Arquivo do autor:Vanildo Luiz Zugno

Sobre Vanildo Luiz Zugno

Espaço para publicação de textos teológicos e áreas afins. Aberto a todos aqueles e aquelas que desejam compartilhar suas reflexões e experiências teológicas e religiosas.

Sobre escrófulas e cloroquina

Cloroquina todo mundo já sabe o que é: um medicamente usado para prevenir ou controlar os efeitos da malária. Eu o conheço pessoalmente. Durante cinco anos tomei cloroquina como preventivo à malária e, até o fim dos meus dias, guardarei seus efeitos colaterais. O primeiro, pequenas coagulações no humor vítreo do olho direito. Elas fazem que, ao olhar para um fundo claro, eu enxergue pequenos pontos pretos movendo-se de um lado para outro. O outro é uma taquicardia que, graças aos medicamentos que tomo diariamente, está sob controle.

Tem gente que, contra todas as evidências disponíveis, acha que a cloroquina também serve para prevenir a Covid19. Resultado dessa crença é que, no final da pandemia – espero que seja para breve – haverá muitos brasileiros com problemas oculares, cardíacos e hepáticos (que eu não tive, graças a Deus!).

Já sobre as escrófulas, só fiquei sabendo delas ao ler as obras de Marc Bloch. No livro “Os Reis Taumaturgos”, o historiador francês faz um estudo sobre um curioso fenômeno medieval: a crença de que os reis da França e da Inglaterra tinham o poder de, com o toque das mãos, curar os doentes afetados por este terrível mal. Geralmente associadas à tuberculose, as escrófulas têm sua origem na inflamação dos gânglios linfáticos na região do pescoço. Nos casos graves, a inflamação chega à fistulização e o aspecto do paciente se torna deveras repugnante.

Do séc. XII ao séc. XVII, tanto na França como na Inglaterra, milhares de pessoas, anualmente, vinham até o rei para serem tocadas e curadas. Em ambas as nações, estabeleceu-se um ritual litúrgico que era praticado regularmente pelo monarca de turno.

Tal prática se baseava na afirmação de que o rei, pela unção recebida no dia da sua entronização, passava a ser uma pessoa sagrada e, como tal, tinha o poder de curar. Era o mesmo poder exercido por Jesus e pelos santos. E com uma vantagem: tal poder não dependia da santidade pessoal do rei, mas da unção por ele recebida na entronização.

A essas alturas você já deve estar se perguntando: mas, e as pessoas, realmente ficavam curadas? A resposta é “sim”! Quem vinha ao rei e recebia seu toque e sua bênção, efetivamente ficavam curado… Como? Simples: as escrófulas são uma inflamação cíclica. Após a supuração, elas, por si mesmas, fecham seu ciclo e cicatrizam. Tal processo era favorecido pelo fato de os doentes terem que aguardar perto do palácio por alguns dias à espera do ritual. E enquanto aguardavam recebiam boa alimentação. E, depois do toque, ainda recebiam do rei uma esmola que lhes permitia manter a boa alimentação. Com descanso e comida, a imunidade aumentava e as escrófulas fechavam seu ciclo até nova irrupção.

Naquela época, claro, não havia os conhecimentos médicos que temos hoje. E os milagres faziam parte do cotidiano. Aconteciam todos os dias e em toda parte. E isso não porque naquele tempo Deus interviesse mais que hoje no cotidiano das pessoas. Mas porque as pessoas estavam predispostas a acreditar neles. Dentro da compreensão medieval, não havia separação entre o sagrado e o profano. Deus e seus auxiliares, os santos e os anjos, bem como Satanás e seus diabinhos, conviviam lado a lado com as pessoas e intervinham no dia a dia e em todos os âmbitos da vida.

O que os reis fizeram – e nisso esteve a sua genialidade política – foi usar a ignorância e a crença nos milagres para consolidar a instituição real. Assim explica Marc Bloch essa jogada fenomenal dos monarcas franceses e ingleses: “Para que uma instituição destinada a atender a fins precisos indicados por uma vontade individual possa impor-se a todo um povo, é necessário ainda que ela seja sustentada pelas tendências profundas da consciência coletiva; e talvez, reciprocamente, para que uma crença um pouco vaga possa concretizar-se num rito regular, não seja indiferente que algumas vontades conscientes ajudem-na a tomar forma.”

