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O ridículo também usa hábito

OBSERVAÇÃO: Normalmente, neste espaço, publico apenas textos de minha autoria. Hoje abro uma excessão para o texto de Júlio Cesar Meazza Lima, membro da Comunidade da Vigília e pessoa que, no serviço prestado aos empobrecidos de uma das tantas periferias de Porto Alegre, dá testemunho de sua fé no Deus da Vida dado a conhecer por Jesus Cristo. A publicação conta com a devida autorização do autor.

O ridículo também usa hábito

Julio Cesar Meazza Lima (Ir. Pascal, Obl. OSB)

(Estou ciente dos vários riscos, sob diferentes aspectos, ao compartilhar a reflexão que segue. Faço-o, contudo, movido pela inquietação diante da proliferação de certas atitudes travestidas de sagrado.)

Hábito ou fantasia? Tradição ou caricatura? O que acontece quando um símbolo de renúncia vira figurino de vaidade, ostentação e performance, tanto nas redes sociais quanto no cotidiano? Na era da superexposição, onde o que não é visto parece não existir, até o sagrado precisa recriar seu perfil, mas isso não isenta ninguém do cuidado, da coerência e da autocrítica.

O fenômeno que se observa é o engajamento de seminaristas e padres, religiosas e religiosos em coreografias e trends esdrúxulas, para dizer o mínimo, fazendo piadas em reels ou jogando futebol com a batina amarrada na cintura, atitudes que ganham enorme visibilidade nas redes sociais, mas que refletem um comportamento já visto na vida cotidiana, conventual e paroquial.

A inadequação, contudo, torna-se ainda mais flagrante quando o fazem usando paramentos litúrgicos, pois o uso dessas vestimentas específicas não deve ser encarado como um mero traje de trabalho. Banalizá-los é ignorar o que representam.

Tudo isso, portanto, não é mero detalhe pitoresco. É um profundo esvaziamento simbólico e o sintoma aguçado de uma crise de identidade, que não é apenas pessoal, mas institucional, onde a ordem ou congregação religiosa, a diocese ou o seminário, por medo de se tornarem irrelevantes, incentivam ou permitem esse tipo de comportamento.

Como, então, compreender o dito amor pelo hábito e o desejo de diferenciar-se por seu uso, ao mesmo tempo em que se tenta igualar-se a qualquer um que não o usa? A resposta, na verdade, é um paradoxo. E o resultado dessa tensão é a neutralização do símbolo.

O hábito e a batina, para muitos, deixaram de ser sinais de consagração para se tornarem figurinos de performance que, ironicamente, buscam aplausos justamente daquilo contra o que deveriam alertar: a vaidade. Puxado pelo desejo simultâneo de ser sagrado e popular, o símbolo é anulado e perde sua função.

Nada aqui é novo. Em essência, é a mesma crítica que Jesus fazia aos fariseus, cujo problema, necessariamente, não era o uso dos símbolos de piedade, mas a sua amplificação e ostentação, ou seja, o alargar das faixas na testa e nos braços e o alongar das franjas, feito unicamente “para serem vistos pelos outros” (cf. Mateus 23:5). É a troca da consagração pela performance. A praça pública onde se buscava a saudação é o feed onde se mendiga o like. O esvaziamento do símbolo é o mesmo.

Essa inversão é um problema porque, historicamente, o argumento para uma vestimenta exclusivamente religiosa era o diferenciar-se. Ela era uma fronteira visível entre o sagrado e o secular; um testemunho silencioso de que aquela pessoa vivia, ou aspirava viver, sob um conjunto diferente de valores. Sua força estava numa inadequação deliberada. De muitos modos, ele apontava para o transcendente. Era um uniforme de renúncia.

A vestimenta evangeliza pela estética. Partindo desse princípio, é preciso ponderar que o zelo pela visibilidade da vocação se expressa de forma plena e, por vezes, mais profética, através do traje comum e secular. Para muitos, esta é uma opção evangélica consciente, isto é, buscar a identificação profunda com o cotidiano das pessoas, especialmente das mais empobrecidas, suas causas e suas lutas. Nesse gesto, a busca não é por igualar-se, mas identificar-se com a humanidade concreta e sofredora do outro.

A partir do momento, porém, em que se faz a opção de usar vestimentas exclusivamente religiosas como hábito, batina, clergyman, essa escolha pede uma postura diferenciada e explicitamente adequada ao que se veste. Se uma opção pelo símbolo visível da diferença é feita, também se deve optar por posturas que lhe sejam explicitamente afins.

