Arquivo mensal: junho 2021

As chaves de São Pedro

Depois das noivas, dos pães e dos peixes de Santo Antônio e dos fogos de São João, é hora das chaves de São Pedro. Com ele, encerram-se as festas juninas e a vida volta ao normal.

A razão de São Pedro carregar as chaves é simples. Está lá no Evangelho de Mateus, no capítulo 16, quando Jesus diz que, sobre a pedra de Pedro edificará a Igreja e a ele dará as chaves do Reino com o poder de ligar e de desligar tanto na terra como nos céus.

A frase pronunciada por Jesus não era original. Era uma velha conhecida de todos os judeus piedosos. Ela fazia parte da tradição e era usada em toda disputa política. Quem a pronunciou pela primeira vez foi o profeta Isaías, lá no Antigo Testamento, no tempo do rei Ezequias. Era um tempo difícil. Judá estava sendo atacado pelo rei da Assíria e, Jerusalém, cercada, soçobrava. Sobna, o ajudante mais próximo do rei, ao invés de se preocupar com a fome e as doenças que matavam os pobres, gastava seu tempo e os recursos públicos na construção de um mausoléu onde queria ser enterrado com a glória dos faraós do Egito.

Chamado para intervir, o profeta Isaías manda que Sobna seja retirado do cargo e a chave da casa de Davi seja entregue a Helcias, filho de Eliacim. Na prática, o profeta destituía o arrogante Sobna e colocava em seu lugar um humilde servidor público. Para simbolizar a troca de mando, a túnica, o cinto e as chaves – três símbolos do poder – passam de Sobna a Helcias. Mas o símbolo que ficou na memória popular, foi o das chaves. Afinal, desde que surgiram, em torno ao 4.000 a.C., no Egito ou na China, as chaves sempre simbolizaram poder. Desde o mordomo do rei até o carcereiro, quanto maior o molho das chaves, maior o poder que aparenta.

Mas, voltando ao episódio de Mateus, de quem Jesus estava tirando as chaves para entregá-las a Pedro? O texto não explicita. Podemos encontrar uma dica no capítulo 23, quando ele fala dos fariseus que bloqueiam a entradas das pessoas no Reino dos céus: eles não entram e nem deixam ninguém entrar! Se essa conexão for procedente, a entrega das chaves a Pedro não teria como objetivo fechar as portas como faziam os fariseus, mas abri-las para que todos pudessem entrar.

A história se complica mais ainda quando, avançando um pouco na leitura de Mateus, no capítulo 18, encontramos que Jesus não entrega esse poder apenas a Pedro, mas a todos os discípulos. A mesma concessão coletiva aparece no Evangelho de João (capítulo 20) e também é adotada pelo apóstolo Paulo na Carta aos Coríntios.

Como vemos, a história das chaves de São Pedro não é tão simples. E a interpretação deste episódio, na história da Igreja, foi motivo de muita discussão. As chaves significam poder. Entregá-lo a uma só pessoa, é uma coisa. Compartilhá-lo entre todos, é outra muito diferente.

No primeiro milênio da Igreja, a interpretação comum era a de que o poder das chaves deveria ser exercido de modo coletivo. Todos os bispos teriam o poder concedido por Jesus de ligar e desligar. As disputas de poder, no entanto, fizeram com que, no final do séc. XII, Inocêncio III, o bispo de Roma mais poderoso de toda a Idade Média, reclamasse para si a exclusividade das chaves petrinas. E com a força das armas e do saber, impôs esse modo de pensar aos outros bispos e aos príncipes e reis. As Igrejas orientais jamais aceitaram essa imposição e se afastaram ainda mais de Roma. Os príncipes e reis, não tendo alternativa, submeteram-se até aparecer a ocasião para se rebelar.

Alguém pode estar se perguntando o porquê de estar cavoucando estas histórias. Primeiro, claro, por causa das chaves de São Pedro, o último dos santos juninos. Segundamente, por causa da crise de poder que vivemos tanto na sociedade como nas Igrejas. E nisso, toda essa discussão pode nos ajudar. Assim como as chaves, o poder é simbólico. Dependendo do modo como o imaginamos, ele recai sobre nós. Se nós o pensamos monocraticamente, encontraremos um tirano para exercê-lo de forma autoritária. Se o pensamos coletiva e circularmente, teremos a possibilidade de construir uma democracia e caminhar para a fraternidade e a amizade social.