Voltando à nossa conhecida cloroquina e outras crenças sem evidência científica, devemos nos perguntar não apenas sobre as intenções dos que as querem impor à população. Devemos nos perguntar também quais são as “tendências profundas da consciência coletiva” que tornam essas mentiras aceitáveis para uma parcela significativa da população.

A Covid19 é um desafio à medicina. No Brasil, tornou-se uma questão política. Mas o mais profundo e grave, é que ela está revelando muito sobre as profundezas culturais de nossa nação.

Ecumenismo e Libertação

O título desta postagem é uma homenagem a um livro que li pela primeira vez no final da década de 1980, quando cursava a Graduação em Teologia. Era a época da disputa em torno à Teologia da Libertação, um movimento de intelectuais cristãos que queria pensar a fé a partir das lutas dos povos do continente para superar a pobreza e a opressão.

A Teologia da Libertação, desde as suas origens até hoje, sempre se entendeu como um movimento transeclesial, ou seja, constituído por homens e mulheres que, identificando-se com uma comunidade cristã específica, não fica restrito a esta ou aquela comunidade, mas pensa o cristianismo no seu todo, para além dos limites institucionais. Claro que, sendo o Brasil um país naquela época ainda majoritariamente católico romano, a tensão se expressava de maneira mais viva dentro da Igreja Católica Romana. O “caso Leonardo Boff” tornou-se emblemático desta disputa pelo sentido da fé no contexto brasileiro e latino-americano.

O autor do livro “Ecumenismo e Libertação” que motiva esta reflexão é o teólogo uruguaio Júlio H. de Santa Ana. De formação metodista, Júlio fez-se, por opção, amplamente ecumênico e, como tantos uruguaios de seu tempo e de hoje, girou pelo mundo a serviço da causa em que acreditava, a unidade das Igrejas e do Povo de Deus. Atuou em vários organismos ecumênicos internacionais, inclusive no Conselho Mundial de Igrejas.

Neste livro que é, sem dúvidas, um clássico no tema, o autor discorre sobre as causas das diversas divisões que, ao longo de dois mil anos, afetaram a desejada unidade do Povo de Deus. Houve causas dogmáticas, litúrgicas, canônicas, culturais, políticas, econômicas, pessoais… Muitas divisões com muitas causas e muitas causas em cada divisão. O cisma do séc. XI, por exemplo, que separou latinos e orientais, não teve como única causa a discussão sobre a procedência do Espírito Santo apenas do Pai ou do Pai e do Filho. A disputa de poder entre o Império Bizantino, o Papado e as repúblicas italianas também influíram no triste desfecho. Do mesmo modo, não foram as “Cinco Sola” de Lutero que suscitaram as rupturas na Igreja do Ocidente. Sem os interesses econômicos e políticos dos príncipes alemães, de Carlos V e dos Papas Imperadores e de sua corte, a crise das reformas não teria tão triste desfecho.

Mas a razão que sempre me faz voltar ao livro de Júlio de Santa Ana é a parte conclusiva em que, olhando o presente e as perspectivas futuras para os que sonham com a unidade das Igrejas e do Povo de Deus, o autor, citando Emílio Castro, também uruguaio, metodista e apaixonado pelo ecumenismo, afirma que Ecumenismo é Solidariedade. Solidariedade na busca do Reino, solidariedade no serviço aos pobres.

Para Emílio e para Júlio, assim como para muitos outros cristãos e cristãs que buscam ser fieis ao projeto do Reino de Deus, a unidade cristã se constrói não apenas na discussão sobre princípios dogmáticos, litúrgicos, canônicos, sacramentais, ministeriais… O que une ou separa os cristãos, é a atenção que é dedicada aos pobres. Isso não é novo. É muito antigo. Já Paulo o afirmou na Carta aos Gálatas. Segundo o Apóstolo dos Gentios, para quem tem fé no Deus de Jesus, tudo é relativo, menos o cuidado para com os pobres. Estes nunca podem ser esquecidos.

Esse é o princípio que está hoje por trás de todas as discussões em torno à Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021. Há cristãos que se preocupam com os pobres e há cristãos que, com argumentos supostamente religiosos, justificam sua desatenção para com os preferidos por Jesus Cristo. E isso não é privilégio desta ou daquela Igreja. São posturas que ultrapassam as barreiras confessionais e provocam uma divisão em todas as igrejas.

É a divisão mais radical, mais que as do séc. V, do séc. XI e dos séc. XVI-XVII. Uma divisão que recoloca o cristianismo frente à questão fundamental que temos sempre de novo responder: quem é o Deus em que acreditamos? É o Deus de Jesus que dá a vida para que todos tenham vida ou é um Baal que exige o sacrifício da vida dos pobres?

