Crises na VRC: apontamentos a partir do Magistério do Papa Francisco

Crises na VRC. Apontamentos a partir do Magistério do Papa Francisco

Frei Vanildo Luiz Zugno, OFMCap[1]

A eleição do Cardeal Bergoglio como Papa (Bispo de Roma, como ele se auto apresentou) significou uma lufada de ar fresco em meio ao marasmo miasmático em que vivia a Cúria Romana e parte significativa da Igreja Católica. Retomando o espírito do Concílio Vaticano II, o Papa Francisco abriu as portas e janelas para que o Espírito arejasse os espaços eclesiais com sua novidade e criatividade e, ao mesmo tempo, convidou os católicos a sair das preocupações intraeclesiais e “ir ao encontro” dos grandes desafios que o mundo de hoje apresenta para aqueles e aquelas que querem viver e propagar a Boa Nova do Reino.

O grande impacto provocado pelo novo Pontífice deve-se, em primeiro lugar, ao seu estilo e seus gestos. Um Papa simples, sem fausto, avesso à corte e seus cerimoniais, pobre e próximo dos pobres, disposto a construir pontes entre os diversos grupos afastados e muitas vezes em conflito, tanto dentro como fora da Igreja. Desde a sua primeira viagem à Ilha de Lampedusa para chamar à atenção da Europa sobre os migrantes até a recente viagem ao Oriente Médio e seu encontro com as lideranças muçulmanas, o Papa Francisco mostra profeticamente a necessidade de uma “Igreja em saída”. Inspirada na Lumem Gentium, a expressão, recorrente em suas falas e escritos, quer marcar “uma nova etapa evangelizadora” (EG 17) que busca levar a “Alegria do Evangelho” aos mais diferentes âmbitos da experiência humana.

Se a Evangelii Gaudium – primeiro e programático texto -tem como interlocutores os fieis e as lideranças da Igreja visando à renovação das estruturas eclesiais, na Laudato Sì o chamado é feito “a cada pessoa que habita este planeta” (LS 7) e é afetado ou se preocupa com os problemas e o futuro da Casa Comum. Na Amoris Laetitia, Francisco volta a um dos temas mais caros à Igreja: a família. Outra vez aqui, o objetivo não é reafirmar uma doutrina, mas convidar e dar critérios para uma ação capaz de acolher e cuidar daquelas famílias e pessoas que vivem situações de dor e sofrimento. Por fim, na Carta Encíclica Gaudete et Exsultate, o Papa conclui com uma reflexão que subjaz e sustenta a todas as anteriores: o chamado à santidade que Deus faz a cada uma e a todas as pessoas.

Nestes quatro documentos, a VRC é tratada tangencialmente na relação com o tema principal. Propomo-nos aqui, no entanto, assinalar alguns elementos deste Magistério que consideramos inspiradores para pensar – nos dois sentidos da palavra: refletir e cuidar – as crises na VRC. Tomamos livremente os textos e os interpretamos a partir da preocupação que dirige esta reflexão. Sugerimos aos leitores e leitoras ter em mãos os textos dos documentos e, na medida em que vamos avançando, consultá-los e meditá-los construindo suas próprias reflexões.

Assumir as crises

As crises na VRC não soem acontecer nos primeiros anos de consagração. Estes são, geralmente, de encantamento pela vida comunitária e entusiasmo missionário típicos da juventude. É com o passar dos anos e a instauração da rotina e de ter que fazer a cada ano, a cada mês, a cada semana, a cada dia sempre o mesmo e tudo outra vez de novo, que as crises se apresentam com mais frequência. Crises que nem sempre são fragorosas e perceptíveis para quem está ao lado do/a religioso/a ou até para aquele/a que a está vivendo. Na maioria dos casos, a crise vai se instalando silenciosamente e, quando a pessoa percebe, já tomou conta do seu coração e afeta sua ação e suas relações. Deste caráter quotidiano das crises nasce o desafio de manter a fidelidade nos “momentos insignificantes da vida” e ser capazes de superar “as crises e os momentos de angústia sem fugir aos desafios nem esconder as dificuldades” (AL 231).

