ESPIRITUALIDADE ECOLÓGICA: DA CONTEMPLAÇÃO DE DEUS À TRANSFORMAÇÃO DAS RELAÇÕES.
Frei Vanildo Luiz Zugno1
Resumo: Tendo como referência o Magistério do Papa Francisco, o texto apresenta elementos para uma espiritualidade que contemple a relação do ser humano com a criação. O ponto de partida para tal movimento é o retorno ao centro da experiência de Deus com a humanidade: um Deus que se faz presente e assume a carne em Jesus de Nazaré. O objetivo é passar de uma espiritualidade que apenas contemple a Deus a uma experiência de Deus que transforme as relações.
Palavras-chave: Espiritualidade; Ecologia; Trindade; Criação; Humanidade; Sacramentos.
Introdução
A espiritualidade é o sustento de toda experiência de fé e de missão. A VRC tem sido, na história da Igreja, fonte e lugar de cultivo de muitas espiritualidades. Cada uma a seu modo foi um caminho para encarnar a fé cristã em seu ambiente histórico e cultural.
Na atualidade, uma das grandes preocupações da humanidade e da Igreja é a crise ecológica que ameaça a vida sobre o planeta Terra e, nele, da própria humanidade. Para poder dar uma resposta aos desafios que nascem deste contexto, é preciso incorporar em nossa espiritualidade a dimensão ecológica.
Partiremos, neste texto, de uma aproximação do que é uma espiritualidade cristã e, na sequência, alguns elementos de nossa fé que poderão servir de pontos de referência nesta construção.
A espiritualidade
Espiritualidade, em seu sentido mais amplo, é um modo de ser cristão, uma atitude vital, global e sintética que dá forma à totalidade e a cada detalhe de nossa vida (GUTIÉRREZ, 1985, p. 20).
Como nos atesta a pluralidade de textos do Novo Testamento, não há uma única espiritualidade cristã. Não temos apenas um Evangelho. São quatro os Evangelhos, cada um deles transmitindo-nos um modo diferente de ser cristão. Mais plural ainda é o mundo das cartas neotestamentárias. A espiritualidade das cartas paulinas, em sua interna diversidade, é bem diferente da espiritualidade da Carta aos Hebreus, ou da de Pedro e Tiago.
A razão de tal diversidade é que cada um dos autores, a partir de sua comunidade eclesial e de seu entorno social e cultural, buscou expressar a experiência de Deus de modo a dar sentido ao todo e à cada parte da vida daquele grupo humano que se reunia pela fé em Jesus Cristo.
A razão disso é que, seguindo o caminho do Verbo que assume a condição humana, a espiritualidade cristã é sempre encarnada. Assim como o Filho de Deus nasceu de Maria na gruta de Belém “no ano quinze do império de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos presidente da Judéia, e Herodes tetrarca da Galileia, e seu irmão Filipe tetrarca da Itureia e da província de Traconites, e Lisânias tetrarca de Abilene, sendo Anás e Caifás sumos sacerdotes” (Lc 3, 1-2), nós somos chamados a viver a presença de Deus que dá sentido ao todo e a cada detalhe de nossa vida em nosso tempo e em nosso lugar.
Um passeio panorâmico pela história do cristianismo nos permite atestar com facilidade a variedade dos caminhos espirituais percorridos pelos diversos grupos que compuseram a comunidade eclesial. Por isso podemos falar de uma história da espiritualidade cristã. Se houvesse um só modo de dar sentido ao todo da vida cristã, não haveria história. O cristianismo seria algo petrificado, imóvel, imutável, insensível e, provavelmente, infrutífero.
Tal pluralidade não é um fenômeno apenas do passado. Ela é também presente. Basta observar o multicolorido panorama das comunidades cristãs espalhadas pelo mundo e nos vários grupos sociais que compõem cada uma das sociedades.