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Minha mentira de estimação

“A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer”, disse um dia Mário Quintana. Não sei o que levou o poeta a cunhar a expressão. Mas hoje, mais do que nunca, no contexto avassalador de notícias mentirosas, as ditas fake news, ela dá o que pensar.

Verdade que notícias mentirosas sempre existiram. A história da comunicação, comprova-o com facilidade. Desde as pinturas rupestres até as redes sociais. Nossos ancestrais das cavernas, para impressionar seus amigos e assustar os inimigos, exageravam no tamanho dos animais que caçavam ou na quantidade de mulheres que estavam sob seu domínio. Uma visita às grutas de Altamira ou à Serra da Capivara demonstra de forma cabal que as fake news estão no DNA da humanidade. O que os modernos meios fizeram – imprensa, rádio, televisão, internet – foi potencializar aquilo que antes se fazia no boca a boca, na cerca da vizinha, no boteco da esquina, no banco da praça, no púlpito da igreja, na sombra da figueira.

Um exemplo clássico são os jornais televisivos. Se, num mesmo dia, assistimos aos noticiários da noite das várias redes de televisão aberta, parece que cada uma delas vive uma realidade diferente. Na atual crise da Covid19, se você assiste à rede “A”, com certeza terá a impressão de que a pandemia não existe; na rede “B”, basta ir até a farmácia da esquina e comprar um vermífugo e tudo está resolvido; na rede “C”, a informação é de que a vacina já está disponível para todos; na rede “D”, depois do Boa Noite sorridente dos apresentadores, você liga para a funerária e encomenda o caixão porque a morte de todos os brasileiros, você incluído, é inevitável.

O rádio não foge deste paradigma. E os jornais tampouco nos oferecem uma verdade mais objetiva. Mas o que é verdade? Aí é que mora o problema… Tomás de Aquino, dizia que “a verdade é a adequação entre o intelecto e a realidade”. Podemos ler esta frase de duas maneiras. A primeira, é afirmando que, para chegar à verdade, a nossa mente deve adequar-se ao que está acontecendo ao nosso redor. A segunda, também possível segundo o filósofo e teólogo medieval, é a de que a verdade é a adequação da realidade à nossa mente.

Para o santo, a verdade só se alcança com o equilíbrio entre as duas perspectivas. Esquecer de um dos lados, induz inevitavelmente ao erro. As fake news são uma prova do acertado da análise do doutor da Igreja. Elas se limitam a adequar a realidade à mente humana. São construídas para oferecer às pessoas a versão da realidade que elas gostariam que fosse verdadeira. Em outras palavras, elas dizem às pessoas o que elas gostariam de ouvir. Por isso é tão difícil convencer o vizinho, o amigo, o tio, a tia, o primo, o irmão, o cunhado…, de que a notícia que eles receberam e passaram adiante no grupo da família ou do bairro é falsa: “Mas como é falsa, se é nisso mesmo que eu acredito?” E quando, com fatos e dados, você prova que aquilo não é verdadeiro, vem o argumento fatal: “Se não foi assim, poderia ter sido e, se não aconteceu, ainda pode acontecer”.

O propagador de fake news não tem a consciência de ser mentiroso. Ele simplesmente tem a convicção de que a realidade deve espelhar o que a sua mente pensa e deseja. Para o propagador de notícias mentirosas, a verdade é uma mentira que infelizmente aconteceu e deve ser negada. Ele tem sua mentira de estimação. Ele a ama. Vive para ela. E por ela é capaz de morrer e, se preciso for, capaz de matar.

Que nos salvem os poetas e os santos!

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Urbanos Insanos e Humanos

Tirar férias faz bem. Para a saúde da alma, do corpo e do coração também. Férias, por muito tempo, foi um direito negado até que duramente conquistado. Isso não pode ser olvidado. Não é presente. Não é regalo. É conquista, benquista e espero que resista a todas as reformas trabalhistas. Por mais que o capital insista!

Para quem mora e trabalha na cidade, férias implica necessariamente uma saída para o interior ou para o litoral. Não que férias sejam incompatíveis com a cidade. Ela tem suas belezas. Com certeza! Tantas que a gente se acostuma e precisa ir em busca de vistas que ficaram no passado – no meu caso que nasci no interior – ou que fazem parte do sonho futuro – morar no litoral! – para, depois voltar e redescobrir tudo aquilo que o dia a dia oculta da vista.

