Arquivo do autor:Vanildo Luiz Zugno

Sobre Vanildo Luiz Zugno

Espaço para publicação de textos teológicos e áreas afins. Aberto a todos aqueles e aquelas que desejam compartilhar suas reflexões e experiências teológicas e religiosas.

O skate, o estetoscópio e a sombra nazista.

Durante muito tempo, no Brasil, o skate foi considerado coisa de marginal, de vagabundo e de maconheiro. Na cidade de São Paulo era proibido. Era crime. Até que veio uma mulher prefeita, a Luiza Erundina, e não só descriminalizou a prática, mas a incentivou como uma forma de promover as expressões culturais e esportivas juvenis.

Algumas décadas depois, o Brasil inteiro festeja a Fadinha que, com seus treze anos, buscou a prata olímpica em Tóquio. Os únicos que não se unem à alegria talvez sejam aqueles e aquelas que sentem saudades dos tempos em que o jovem ou a jovem que andasse de skate nas ruas e praças de São Paulo era recolhido por uma viatura discreta da ROTA e acabava espancado em uma delegacia ou coisa ainda pior.

Mas, além do show de skate, a pequena Rayssa também deu uma profunda demonstração de cidadania. Na volta de Tóquio, pediu a todos seus conterrâneos de Imperatriz que não a esperassem no aeroporto. Pediu para não aglomerar, manter o distanciamento social, sempre usar máscara e procurar a vacina para logo vencer a pandemia que nos assola.

Algumas horas depois desse show de cidadania, em rede nacional de rádio e televisão, o Ministro da Saúde também falou sobre a pandemia. Falou de tudo aquilo que o governo não fez como se tivesse feito. Em outras palavras: mentiu descaradamente. Todos sabem e a CPI, espero, vai demonstrar com provas cabais, que o atual (des)governo fez de tudo para impedir a vacinação. Ela só está acontecendo por pressão dos prefeitos, governadores e da sociedade. E mais: o governo não só não fez nada como fez tudo o que podia para impedir que a vacinação avançasse. E, criminosamente, criou canais para que a corrupção se instalasse em todos os escalões da saúde pública com pastores, cabos e coronéis intermediando a compra superfaturada de vacinas que sequer existiam.

O detalhe que talvez muitos não observaram, é que o Ministro, que é médico cardiologista, em nenhum momento pediu para a população continuar usando máscara e mantendo distanciamento, medidas que, todos sabem, são as únicas que podem colaborar para que a vacinação tenha de fato o efeito esperado. Vacinar é a solução. Usar máscara e manter o distanciamento é prevenção, antes e depois da vacinação.

Tudo o que uma menina de 13 anos soube dizer com toda a propriedade, o doutor ministro esqueceu em sua necedade. Hipócrates deve estar rolando desde ontem no túmulo.

A que se deve tal omissão por parte da maior autoridade sanitária do país? À ignorância com certeza não. Ele sabe muito bem a importância destas duas atitudes. Suspeito que a causa de tal disparate se deve “às ordens que vem de cima”. Afinal, como bem disse o “presidoente”, no seu governo, “uns mandam e os outros obedecem”.

Imagino também que o Ministro, assim como outras autoridades deste governo, principalmente aqueles que costumam receber delegações nazistas, lembrem dos julgamentos de Nürenberg e de Jerusalém. Diante dos tribunais, os oficiais nazistas se declaravam inocentes e argumentavam que estavam apenas cumprindo ordens que vinham de cima. Talvez o Ministro Queiroga também esteja apenas cumprindo ordens que vem de cima ao omitir a necessidade do uso da máscara e distanciamento social. Mas isso não o isenta de responsabilidade e das consequências judiciais que um dia, espero, recaiam sobre aqueles que, por sua ação ou omissão, fazem com que a pandemia, no Brasil, tenha se transformado em um verdadeiro genocídio.

Mas uma coisa é certa e deve preocupar a todos e todas: a sombra nazista paira cada vez mais sobre o nosso país. É preciso denunciá-la. É preciso combatê-la com todas as formas.

Por mais skatistas e mais Rayssas. Por mais médicos e mais estetoscópios. É o compromisso de cada um e de cada uma em defesa da liberdade e da vida.

Extraterrestres e astronautas

Existe vida fora da Terra? É uma pergunta que todos nós, mais cedo ou mais tarde, rara ou frequentemente, nos fazemos ou nos foi feita. Alguns se interessam mais pela questão, outros menos.

Eu sou dos que pouco ou quase nada se preocupam com ela. E não por não acreditar na possibilidade. Pelo contrário. Racionalmente pensando, é muito provável – quase certo eu diria – que em algum planeta ou satélite dos muitos que giram em torno a uma das bilhões de estrelas que compõem o universo, haja as condições necessárias para a existência de vida. Na forma em que a conhecemos ou em outras que sequer imaginamos. Incluso vida inteligente. Sim! É de todo possível que outros seres, talvez nada semelhantes a nós, tenham desenvolvido a habilidade de raciocinar de forma semelhante à nossa ou em outra totalmente diferente e incompreensível para os humanos que somos. Afinal, em um universo tão amplo e variado, tudo é possível.

Meu desinteresse pelo assunto se sente incômodo quando surgem nos noticiários reportagens sobre supostas tentativas de contato de seres de outras paragens siderais com nós os humanos. O que me deixa desconfiado é que estas “matérias de gaveta”, como se diz no jargão jornalística, sempre são publicadas em momentos de crise política, econômica, militar. Não por coincidência, na crise do fim do governo Trump, o Pentágono liberou imagens e arquivos de OVNIs caçados pela Força América estadunidense. Para quem pensa fria e racionalmente, é claro que o objetivo é distrair a opinião pública e tirar o foco dos problemas do momento.