O religioso midiatizado compreendeu que, no mercado da atenção, ele precisa de um diferencial. O hábito tornou-se sua marca, sua identidade visual. É o que o faz ser notado na disputa pela atenção, seja ela online ou ao vivo. Mas essa ferramenta de marketing pessoal tem um custo, e esse custo é a própria alma do símbolo.

Após capturar a atenção com o diferente, sente-se a necessidade imediata de ser aceito, de gerar engajamento. Na esfera pública atual, a moeda de troca é o igualar-se. O religioso precisa provar que é gente como a gente.

É aqui que a estratégia implode. Para se igualar, ele adota o comportamento mais banal do mundo secular: a dancinha esdrúxula, o esporte performático. O religioso quer os dois mundos, ou seja, a autoridade simbólica do sagrado conferida pela vestimenta e a aprovação popular do profano conferida pelos aplausos e likes, numa tentativa de animação vocacional às avessas. Nessa troca, a autoridade é inevitavelmente devorada pela popularidade.

O resultado é a dessacralização. O hábito, que deveria restringir certos comportamentos, torna-se irrelevante. A velha máxima de que “não se vai onde o hábito não for adequado”, um freio que validava o símbolo, evaporou. O hábito funcionava como uma clausura portátil, um lembrete visível de um espaço interior que devia ser preservado. Se hoje o hábito pode estar em qualquer lugar, fazendo qualquer coisa, ele não significa mais nada. Voltou a ser apenas um pano. Então, por que continuar usando-o?

Para usá-lo assim, como um pano banalizado, talvez fosse melhor, de fato, não o usar. A única justificativa para manter o símbolo é resgatar sua força original, vivendo a coerência que ele exige e pela qual o mundo, sedento de autenticidade, ainda anseia, o que não significa rigorismo triste, fé sisuda, cara de vinagre ou carisma de múmia.

A desculpa da humanização, que muitas vezes é usada para justificar essa banalização, é falha. Não se trata, evidentemente, de condenar a presença no mundo digital, que é um campo de apostolado fecundo, nem de exigir que o religioso seja um anjo etéreo. Mas a humanização que se espera dele não é a trivialidade superficial, por vezes ingênua, outras, ridícula, travestida de proximidade. A humanização autêntica é a proximidade, a misericórdia, a profundidade, a escuta; é a humanidade que se revela na luta, na dúvida compartilhada, na caridade que não é performance, mas serviço anônimo.

Não raro, aliás, a mesma figura que se entrega à performance banal é a que, em outro momento, revela o oposto exato da misericórdia, isto é, o discurso de ódio e o preconceito. Ambas as atitudes, o ridículo e a agressão, provam ser, assim, manifestações da mesma crise de identidade.

O sentido que enfatizava o Papa Francisco ao dizer que “onde há os consagrados, há alegria,” é o da alegria que brota da convicção, e não do engajamento fácil; não é o da trend viral, nem das risadinhas e brincadeirinhas ingênuas divulgadas como sinônimo de vocação feliz e consagração descolada. Ao trocar a profundidade pela performance viral, o religioso não eleva o mundo, ele apenas se rebaixa à sua banalidade.

Isso nos leva à dimensão da ostentação, que não é, necessariamente, material, embora também o seja, especialmente por parte do clero. É uma ostentação de relevância. É o pânico de se tornar irrelevante na sociedade do espetáculo, metamorfoseado no consagrado-show.

Diante disso, o velho argumento de que “o hábito não faz o monge” ganha um novo sentido. Hoje, o hábito não faz o monge porque o próprio monge está tratando o hábito como fantasia. Quando um símbolo de eternidade é usado para mendigar a aprovação do efêmero, seja um like ou aplauso fácil, ele se torna, de fato, ridículo, caricato e bufão. É a dissonância cognitiva de ver um sinal do transcendente sendo usado para celebrar o trivial. É o sagrado pedindo licença ao banal para poder existir.

Um canto de amor

Na última quarta-feira, 9 de outubro, o Papa Leão XIV tornou pública a primeira exortação apostólica que leva sua assinatura. Na verdade, um texto escrito a quatro mãos. Foi iniciado pelo saudoso Papa Francisco que, pela doença e consequente morte, não pode levá-la até o fim. Deixou-a inconclusa e aberta para que seu sucessor, se quisesse, continuasse a reflexão. E foi o que Leão fez. Tomou o texto de seu predecessor e continuou a elaboração do canto de amor.