Mas as férias não são o ano todo. São apenas “férias”! Alguns dias e nada mais. Com sorte uma ou duas semanas. E depois lá voltamos nós para a cidade com suas ruas, carros, ônibus, metrô, prédios, escolas, universidades, hospitais, bares, restaurantes, fábricas (cada vez mais ausentadas das cidades), shoppings, praças e seus típicos barulhos, cores, odores, calores, sabores e pavores. Sim! A cidade tem seus prazeres. Mas também tem seus horrores.

Mas a cidade não são apenas suas construções e espaço. A cidade é gente. São homens e mulheres. Não apenas amontoados, juntados, justapostos, expostos. São homens e mulheres relacionados. Cidade é relação. É o bem maior da humanidade. Está acima da família e da aldeia. Isso dizia Aristóteles, trezentos anos antes de Cristo. Dizia o filósofo grego que a cidade faz o ser humano ser político, polido. Quem não mora na cidade é bruto, rude. Em latim, a “polis” de Aristóteles virou “civitas”. Morar na cidade é ser civilizado. Fora da cidade está o selvagem.

Descendo a Elevada da Rodoviária e mergulhando no caos do túnel da Conceição me pergunto se Aristóteles tinha razão. Sei não. Acho que não. E o meu não se faz ainda mais negativo quando vejo em cada rua, em cada esquina, um monte de mendigos e milhares de pessoas morando na rua em frente a prédios desabitados e gente passando fome ao lado de supermercados abarrotados. A civilização virou insana, desumana. A cidade perdeu a humanidade. É apenas um intrincado de prédios, ruas e espaços onde perambulamos sem saber para onde vamos.

Ligo o rádio e a filosofia brasileira toma o lugar de Aristóteles. Cada cidade brasileira – incluída a Porto Alegre em que vivo – é uma “Rio quarenta graus”, uma cidade de cidades misturadas, uma cidade de cidades camufladas, com governos misturados, camuflados, paralelos, com governos sorrateiros ocultando comandos do submundo oficial, bandidaço, classe média, camelô, com submáfias de todas as espécies – manicure, de boate, de madame, da TV, de deputado, aposentado, papai, mamãe, vovó, criancinha, dos filhinhos – e tantas outras que a lista cantada pela Fernanda Abreu não poderia jamais abarcar.

O funk tem razão. Toda cidade é um purgatório da beleza e do caos. Uma mescla da qual não podemos escapar. Um lugar que, com seus muitos donos – donos de becos, de ruas, de edifícios, de praças, de parques, de prefeituras e palácios – é também o nosso lugar, o meu lugar. Um lugar que, com nosso esforço e nossa palavra, precisamos a cada dia, voltar a civilizar. Aristóteles tem razão. O funk também tem. Mesmo insana, a cidade é humana, é o nosso maior bem! É o lugar que escolhemos para viver, para sofrer, ter prazer e amar.

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Um pequeno grande passo.

“Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade.” A frase é do astronauta norte-americano Neill Alden Armstrong, o primeiro ser humano a pisar na lua. O feito, como os mais velhos lembram e os mais novos seguramente vimos em imagens de arquivo, é um dos mais significativos da história. Pela primeira vez, em 20 de julho de 1969, um homem caminhava em outro solo que não o do planeta Terra.

O “pequeno passo” era a culminância do Projeto Apollo. A meta era colocar astronautas no solo lunar e, através deste feito científico e tecnológico, demonstrar a superioridade do capitalismo sobre o socialismo. Era a época da corrida espacial. Depois de vários fracassos e 200 bilhões de dólares consumidos, o objetivo foi alcançado e devidamente mediatizado. Mais de um bilhão de pessoas acompanharam ao vivo, pela televisão ou pelo rádio, a efeméride que culminou com a frase de efeito devidamente preparada para a ocasião.

A frase de Neil Armstrong que celebrizou o episódio me veio à mente esta semana quando o Papa Francisco, com um gesto pouco ou nada midiático, baixou um decreto modificando um parágrafo do Código de Direito Canônico. Trata-se do parágrafo primeiro do Cânon 230. Três palavras foram suprimidas: “do sexo masculino”. É o cânon que regula o acesso, na Igreja Católica Romana de Rito Latino, aos ministérios do Acolitato e Leitorado. Com a modificação, pela primeira vez na história moderna do catolicismo romano – vale sempre lembrar que além deste há outros cinco ritos na Igreja Católica Romana – o acesso a esses dois ministérios é aberto a mulheres.