Nesse sentido, indica o Papa na sequência, a crise, mesmo provocando dores e sofrimentos, é preciosa oportunidade para retomar o primeiro amor e um possível passo para degraus superiores na consagração. Parafraseando o n. 232 da Amoris Laetitia, podemos dizer que a história de um religioso/a está marcada por crises de todo o gênero, que são parte também de uma dramática beleza. É preciso ajudar a descobrir que uma crise superada não leva a uma consagração menos intensa, mas a melhorar, sedimentar e maturar o vinho da consagração. Cada crise implica uma aprendizagem, que permite incrementar a intensidade da vida religiosa ou, pelo menos, encontrar um novo sentido para a experiência de consagração.

Nesse sentido, pode-se dizer com o Papa que cada crise é, a seu modo, uma “boa notícia” porque nos provoca a “saber escutar, afinando os ouvidos do coração” (AL 232). O que o Papa fala aos casais, pode ser, literalmente, aplicado à VRC:

Perante o desafio duma crise, a reação imediata é resistir, pôr-se à defesa por sentir que escapa ao próprio controle, por mostrar a insuficiência da própria maneira de viver, e isto incomoda. Então usa-se o método de negar os problemas, escondê-los, relativizar a sua importância, apostar apenas em que o tempo passe. Mas isto adia a solução e leva a gastar muitas energias num ocultamento inútil que complicará ainda mais as coisas. Os vínculos vão-se deteriorando e consolida-se um isolamento que danifica a intimidade. (AL 233).

Tudo isso não significa que devamos resignar-nos às crises. Pelo contrário. Mesmo sendo elas inevitáveis, é preciso aprender a lidar com elas. E o primeiro passo parar enfrentar uma crise é “estar presente”, tanto por parte de quem se sente vivendo uma crise como de parte daqueles que convivem com essa pessoa. A tentação primeira e primária, numa situação de crise é o isolamento e o trancar-se “num silêncio mesquinho e enganador”: Não quero que vejam que estou em crise” ou “-Não quero que o outro saiba que eu sei que ele está em crise”!

Educar para a capacidade de comunicação é “uma verdadeira arte que se aprende em tempos calmos para se pôr em prática nos tempos borrascosos” (AL 231). Desde a formação inicial e como uma temática a ser constantemente retomada na “formação permanente”, o/a religioso/a precisa aprender a comunicar e a aceitar a comunicação nos momentos críticos da vida.

Os diferentes tipos de crises

Nem todas as crises são iguais. Há vários tipos de crise que afetam a vida de um/a religioso/a. Saber distinguir a natureza e a origem é importante para o diagnóstico que poderá indicar o caminho da sanação.

Há crises tipicamente pessoais que emergem nas mudanças pelas quais cada pessoa vai passando ao longo de sua vida (AL 236). É muito comum na VRC a falsa ideia de que o/a religioso/a é eternamente jovem e que poderá atuar ao longo de toda a sua vida com a mesma entrega e produtividade de quando tinha trinta-quarenta anos. Infeliz ou felizmente, religiosos/as também envelhecem! Normalmente entramos jovens na congregação e, aos dez-quinze anos de consagração passamos para a fase adulta e mais tarde começamos o processo de envelhecimento. Em cada fase, as possibilidades e necessidades físicas, mentais, afetivas, psíquicas, sociais e espirituais mudam. E nem sempre o/a religioso/a está preparado para acolher e responder positivamente a estas mudanças que nascem da nossa condição humana.

Junte-se a isso as crises que emergem nos momentos de doença e, nela, da perspectiva da morte. Religiosos/as têm a tendência muito forte de imaginar-se imunes a toda enfermidade e, por consequência, imortais. Confrontar-se com a própria humanidade e sua fragilidade é condição indispensável para aprender a conviver e administrar as crises pessoais.

Pensemos também nas crises advindas do ambiente laboral e que afetam a pessoa nas suas necessidades e sonhos. Para muitos/as religiosos/as, o trabalho se confunde com a atuação pastoral, educativa ou social. E isto pode camuflar as  expectativas e frustrações que se fundamentam na necessidade de realização, reconhecimento e recompensa que todo ser humano espera de seu trabalho. Para muitos/as religiosos/as, o trabalho pode tornar-se um vício ou um martírio e isso pode provocar profundas crises pessoais. Nessas situações, não basta rezar e tudo oferecer a Deus. Sem descartar a espiritualidade que deve sempre ser o motor do trabalho, é necessário estar atentos à dimensão de realização humana da atividade laboral tão bem destacada pela Doutrina Social da Igreja.

