Poucos dias antes do Natal os noticiários brasileiros noticiaram com ampla repercussão o inusitado jantar promovido pelo grupo Prerrogativas onde se reuniram numerosos personagens da cena política brasileira. Havia para todos os gostos, desde a esquerda, passando pelo centro até a direita mais ou menos moderada e, claro, não faltaram os representantes do dito “Centrão” que, qual geleia mal apurada, se move para o lado onde pende o poder.
O prato principal do jantar, mesmo que muitos não o admitissem publicamente, era a presença simultânea e proposital entre Lula e Alckmin. O petista mor e um tucano de longa linhagem e alta plumagem pronto a saltar do ninho que por tanto tempo o abrigou em busca da vice-presidência. Como não podia deixar de ser, houve críticas e elogios de todos os lados. Nas redes sociais voaram confetes, serpentinas, fogos de artifício, bombas e também maledicências e palavrões. Comentários para todos os gostos. De minha parte, me mantive no silêncio diante do passado ali presente e pensando no futuro que pode acontecer.
A cena seguinte, menos bombástica mas também devidamente registrada, foi o encontro entre Alckmin e o ex-Senador Eduardo Suplicy no sábado de Natal. O objetivo era claro: manter viva a discussão sobre a possível chapa Lula-Alckmin. O efeito foi alcançado. O diálogo PT/Alckmin continua pautando o noticiário político.
No domingo a terceira cena que me moveu a escrever estas linhas: a morte de Desmond Tutu, o incansável bispo lutador contra toda forma de opressão e desigualdade. Mas, acima de tudo, o homem que foi o garante dos acordos que permitiram a superação do regime de apartheid na África do Sul. Liderando a Comissão de Verdade e Reconciliação, fez com que o aperto de mãos entre Nelson Mandela e Fréderic De Klerk não fosse seguido por um banho de sangue de repressão ou de vingança. Sem a Comissão de Verdade e Reconciliação liderada pelo pequeno gigante, todo o esforço político de Mandela e De Klerk poderia ter ido ao chão.
Lula e Alckmin talvez não tenham as dimensões de Mandela e De Klerk. Mas ninguém pode deixar de reconhecer que um representa a luta por um Brasil socialmente mais junto e o outro tem a trajetória da elite que nunca se incomodou com os sofrimentos da maioria do povo pobre e, na grande maioria dos casos, dela se aproveitou.
Na África do Sul havia o apartheid racial e legal. No Brasil, o apartheid social é informal mas não menos real e nem menos cruel que o do país do outro lado do Atlântico. Fico torcendo para que o aperto de mãos entre Lula e Alckmin sele o pacto por uma sociedade mais justa. Mas estou convicto que se não houver uma Comissão de Verdade e Reconciliação sobre as injustiças do passado distante e do presente próximo – entre elas os mais de 600 mil mortos por Covid19 e as múltiplas chacinas de jovens negros nas periferias das grandes cidades – dificilmente iremos além de uma conciliação de elites que nada de novo trará ao povo pobre brasileiro.
E aí a pergunta: quem poderá exercer no Brasil o papel que Desmond Tutu exerceu na África do Sul? Já não temos um Dom Hélder Câmara, nem um Dom Aloísio Lorscheider ou um Dom Paulo Evaristo Arns… As lideranças religiosas brasileiras, ou são silentes ou, em alguns casos, caricatos cúmplices da situação de dor e sofrimento de seus fiéis e de toda a nação. Quem tem autoridade moral hoje no Brasil para liderar um processo de desencobrimento das atrocidades e restauração da convivência entre vítimas e vitimários?
Talvez o provecto ex-senador por São Paulo possa indicar ou ser indicado para esse papel. É um burguês que sempre foi sensível à causa dos pobres. Pode ser a ponte entre o poleiro de tucanos e a estrela que, depois da tempestade, volta a brilhar. Quem sabe! Não custa sonhar com um 2022 melhor que abra caminhos para um novo futuro para o Brasil.
De qualquer foram, Feliz Ano Novo!