Verdade que tanto aqui no Brasil como em outros lugares do mundo, desde o Concílio Vaticano II havia mulheres exercendo o ministério de acólitas e leitoras nas milhares de comunidades espalhadas por campos e cidades. Mas o faziam de forma extraordinária para suprir a carência de ministros homens ou na incapacidade ou não vontade deles em exercê-los. Era um ministério temporário, instável, passível de revogação a qualquer momento e visto como de caráter supletivo. Quando não mais necessárias, as mulheres que o exerciam eram dele dispensadas.

Agora a figura é outra: passam a ser ministérios permanentes, estáveis, instituídos pela competente autoridade eclesiástica. Como vai ser na prática, dependerá muito da dinâmica das comunidades que assumirão esta possibilidade canônica.

É um pequeno passo para as mulheres. Muitos gostariam de vê-las não apenas no exercício de ministérios auxiliares, mas na titularidade de ministérios ordenados e na direção das comunidades locais, paroquiais e diocesanas. Fato que, é bom lembrar, já é comum em outras igrejas cristãs. Mas talvez esse pequeno passo na longa luta feminina para o reconhecimento no espaço eclesial, se transforme num grande salto para a Igreja Católica Romana. Afinal, ter ou não a possibilidade de mulheres colocando os pés no espaço que circula o altar, é símbolo da corrida pelo exercício do poder na Igreja Católica Romana. Assim como, na década de 1960, colocar um homem a pisar na Lua era o marco da vitória na corrida espacial, ter mulheres ao redor do altar é sinal indicador de que o céu é o limite quando se pensa em uma Igreja aberta e participativa. Apenas um sinal, mas um sinal que desejamos promissor.

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FAROL DA SOLIDÃO

MOSTARDAS, RS, BRASIL, 24.01.12: Praia do Farol da Solidão. Foto: Claudio Fachel/Palácio Piratini

O nome é estranho. Para alguns, assustador. Quem gostaria de ir passar seu verão num lugar chamado Praia do Farol da Solidão? Poucos, com certeza. Diria mais: quase ninguém. A maioria, ao pensar em praia, busca um lugar de agitação, divertimento, badalação. Mesmo agora, em tempos de pandemia, os gaúchos urbanos e também os pampeanos insistem em ir para Torres, Imbé, Tramandaí, Capão e, correndo todos os riscos, fazer aglomeração. Parece fazer parte da idiossincrasia metropolitana que imita as aves de arribação. Estas passam pelo litoral sulino em maio e setembro. Os bípedes com o telencéfalo altamente desenvolvido e o dedo polegar opositor, para lá vão entre o Natal e o Carnaval.

Mas a Praia do Farol da Solidão existe. Está a meio caminho entre Palmares do Sul e Mostardas. De Porto Alegre, são 150 quilômetros. Duas horas e meia em carro. Saindo da capital pela RS 040, passando Viamão, segue-se para Capivari do Sul e daí em diante, pela 101 – a Estrada do Inferno já não é tão infernal! – até topar com a Estrada da Solidão, um pouco antes do Vilarejo Doutor Edgardo Pereira Velho. São oito quilômetros de areia que se move conforme os ventos de cada época do ano. Se tudo der certo, em meia hora o viajante tem à sua frente o edifício que dá o nome ao lugar: o Farol da Solidão.

Ninguém sabe exatamente quando o sinalizador foi construído. Diz-se que no início do séc. XX. A memória mais antiga é de uma estrutura de ferro. Mais tarde foi substituída pela atual torre em cimento que, do alto de seus 21 metros avermelhados, sinaliza aos navegantes que a costa está próxima.

O povoado são três avenidas com mais ou menos dez ruas transversais. Oitocentas casas, segundo o dono de um dos três mercadinhos que funcionam o ano todo. Armazém de secos, molhados, úmidos e todo tipo de gênero alimentício e não alimentício – da pasta de dente ao herbicida – que funciona ao mesmo tempo como boteco para otimizar a estrutura e garantir o faturamento. De março a dezembro, a vida gira ao redor da pesca que a cada ano se torna mais difícil. O peixe míngua e muitos residentes já se foram e outros pensam em partir. Em janeiro e fevereiro, a economia ganha impulso com os veranistas. As duas pousadas chegam nos fins de semana à lotação máxima: em torno de quarenta pessoas. Também há a opção de alugar – e aí os preços são muito favoráveis – uma das tantas casas de madeira disponíveis no balneário. Vem gente de Capivari do Sul, de Mostardas, Tavares, Viamão, Porto Alegre e, não raro, aqueles que fogem da badalação de Santa Catarina, Torres, Tramandaí, Imbé e Capão.  