Ou ainda – e muito mais perigosa – as expectativas (verdadeiras ou falsas) que brotam do exercício de alguma função de administração nas obras pastorais, educativas ou sociais ou de governo nas instâncias internas da comunidade ou das congregações. A vontade do exercício do poder é algo inerente à condição humana. E a experiência de seu exercício pode levar à fascinação ou a extremas decepções. Quantos/as religiosos/as que não conseguem viver longe do poder ou, quando o deixam, também abandonam a vida religiosa…

Mas há também as crises pessoais que tem sua origem no ambiente comunitário ou institucional mais amplo (AL 235). Pensemos, por exemplo, na composição das comunidades. É muito comum que a recomposição dos membros de uma comunidade se torne o caldo para o aparecimento de crises. Não podemos nunca esquecer que nós somos nós e nossas relações! E as relações mais próximas e desafiadoras são as que vivemos no dia a dia com os irmãos e irmãs de comunidade. Quando a comunidade não consegue criar um espaço de convivência transitiva, de cumplicidade na missão, de mútua satisfação afetiva, não há como evitar as crises comunitárias. O habitual, quando um irmão ou irmã entra em crise, é jogar toda a culpa nessa pessoa: “- Ele/a está em crise!” Mas, e a comunidade, não tem ela também participação nesta dor e sofrimento do irmão ou da irmã?

E há as crises de fundo institucional mais amplo. Assim como as pessoas, as instituições também mudam com o tempo. Muitos/as religiosos/as ingressaram em uma congregação com uma determinada expectativa e, mesmo que, no momento inicial, tenham podido realizá-la, com o passar dos anos sentem-se limitados pelas premências ou deficiências institucionais. É comum ouvir-se de consagrados/as a afirmação de que “não entrei para a vida religiosa para isso!” Ou então, de que “para viver o carisma ao qual me consagrei, tenho que abandonar a instituição”. São afirmações duras que mostram que a razão da crise não está na pessoa, mas na instituição. Se a instituição não mudar, muitos outros/as entrarão em crise…

Por fim, como assinala o Papa Francisco (AL 237), há as que nascem da “fragilidade humana”, da imaturidade afetiva ou espiritual, de falsas expectativas em relação à VRC não sanadas durante o tempo de formação. Para essas situações, há necessidade de acompanhamento especializado que ajude o/a religioso/a a “buscar as raízes profundas do que está a suceder, de voltar a negociar os acordos fundamentais, de encontrar um novo equilíbrio” que lhe permita avançar como pessoa humana, como cristão e como consagrado/a (AL 237).

Alguns princípios fundamentais

Um primeiro e fundamental princípio no tratamento das crises é o de que a pessoa está acima dos votos. Com efeito, a fidelidade aos votos de pobreza, obediência e castidade são um parâmetro que ajuda a estabelecer um limite entre o aceitável ou não aceitável em determinado comportamento ou estilo de vida. Mesmo supondo que o/a religioso/a sejam pessoas maduras e que, portanto, o que fazem, fazem-no conscientemente, os/as superiores/as que acompanham os irmãos e irmãs nos momentos de crise “não podem esquecer aquilo que ensina, com muita clareza, o Catecismo da Igreja Católica: ‘A imputabilidade e responsabilidade dum ato podem ser diminuídas, e até anuladas, pela ignorância, a inadvertência, a violência, o medo, os hábitos, as afeições desordenadas e outros fatores psíquicos ou sociais’ (Cath 1735)” (EG 44).

Não sendo o grau de responsabilidade igual em todos os casos e tendo presente os múltiplos fatores presentes numa crise, “ao mesmo tempo que se exprime com clareza a doutrina, há que evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das diferentes situações, e é preciso estar atentos ao modo como as pessoas vivem e sofrem por causa de sua condição” (AL 79).