Tanta variedade poderia fazer com que alguém afirmasse jacosamente que há uma espiritualidade “para todos os gostos”. A questão séria que nos devemos por, no entanto, é se estas espiritualidades são do gosto de Jesus. Ele é o critério de toda espiritualidade que se afirma cristã. E, como dissemos anteriormente, o núcleo estruturador da experiência espiritual do Filho de Deus é a Encarnação. Não apenas a encarnação no ventre de Maria em Nazaré da Galileia. Nesta primeira Encarnação, ele assumiu a humanidade. E não apenas a humanidade humana tão vivamente expressa em nossos presépios de Natal onde vemos o menino Jesus deitado na manjedoura ladeado por Maria, José, os animais e os anjos.
A Encarnação do Filho de Deus, como bem nos lembra Paulo (Fl 2,5-11), consiste também em assumir a humanidade desumanizada pelas atrocidades da injustiça e da violência da qual nós somos capazes. Ele assumiu a humanidade na condição dos últimos da sociedade, os escravizados, e padeceu a morte de cruz reservada a todos aqueles que ousavam desafiar as autoridades religiosas e políticas do Império Romano. Foi a partir da condição dos últimos entre os últimos que Ele deu sentido ao todo de sua existência e, nesse caminho, foi exaltado acima de todos os nomes.
Há muitas espiritualidades cristãs. Na história do cristianismo, a influência das doutrinas maniqueístas, gnósticas e racionalistas fizeram com que, aqui e ali, surgissem correntes espirituais que, afirmando-se cristã, pretendiam desenraizar a vida da fé do humus da humanidade e do mundo apresentando o caminho para Deus como um abandono das realidades terrestres e uma elevação da alma solitária para uma realidade divina para além deste mundo.
Na Gaudete et Exsultate, o Papa Francisco chama a atenção para os perigos destas pseudoespiritualidades que, ao invés de abrir a pessoa para o mistério divino, “quer domesticar o mistério, tanto o mistério de Deus e da sua graça, como o mistério da vida dos outros” (GE 40), especialmente a vida dos mais pobres (GE 46).
Para merecer o qualificativo de cristã, uma espiritualidade tem que estar com os pés no chão.
O chão ecológico
O chão que pisamos é cada vez mais movediço. A cada passo, nossos pés sentem a insegurança que dele brota. Não porque a Terra na qual vivemos tenha mudado. Nós, humanos, é que mudamos a Terra. Deus nos criou com a capacidade de cuidar a obra que ele começou e ajudá-la a desabrochar e frutificar cada vez mais abundantemente. A opção dos humanos, no entanto, parece ser a de predadores e não a de cuidadores. Transformamos as outras criaturas que também são obra de Deus em natureza, matéria-prima, recurso natural para a fabricação de produtos a fim de suprir nossas necessidades reais e imaginárias ou simplesmente para obter mais lucro. Nos colocamos em meio à criação como senhores e não como zeladores.
As consequências estão aí: aquecimento global, extinção de milhares de espécies, degelo das calotas polares, aumento do nível dos oceanos, desregulação do ciclo das chuvas. São mudanças macro que experimentamos nos eventos climáticos extremos que cada vez mais frequentemente assolam o planeta todo. Para ficar bem perto de nós e apenas no ano de 2024, como não lembrar das enchentes que em maio atingiram o Rio Grande do Sul, da seca que atingiu a Amazônia logo em seguida e dos incêndios que tomaram conta de todo o centro-sul do Brasil?
Estes fenômenos e muitos outros que poderíamos aqui elencar, não são desastres naturais como se fala nos noticiários televisivos ou nas redes sociais. São desastres socioambientais, ou seja, mesmo que tenham em sua origem e composição um fator natural – chuva, seca, fogo, vento – são potencializados e tornados desastrosos graças ao modo como nós humanos nos inserimos e atuamos sobre a criação.