Sim! Um canto de amor. A Dilexit te é um canto de amor onde o grande cantor é Deus. Ela diz a cada um “Ele te amou” e quer que Seu amor presente em ti se espalhe para todos os humanos e toda a criação. Amor que, sendo divino, é acima de tudo, comiseração, solidariedade, misericórdia, compaixão. Um Deus que sente amor, parte em direção da sua criação amada para que seja redimida e viva em terna harmonia com Ele e entre si. Um Deus que convida os humanos a fazer-se próximos dos que vivem a dor da fome, da violência, do abandono, do descarte, da solidão provocada pelos pecados dos próprios humanos e pelos sistemas econômicos, políticos e culturais que esquecem de onde viemos e pretendem fazer-se divinos.

A Dilexit Te, em sua linguagem pastoral característica do Papa Francisco, é uma obra de fina Teologia em sentido estrito ao dizer-nos quem é Deus. O Deus em quem acreditamos é o Deus de Jesus Cristo que se esvaziou de Sua divindade para assumir a fragilidade humano e cuidar dos mais pobres de seu tempo. É um Deus, que Ele mesmo, faz a opção preferencial pelos pobres.

É uma obra de Eclesiologia, pois nos diz quem é a Igreja e sua razão de ser. Ela é o Povo de Deus que cuida dos mais fragilizados da humanidade. Para Leão XIV, “se não quisermos sair da corrente viva da Igreja que brota do Evangelho e fecunda cada momento histórico, não podemos esquecer os pobres”.

É uma obra de Antropologia Cristã ao nos lembrar que a nossa humanidade só é verdadeiramente humana quando nos identificamos com o agir do Filho de Deus que fez de sua vida uma um doar-se a quem dele precisava. É uma lição de Liturgia ao reafirmar, com o Vaticano II, que “no centro da liturgia cristã, não se podem separar o culto a Deus da atenção aos pobres”.

É uma aula de Eclesiologia ao tecer o fio do caminhar do Povo de Deus a partir da figura de homens e mulheres que, no decorrer dos séculos, mantiveram vivo e vibrante na comunidade cristã o cuidado pelos empobrecidos de seu tempo.

Muitas outras lições poderiam ser assinaladas nesta exortação apostólica de dois papas. E é esse aspecto que também pode ser um grande ensinamento. O caminhar de renovação eclesial do Concílio não pode ser detido pois ele é obra do Espírito Santo. Entre Francisco e Leão, não há contradição. Cada um com seu estilo pessoal forjada nas tradições de suas famílias religiosas, continua a testemunhar e convocar para a vivência do essencial do Evangelho: os pobres não podem ser esquecidos pela comunidade cristã! Se uma comunidade cristã se esquece dos seus empobrecidos e dos pobres de seu lugar, não é mais Igreja, é apenas uma sociedade, uma entidade jurídica, uma instituição que nada mais tem a ver com o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Viver para contar

Termino esta segunda semana de setembro de 2025 com duas lembranças. A primeira, de dimensão mais pessoal, é a epígrafe do livro de memórias postumamente publicado do escritor colombiano Gabriel Garcia Marquez. Diz ele na frase inicial com a qual nos dá a chave do sentido de sua obra: “A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la”.

Nesta semana, aqui na capital federal, na qual estou temporariamente residindo, vivemos não apenas o juízo de um grupo de homens (só homens, nenhuma mulher!) que, como sentenciou o STF, tentou manter-se no poder contra a vontade popular e, para isso, conspirou contra as instituições democráticas que constituem a nação brasileira.

Da minha sala de trabalho num prédio exatamente em frente à Esplanada dos Ministérios, como outros tantos brasileiros e brasileiras, enquanto dava conta da rotina de trabalho, acompanhei atentamente o julgamento. Das muitas frases ditas pela Procuradoria, pelos advogados de defesa e pelos juízes da Primeira Turma do STF, uma me impactou e me fez repensar meu percurso enquanto cidadão brasileiro. Disse a Ministra Carmem Lúcia em seu voto: “A essência deste processo é quase um encontro do Brasil com o seu passado, com o seu presente e com o seu futuro”.

E dessa primeira lembrança, nasce a segunda, a lembranda social, os muitos eventos que, como cidadão brasileiro, tive a oportunidade de viver nestas minhas quase seis décadas de existência.

