
Muitos dos que já deixamos para trás meio século de existência, lembramos das Missões Populares pregadas por religiosos capuchinhos ou de outras congregações. Durante alguns dias ou algumas semanas, conforme o caso, passavam o dia nas capelas das paróquias com longas e tonitruantes pregações sobre a morte, o juízo, o inferno e o paraíso. Muitos se confessavam, comungavam, oficializavam seus matrimônios e recebiam a Unção dos Enfermos. No final da missão, no meio da praça em frente à capela, era erguida uma cruz e nela a inscrição “Salva tua Alma”.
Os tempos eram outros. As Missões Populares pregadas neste formato na década de 1970 eram um resquício do período pré Vaticano II. Em poucos anos, seguindo as orientações do Concílio, as missões, assim como quase tudo na Igreja, seguiu as novas orientações. O lema “Salva tua Alma” foi mudado para “Unidos em Cristo”. As pregações sobre os novíssimos foram substituídas por temas centrados na Igreja como comunidade de irmãos e irmãs que buscam unidos o seguimento de Jesus Cristo.
Pouco a pouco temáticas sociais foram incorporadas aos conteúdos das missões assumindo a Doutrina Social da Igreja que, desde a última década do século XIX, com Leão XII, passara a se preocupar com as “Coisas Novas” que emergiam na sociedade. O acento nas temáticas sociais foi alimentado pelas Campanhas da Fraternidade promovidas pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) que, ao lado de questões ligadas à organização da Igreja, visam chamar a atenção sobre situações de dor e sofrimento vividas pelo povo brasileiro e o modo como os cristãos podemos agir para superá-las.
Prenunciando tempos de crise ecológica, em 1979, a Campanha da Fraternidade teve como tema “Por um mundo mais humano: Preserve o que é de todos”. Na época, quase ninguém, nem nos governos ou na sociedade civil, preocupava-se com questões ambientais. Como podemos ver no tema, o centro ainda era a preocupação com o humano. A preservação do meio ambiente era instrumental.
Mas a crise ecológica foi dando seus sinais e a Igreja assumiu a temática em outras quatro Campanhas da Fraternidade. Em 2004 com o tema “Fraternidade e água: Água, fonte de vida”; em 2007, “Fraternidade e Amazônia: vida e missão neste chão”; em 2011, “Fraternidade e a Vida no Planeta” e em 2017, “Cultivar e guardar a criação”. E agora, em 2025, ecoando a Encíclica do Papa Francisco, “Fraternidade e Ecologia Integral”.
Podemos dizer que, definitivamente, passamos do “Salva a tua Alma” para o “Salvemos a Criação”. Uma compreensão que se fundamenta no fato de que tudo o que vem de Deus para Ele voltará. Se as criaturas todas foram criadas por Deus, elas estão imersas hoje e para sempre no plano divino da criação e nós, humanos, como cuidadores, somos convidados a zelar e agir para que nenhuma se perca.
Oxalá, nas próximas missões populares, na praça em frente às capelas e igrejas matrizes, possamos plantar árvores e um lindo jardim e, no meio delas, uma cruz ostentando o chamado “Salvemos a Criação”.