Como bem nos recorda o Papa Francisco na Laudato Sì ao falar da ecologia integral (LS 137-162), se é verdade que a ecologia tem uma dimensão ambiental, ela envolve necessariamente a dimensão econômica, social, cultural, a vida quotidiana, a política e a perspectiva intergeracional. Como produzimos, distribuímos e consumimos os bens produzidos por nosso trabalho a partir das criaturas que Deus dispôs para nós? Como organizamos nossas relações com as outras pessoas? Com que critérios fazemos as opções do dia a dia, desde a construção de nossas casas, as opções de transporte, comida, lazer? Como gerenciamos as grandes opções sociais? Que mundo deixamos para as gerações que virão depois da nossa?
Além de todos estes questionamentos, para nós, cristãos, há outro a acrescentar: que sentido damos, a partir de nossa fé, ao nosso ser no mundo com as outras criaturas?
Na história do cristianismo, muitos homens e mulheres viveram uma relacionalidade fraterna e sororal não apenas com os humanos, mas com todas as criaturas. Dentre todos, talvez Francisco de Assis tenha sido aquele que, com mais profundidade, expressou a fraternidade universal. Seu Cântico das Criaturas é até hoje paradigma de sensibilidade ecológica. Ele canta com as criaturas o louvor ao Criador e, nesta louvação, ele expressa sua humanidade universalmente reconciliada (CROCOLI, 2018).
O modo como Francisco de Assis se relaciona com as criaturas não deveria, no entanto, ser exceção. Deveria ser a regra. Jesus nos ensina a olhar as outras criaturas como um lugar da manifestação de Deus e exemplo a ser seguido: “Olhem para as aves do céu, olhem para os lírios do campo e parem de acumular gananciosamente”, nos diz Jesus! (Mt 6, 25-34). Para quê acumular indefinidamente bens materiais se nossa vida é necessariamente finita? (Lc 12,16-21).
A crise ecológica que vivemos é, com certeza, “um sinal do céu” (Mt 16,1-20) para que repensemos nosso ser mundo e o sentido que o todo de nossa vida e, nele, cada aspecto em particular, encontre fundamento em nossa experiência de fé. Um kairós para uma espiritualidade ecológica que não nasce e cresce espontaneamente. É preciso preparar o ambiente, adubar o terreno, colocar a semente com cuidado, e há que se cuidar do broto pra que a vida nos dê flor e fruto” (NASCIMENTO; TISO, 1983).
Na continuidade, assinalaremos alguns aspectos de nossa fé que podem nos ajudar neste processo de uma espiritualidade ecológica.
Deus -Trindade e suas criaturas
O modo como a fé cristã afirma o ser transcendente no qual acreditamos é muito particular. Tão particular que muitas vezes não nos damos conta de seu sentido profundo e inovador. Nós cremos na Trindade: um só Deus que é três realidades distintas que são o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Um só Deus e três realidades. Unidade na pluralidade. Algo difícil de ser pensado e, por isso, difícil de ser dito.
Os Santos Padres que, além de pastores, foram os primeiros teólogos cristãos, expressaram esse modo de ser de Deus ao mesmo tempo uno e plural, com a palavra pericorese. Ela indica que cada uma das realidades divinas, é, na medida em que se relaciona com as outras realidades divinas. O Pai é na sua relação com o Filho e com o Espírito; o Filho é na sua relação com o Pai e o Espírito; o Espírito, por sua vez, é na sua relação com o Pai e o Filho. Os padres latinos, para dizer esse modo de ser trinitário em que cada um só é na relação com os outros disseram que as pessoas trinitárias são relações subsistentes.
Na nossa experiência humana sempre condicionada pelo tempo e pelo espaço, cada uma das pessoas da Trindade é experimentada com uma ação própria:
O Pai é a fonte última de tudo, fundamento amoroso e comunicativo de tudo o que existe. O Filho, que O reflete e por Quem tudo foi criado, uniu-Se a esta terra, quando foi formado no seio de Maria. O Espírito, vínculo infinito de amor, está intimamente presente no coração do universo, animando e suscitando novos caminhos. (LS 238).
