Arquivo mensal: setembro 2025

Viver para contar

Termino esta segunda semana de setembro de 2025 com duas lembranças. A primeira, de dimensão mais pessoal, é a epígrafe do livro de memórias postumamente publicado do escritor colombiano Gabriel Garcia Marquez. Diz ele na frase inicial com a qual nos dá a chave do sentido de sua obra: “A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la”.

Nesta semana, aqui na capital federal, na qual estou temporariamente residindo, vivemos não apenas o juízo de um grupo de homens (só homens, nenhuma mulher!) que, como sentenciou o STF, tentou manter-se no poder contra a vontade popular e, para isso, conspirou contra as instituições democráticas que constituem a nação brasileira.

Da minha sala de trabalho num prédio exatamente em frente à Esplanada dos Ministérios, como outros tantos brasileiros e brasileiras, enquanto dava conta da rotina de trabalho, acompanhei atentamente o julgamento. Das muitas frases ditas pela Procuradoria, pelos advogados de defesa e pelos juízes da Primeira Turma do STF, uma me impactou e me fez repensar meu percurso enquanto cidadão brasileiro. Disse a Ministra Carmem Lúcia em seu voto: “A essência deste processo é quase um encontro do Brasil com o seu passado, com o seu presente e com o seu futuro”.

E dessa primeira lembrança, nasce a segunda, a lembranda social, os muitos eventos que, como cidadão brasileiro, tive a oportunidade de viver nestas minhas quase seis décadas de existência.

Enquanto escutava o julgamento da camarilha, um longo filme passou na minha cabeça. Uma retrospectiva que inicia nos anos de 1970 com as campanhas da ARENA X MDB, passa pela década de 1980 quando, já estudante universitário, tive a felicidade de viver as Diretas Já e, em seguida, a Assembleia Constituinte e a épica eleição presidencial de 1989 que culminou com o impeachment do Collor que deu lugar aos anos neoliberais de FHC que, com seu fracasso tornaram possível a primeira eleição de Lula que as velhas forças políticas tentaram sabotar com o dito “mensalão” que não impediu os avanços econômicos e sociais do segundo mandato de Lula e o primeiro de Dilma e que só foi detido com o golpe jurídico-midiático-empresarial de 2016 e, na sua sequência, o desastre econômico, social, cultural e político dos quais a organização criminosa que nesta semana foi julgada por tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e Golpe de Estado é a memória viva julgada e condenada pelas instituições do Estado Democrático de  Direito.

Um longo filme. Cenas alegres e também tristes. Muito para recordar, muito para chorar e também, porque não, muito para rir. E, sobretudo, muito para contar porque, como diz o escritor, o que importa, não é o que a gente viveu, mas como viveu e como o recordamos para contar para aqueles que não o viveram mas virão depois de nós fazer parte desta nação que chamamos Brasil.

Coisas horríveis nos são anunciadas!

No ano de 410 d.C., o inimaginável aconteceu. Os godos, um povo vindo das estepes da Ásia Central, agora sob o comando de Alarico, venceram as muralhas de Roma e, para terror de seus habitantes, saquearam a cidade. Pela primeira vez, o fogo e o sangue que o Império havia levado até os confins do mundo conhecido, corriam e consumiam a cidade até então considerada inexpugnável.

O medo das consequências deste fato inesperado e inexplicável tomou conta não apenas dos que habitavam dentro das muralhas agora em frangalhos. Rapidamente a inquietação espalhou-se por todo a orbe romana. Como tal fato poderia ter acontecido? Qual era a causa de tamanha desgraça?

Para piorar a situação, os godos não se detiveram em Roma. Continuaram avançando pelos domínios romanos na Europa e no Norte da África desestruturando a rede de comércio e sustentação do Império que, pouco a pouco, entrou em declínio até ser finalmente derrocado em 476 d.C. pela ação de Odoacro, comandante dos hérulos que depôs Rômulo Augusto, último imperador romano.