Enquanto escutava o julgamento da camarilha, um longo filme passou na minha cabeça. Uma retrospectiva que inicia nos anos de 1970 com as campanhas da ARENA X MDB, passa pela década de 1980 quando, já estudante universitário, tive a felicidade de viver as Diretas Já e, em seguida, a Assembleia Constituinte e a épica eleição presidencial de 1989 que culminou com o impeachment do Collor que deu lugar aos anos neoliberais de FHC que, com seu fracasso tornaram possível a primeira eleição de Lula que as velhas forças políticas tentaram sabotar com o dito “mensalão” que não impediu os avanços econômicos e sociais do segundo mandato de Lula e o primeiro de Dilma e que só foi detido com o golpe jurídico-midiático-empresarial de 2016 e, na sua sequência, o desastre econômico, social, cultural e político dos quais a organização criminosa que nesta semana foi julgada por tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e Golpe de Estado é a memória viva julgada e condenada pelas instituições do Estado Democrático de  Direito.

Um longo filme. Cenas alegres e também tristes. Muito para recordar, muito para chorar e também, porque não, muito para rir. E, sobretudo, muito para contar porque, como diz o escritor, o que importa, não é o que a gente viveu, mas como viveu e como o recordamos para contar para aqueles que não o viveram mas virão depois de nós fazer parte desta nação que chamamos Brasil.

Coisas horríveis nos são anunciadas!

No ano de 410 d.C., o inimaginável aconteceu. Os godos, um povo vindo das estepes da Ásia Central, agora sob o comando de Alarico, venceram as muralhas de Roma e, para terror de seus habitantes, saquearam a cidade. Pela primeira vez, o fogo e o sangue que o Império havia levado até os confins do mundo conhecido, corriam e consumiam a cidade até então considerada inexpugnável.

O medo das consequências deste fato inesperado e inexplicável tomou conta não apenas dos que habitavam dentro das muralhas agora em frangalhos. Rapidamente a inquietação espalhou-se por todo a orbe romana. Como tal fato poderia ter acontecido? Qual era a causa de tamanha desgraça?

Para piorar a situação, os godos não se detiveram em Roma. Continuaram avançando pelos domínios romanos na Europa e no Norte da África desestruturando a rede de comércio e sustentação do Império que, pouco a pouco, entrou em declínio até ser finalmente derrocado em 476 d.C. pela ação de Odoacro, comandante dos hérulos que depôs Rômulo Augusto, último imperador romano.

Voltando ao ano de 410 d.C., quando Alarico entrou em Roma e a saqueou, a notícia chegou rapidamente ao norte da África onde, na cidade de Cartago, Agostinho de Hipona era bispo. Impactado pela notícia, o filho de Mônica buscou compreender o que Deus queria dizer com aquela desgraça. Afinal, tanto para pagãos como para cristãos, Roma sempre fora considerada uma cidade sagrada, com especial proteção divina. Daí a pergunta que não queria calar: por que Deus permitiu que tal desgraça acontecesse?

Em um domingo, diante da comunidade reunida, Agostinho tenta dar uma resposta que ficou consignada no sermão intitulado “De urbis excídio”, ou seja, “Sobre a destruição da cidade”.

O sermão começa afirmando a dimensão da tragédia: “Coisas horríveis nos são anunciadas: devastação, incêndios, rapinas, mortes e tormentos de homens. É verdade. Ouvimos muitos relatos, gememos e muito choramos por tudo isso, não podemos consolar-nos ante tantas desgraças que se abateram sobre a cidade”.

Como pastor e teólogo, Agostinho dá uma resposta a partir da fé que ele professa e cultiva entre as ovelhas que lhe foram confiadas. Para ele, a resposta é clara: Roma foi destruída porque seus chefes afastaram-se da vontade divina e, deixando de cuidar da vida do povo romano, ocupavam-se apenas de seus interesses pessoais. O mais triste, para Agostinho, é que a maldade de alguns poucos acabou tendo consequências para toda a população e a dor e o sofrimento tenha recaído sobretudo sobre os mais fracos.

Na tentativa de dar uma resposta consistente para a questão que continuava a atordoa-lo a ele e a toda a comunidade, nos anos posteriores, Agostinho concebeu a monumental obra “A Cidade de Deus” que pode ser considerada o primeiro grande escrito cristão de uma Teologia do Político e que continua até hoje a desafiar os cristãos para compreender os desígnios de Deus em meio aos acontecimentos do mundo.