Mas isso não pode nos levar a esquecer que, na Trindade, tudo é comum a todas as pessoas divinas. Se, no nosso dizer, atribuímos ao Pai a criação do mundo, não podemos esquecer que ele cria com o Filho e o Espírito Santo. Ao afirmarmos que o Filho é Redentor, não podemos deixar de lado o fato de que o Filho redime juntamente com o Pai e o Espírito. Ao dizermos que o Espírito é Santificador, precisamos afirmar que o Espírito Santifica com o Pai e o Filho.
Uma linguagem litúrgica mal articulada e expressões artísticas não suficientemente fundamentadas na experiencia da fé cristã, podem nos levar a elaborações teológicas e espiritualidades triteístas onde cada uma das pessoas das Trindade é autônoma em relação às outras.
A consequência de uma espiritualidade triteísta não-trinitária é experimentar e nos relacionarmos com a criação de forma fragmentária, como se cada uma das criaturas não estivesse relacionada com as outras.
Ao afirmarmos que o Deus que tudo criou é o Triúno e que todas as criaturas e, cada uma em particular, reflete o ser de seu criador, nos “leva a pensar que toda a realidade contém em si mesma uma marca propriamente trinitária” e que “toda a criatura traz em si uma estrutura propriamente trinitária, tão real que poderia ser contemplada espontaneamente, se o olhar do ser humano não estivesse limitado, obscurecido e fragilizado” (LS 39).
O desafio que nasce da afirmação fundamental da nossa fé de que Deus é Uno e Trino é o de “ler a realidade em chave trinitária” que tem consequências muito importantes na forma como nos situamos e interagimos com as outras criaturas:
Isto convida-nos não só a admirar os múltiplos vínculos que existem entre as criaturas, mas leva-nos também a descobrir uma chave da nossa própria realização. Na verdade, a pessoa humana cresce, amadurece e santifica-se tanto mais, quanto mais se relaciona, sai de si mesma para viver em comunhão com Deus, com os outros e com todas as criaturas. Assim assume na própria existência aquele dinamismo trinitário que Deus imprimiu nela desde a sua criação. Tudo está interligado, e isto convida-nos a maturar uma espiritualidade da solidariedade global que brota do mistério da Trindade. (LS 240).
O ser ecológico para o cristão não é apenas uma questão ambiental, ética, econômica, política ou cultural. Para o cristão, o ser ecológico é inerente à fé que professamos no Deus-Trindade que deixa sua marca em toda a criação e a faz ser relacional. Fragmentar, dividir, separar, é anti-divino, é diabólico.
Como nos lembra o Papa Francisco, “tudo está interligado, e isto convida-nos a maturar uma espiritualidade da solidariedade global que brota do mistério da Trindade” (LS 240).
A humanidade e sua salvação
Quem de nós, diante da grandeza da criação, já não se extasiou e se perguntou, tal qual o faz o salmista, “que é o homem mortal para que te lembres dele? E o filho do homem, para que o visites?” (Sl 8,4).
Ao contemplarmos o céu, o sol, a lua as estrelas, o universo e, nele, a miríade de criaturas, nos perguntamos: que lugar, nós humanos, ocupamos nele?
A tentação, como a expressa a sequência do próprio salmo (v. 6-8), é a de nos colocarmos acima das outras criaturas com a pretensão de domínio. Não podemos, no entanto, esquecer, como assinala anteriormente o salmista (v. 5), de que não somos deuses!
A maioria das criaturas com as quais convivemos sobre este planeta Terra existia muito antes da espécie humana e muitas delas sobreviverão ao desaparecimento de nossa espécie. Para darmo-nos conta de quão restrita é nossa vida diante de toda a vida do universo, “Deus proíbe-nos toda a pretensão de posse absoluta” (LS 67).
A tradição antropológica ocidental costuma dizer que o ser humano é um animal racional. Mesmo que o comportamento quotidiano de humanos nos leve muitas vezes a duvidar da veracidade desta afirmação, não podemos desconhecer que a inteligência é uma característica muito especial dos humanos. Mas isso não nos permite desconhecer as diferentes formas de cognição e de sentimentos presentes em animais não humanos (DAMÁSIO, 2012).
