Arquivo mensal: maio 2009

Igreja abençoa união de pessoas do mesmo sexo

O casamento gay ainda é um tabu na maioria das sociedades. Tanto que boa parte delas ainda não reconheceu legalmente a possibilidade do matrimônio entre pessoas do mesmo sexo.

As dificuldades que a questão enfrenta no campo civil, entretanto, não chegam nem perto do que acontece no religioso. Se o uso de preservativos ainda é condenado por muitas instituições religiosas, imaginem o casamento gay.

Na contramão – ou na vanguarda? – dessa posição está a Igreja da Comunidade Metropolitana, que há quatro anos celebra a união de casais homossexuais no Brasil.

Tecnicamente, a Igreja não realiza casamentos. Ainda que a cerimônia seja praticamente idêntica e que o menu do site da instituição aponte para “casamento”, ela é chamada de “Benção de União de Casais Homoafetivos”.

“Existe uma diferença de conceito”, argumenta o pastor Cristiano Valério, da ICM. De acordo com o pastor, “o casal não está sendo unido no altar; eles estão vivendo juntos”.

– A Igreja dá uma benção a uma união que já é legítima, que já venceu muitos obstáculos e está consolidada. Na ICM, entendemos que os casais devem celebrar sua união depois de se conhecerem, inclusive sexualmente – afirma.

Casais celebram a união com muita fé

Casais celebram a união com muita fé

O pastor Valério faz questão de esclarecer porque a cerimônia é considerada uma benção. “Abençoamos a união porque não a consideramos um sacramento. Na ICM, apenas o batismo e a eucaristia são sacramentos”.

Cristiano Valério explica, ainda, o uso do termo “homoafetivo”:

– Homossexual dá a ideia de apenas sexo. Homoafetivo realça o carinho que envolve a relação. O desejo é apenas consequência. Mas a Igreja não tem nenhum problema em usar os termos “gays” ou “homossexuais” – diz.

União coletiva

Com a proximidade da Parada Gay de São Paulo, marcada para o dia 14 de junho, a ICM prepara-se para a 2ª edição da celebração de benção de união coletiva de casais homoafetivos.

O evento acontece na véspera da Parada Gay. Como toda primeira vez, a edição de 2008 foi um pouco tímida, reunindo apenas cinco casais. “A visibilidade é muito grande, alguns casais optam por celebrar em particular, ao longo do dia”, explica o pastor. Um número maior de casais é esperado para a união coletiva deste ano.

“Aproveitamos sempre oportunidades para nos posicionarmos politicamente”, explica Cristiano Valério. De fato, a militância é uma marca da ICM. “E não apenas pelo movimento LGBT, mas pelos direitos das mulheres, dos negros e dos índios…”, afirma Valério.

Por essa atuação a ICM esteve na I Conferência Nacional LGBT, em 2008, e na II Conferência de Igualdade Racial, no final de semana passado. Em 2003, o fundador da Igreja, reverendo Troy Perry foi convidado pelo Govenrno Lula para discutir o Programa Nacional por um Brasil Sem Homofobia.

Essa relação entre fé e militância foi fundamental para o surgimento da Igreja. Impedido de pregar pela sua opção sexual, o Rev. Troy Perry foi compelido a fundar sua própria congregação ao ver um amigo gay ser agredido e preso pela polícia. Em seu desespero, o rapaz gritou para Perry: “Deus não se importa! Deus não se importa com os gays!”.

A Igreja da Comunidade Metropolitana é o ramo brasileiro da Metropolitan Community Churches, fundada pelo reverendo Troy Perry em 1968, em Los Angeles (EUA).

Atualmente com 60 mil membros e mais de 300 igrejas em 22 países ao redor do mundo, a MCC realizou o primeiro casamento público entre pessoas do mesmo sexo nos Estados Unidos, no ano de 1969.

Na mesma ocasião, ingressou com uma petição para o reconhecimento legal para casamentos entre homossexuais naquele país.

Desde a sua fundação, a MCC e seus membros têm sido vítimas da violência e da intolerância religiosa. O Ver. Troy – hoje aposentado – já recebeu diversas ameaças de morte e cerca de 22 templos em todo o mundo já foram incendiados.