Quinze séculos depois, um filho de Agostinho, o Papa Leão XIV, tem repetido inúmeros vezes palavras muito semelhantes às de seu pai espiritual: “Coisas horríveis nos são anunciadas…” Não são agora os godos comandados por Alarico que provocam “devastação, incêndios, rapinas, mortes e tormentos de homens”. São os “mercadores da morte” que estão no coração dos impérios que dominam o mundo e disputam a hegemonia entre si. A guerra nasce do coração dos Impérios e se espalha pelo mundo levando morte e destruição para os mais fracos. Aonde isso vai nos levar?

Papa Leão afirma aquilo que todas as pessoas de bom senso dizem: se continuarmos nesse caminho, não apenas os impérios cairão. No peso de seu tombo, levarão consigo toda a humanidade e – hipótese não absurda – toda a criação.

Que podemos fazer? Como cidadãos, fazer saber aos governantes que queremos a paz. Não podemos ficar calados vendo, a cada dia, “coisas horríveis nos sendo anunciadas”, e ficar calados. É preciso manifestar-se, individual e coletivamente. Repercutir as palavras do Papa Leão: “A guerra não resolve os problemas, mas os amplifica e produz feridas profundas na história dos povos, que levam gerações para cicatrizar. Nenhuma vitória armada poderá compensar a dor das mães, o medo das crianças, o futuro roubado.”

Pessoalmente, como pessoas que tem fé no Deus da vida, o que podemos fazer é desarmar nossas mentes, nossos corações e livrar nossas mãos de toda tentação e ação belicosa. E, ativamente, sermos em cada momento e cada lugar, presença e sinal de paz para as pessoas que nos cercam. Parece pouco, mas pode ser o recomeço de uma cultura de paz depois de tempos em que se cultivou o ódio e a violência. Comecemos hoje, pois amanhã pode ser tarde!

Pouco menor que os anjos…

Foto por Ellie Burgin em Pexels.com

Dentre os 150 salmos da Bíblia, um dos que mais me fascinam é o Salmo 8. O poema inicia e termina com uma grande louvação a Deus. É o tema central dessa fascinante oração. No seu núcleo, o louvor a Deus é feito utilizando o contraste com o ser humano. Mas diferentemente do que se poderia esperar, a grandeza de Deus não é descrita através da pequenez humana e das outras criaturas. Pelo contrário. É na grandeza das criaturas celestes e terrestres e da última obra de Sua criação que a magnificência de Deus se faz conhecer.

Escrito em contexto pastoril, o poema canta a capacidade do ser humano em gerir a vida dos outros animais que com ele compartilham o espaço vital: as ovelhas e bois, os animais do campo, as aves dos céus, os peixes do mar e tudo o que passa pelas veredas dos mares.

Ao recitar os versos desta oração, fico a imaginar como seria este salmo se fosse escrito nos dias atuais. Certamente as capacidades tecnológicas desenvolvidas pela humanidade nos últimos séculos e, de modo acelerado, nos últimos decênios, seriam incluídos entre os motivos para louvar a Deus por ter feito o ser humano apenas um pouco menor que os anjos. A produção agrícola, os meios de transporte e comunicação, as cidades, a vida em sociedade. Tantas coisas maravilhosas que nos dão motivo para cantar a glória de Deus através das capacidades quase angélicas dos humanos.

Em meio às divagações, no entanto, sou lembrado de que um dos anjos optou por um caminho diferente do proposto por seu criador. Lúcifer, o Brilho da Manhã, preferiu voltar sua face para o outro lado da fonte de toda luz e se transformou no Ser das Trevas. E aí a pergunta terrível que, ao olhar a realidade do mundo de hoje, sou tentado a fazer: será que o ser humano, ao ser criado, não estava também um pouco abaixo deste anjo que se rebelou contra Deus?

Se fomos feitos um pouco menores que os anjos, por que num mundo em que são produzidos mais alimentos do que os necessários para alimentar os oito bilhões de pessoas que somos, ainda há 800 milhões de pessoas passando fome? Por quê num mundo em que já se decifrou o DNA e se produzem medicamentos para emagrecer os que ficam obesos por consumir mais do que precisam, ainda morrem crianças por diarreia, mulheres por infecções perinatais, adultos por tuberculose, lepra, malária, dengue, febre amarela, câncer e AIDS? Por quê os oito homens mais ricos do mundo detêm mais riqueza que os 50% mais pobres? Por quê, com toda a informação científica disponível, ainda nos negamos a reconhecer a emergência climática que a cada dia bate à nossa porta? Por quê num mundo de comunicação instantânea, os poderosos deste mundo assistem impassíveis ao genocídio de todo um povo espoliado de seu território, negado em sua cultura e em sua religião? Por quê em países até pouco democráticos renascem e vicejam agrupações políticas xenófobas, racistas e fascistas?