Decorrente deste, temos o princípio da gradualidade. Nem todos os atos decorrentes de uma crise podem ser medidos com a mesma régua. E os mesmos atos praticados por diferentes pessoas em circunstâncias diferentes também devem ser pesados diferentemente. Isso não significa uma relativização da lei, “mas uma gradualidade no exercício prudencial dos atos livres em sujeitos que não estão em condições de compreender, apreciar oupraticar plenamente as exigências objetivas da lei.” (AL 295).

Olhado positivamente, esse princípio lembra que “um pequeno passo, no meio de grandes limitações humanas, pode ser mais agradável a Deus do que a vida externamente correta de quem transcorre seus dias sem enfrentar sérias dificuldades” (EG 44). Ou, o que é pior ainda, o perigo maior daquele/a religioso/a que faz do ocultamento de suas próprias crises uma falsa virtude que o impede de ver a descida degradante que a cada dia o leva mais ao fundo do poço.

Seja num caso ou no outro, se impõem, acima de tudo, o princípio da misericórdia que se fundamenta na longa tradição eclesial evidenciada pelo Papa: “Duas lógicas percorrem toda a história da Igreja: marginalizar e reintegrar. (…) O caminho da Igreja, desde o Concílio de Jerusalém em diante, é sempre o de Jesus: o caminho da misericórdia e da integração. (…) O caminho da Igreja é o de não condenar eternamente ninguém; derramar a misericórdia de Deus sobre todas as pessoas que a pedem com coração sincero (…). Porque a caridade verdadeira é sempre imerecida, incondicional e gratuita” (AL 296).

E ela é tal – imerecida, incondicional e gratuita – porque se fundamenta não numa capacidade humana, mas no próprio ser de Deus que nos salvou e chamou gratuitamente, sem nenhum mérito nosso e sem que nós possamos, por nossas próprias forças, nada a ela acrescentar. Então, se Deus assim me perdoou, “quem sou eu para julgar”?

Três imagens, apresentadas de forma detalhada na Bula Misericordiae Vultus, perpassam os escritos papais e nos ajudam a meditar o princípio da misericórdia com a qual precisamos tratar as pessoas que estão em crise: s do pastor que deixa as 99 ovelhas salvas no aprisco e vai buscar a extraviada; a da mulher que não descansa até não encontrar a moeda perdida; e a do pai com os seus dois filhos (cf. Lc 15, 1-32). Segundo o Papa, “nestas parábolas, Deus é apresentado sempre cheio de alegria, sobretudo quando perdoa. Nelas, encontramos o núcleo do Evangelho e da nossa fé, porque a misericórdia é apresentada como a força que tudo vence, enche o coração de amor e consola com o perdão.” (MV). Se Deus é assim, nós que nos dizemos seus filhos e queremos ser como ele, por que não agiríamos da mesma forma com os irmãos e irmãs que, em meio à crise, se perderam?

Cabe ainda lembrar que “a misericórdia tem dois aspectos: é dar, ajudar, servir os outros, mas também perdoar, compreender. (…) Dar e perdoar é tentar reproduzir na nossa vida um pequeno reflexo da perfeição de Deus, que dá e perdoa superabundantemente. (…) A medida que usarmos para compreender e perdoar será aplicada a nós para nos perdoar. A medida que aplicarmos para dar, será aplicada a nós no céu para nos recompensar. Não nos convém esquecê-lo. (…) É necessário pensar que todos nós somos uma multidão de perdoados. Todos nós fomos olhados com compaixão divina. Se nos aproximarmos sinceramente do Senhor e ouvirmos com atenção, possivelmente uma vez ou outra escutaremos esta repreensão: «não devias também ter piedade do teu companheiro como Eu tive de ti? (Mt 18, 33)” (GE 80-82).

Para as pessoas convivendo e/ou acompanhando processos de crise é imprescindível dar-se conta que “muitas vezes é melhor diminuir o ritmo, por de parte a ansiedade para olhar nos olhos e escutar, ou renunciar às urgências para acompanhar quem ficou caído à beira do caminho” (EG 46).

Decorrente do princípio da misericórdia, está o princípio das portas sempre abertas. Se Deus é graça, e se sua graça é misericórdia, quem somos nós para pretender fechar as portas à ação restauradora de Deus? Como diz o Papa, “muitas vezes agimos como controladores da graça e não como facilitadores. Mas a Igreja não é uma alfândega; é a casa paterna, onde há lugar para todos com a sua vida fadigosa” (EG 47).