Uma leitura situada da Bíblia, especialmente dos relatos da criação, não permite qualquer fundamento para o antropocentrismo despótico característico de nossa cultura ocidental (LS 68). Ousaríamos dizer mais: a tradição cristã não dá espaço para qualquer forma de antropocentrismo, por mais mitigado que seja. Cientes de sermos apenas uma fugaz espécie num universo que já conta mais de 13,7 bilhões de anos e de um planeta que existe a 4,5 bilhões de anos (STEINER, 2020) onde a vida teve suas formas primárias há 3,5 bilhões de anos e que destas formas originárias se desenvolveram as 7,8 milhões de espécies que hoje subsistem (PELIZZARI; BENDIA, 2024) e que nossas ancestrais hominídeos surgiram na África a apenas 200 mil anos e que o homo sapiens que dizemos não tem mais do que 80 mil anos de idade (ZORZETTO, 2007), cabe mais uma vez a pergunta: que é o ser humano diante da grandeza do universo? Se nos tomamos a sério e tomamos a sério a grandeza da criação, cai por terra toda pretensão antropocêntrica.
Para o cristão, o antropocentrismo não se justifica apenas pelas razões biológicas que acabamos de apresentar. A relatividade da existência humana se fundamenta na afirmação do absoluto de cada forma de vida que não se origina apenas do acaso, mas é expressão da vontade divina e que, se por uma lado, podemos fazer um uso responsável das coisas, por outro, por serem todas as criaturas na sua variedade de espécies obra de Deus, “somos chamados a reconhecer que os outros seres vivos têm um valor próprio diante de Deus e, pelo simples fato de existirem, eles O bendizem e Lhe dão glória, porque o Senhor Se alegra em suas obras” (LS 69).
Cada componente biótico, por minúsculo que seja, tem um valor único em si mesmo e não pode ser descartado. Sua ausência, além de provocar o desequilíbrio no ecossistema do qual faz parte com consequência para o bioma e para todo o planeta (O que é um Ecossistema e um Bioma, 2014), coloca, para o cristão, uma questão fundamental que é o da relação entre a ação humana e a salvação.
Com efeito, se todas as criaturas são obras de Deus e têm um valor único na criação, a extinção de qualquer espécie em consequência da ação humana, é um pecado a ser considerado do mesmo grau que os pecados tradicionalmente elencados pela doutrina católica: “A destruição do ambiente é uma ofensa a Deus, um pecado que não é apenas pessoal, mas também estrutural, que coloca seriamente em perigo todos os seres humanos, especialmente os mais vulneráveis, e ameaça desencadear um conflito entre gerações” (FRANCISCO, 2024).
A doutrina da Igreja sempre afirmou que “ninguém se salva sozinho, que só é possível salvar-nos juntos” (FT 32). Na recente pandemia da Covid-19 que teve sua origem no desequilíbrio ambiental provocado por nós humanos “caiu a maquilhagem dos estereótipos com que mascaramos o nosso ‘eu’ sempre preocupado com a própria imagem; e ficou a descoberto, uma vez mais, aquela (abençoada) pertença comum a que não nos podemos subtrair: a pertença como irmãos” (FRANCISCO, 2020).
A crise ambiental que estamos vivendo reafirma este princípio fundamental da nossa fé e o alarga: não só nós humanos não nos salvamos sozinhos, mas só nos salvaremos se a salvação se estender a todas as criaturas. E, mais uma vez, mesmo que as espiritualidades cristãs tradicionais muitas vezes não tenham incluído este dado, tal afirmação não é novidade. Ela faz parte da doutrina cristã tradicional. Com efeito, “segundo a compreensão cristã da realidade, o destino da criação inteira passa pelo mistério de Cristo, que nela está presente desde a origem. Uma Pessoa da Santíssima Trindade inseriu-Se no universo criado, partilhando a própria sorte com ele até à cruz” (LS 99).