“Pouco menor que os anjos o fizestes…” Assim diz o salmo. No plural: anjos. Talvez todos nós trazemos dentro de nós um pouco dos anjos bons e um pouco de Lúcifer. Ele era um dos anjos…Voltando o rosto para o outro lado, muitas vezes, como fez Caim, pretendemos escondermo-nos do rosto de Deus presente no rosto de cada irmão e irmã que tem seu sangue derramado.

Um salmo que faz pensar: “que é o ser humano mortal”?

DO “SALVA A TUA ALMA” AO “SALVEMOS A CRIAÇÃO”

Muitos dos que já deixamos para trás meio século de existência, lembramos das Missões Populares pregadas por religiosos capuchinhos ou de outras congregações. Durante alguns dias ou algumas semanas, conforme o caso, passavam o dia nas capelas das paróquias com longas e tonitruantes pregações sobre a morte, o juízo, o inferno e o paraíso. Muitos se confessavam, comungavam, oficializavam seus matrimônios e recebiam a Unção dos Enfermos. No final da missão, no meio da praça em frente à capela, era erguida uma cruz e nela a inscrição “Salva tua Alma”.

Os tempos eram outros. As Missões Populares pregadas neste formato na década de 1970 eram um resquício do período pré Vaticano II. Em poucos anos, seguindo as orientações do Concílio, as missões, assim como quase tudo na Igreja, seguiu as novas orientações. O lema “Salva tua Alma” foi mudado para “Unidos em Cristo”. As pregações sobre os novíssimos foram substituídas por temas centrados na Igreja como comunidade de irmãos e irmãs que buscam unidos o seguimento de Jesus Cristo.

Pouco a pouco temáticas sociais foram incorporadas aos conteúdos das missões assumindo a Doutrina Social da Igreja que, desde a última década do século XIX, com Leão XII, passara a se preocupar com as “Coisas Novas” que emergiam na sociedade. O acento nas temáticas sociais foi alimentado pelas Campanhas da Fraternidade promovidas pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) que, ao lado de questões ligadas à organização da Igreja, visam chamar a atenção sobre situações de dor e sofrimento vividas pelo povo brasileiro e o modo como os cristãos podemos agir para superá-las.

Prenunciando tempos de crise ecológica, em 1979, a Campanha da Fraternidade teve como tema “Por um mundo mais humano: Preserve o que é de todos”. Na época, quase ninguém, nem nos governos ou na sociedade civil, preocupava-se com questões ambientais. Como podemos ver no tema, o centro ainda era a preocupação com o humano. A preservação do meio ambiente era instrumental.

Mas a crise ecológica foi dando seus sinais e a Igreja assumiu a temática em outras quatro Campanhas da Fraternidade. Em 2004 com o tema “Fraternidade e água: Água, fonte de vida”; em 2007, “Fraternidade e Amazônia: vida e missão neste chão”; em 2011, “Fraternidade e a Vida no Planeta” e em 2017, “Cultivar e guardar a criação”. E agora, em 2025, ecoando a Encíclica do Papa Francisco, “Fraternidade e Ecologia Integral”.

Podemos dizer que, definitivamente, passamos do “Salva a tua Alma” para o “Salvemos a Criação”. Uma compreensão que se fundamenta no fato de que tudo o que vem de Deus para Ele voltará. Se as criaturas todas foram criadas por Deus, elas estão imersas hoje e para sempre no plano divino da criação e nós, humanos, como cuidadores, somos convidados a zelar e agir para que nenhuma se perca.

Oxalá, nas próximas missões populares, na praça em frente às capelas e igrejas matrizes, possamos plantar árvores e um lindo jardim e, no meio delas, uma cruz ostentando o chamado “Salvemos a Criação”.

SIMPLICIDADE

Sou austero por natureza. Nascido na roça, de família pobre, aprendi desde cedo a viver apenas com o essencial. Desde pequenos fomos educados a nada desperdiçar, a nunca esbanjar, a cuidar do pouco que dispúnhamos para ter o necessário de cada dia.