Não basta, porém, deixar as portas sempre abertas. É preciso deixar que as pessoas entrem e (re)ocupem o seu lugar na comunidade. É o que podemos chamar de princípio da reintegração. Com efeito, “ninguém pode ser condenado para sempre, porque esta não é a lógica do Evangelho!” (AL 297). A apocatástase final que anelamos, firmes na certeza de que o amor de Deus é maior que todo possível pecado humano, é um chamado a acolhermos de volta ao irmão ou irmã que, superadas as situações objetivas de possível pecado decorrentes da crise, pede para ser reintegrado na comunidade. Cabe a esta discernir o modo desta integração (AL 297-300), mas nunca negá-la definitiva e completamente.

Disposições espirituais para a superação das crises

No Capítulo IV da Gaudete et Exsultate, ao apresentar “algumas características da santidade no mundo atual”, o Papa Francisco apresenta algumas disposições espirituais que podem ajudar na aceitação, administração e solução das  crises.

A primeira disposição é a da suportação, paciência e mansidão. A simples observação destas três palavras poderia nos levar ao engano de considerar que o centro da solução para a resolução das situações conflitivas está nas pessoas nelas envolvidas. Não é isso que afirma o Papa. Segundo ele, a base sólida para a resolução dos conflitos não está nas pessoas, mas em Deus. Só quem deposita sua fé em Deus e não em si mesmo ou na comunidade é capaz de “suportar as contrariedades, as vicissitudes da vida e também as agressões dos outros, as suas infidelidades e defeitos: ‘se Deus está por nós, quem pode estar contra nós?’ (Rm 8, 31).” (GE 112).

É a fé de que o fundamento da vida em comunidade não está nos membros da comunidade e nem na instituição, mas no Deus que nos chama e congrega, que nos permite crer na possibilidade de restaurar os laços comunitários danificados ou até mesmo rompidos. Só é capaz de suportar a debilidade do irmão ou da irmã aquele/a que se sabe suportado pelo amor de Deus e, a partir desta experiência, é capaz de “não pagar a ninguém o mal com o mal (cf. Rm 12, 17), a não fazer-se justiça por conta própria (cf. 12, 19), nem a deixar-se vencer pelo mal, mas vencer o mal com o bem (cf. 12, 21)” (GE 113).

É esta força que vem de Deus que gera em nós a capacidade de não deixarmo-nos levar pelas “inclinações agressivas e egocêntricas” que fazem parte de nossa condição humana (GE 114). Ela também “impede de nos deixarmos arrastar pela violência que invade a vida social, porque a graça aplaca a vaidade e torna possível a mansidão do coração.” (GE 116).

Para isso, é preciso aprender a conviver com as humilhações da vida: “Sem elas, não há humildade nem santidade” (GE 118). Cristo nos santificou através da humilhação da cruz e nos convida a seguir seus passos (1 Pd 2,21). Há as humilhações públicas e vexatórias como a dos/as cristãos/ãs expostos/as e execrados publicamente por causa do Reino de Deus. Mas há também as humilhações do quotidiano, do calar-se para preservar o nome e a honra do irmão ou da irmã, da comunidade, da Igreja, o evitar falar de si mesmo para que a honra seja atribuída a outro que nem sempre a tem, ou escolher as atividades e postos menos honrados e que ninguém quer assumir, mas que são importantes para o êxito da comunidade e da missão (GE 119).

Só quem passa e toma consciência desta dimensão salvadora da humilhação está apto a compreender o irmão ou a irmã humilhado/a em sua crise e sua dor e disponível para estender-lhe a mão e ajudá-lo a levantar-se.

Outra disposição importante é a alegria e sentido de humor. Com efeito, a fé cristã nasce da certeza de que a salvação prometida por Deus já está realizada e nós dela participamos. Nós acreditamos na Boa Notícia anunciada no Antigo Testamento e realizada de forma definitiva na pessoa de Jesus Cristo. Por isso, mesmo nos momentos difíceis, nos tempos de cruz, em meio às crises e suas dores e sofrimentos, o cristão é chamado a dar testemunho da Alegria do Evangelho (GE 122).

