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Pouco menor que os anjos…

Foto por Ellie Burgin em Pexels.com

Dentre os 150 salmos da Bíblia, um dos que mais me fascinam é o Salmo 8. O poema inicia e termina com uma grande louvação a Deus. É o tema central dessa fascinante oração. No seu núcleo, o louvor a Deus é feito utilizando o contraste com o ser humano. Mas diferentemente do que se poderia esperar, a grandeza de Deus não é descrita através da pequenez humana e das outras criaturas. Pelo contrário. É na grandeza das criaturas celestes e terrestres e da última obra de Sua criação que a magnificência de Deus se faz conhecer.

Escrito em contexto pastoril, o poema canta a capacidade do ser humano em gerir a vida dos outros animais que com ele compartilham o espaço vital: as ovelhas e bois, os animais do campo, as aves dos céus, os peixes do mar e tudo o que passa pelas veredas dos mares.

Ao recitar os versos desta oração, fico a imaginar como seria este salmo se fosse escrito nos dias atuais. Certamente as capacidades tecnológicas desenvolvidas pela humanidade nos últimos séculos e, de modo acelerado, nos últimos decênios, seriam incluídos entre os motivos para louvar a Deus por ter feito o ser humano apenas um pouco menor que os anjos. A produção agrícola, os meios de transporte e comunicação, as cidades, a vida em sociedade. Tantas coisas maravilhosas que nos dão motivo para cantar a glória de Deus através das capacidades quase angélicas dos humanos.

Em meio às divagações, no entanto, sou lembrado de que um dos anjos optou por um caminho diferente do proposto por seu criador. Lúcifer, o Brilho da Manhã, preferiu voltar sua face para o outro lado da fonte de toda luz e se transformou no Ser das Trevas. E aí a pergunta terrível que, ao olhar a realidade do mundo de hoje, sou tentado a fazer: será que o ser humano, ao ser criado, não estava também um pouco abaixo deste anjo que se rebelou contra Deus?

Se fomos feitos um pouco menores que os anjos, por que num mundo em que são produzidos mais alimentos do que os necessários para alimentar os oito bilhões de pessoas que somos, ainda há 800 milhões de pessoas passando fome? Por quê num mundo em que já se decifrou o DNA e se produzem medicamentos para emagrecer os que ficam obesos por consumir mais do que precisam, ainda morrem crianças por diarreia, mulheres por infecções perinatais, adultos por tuberculose, lepra, malária, dengue, febre amarela, câncer e AIDS? Por quê os oito homens mais ricos do mundo detêm mais riqueza que os 50% mais pobres? Por quê, com toda a informação científica disponível, ainda nos negamos a reconhecer a emergência climática que a cada dia bate à nossa porta? Por quê num mundo de comunicação instantânea, os poderosos deste mundo assistem impassíveis ao genocídio de todo um povo espoliado de seu território, negado em sua cultura e em sua religião? Por quê em países até pouco democráticos renascem e vicejam agrupações políticas xenófobas, racistas e fascistas?

“Pouco menor que os anjos o fizestes…” Assim diz o salmo. No plural: anjos. Talvez todos nós trazemos dentro de nós um pouco dos anjos bons e um pouco de Lúcifer. Ele era um dos anjos…Voltando o rosto para o outro lado, muitas vezes, como fez Caim, pretendemos escondermo-nos do rosto de Deus presente no rosto de cada irmão e irmã que tem seu sangue derramado.

Um salmo que faz pensar: “que é o ser humano mortal”?