Nesta última festa junina, ao ver São Pedro com as chaves na mão, fiquemos atentos! Será que elas não estão também nas mãos dos outros discípulos? Não custa imaginar…

Assista ao vídeo desta reflexão e inscreva-se em nosso canal no YouTube:

Os fogos de João Batista

O fogo é uma das mais poderosas ferramentas disponíveis aos humanos. Se por “cultura” entendemos tudo aquilo que, pela ação humana, é tomado da natureza e transformada em utilidade e sentido, o fogo é um dos grandes motores culturais. Ousaria até dizer que o fogo está na origem e no coração de todas as culturas.

O domínio do fogo permitiu a nossos ancestrais ampliar e aprimorar as fontes de alimentação através do cozimento de carnes e vegetais, preparar a terra para semear, aquecer-se nas frias noites de inverno e avançar para regiões inóspitas, afastar as feras, atacar os inimigos, malear os metais e com eles forjar as mais diversas ferramentas e armas.

Na modernidade, o fogo foi transformado em energia e o poder dos humanos sobre a natureza se tornou avassalador. Cada vez mais rápido. Sempre mais poderoso. Às vezes gerando vida. Muitas vezes, destruição.

A importância do fogo é tal que se tornou um dos símbolos mais presentes e importantes em todas as culturas. E, como no dizer de Paul Tillich, a cultura é a forma da religião, o fogo é um dos símbolos fundamentais em praticamente todas as expressões religiosas, do passado e do presente.

Apenas para ficar nas mais próximas a nós, na religião romana, o fogo representava as divindades familiares, os “lares” protetores da família e de suas propriedades. Para garantir a presença e proteção dos “lares”, o fogo era mantido permanentemente aceso. Apagar o fogo da “lareira” ou deixá-lo morrer, significava rechaçar ou recusar a proteção das divindades. O sacrário das igrejas católicas com a lâmpada sempre acesa, é resquício desta primitiva religião romana. Também existiam os “lares” públicos, os protetores das cidades, aos quais também se acendiam fogos. Eram os fogos pátrios ou cívicos que até hoje desfilam, sem que muitos saibam porque, nas festas patrióticas.

No judaísmo, o fogo é omnipresente. Deus se dá a conhecer a Moisés na sarça ardente. Ele acompanha o seu povo no deserto numa nuvem de fogo. Transmite sua lei no monte Sinai e sua Palavra a Isaías através do fogo. A Deus se agrada com a queima das oferendas no altar. Ele castiga e destrói Sodoma e Gomorra com chuva de fogo e enxofre. Mas num carro de fogo que Elias sobe vivo aos céus. Existe o fogo do céu e o fogo do inferno. E mais tarde, na Idade Média, haverá um fogo intermediário: o fogo do purgatório.

Entre as festas mais importantes de Israel, está a Festa dos Fogos ou das Semanas. Ela é celebrada sete semanas depois da Páscoa. É a época da colheita da cevada. Longe de suas casas para o trabalho, os agricultores se reúnem no campo e, ao redor de fogueiras, com danças e refeições que duram toda a noite, dão graças a Deus pelos frutos da terra. Quando o grego foi adotado como língua literária pelos hebreus, a festa passou a ser chamada Pentecostes. Com esse nome, a antiga festa passou para a tradição cristã, significando a presença do Espírito de Deus no meio do povo.

Tal festa não era exclusiva de Israel. Todos os povos agrícolas do Mediterrâneo e também os povos nórdicos a tinham em seu calendário. Na medida em que o cristianismo foi avançando pela Europa, novas assimilações de sentido foram sendo dadas a esse evento. Uma das mais fortes e presentes em nossa cultura popular, é a das festas juninas e, nelas, a do nascimento de João Batista.

Talvez João, o Batista, aquele que precedeu a Jesus, nada tenha a ver com as festas juninas e as festas juninas. O único fogo do qual ele fala, é o do castigo que consumirá toda a árvore que não produz bom fruto. Ela será cortada e jogada fora. Tomada ao pé da letra como o fazem alguns equivocados interpretadores fundamentalistas, poderíamos dizer que, quanto maior a fogueira, maiores são os pecados das pessoas que a fizeram! ­­Pensando assim, poderíamos imaginar que a fogueira de Herodes era a maior de todo o Oriente Médio. Daí o triste fim do Batista nas mãos do terrível militar…

Deixando as divagações apocalípticas de lado, melhor voltar às festas juninas e, lembrando a tradição judaica e as outras religiões que, com festas e danças, celebram a graça da vida e da bênção divina presentes nos frutos das colheitas, vamos também dar graças a Deus por estarmos vivos e termos o pão nosso de cada dia. E claro, lembrar, lamentar e protestar pelos tantos que padecem hoje vítimas dos Herodes hodiernos e suas políticas necrófilas.