Mas o que leva alguém a um lugar tão distante e tão fora do padrão daquilo que se imagina em Porto Alegre como passeio de verão? O nome do local já diz: solidão! Quem vai para lá sabe aonde está indo: um lugar onde se pode estar sozinho. Está escrito por todo lado que o lugar é de solidão: na estrada, no farol e na vila. E também no nome de um dos botecos e de uma das pousadas. Não tem como errar e depois reclamar!

São poucos os cidadãos que fazem esta opção. É muito penoso em nossa civilização do contato superficial e da hiperconexão aleatória estar sozinho e encontrar-se consigo mesmo. O Farol da Solidão fica longe. E a estrada é difícil. Menos, porém, do que o caminho para dentro do interior de si mesmo onde podemos vagar na íntima solidão. Não custa tentar! E que tenhas uma boa viagem…

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Da pandemia à empatia.

2020 já terminou! Um alívio… Um ano tão rápido que demorou tanto a passar. Parecia que não acabava mais. A tradicional contagem regressiva dos 10 segundos finais foi antecedida pela contagem dos últimos dias, das últimas semanas, dos últimos meses. Todos desejávamos que passasse logo. E passou. Estamos em 2021. Um ano novo cheio de otimismo e sonhos.

Esperança de tempos novos que foi alentada pela chegada das vacinas que prometem a superação da pandemia. Alguns países já começaram a imunizar sua população. O Brasil ainda não. A cadeira presidencial está sendo ocupada por um ser que afirma “não estar nem aí” com os 200 mil brasileiros mortos em consequência da Covid19. Esse ser do qual declino pronunciar o nome e a equipe de tanatófilos que o rodeiam, não se sente nem um pouco afligido pela dor daqueles e daquelas que perderam seus familiares e dos milhões de brasileiros e brasileiras que vivem a angústia da proximidade da morte e das consequências da crise econômica que, há de se dizer, não tem na pandemia sua única causa. A pandemia apenas veio potencializar o projeto de morte da elite de sempre que, para mantê-lo, precisa dos tradicionais cães de guarda verde-oliva que arreganham suas garras e dentes a cada vez que a maioria pobre da população ousa alçar a cabeça e reivindicar o direito à vida e à dignidade mínima que nos faz humanos.

Projeto de morte que se expressa na maior desigualdade econômica do mundo, na fascistização da política, na violência grotesca contra tudo o que nos faz plurais (diferenças culturais, de raça, sexo, gênero, idade, lugar de moradia, religião…) e na destruição da Casa Comum. Estas expressões e outras tantas que poderíamos elencar, tem sua raiz no pecado original da sociedade brasileira: o elitismo individualista. É a ideia de “cada um por si” e “salve-se quem puder” que veio junto com as naus de Colombo e Cabral e se constituiu como eixo articulador das relações sociais. “Pecado original” expresso de forma grotesca e criminosa no ocupante da cadeira presidencial que diz não temer a Covid19 por ter “histórico de atleta”. E os milhões de brasileiros e brasileiras que não tiveram a oportunidade de serem aposentados aos 33 anos por insanidade e, durante 28 anos de mandato parlamentar improdutivo, ter o tempo e os recursos para desenvolver um “histórico de atleta”? “Esses podem morrer”, pensa o carregador da faixa presidencial.

Mas também é expressão do elitismo individualista o comportamento daqueles que, em plena pandemia, promovem e participam em festas e aglomerações de todo o tipo onde, além do risco de infectar-se a si mesmos, criam a ocasião para que outros o sejam. Eles pensam e dizem: “se eu me infectar, o problema é meu!” Só pensam em si mesmos. Não se preocupam com as consequências de seu comportamento para a sociedade. Pior: sequer são capazes de imaginar o que seja “viver em sociedade”. Foram ensinados que existe “o povão, a ralé, a chusma, a gentalha”, da qual eles não fazem parte. Eles são ou imaginam ser um outro Brasil. O Brasil que vive em Miami, em Nova Iorque, em Paris ou Londres. Uns residem fisicamente lá. Outros vivem aqui como se lá estivessem.