Mais tarde, a cultura capuchinha aprofundou este modo de ser. Francisco de Assis tinha como princípio fundamental de sua relação com as criaturas e com as outras pessoas, o de viver sine próprio. O Pobre de Assis nunca fez voto de pobreza. Ele se propôs a viver como se nada lhe pertencesse. A razão é simples: quando dizemos que algo nos pertence, retiramos esse algo da coletividade e o tornamos propriedade privada. Francisco de Assis queria que tudo fosse comum a todos e que a ninguém nada faltasse.

Quando alguns filhos de Francisco deixaram de lado este princípio fundamental, surgiu a reforma capuchinha. Os frades que iniciaram a reforma passaram a ser chamados de “capuchinhos” porque usavam um capuz pequeno. Na verdade, todo o hábito dos frades reformados era pequeno se comparado ao usado pela maioria dos frades daquele tempo. Além do capuz grande, os frades com o tempo tinham passado a usar um hábito grande, duplo, cheio de dobras e adereços que em nada lembrava a simplicidade do Santo de Assis que tinha abandonado as ricas e coloridas vestes dos burgueses e passara a usar um saco de algodão cru como o usavam os camponeses de seu tempo.

Na verdade, a reforma dos frades que passaram a ser chamados de “capuchinhos” por usarem um capuz pequeno, era parte de um movimento maior no seio do cristianismo. Um movimento de volta à simplicidade do Evangelho. Movimento que perpassava todas as dimensões da vida: sem propriedade, juntos aos menores da sociedade, peregrinos pelo mundo e se alguma casa tivessem, que fosse simples, vestes simples, moderação no falar, liturgia simples. Tudo ao contrário do barroco dominante na época que pretendia encher os olhos para esquecer o vazio da mente e do coração.

Os frades capuchinhos criaram até um jeito de rezar: a Oração Mental. Uma hora em silêncio, apenas repetindo uma frase do Evangelho e um propósito de vida. Sem cantos, sem música, sem agitação, sem incenso, sem atavios reluzentes, sem senta-levanta-senta-ajoelha-levanta, nada de genuflexões, contorções, gritos e gemidos. Na Oração Mental, tudo é simples, muito simples, austero. Um vazio de coisas que permite a presença abundante de Deus.

Não é fácil. Exige ascese. Requer uma opção de vida, um chamado à vigilância contra a tentação do mundo que nos oferece o abundante consumismo e que penetra até a própria religião que se torna mercadoria para saciar a infinita vontade de tudo possuir e a liturgia que deixa de ser adoração de Deus e se transforma, como diz o Papa Francisco, em “religião do eu”.

Em tempos de religião do consumo e de liturgia do espetáculo, lembro de Jesus e da pergunta por ele feita aos que tinham ido ver João Batista no deserto: “O que é que vocês foram ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? O que vocês foram ver? Um homem vestido com roupas finas? Mas aqueles que vestem roupas finas moram em palácios de reis.”

Com sua simplicidade, sua austeridade, sua habitação na periferia da periferia, junto aos que por todos eram desprezados, João era, no dizer de Jesus, “alguém que é mais do que um profeta”. Que Deus nos dê a graça de permanecer firmes no “sinal de João Batista”.

Sobre muros, migrantes e nacionalidades

No final da década de 1980, quando o Império Soviético ruiu, prometeram-nos um mundo globalizado e sem fronteiras. Mera ilusão! De lá para cá, tudo caminhou por um rumo muito diferente.

O que seria um mundo aberto, está se tornando um espaço cada vez mais dividido por muros. Muros de todos os tipos: de concreto, eletrônicos, de arame farpado, cercas elétricas, fossas. Quando caiu o famigerado Muro de Berlim, restavam apenas onze barreiras separando países. Hoje, 35 anos depois, o número subiu para 70! E, pelo que tudo indica, vai continuar aumentando.

A maioria dos muros mais antigos foram construídos para conter conflitos entre nações. Os mais recentes foram ou estão sendo construídos para conter migrantes. É o caso da barreira que separa os Estados Unidos do México que tenta evitar a entrada de migrantes da América Latina e de outros países do mundo inteiro no tão propalado “sonho americano” ou os construídos na Europa para conter o ingresso de africanos e asiáticos no Velho Continente.