A estética da VRC, na tradição ocidental, é marcada pela tristeza, monotonia, monocromatismo, assepsia e uniformidade. Muitas casas religiosas, mais do que casas onde moram pessoas que vivem a alegria do Evangelho, parecem sombras de hospitais, prisões ou cemitérios. É apenas um sintoma. Mas ele é significativo e pede diagnóstico e tratamento.

E o tratamento para isso, alerta o Papa (GE 128) não pode ser feito através do consumismo individualista próprio de nossa sociedade capitalista (LS 203). Não é enchendo a casa com coisas que apenas propiciam prazeres ocasionais e passageiros que se vive uma VRC alegre. A verdadeira alegria cristã é aquela “que se vive em comunhão, que se partilha e comunica, porque ‘a felicidade está mais em dar do que em receber’ (At 20, 35) e ‘Deus ama quem dá com alegria’ (2 Cor 9, 7).” (GE 128).

 Da sã alegria nasce, segundo o Papa, o sentido de humor (GE 126-127). Falta-nos, muitas vezes, nos momentos de crise, a capacidade de rir de nós mesmos, da importância que damos a coisas tão pequenas e de nos considerarmos mais do que somos no conjunto da Igreja, da humanidade e do universo. Se olharmos as galerias de santos presentes nas capelas e nos corredores de nossas casas, será que encontraremos alguma imagem de santo/a com sequer um sorriso nos lábios? Todos/as sérios/as, sisudos/as, com olhar pesado e rostos contraídos… São apenas imagens. Mas são reflexo dos que os imaginaram e realizaram: religiosos tristes e acabrunhados que se tomam mais a sério do que realmente o são. Sejamos capazes de nos relativizarmos, de rir de nós mesmos, de viver com alegria e humor. E as crises serão mais fáceis de suportar e superar.

Um terceiro elemento é a ousadia e ardor. As crises sempre geram medo e insegurança. É natural que seja assim. Tudo aquilo que estava constituído como base do ser e agir parece esfacelar-se abrindo um buraco que nos engole. Neste contexto, uma tentação frequente é a do fechamento, seja em si mesmo, seja na comunidade. Diante da instabilidade, o mais seguro parece ser o manter-se dentro do mundo conhecido e dominado. Nada mais fatal para quem está em crise do que esta atitude.

Com efeito, cada pessoa não é uma mônada no universo. Como dizíamos anteriormente, nós somos nós e nossas relações. Quando uma pessoa está em crise, também as relações que a constituíam estão em crise. Manter-se dentro do mesmo universo é o primeiro passo para a impossibilidade de superação da crise e a morte certa por asfixia. É preciso sair do mundo que muitas vezes é o fator causante da crise e buscar novas relações.

Para o/a consagrado/a, que tem sua vida orientada pelo Evangelho, a crise só pode ser superada com parresia, com ousadia e impulso evangelizador (GE 129). A compaixão para com o outro que talvez sofra muito mais que nós mesmos (GE 131 e 135) pode ser, na maioria dos casos, um elemento fundamental para a superação de crises que resultam do ensimesmamento egocêntrico.

É preciso vencer o perigo da habituação, que “seduz-nos e diz-nos que não tem sentido procurar mudar as coisas, que nada podemos fazer perante tal situação, que sempre foi assim e todavia sobrevivemos” (GE 137).

Assim como “a santificação é um caminho comunitário” (GE 141), a superação das crises na VRC sempre passa pela mediação da comunidade. Em primeiro lugar, porque, como dissemos acima, muitas vezes, a crise não é da pessoa, mas da comunidade. A pessoa só superará sua crise se toda a comunidade passar por um processo de sanação. Se é verdade que uma maçã podre apodrece todo o cesto, também é verdade que não adianta colocar uma maçã sã num cesto de maçãs podres. Logo, logo, a maçã boa também apodrecerá.

Nossa cultura ocidental – e nela a VRC – é marcada pelo mito do herói solitário. Aquele homem que, sem a ajuda de ninguém, conseguiu superar todas as tentações e alcançar a glória eterna. Nas narrativas fundacionais, frequentemente se exacerba a importância do/a fundador/a e se esquece a comunidade que com ele/a deu configuração histórica ao carisma. Por trás destas narrativas, está a tentação do pelagianismo que dispensa a graça de Deus e a mediação da comunidade enquanto sinal sensível da graça de Deus no mundo (GE 47-62).