Todas as criaturas têm em si a marca divina não só pela criação. Na Encarnação Um da Trindade assumiu a criaturalidade, a consagrou, como lembra o Papa Francisco que, em seguida, nos aponta a terceira dimensão da salvação na qual está inserido o conjunto dos seres:
O NT não nos fala só de Jesus terreno e da sua relação tão concreta e amorosa com o mundo; mostra-no-Lo também como ressuscitado e glorioso, presente em toda a criação com o seu domínio universal (Cl 1, 19-20). Isto lança-nos para o fim dos tempos, quando o Filho entregar ao Pai todas as coisas “a fim de que Deus seja tudo em todos” (1 Cor 15, 28). Assim, as criaturas deste mundo já não nos aparecem como uma realidade meramente natural, porque o Ressuscitado as envolve misteriosamente e guia para um destino de plenitude. As próprias flores do campo e as aves que Ele, admirado, contemplou com os seus olhos humanos, agora estão cheias da sua presença luminosa. (LS 100).
A extinção de qualquer forma de vida não é apenas um pecado contra a criação de Deus. É também uma oposição à obra redentora de Deus que acontece na história e um opor-se frontalmente ao desejo de Deus que todas as criaturas participem da festa final da criação na Segunda Vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Os Sacramentos e o Domingo
Os Sacramentos são um dos elementos fundamentais para a sustentação da espiritualidade cristã. A doutrina tradicional católica afirma que os Sacramentos são compostos por matéria, forma, intenção e ministro (CONCÍLIO DE TRENTO, Sessão 7ª, 3 mar. 1547: Decreto sobre os sacramentos). A matéria dos sacramentos
consiste na ação humana através da qual Cristo age. Nesta, em algumas vezes, é presente um elemento material (água, pão, vinho óleo); outras vezes, um gesto particularmente eloquente (sinal da cruz, imposição das mãos, imersão, infusão, consentimento, unção). Tal corporeidade é indispensável porque enraíza o Sacramento não só na história humana, mas também, mais fundamentalmente ainda, na ordem simbólica da Criação e o reconduz ao mistério da Encarnação do Verbo e da Redenção por Ele operada (DICASTÉRIO PARA A DOUTRINA DA FÉ, 2024.
Desse modo, os sacramentos “constituem um modo privilegiado em que a natureza é assumida por Deus e transformada em mediação da vida sobrenatural” (LS 235).
Dentre todos os sacramentos, a Eucaristia é a que expressa de modo mais pleno a comunhão de Deus com a criação e, na sua recepção, a sagrada comunhão dos fieis com Deus e com todas as criaturas com as quais Cristo e nós compartilhamos a matéria:
A criação encontra a sua maior elevação na Eucaristia. A graça, que tende a manifestar-se de modo sensível, atinge uma expressão maravilhosa quando o próprio Deus, feito homem, chega ao ponto de fazer-Se comer pela sua criatura. […] Com efeito a Eucaristia é, por si mesma, um ato de amor cósmico. […] A Eucaristia une o céu e a terra, abraça e penetra toda a criação. […] Por isso, a Eucaristia é também fonte de luz e motivação para as nossas preocupações pelo meio ambiente, e leva-nos a ser guardiões da criação inteira. (LS 236).
Na mesma dinâmica sacramental, podemos vivenciar o dia de descanso da criação que é para os cristãos o Domingo. Ele nos é oferecido “como dia de cura das relações do ser humano com Deus, consigo mesmo, com os outros e com o mundo” (LS 237). Já no Livro do Deuteronômio, o descanso sabático é estabelecido como uma forma de restabelecimento das relações e convivência no qual participam não só os humanos, mas todas as criaturas:
nesse dia não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu boi, nem o teu jumento, nem animal algum teu, nem o estrangeiro que está dentro das tuas portas; para que o teu servo e a tua serva descansem assim como tu. (Dt 12,14).
A razão de tal ordem é a memória do passado do povo de Israel: “Lembra-te de que foste servo na terra do Egito, e que o Senhor teu Deus te tirou dali com mão forte e braço estendido; pelo que o Senhor teu Deus te ordenou que guardasses o dia do sábado” (Dt 12,15).