O irônico, no segundo caso, é que a Europa foi, até tempos muito recentes, um continente exportador de migrantes. Desde o século XVI até a metade do século XX, milhões de europeus deixaram aquelas terras para buscar uma vida melhor na América Latina, África, Ásia e Oceania. Só da Itália, entre 1850 e 1930, saíram 30 milhões de pessoas.

E é sempre bom lembrar, não vinham de livre e espontânea vontade. Partiam fugindo da fome e da guerra e iludidos pela propaganda do governo italiano que queria se livrar da massa empobrecida resultante da modernização da indústria e da agricultura. O governo italiano e o Império Brasileiro pagavam às companhias marítimas alemãs e holandesas “por cabeça” pelos italianos que conseguiam arregimentar e tirar da Itália para qualquer lugar do mundo. O mesmo aconteceu em grande escala na Alemanha, França, Espanha, Portugal, Polônia, Rússia. Com números menos expressivos, outros países da Europa viveram o mesmo fenômeno.

Entre os que fizeram esta travessia estavam meus bisavôs e bisavós que, no ano de 1876, saíram do Vêneto e vieram para uma América sem saber exatamente para onde estavam sendo levados. Se aquele navio em que foram embarcados em Gênova tivesse sido destinado pelas empresas de navegações para dirigir-se a um outro porto qualquer, hoje eu poderia ser um neozelandês, australiano, chileno, argentino, venezuelano, mexicano, canadense ou até mesmo norte-americano!

Isso me faz pensar que, nascer em um país e ter determinada nacionalidade, não é uma escolha. É um acaso! E isso é ainda mais evidente quando nos damos conta que as fronteiras entre os países são de constituição extremamente recente. A maioria tem menos de 250 anos! A Itália que conhecemos hoje só foi constituída em 1870. A Alemanha com a atual configuração é de 1871. O território atual da França é do fim do século XIX. A Espanha foi unificada em 1937. Os países latino-americanos têm, com exceção do Haiti, menos de 200 anos. O atual território dos Estados Unidos da América foi, em sua maior parte, tomado do México à força no século XIX e outras partes compradas da Rússia ou da Espanha.

A humanidade surgiu na África há cerca de 2,5 milhões de anos. De lá foi migrando para outros continentes até que, a aproximadamente 300 mil anos, surgiu a espécie da qual fazemos parte, o homo sapiens. Não havia muros! Os humanos primitivos e depois os sapiens se deslocavam de um lado para outro conforme suas necessidades.

As primeiras muralhas para separar povos foram construídas por impérios. A Muralha da China, no segundo século antes de Cristo para conter os mongóis que vinham do norte. No segundo século depois de Cristo, os imperadores romanos Antonino e Adriano mandaram construir muralhas na atual Grã-Bretanha para conter os bárbaros nórdicos. Outras muralhas foram construídas posteriormente. Com o tempo, todas elas caíram. Assim como poderão cair as fronteiras construídas nos últimos séculos para separar seres humanos que ficaram de um lado ou de outro não por escolha, mas na quase totalidade dos casos, por mero acaso.

Essa breve e superficial rememoração histórica não diminui a dor dos milhares de migrantes que estão sendo expulsos de forma humilhante dos Estados Unidos. E a humilhação é proposital não apenas para impedir outros de tentarem entrar no sonho que se tornou inferno. O objetivo maior é mostrar que os norte-americanos são membros de uma humanidade superior e que todos os outros são “sacos de lixo”, como afirmou a Secretária de Segurança do Governo Trump, Kristi Noem. Muito provavelmente ela também seja uma descendente de imigrantes e se esqueça que um dia seus antepassados também foram chamados de “sacos de lixo” ao serem expurgados da Europa assim como o foi a senhora Mary Anne MacLeod, que deixou a Escócia em direção aos EUA em busca de trabalho como empregada doméstica, só regularizando a sua situação depois de 12 anos no país. Se naquele tempo as normas para os migrantes fossem as atuais, ela teria sido regressada à sua terra natal e seu filho não seria hoje o Presidente dos Estados Unidos da América.

Diante deste espetáculo de desumanidade, cabe lembrar quem somos e de onde viemos. E demonstrar, com palavras e ações, solidariedade a todos os que, buscando uma vida m1ais digna, deixam suas terras e partem para outros lugares. Seja este lugar o Brasil, a Europa, a América do Norte ou qualquer outro lugar do mundo. De um modo ou de outro, todos somos migrantes ou filhos de migrantes e não há muro que detenha o sentimento de nos sentirmos todos e todas parte da mesma e única humanidade.