Nós “cremos na comunhão dos santos”. Ninguém se salva sozinho (GE 141). Por que então, pretender dispensar a comunidade nos momentos de maior dor e sofrimento. O isolamento só acirra a crise e pode conduzir a um beco sem saída. Assim como a crise eclesial só pode ser superada por “uma Igreja em saída”, também as crises da VRC serão mais facilmente superadas com atitudes missionários, de saída, de desenclaustramento e coragem de assumir novos desafios e novas relações.

Se a parresia e a comunidade são as aberturas ao outro que desvendam caminhos para a superação das crises, a oração é a abertura para o Grande Outro que nos dá a força para superá-las de forma definitiva. É a abertura a Deus que impede o/a religioso/a de “asfixiar-se na imanência fechada deste mundo” (GE 147).

Para superar as crises, uma importante ajuda é o hábito de dialogar com Deus tanto na vida diária (GE 148) como em momentos extraordinários e exclusivos para o encontro com Ele (GE 149).

Encontro com Deus que não é evasão do mundo (GE 152), mas olhar o mundo com o olhar de Deus e, a partir dele, poder contemplar o panorama da salvação em meio ao qual a crise pessoal ou comunitária se situa. A oração é falar a Deus, sim. Mas é também deixar que ele nos fale e nos descreva a nossa crise tal qual Ele a vê. E assim, sob a luz da Palavra, poderemos tomar as decisões mais acordes com a vontade divina.

Conclusão

Uma Igreja renovada pelo reencontro com Cristo que convida sua Esposa a sair outra vez a caminho para recolher os/as filhos/as desgarrados/as e abrir-se às novas realidades, certamente vai gerar uma nova VRC. Esse parto não se dará sem crises, sem dores e sem sofrimentos. É preciso passar por elas. Mas o fazemos com a certeza de que o nosso caminhar é dirigido por Aquele que passou pela crise do Horto das Oliveiras e pela crise da Cruz. Confiado no Pai e com a força do Espírito, foi capaz de superar a agonia e a morte e renascer Ressuscitado. Se, enquanto religiosos/as morrermos com Ele na construção de novas pessoas, uma Nova Igreja, de uma nova humanidade e do Reino de Deus, temos certeza que a VRC renascerá em novas configurações para anunciar e testemunhar, nos novos tempos, a Alegria do Evangelho.

REFERÊNCIAS

FRANCISCO, Papa. Amoris Laetitiae. Exortação apostólica Pós-Sinodal do Santo Padre Francisco aos bispos, aos presbíteros e aos diáconos, às pessoas consagradas, aos esposos cristãos e a todos os fieis leigos sobre o amor na família. Roma, 19 de março de 2016. Disponível em: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html Acesso em: 15 de fevereiro de 2019.

FRANCISCO, Papa. Evangelii Gaudium. Exortação Apostólica do Papa Francisco ao episcopado, ao clero, às pessoas consagradas e aos fiéis leigos sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. Roma, 24 de novembro de 2013. Disponível em: https://m.vatican.va/content/dam/francesco/pdf/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium_po.pdf Acesso em: 15 de fevereiro de 2019.

FRANCISCO, Papa. Gaudete et Exsultate. Exortação Apostólica do Papa Francisco sobre a santidade no mundo atual. Roma, 19 de março de 2018. Disponível em: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20180319_gaudete-et-exsultate.html Acesso em: 15 de fevereiro de 2019.

FRANCISCO, Papa. Laudato Sì. Carta Encíclica do Santo Padre Francisco sobre o cuidado da casa comum. Roma, 24 de maio de 2015. Disponível em: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html Acesso em: 15 de fevereiro de 2019. FRANCISCO, Papa. Misericordiae Vultus. Bula de Proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia. Roma, 11 de abril de 2015. Disponível em: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/apost_letters/documents/papa-francesco_bolla_20150411_misericordiae-vultus.html Acesso em: 14 de fevereiro de 2019.

[1] O presente texto foi originalmente publicado na Revista Convergência (Brasília, Conferência dos Religiosos do Brasil), Ano LIV, n. 573, julho-agosto 2019, p. 70-81.

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