A tradição sacerdotal, no Livro do Levítico, amplia a dimensão ecológica da salvação expressa pelo sábado ao estabelecer o Ano da Graça no qual não só os humanos e os animais restabelecerão a harmonia. Na graça da presença de Deus no meio de seu povo são incluídos os vegetais e a própria terra:
Seis anos semearás a tua terra, e seis anos podarás a tua vinha, e colherás os seus frutos; Porém ao sétimo ano haverá sábado de descanso para a terra, um sábado ao Senhor; não semearás o teu campo nem podarás a tua vinha. O que nascer de si mesmo da tua sega, não colherás, e as uvas da tua separação não vindimarás; ano de descanso será para a terra. (Lv 25,3-5).
Ao apresentar-se publicamente para a missão, Jesus assume esta perspectiva sabática que inclui toda a criação a partir dos mais pobres da sociedade (Lc 4,16-23).
Na Laudato Sì, o Papa Francisco resume o sentido cristão do descanso dominical na sua dupla dimensão de festa e compromisso:
A espiritualidade cristã integra o valor do repouso e da festa. O repouso é uma ampliação do olhar, que permite voltar a reconhecer os direitos dos outros. O dia de descanso, cujo centro é a Eucaristia, difunde a sua luz sobre a semana inteira e encoraja-nos a assumir o cuidado da natureza e dos pobres. (LS 237).
Uma espiritualidade que transforma
Impulsionado pela Laudato Sì, o Sínodo para a Amazônia colocou o cuidado para com a criação no centro das preocupações missionárias. O anúncio da Igreja é chamado a ser Boa Nova para todos os humanos e também para as demais criaturas que são ameaçadas pelas forças da morte. Anúncio que passa, sim, pela palavra, mas vai além dela e exige ações pois a experiência de Deus passa pelos nossos corpos compostos pela mesma matéria que compõem as outras criaturas. Se professamos na fé que “cremos na ressureição da carne”, ela só ressuscitará plenamente quando a carne de todas as criaturas for restabelecida.
No Documento Final da Assembleia Sinodal, várias ações são indicadas:
- apoiar uma cultura de paz e respeito – não de violência e ultraje – e uma economia centrada na pessoa e que também cuide da natureza;
- gerar alternativas de desenvolvimento ecológico integral a partir das cosmovisões construídas com as comunidades, resgatando a sabedoria ancestral;
- apoiar projetos que proponham uma economia solidária e sustentável, circular e ecológica, tanto a nível local como internacional, no âmbito da pesquisa e no campo de ação, nos setores formal e informal;
- sustentar e promover experiências de cooperativas de bio-produção, de reservas florestais e de consumo sustentável (DF, 73).
- proteger a terra;
- mudar nossa cultura de consumo excessivo;
- reduzir a produção de resíduos sólidos, estimulando o reaproveitamento e a reciclagem;
- reduzir a nossa dependência dos combustíveis fósseis e uso de plásticos;
- alterar nossos hábitos alimentares (consumo excessivo de carne e peixe/mariscos);
- comprometer-se ativamente no plantio de árvores;
- buscar alternativas sustentáveis na agricultura, energia e mobilidade que respeitem os direitos da natureza e os povos;
- promover a educação para ecologia integral em todos os níveis;
- implementar novos modelos econômicos e iniciativas que promovam uma qualidade de vida sustentável. (DF 84).
Mais do que ações, estes indicativos são elementos de uma espiritualidade ecológica possível. Elas carregam em seu bojo uma forma de relacionamento com a criação que envolve o todo da existência humana dando-lhe um sentido particular e global que para os cristãos se fundamenta no modo de ser trinitário de Deus e no modo pelo qual Ele escolhe para anunciar e realizar a Salvação: a Encarnação do Filho em Jesus de Nazaré. Ao fazer-se humano, ele assumiu a criaturalidade e a materialidade compartilhada com todas as criaturas. Na sua ressurreição, Ele realizou em primícias a redenção de todo o Universo. Conviver com a criação sabendo que ela é partícipe do mistério da Redenção, renova o nosso modo de nos situarmos e relacionarmos na convivência com elas. Vivemos, no Espírito que antecipa a plenificação, um novo modo de ser transformados por Sua presença santificante.