Voltando ao ano de 410 d.C., quando Alarico entrou em Roma e a saqueou, a notícia chegou rapidamente ao norte da África onde, na cidade de Cartago, Agostinho de Hipona era bispo. Impactado pela notícia, o filho de Mônica buscou compreender o que Deus queria dizer com aquela desgraça. Afinal, tanto para pagãos como para cristãos, Roma sempre fora considerada uma cidade sagrada, com especial proteção divina. Daí a pergunta que não queria calar: por que Deus permitiu que tal desgraça acontecesse?

Em um domingo, diante da comunidade reunida, Agostinho tenta dar uma resposta que ficou consignada no sermão intitulado “De urbis excídio”, ou seja, “Sobre a destruição da cidade”.

O sermão começa afirmando a dimensão da tragédia: “Coisas horríveis nos são anunciadas: devastação, incêndios, rapinas, mortes e tormentos de homens. É verdade. Ouvimos muitos relatos, gememos e muito choramos por tudo isso, não podemos consolar-nos ante tantas desgraças que se abateram sobre a cidade”.

Como pastor e teólogo, Agostinho dá uma resposta a partir da fé que ele professa e cultiva entre as ovelhas que lhe foram confiadas. Para ele, a resposta é clara: Roma foi destruída porque seus chefes afastaram-se da vontade divina e, deixando de cuidar da vida do povo romano, ocupavam-se apenas de seus interesses pessoais. O mais triste, para Agostinho, é que a maldade de alguns poucos acabou tendo consequências para toda a população e a dor e o sofrimento tenha recaído sobretudo sobre os mais fracos.

Na tentativa de dar uma resposta consistente para a questão que continuava a atordoa-lo a ele e a toda a comunidade, nos anos posteriores, Agostinho concebeu a monumental obra “A Cidade de Deus” que pode ser considerada o primeiro grande escrito cristão de uma Teologia do Político e que continua até hoje a desafiar os cristãos para compreender os desígnios de Deus em meio aos acontecimentos do mundo.

Quinze séculos depois, um filho de Agostinho, o Papa Leão XIV, tem repetido inúmeros vezes palavras muito semelhantes às de seu pai espiritual: “Coisas horríveis nos são anunciadas…” Não são agora os godos comandados por Alarico que provocam “devastação, incêndios, rapinas, mortes e tormentos de homens”. São os “mercadores da morte” que estão no coração dos impérios que dominam o mundo e disputam a hegemonia entre si. A guerra nasce do coração dos Impérios e se espalha pelo mundo levando morte e destruição para os mais fracos. Aonde isso vai nos levar?

Papa Leão afirma aquilo que todas as pessoas de bom senso dizem: se continuarmos nesse caminho, não apenas os impérios cairão. No peso de seu tombo, levarão consigo toda a humanidade e – hipótese não absurda – toda a criação.

Que podemos fazer? Como cidadãos, fazer saber aos governantes que queremos a paz. Não podemos ficar calados vendo, a cada dia, “coisas horríveis nos sendo anunciadas”, e ficar calados. É preciso manifestar-se, individual e coletivamente. Repercutir as palavras do Papa Leão: “A guerra não resolve os problemas, mas os amplifica e produz feridas profundas na história dos povos, que levam gerações para cicatrizar. Nenhuma vitória armada poderá compensar a dor das mães, o medo das crianças, o futuro roubado.”

Pessoalmente, como pessoas que tem fé no Deus da vida, o que podemos fazer é desarmar nossas mentes, nossos corações e livrar nossas mãos de toda tentação e ação belicosa. E, ativamente, sermos em cada momento e cada lugar, presença e sinal de paz para as pessoas que nos cercam. Parece pouco, mas pode ser o recomeço de uma cultura de paz depois de tempos em que se cultivou o ódio e a violência. Comecemos hoje, pois amanhã pode ser tarde!