Os peixes de Santo Antônio

Talvez alguns e algumas estranhem o título deste texto. Poucos estão acostumados a associar o Santo de ambígua nacionalidade com a atividade pesqueira. Mais do que aos rios e ao mar, na memória popular, o santo pregador é associado ao amor. No Brasil, é o santo casamenteiro, último recurso das moças incasáveis e desesperadas por sê-lo. Um problema para teólogos, pregadores e historiadores, entre os quais me incluo.

Na biografia do nascido português e adotado italiano, não há fatos que comprovem sua eficácia na arte de ajudar as moças a encontrarem marido. A possibilidade que vislumbro é a de que a habilidade de Antônio na pregação tenha derivado para a facilidade na sedução. Com a arte da palavra pode-se muitas coisas fazer, desde a Deus louvar até fazer o amor florescer lá onde pareça que não há possibilidades para tal.

Outras possibilidades existem para tal atribuição. A primeira vem de Portugal e remonta aos antigos celtas que por lá viveram e deixaram profundas marcas na cultura lusa. Santo Antônio, o maior dos santos portugueses, pode ter sido associado a Sucellus, a principal divindade do panteão céltico. Entre os atributos deste deus, estava a fecundidade. Não por acaso talvez, em algumas regiões do Brasil, o santo de angelical rosto é disfarçadamente representado com atributos reprodutivos masculinos avantajados.

O outro caminho é o da África. De lá veio o culto aos orixás e, entre eles, Exu, aqui no sul do Brasil também conhecido como Bará. Nos sincretismos à força forjados, ambos são identificados com Antônio. Entre as missões do Exu/Bará, está a de possibilitar a interlocução e interação entre os humanos e dos humanos com os orixás e com Deus. Exu/Bará é a força da comunicação que pode levar ao entendimento ou à confusão. Estar de bem com ele, invocá-lo benevolentemente, é um passo necessário para achar o caminho do amor e do casamento. Tudo o que Santo Antônio, na tradição popular, também faz.

Voltando a Santo Antônio, o real, aquele que viveu na região mediterrânea no séc. XIII, dentre os fatos mais memoráveis de sua vida está o famoso sermão aos peixes. Diante dos hereges de Rimini que não queriam ouvir o douto filho de Francisco de Assis, ele dirige-se à foz do rio e ali começa a pregar aos peixes. Tanto os de água doce como os de água salgada, pequenos, médios e grandes, atenta e silenciosamente o escutam e, com movimentos corporais assentem ao ensino do eloquente gajo. Assim como Francisco pregara aos pássaros, Antônio prega aos peixes. E o êxito do discípulo supera o do mestre, pois consegue trazer de volta à fé os que dela se haviam desviado.

O fato é lembrado por outro Antônio, também nascido em Lisboa, mas não franciscano. Foi Antônio Vieira, um jesuíta, quem no dia 13 de junho de 1654, festa de Santo Antônio, em São Luís do Maranhão, em seu sermão aos colonizadores do norte do que mais tarde viria a ser o Brasil, três dias antes de partir sorrateiramente para a metrópole a fim de denunciar as tropelias cometidas pelos portugueses contra os indígenas, prega “não sobre o santo”, mas “como o santo”. O sermão é belo e forte. Uma das obras prima da oratória sacra na língua portuguesa brasileira então nascente. E de uma força sagrada mais atual do que nunca.

Partindo dos peixes aos quais Santo Antônio pregara, o jesuíta faz uma viagem pelos demais habitantes aquáticos mencionados tanto no Antigo como no Novo Testamento e de cada um tira lição aplicável aos surdos ouvintes presentes que, diferentemente dos peixes, mais falam que escutam.

Belo seria poder mencionar a todos. Mas não há necessidade. Remeto ao sermão. Você leitor pode acessá-lo e fazer suas próprias ligações. A leitura será proveitosa tanto pelo aspecto literário como pelo religioso.

Apenas tomo a liberdade de convidá-lo a prestar atenção nas qualidades do peixe pescado por Tobias. Ele tem o poder de curar a cegueira e expulsar demônios. Duas coisas mais necessárias hoje do que nunca, no meu entendimento. Mas confira com seus próprios anzóis e, se por acaso, como o jovem herói do Antigo Testamento, você tiver um familiar cegado ou possuído pelo demônio, siga as ordens do arcanjo e não hesite em revirar as entranhas do monstro, retirar delas o fel e o coração. É algo malcheiroso, mas pode ser útil um dia…

Boa leitura e boa sorte com os peixes de Santo Antônio e dos Antônios que cruzarem com sua vida.

Assista o vídeo e inscreva-se em nosso canal no YouTube