Referências
CONCÍLIO DE TRENTO. Sessão 7ª, 3 mar 1547 : Decreto sobre os sacramentos. Em: DENZINGER, Heinrich. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. São Paulo, Paulinas/Loyola, 2007.
CROCOLI, Aldir. Cântico do Irmão Sol. Uma leitura Antropológica. Cadernos da ESTEF, n. 30, 2018, p. 7-30.
DAMASIO, A. R. O erro de Descartes: emoção, razão e cérebro humano. São Paulo, Companhia das Letras, 2012.
DICASTÉRIO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Sobre a validade dos Sacramentos. Roma, 2 de fevereiro de 2024. Disponível em: https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_ddf_doc_20240202_gestis-verbisque_po.html#_ftn24 Acesso em 30 de outubro de 2024.
FRANCISCO, Papa. Discours du Pape François aux participants à la rencontre organisée par l’Académie Pontificale des Sciences et l’Académie Pontificale des Sciences Sociales. Roma, 16 de maio de 2024. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/fr/speeches/2024/may/documents/20240516-pas-pass.html Acesso em: 30 de outubro de 2024.
FRANCISCO, Papa. Fratelli Tutti. Carta Encíclica sobre a Fraternidade Universal e a Amizade Social. São Paulo, Paulinas, 2020.
FRANCISCO, Papa. Gaudete et Exsultate. Carta Encíclica sobre o chamado à santidade no mundo atual. São Paulo, Paulus, 2018.
FRANCISCO, Papa. Laudato Si. Carta Encíclica sobre o cuidado da Casa Comum. São Paulo, Paulinas, 1015.
FRANCISCO, Papa. Momento extraordinário de oração em tempo de epidemia. Roma, 27 de março de 2020. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/homilies/2020/documents/papa-francesco_20200327_omelia-epidemia.html Acesso em: 30 de outubro de 2024.
GUTIÉRREZ, Gustavo. Debate da tese de Gustavo Gutiérrez (1985). In.: A verda-de vos libertará. Confrontos. Ed. Loyola: São Paulo, SP. 2000.
NASCIMENTO, Milton; TISO, Wagner. Coração de Estudante. MBG/Ariola, 1983.
O QUE É um Ecossistema e um Bioma. Dicionário Ambiental ((o))eco, Rio de Janeiro, jul. 2014. Disponível em: Hhttp://www.oeco.org.br/dicionario-ambiental/28516-o-que-e-um-ecossistema-e-um-bioma/>. Acesso em: 30 de outubro de 2024.
PELLIZARI, Vivian H; BENDIA, Amanda G. Origem da vida na Terra. Disponível em: https://www.io.usp.br/index.php/infraestrutura/museu-oceanografico/29-portugues/publicacoes/series-divulgacao/vida-e-biodiversidade/807-origem-da-vida-na-terra#:~:text=Estudos%20moleculares%20de%20term%C3%B3filos%20modernos,5%20bilh%C3%B5es%20de%20anos%20atr%C3%A1s. Acesso em: 30 de outubro de 2024.
STEINER, João. Como os cientistas sabem a idade da Terra? Radio USP, 7 de agosto de 2020. Disponível em https://jornal.usp.br/radio-usp/atualidades-steiner_07-08-como-os-cientistas-sabem-a-idade-da-terra/#:~:text=Nossa%20casa%20no%20Universo%20%C3%A9,4%2C5%20bilh%C3%B5es%20de%20anos. Acesso em: 30 de outubro de 2024.
ZORZETTO, Ricardo. Pelo mundo afora. Pesquisa FAPESP, Ed. 142, 2007. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/pelo-mundo-afora/#:~:text=De%20acordo%20com%20os%20c%C3%A1lculos,ter%20ocorrido%E2%80%9D%2C%20diz%20Bonatto. Acesso em: 30 de outubro de 2024.