A ICM chegou ao Brasil há cinco anos. Consequentemente, sua presença no país ainda é pequena: chega a apenas nove cidades: São Paulo e Campinas (SP); Belo Horizonte e Divinópolis (MG); Fortaleza (CE); Teresina (PI); Curitiba e Umuarama (PR); e Vitória (ES).

Somente em três delas (São Paulo, Belo Horizonte e Fortaleza), tem os serviços completos, que incluem ação social e militância pelo movimento LGBT.

"queremos adorar Deus sem máscaras"

Pastor Cristiano: “queremos adorar Deus sem máscaras”

Embora a entrevista enfoque principalmente a união de pessoas do mesmo sexo, o pastor faz questão de enfatizar que “a ICM celebra a união de qualquer casal, homoafetivos ou heterosexuais”.

– Na ICM fazemos o que chamamos de inclusão radical. Aceitamos e pronto. Não existe um ser humano no planeta que não seria bem vindo na ICM. Nosso objetivo é adorar Deus sem usar máscaras – afirma o pastor Cristiano Valério.

Alas políticas opostas promovem boicote à visita do papa a Israel

papa Bento 16 na chegada a Israel

A visita do papa Bento 16 a Israel, iniciada nesta segunda-feira, está causando polêmica dentro de alas políticas opostas no país.

Tanto os políticos israelenses de direita quanto os de esquerda anunciaram que vão boicotar a visita do pontífice ao país, mas os motivos que alegam para justificar o protesto divergem profundamente.

Enquanto os políticos de direita chamam o papa de “antissemita e inimigo do povo judeu”, os de esquerda o acusam de ser “ultraconservador e retrógrado, responsável por milhões de vítimas da Aids na África”.

O deputado Nitzan Horowitz, do partido social-democrata Meretz, afirmou que pretende boicotar a visita “pois o papa traz uma mensagem de intolerância”.

“O papa é responsável pelo sofrimento de milhões de pessoas, é um dos conservadores mais rígidos da igreja”, afirmou.

“De todas as injustiças que cometeu, a pior consiste em se opor à distribuição de preservativos no terceiro mundo, levando ao sofrimento de um enorme número de pessoas na África, Ásia e América do Sul, que sofrem de Aids e outras doenças como resultado direto dessa atitude ignorante.”

Candelabro

Shalom Wolfa, rabino e líder do grupo de direita Centro para a Salvação do Povo e da Terra

Já o deputado de extrema-direita Michael Ben Ari, do partido Ihud Leumi (União Nacional), chamou o papa de “antissemita, criminoso e inimigo do povo judeu”.

O assessor parlamentar de Ben Ari, Itamar Ben Gvir, anunciou que vai entrar com um recurso na Suprema Corte de Justiça pedindo um mandato judicial que não permita a saída do papa Bento 16 do país a menos que o Vaticano devolva uma peça de um antigo templo sagrado para os judeus, o chamado Segundo Templo.

Segundo Ben Gvir, “o candelabro de ouro do Segundo Templo se encontra nos porões do Vaticano, depois que foi levado pelos Romanos quando destruíram o Templo” (no ano 70 d.C.)”.

Ben Gvir exige que o papa “devolva o candelabro antes de sair do país”.

O Rabino Shalom Wolfa, líder do grupo de direita Centro para a Salvação do Povo e da Terra, protestou contra o encontro programado dos Rabinos Chefes de Israel com o papa.

“Rabinos não devem se encontrar com o papa, isso contradiz o judaísmo”, disse Wolfa. “O papa que, quando era jovem, fazia parte da Juventude de Hitler, não deve ser recebido com honras de representante da religião cristã.”

O Movimento Islâmico em Israel, um dos maiores grupos políticos que representam a população árabe no país, convocou os árabes a não apoiarem a visita do pontífice, que “ofendeu o profeta Maomé”.

Benefícios

O governo e alguns setores da sociedade, no entanto, apoiam a passagem de Bento 16 pela Terra Santa.

O ex-embaixador de Israel no Vaticano, Oden Ben Hur, afirmou que “Israel só tem a ganhar com a aproximação com o Vaticano”.

Em entrevista à rádio estatal de Israel, Ben Hur disse que “é bom e importante que o papa venha ao país” porque, entre outros motivos, a visita pode incentivar a economia, aumentando o número de peregrinos na região.

Ainda segundo ele, uma elevação do nível das relações com o Vaticano pode ser benéfica para os interesses políticos de Israel.