Para superar o caos sanitário a vacina certamente ajudará. É preciso que ela chegue a todos e o mais pronto possível. Mas só sairemos melhores desta se formos capazes de controlar o vírus do individualismo elitista que assola, há séculos, essa terra chamada Brasil. É preciso que apliquemos em cada um de nós e em cada relação social, da mais próxima até as mais complexas, o sentimento de empatia e de solidariedade. Sentir cada brasileiro e brasileira como um ser humano de plenos direitos – independente das diferenças e das “comorbidades” – e mover-nos e estender a mão para que todos vivam.

Então, sim, a passagem de ano não será apenas um marco no calendário. Será possível passar do ano da pandemia ao ano da empatia e preparar um 2022 de muitas aglomerações. E torcer para que 2021 passe rápido!

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A síndrome de Herodes

“Le Massacre des Innocents” (Léon Cogniet. Paris, 1824. Detalhe)

Herodes não gostava de crianças. Mandou matar todas as que tinham menos de dois anos que em seu tempo viviam em Belém e proximidades. Está na Bíblia, lá no início do Evangelho de Mateus. Seu medo era que, entre as crianças, estivesse aquele que poderia derrubá-lo do trono. Seus soldados passaram casa por casa, povoado por povoado, vereda por vereda. Houve um grande pranto em Ramá. Choro e lamentação. Raquel chorava seus filhos e se recusava a ser consolada. Com ela, todas as mulheres, desde as recém paridas até as parteiras mais experimentadas. E, com elas, seus maridos e seus filhos, seus netos e bisnetos. Só escapou um: Jesus, o filho de Maria. E escapou porque um anjo avisou a José para que fugisse com Maria e o menino para o Egito.

Por essa e outras, Herodes também não gostava de anjos. Eram seres traiçoeiros. Não por serem anjos. Anjos são seres do bem. Um anjo nunca faz mal a ninguém. Por que, então, Herodes tinha medo de anjos? Simples: anjos não podem ser vistos. E, sendo invisíveis, não podem ser controlados. E, quem está no poder e a ele se aferra a todo custo, tem medo de tudo que possa fugir a seu controle. Nem os soldados, os mais treinados das forças romanas, cancheados nas mais duras lides da guerra por todo o Império, desde a Bretanha até a Mesopotâmia, conseguiam localizar os anjos e tê-los sob seu domínio.

Tal perigo já havia sido provado por Herodes. Foram os anjos que advertiram os velhos magos do Oriente para que não lhe passarem a informação sobre o lugar do nascimento do menino que viria a ser rei. Com isso, Herodes, além de não gostar de crianças e não gostar de anjos, passou a não gostar de velhos. Não por sua idade. Um velho não é um perigo para um rei. Ou pode ser. Se for na guerra, não é. Mas na sabedoria, com certeza é. O tempo ensina. E quem se deixa conduzir por esse pedagogo, quanto mais velho, mais sábio e mais perigoso para os poderosos. Junto com as dobras da pele e as canas que brilham, a vida ensina a ler os sinais dos tempos. Os velhos distinguem entre o verdadeiro brilho das estrelas do futuro e o fogo-fátuo dos pútridos gases que emanam dos cadáveres insepultos do passado. Os magos não voltaram para Herodes. Tomando o atalho da sabedoria, retornaram ao Oriente. Herodes enviou seus soldados para apresá-los. Mas os cavalos dos soldados não conseguiram alcançar os lépidos camelos dos forasteiros.

E por isso Herodes também não gostava de camelos. São resistentes. Não se deixam vencer tão facilmente. Fazem reservas nos tempos da abundância para usá-los na necessidade e no perigo. São lentos, sim, mas perseverantes e constantes. Assim como os jumentos que cercaram Jesus e o acalentaram com seu hálito na estrebaria de Belém e depois serviram de montaria para a mãe e o menino a caminho do Egito. O jumento só se parece com um burro. Engana-se quem confunde o jumento com o burro. Mas isso não é problema nem solução, nem para o jumento e nem para o burro. Herodes não gostava nem de um e nem de outro. E neste desgosto estavam incluídas as vacas, as ovelhas, as cabras, as galinhas. Tudo que não fosse animal de guerra, não interessava a Herodes. Só o cavalo valia. E não por ser cavalo, mas por ser montaria para os soldados e tração para os carros de guerra.

