo” (PC 87).

Como vimos acima, o Papa Francisco faz um diagnóstico da sociedade em que aparecem inúmeras doenças que precisam de terapia econômica e espiritual. Precisamos superar as estruturas que geram a pobreza e da idolatria que converteu o que era um meio – o dinheiro e os bens materiais – em fins em si mesmos.

O desapego, a austeridade e a dedicação aos pobres – seja na solidariedade imediata ou na transformação política da sociedade – são os caminhos através dos quais podemos trilhar os caminhos de uma pobreza que tenha sentido para nós e para os que nos veem, dentro da Igreja e na sociedade, como sinais proféticos do Reino de Deus.

REFERÊNCIAS

LUMEN GENTIUM. Constituição Dogmática sobre a Igreja. Roma, 21 de novembro de 1964. Disponível em: http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19641121_lumen-gentium_po.html Acesso em: 16 de agosto de 2019.

JOÃO PAULO II, Papa. Vita Consecrata. Exortação Apostólica sobre a Vida Consagrada e sua missão na Igreja e no mundo. Roma, 25 de março de 1996. Disponível em: http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/apost_exhortations/documents/hf_jp-ii_exh_25031996_vita-consecrata.html Acesso em: 16 de agosto de 2019.

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[1] O presente texto foi originalmente publicado na Revista Convergência (Brasília, Conferência dos Religiosos do Brasil), Ano LV, n. 528, fevereiro-março-abril 2020, p. 77-92.

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