O jornalista árabe cristão e cidadão israelense Faiz Abbas também considera a visita do papa positiva e acha que os muçulmanos devem dar-lhe as boas vindas.

“Discordo da posição de muçulmanos que se opõem à visita de Bento 16”, afirmou Abbas.

“Ele é o líder do mundo cristão e é capaz de ajudar aos palestinos na Cisjordânia e em Jerusalém, e também aos cristãos, cuja população diminui na região de maneira que preocupa os chefes da Igreja”, disse.

Bento XVI na Jordânia

Papa Bento 16 (arquivo)

O Papa Bento 16 chegou nesta sexta-feira à Jordânia, dando início a um giro de uma semana pelo Oriente Médio, que tem como objetivo melhorar as relações do Vaticano com líderes islâmicos e judeus e encorajar a minoria cristã na região.

Essa é a primeira viagem de Bento 16 aos locais mais sagrados para o cristianismo desde sua eleição como Pontífice, há quatro anos. Ele descreveu a viagem como uma “peregrinação de paz”.

Nesta sexta-feira, Bento 16 encontrará o rei Abdullah da Jordânia, em Amã. A viagem prevê também visitas a Jerusalém e à cidade palestina de Belém, na Cisjordânia, local onde segundo a tradição cristã nasceu Jesus. O Papa fará um apelo pela paz entre israelenses e palestinos e pela criação de uma “terra palestina”.

A visita do Papa ao Oriente Médio também é vista por muitos como uma tentativa de interceder em favor dos árabes cristãos. O número de cristãos árabes vem diminuindo nos últimos anos em países muçulmanos, o que preocupa o Vaticano – o Oriente Médio é considerado o berço do Cristianismo e abriga algumas das mais antigas comunidades cristãs do mundo.

Visão

Bento 16 deve visitar Belém durante o giro pelo Oriente Médio

Há mais de 20 anos no Líbano, o historiador e pesquisador brasileiro Roberto Khatlab explicou que há uma visão errônea no mundo islâmico de que o Cristianismo é uma religião ocidental.

“Muitos árabes muçulmanos mais fundamentalistas não vêem os seus irmãos cristãos como árabes, mas como ocidentais, fazendo com que eles sejam perseguidos em algumas regiões”, disse Khatlab, que lançou recentemente no Brasil o livro Árabes Cristãos? (Editora Ave Maria, São Paulo, 2009).

O historiador afirmou que a visita do Papa tenta colocar mais pressão sobre os líderes da região para que protejam as comunidades cristãs em seus respectivos países.

“Está escrito no livro sagrado dos muçulmanos, o Corão, que deve haver um respeito mútuo entre Islamismo e Cristianismo. Mas, infelizmente, fundamentalistas distorceram a ideia entre as duas religiões para o ódio.”

As discriminações que ocorreram entre as duas religiões em vários momentos da História estão se repetindo agora, segundo Khatlab, com os árabes cristãos.

“Sem alternativa e sem proteção de seus governos, os cristãos são obrigados a fugir para outros países ocidentais.”

Declínio

Os grupos cristãos no Oriente Médio vem diminuindo na região por causa de uma combinação de fatores como baixa taxa de natalidade, emigração e, em alguns países, perseguição.

Segundo dados do Vaticano, países como Jordânia, Iraque e Irã possuem menos de 4% de suas populações compostas por cristões.

No Iraque, há registro de diversos casos de perseguições à população cristã, cuja presença no país data do século 2. A violência só aumentou, segundo as organizações, após o início da guerra no Iraque, em 2003, obrigando muitas famílias a buscar refúgio em outros países.

Segundo Khatlab, o Iraque se transformou no pior lugar da região para os cristãos.

“O país vem testemunhando perseguição a padres e bispos, inclusive o sequestro e assassinato de líderes religiosos cristãos”, enfatizou ele.

Na Síria, 9% da população é cristã. No Egito, essa porcentagem é de 16%. O Líbano é o maior reduto de cristãos no Oriente Médio, em torno de 40%, e lá eles ainda possuem algum poder político.

Antes da criação do Estado de Israel, em 1948, havia uma população cristã de até 20%, mas hoje a porcentagem é de apenas 2% nos territórios palestinos e Israel.

A própria cidade de Belém, antes uma cidade majoritariamente cristã, hoje é de maioria muçulmana.