De quem então, Herodes gostava? A essas alturas o amigo leitor e a amiga leitora já devem estar se perguntando também. Herodes, na verdade, não gostava de ninguém. Não gostava de crianças, nem de anjos, nem de velhos e nem de animais. Será que ele gostava de si mesmo? Será que chegou a gostar de verdade de alguma das nove esposas que teve? Será que gostava dos sete filhos que com elas gerou? E dos militares que o cercavam? Dos generais, dos coronéis, dos capitães, dos tenentes e sargentos, dos cabos e soldados? Eles estavam por todos os lados. Seu governo era um governo de militares. E um militar nunca confia em ninguém. Confia apenas nas próprias armas e na capacidade de matar. Herodes sabia disso. E por isso, imagino, não gostava dos militares que o cercavam. E eles, num desprazer recíproco, não gostavam dele.

O que a história nos conta, é que o governo do Herodes que não gostava de crianças, nem de anjos, nem de velhos e tampouco de animais, durou pouco. Muito pouco. Foi tão violento e tão incompetente que seu superior, o Imperador Romano César Augusto, enviou-o ao exílio na França, onde morreu no esquecimento. Hoje, Herodes só é lembrado por suas maldades. Esse é o fim de todos os tiranos. Que assim seja. Amém.

Emily e Rabeca, assassinadas em um “confronto” com a policia no Rio de Janeiro, 2020.

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Fratelli Tutti: a paz e a superação dos conflitos.

Escrevo este texto sobre o Capítulo VII da Fratelli Tutti no dia 20 de novembro. Uma data importante na história do Brasil. Talvez a data mais importante. Ela celebra o fato mais significativo da nação brasileira. Hoje é dia de Dandara e Zumbi de Palmares. Um homem e um mulher que, nas suas individualidades, representam os milhões de africanos – estima-se em cinco milhões – que foram arrancados de suas aldeias e cidades e trazidos à força para o trabalho escravo no Brasil. Deles e de seus descendentes que, durante três séculos, de geração em geração, foram submetidos à mais degradante condição humana que é a privação da liberdade e a serem considerados não como pessoas, mas como instrumentos de trabalho.

Os três séculos de escravidão marcaram de forma estrutural a sociedade brasileira. Somos uma sociedade racista. Racismo que se expressa na cultura, na economia, na política, na educação, na literatura, nos meios de comunicação, nas religiões, no esporte, na vida familiar… Não há um recôndito das relações sociais brasileiras, das mais íntimas às mais públicas, que não esteja marcada pela violência racial.

Este ano o dia 20 de novembro, para os que moramos em Porto Alegre, é ainda mais triste. Na noite de ontem, em um hipermercado da Zona Norte da cidade, um homem negro de 40 anos, foi espancado até a morte por um segurança e um policial militar. O assassinato foi filmado pelas câmeras do estabelecimento. As imagens circularam nas redes sociais causando indignação. E gerou uma pergunta: quantos homens e mulheres negras, a cada dia, a cada hora, em todo o Brasil, sofrem violência e são mortos, pelo simples fato de serem negros e negras?

Há dados disponíveis. Subestimados, é claro. Escondidos, disfarçados, negados. A polícia, a justiça e a estatística também são racistas.

O que fazer diante destes fatos e outros semelhantes que se repetem a cada dia? A Fratelli Tutti nos dá algumas dicas. Primeiro, é preciso fazer memória das violências e injustiças cometidas. Elas não podem ser esquecidas. Precisam ser lembradas e celebradas. O esquecimento só perpetua a injustiça. E com isso está indicado o segundo passo: é preciso fazer justiça para com as vítimas. Um passo adiante para novas relações sociais só será possível quando o sofrimento das vítimas for reparado. A sociedade como um todo deve assumir o compromisso de sanar as feridas do passado criando as condições para que suas consequências não afetem o presente e nem comprometam o futuro.

Para isso, segundo o Papa Francisco, é necessário uma arquitetura da paz que consiste em criar mecanismos econômicos, políticos, educacionais e culturais que compensem aqueles e aquelas que, hoje, sofrem a violência herdada do passado. Projetos estruturais que encontram seu complemento no artesanato da paz que consiste em que cada pessoa, nas suas relações cotidianas, se comprometa a evitar e impedir a reprodução dos mecanismos discriminatórios que sutilmente se mantém no consciente ou no inconsciente das pessoas.

Depois destes passos, será possível a reconciliação, que não consiste num retorno à situação anterior à violência, mas em uma nova convivência capaz de reconhecer, integrar e superar os conflitos de modo a não repetir os erros do passado. Teremos então, a possibilidade de uma fraternidade universal e da amizade social com que tanto sonhamos.

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