Essas eram minhas convicções até poucas semanas faz. Um fato veio abalar minha inabalável confiança na desimportância da preocupação pela existência ou não de vida fora da Terra. Um fato de conhecimento público. No curto espaço de uma semana, dois multimilionários – Richard Branson e Jeff Bezos – deram-se ao luxo de uma viagem espacial. Alguns dizem que não foi bem espacial. Apenas teriam chegado à beira do espaço. E durou poucos minutos. A “passagem” numa nave de Richard Branson – diversão já disponível ao público – custa a bagatela de 1,3 milhões de reais. Para acompanhar Jeff Bezos em seus quatro minutos de viagem suborbital, houve quem estivesse disposto a pagar 28 milhões de dólares, ou seja, cento e oitenta milhões de reais. E a fila de espera para os novos voos já programados é longa. Até o ano de 2030, o mercado do turismo espacial espera movimentar a soma de 8 bilhões de dólares.

Mas quem são essas pessoas dispostas a pagar essa soma exorbitante para ter o deleite de tão curta viagem? Muitos devem estar a se perguntar isso também. Eu tenho a resposta, fruto da nova convicção elaborada no choque de ver na TV as naves indo e voltando do espaço com seus turistas sorridentes. Na verdade, esses viajantes não são “pessoas”. São extraterrestres que, por acidente, acaso ou opção, vieram parar no Planeta Terra. Aqui eles vivem disfarçados esperando as condições para voltar ao seu lugar de origem. E, enquanto elas não chegam, aproveitam para subir e, lá de cima, dar uma espiadinha em direção ao lugar para onde desejam voltar.

Afinal, se fossem humanos, com certeza estariam se preocupando com os cinco ou mais milhões de mortos pela Covid19, os milhões de mortos pela fome e pelas guerras, os 70 milhões de deslocados e refugiados, as cidades caóticas em que vivemos, a Amazônia e o Pantanal em chamas, os oceanos inundados por plásticos, os lunáticos que governam tantos países. Quem não se interessa por esses problemas e se dá ao luxo de uma viagem de turismo espacial, só pode ser extraterrestre. Com certeza, humano não é.

Ah! E outra descoberta que fiz: aqueles extraterrestres que nos visitam em seus reluzentes OVNIs, são super-ricos de outros planetas que vieram dar uma voltinha por aqui, só prá se distrair. Oxalá não percam suas naves e possam voltar logo ao seu lugar de origem. Já temos extraterrestres demais por aqui!

A boca fala o que o coração está cheio.

Os tristes dias de verborragia escatológica presidencial que somos obrigados a suportar, fazem-me lembrar com saudades da juventude, dos tempos de Faculdade de Filosofia e das aulas do querido professor Jandir JoãoZanotelli. A lembrança é boa, mesmo que suscitada pela contradição. Sim. Tudo o que ouvimos agora da Primeira Boca do Brasil, vai exatamente em sentido contrário do que o então professor e depois Reitor da Universidade Católica de Pelotas nos ensinava lá na metade dos anos oitenta, tanto na forma como no conteúdo.

Nas longas aulas noturnas que escorriam rapidamente sem percebêssemos os ponteiros girarem, o grande professor (tanto na forma como no conteúdo!), com sua fala mansa e bem elaborada, conduzia-nos pelos caminhos da amizade ao saber. E o fazia dando-nos a conhecer os grandes pensadores de todos os tempos, dos pré-socráticos aos existencialistas e latino-americanos. Suas explicações se tornavam claras e saborosas com as histórias do cotidiano e as citações musicais que iam da atávica música nativista aos irreverentes Demônios da Garoa. E claro, como não podia deixar de ser naqueles tempos de ditadura decadente, os comentários políticos correntemente se faziam presentes. Até porque o professor Jandir não era apenas um professor. Ele era um educador, um pedagogo no sentido freiriano, um homem engajado na reconstrução democrática, um político no senso estrito da palavra, uma pessoa comprometida com os pobres daquela cidade emprobrecida do sul do Rio Grande do Sul. E todo esse compromisso transbordava em palavras que nos cativavam e desafiavam a pensar, a falar, a agir.

Mas o conteúdo também era provocante no que se refere à palavra. Lembro em especial do Seminário de Metafísica em Autor onde o professor nos desafiou a ler Martin Heidegger. Leitura pesada, difícil, exigente para iniciantes no campo da Filosofia. Daquelas páginas árduas que muito valeram a dor e o sofrimento da leitura, uma das coisas que se gravaram na minha memória, é a descrição heideggeriana de que “a linguagem é a morada do ser”, ou seja, a identificação ontológica entre a linguagem e o ser. Em outras palavras, que a linguagem é o fundamento onde emerge o real.

Se a minha interpretação está correta – dizia-nos o professor que um pensamento sempre tem mais de uma interpretação plausível -, nós, seres humanos, somos aquilo que falamos a respeito de nós mesmos, dos outros e das coisas que nos rodeiam. Não que o nosso falar crie as coisas. Isso seria pretensão exacerbada. Nossa fala dá sentido às coisas e, como a condição humana é constituída pelos sentidos que dizemos, com as palavras desvelamos (para usar outra palavra cara ao pensador alemão) o nosso ser e o ser que damos àquilo que nos rodeia.

As complexas argumentações de Heidegger se tornavam nas aulas compreensíveis com as sábias explicações do professor e para mim se tornaram ainda mais convincentes quando prestei atenção nas palavas de outro pensador. Não era outro metafísico alemão… Trata-se de um judeu contador de histórias e fazedor de milagres que, ao ser interpelado pelos fariseus que o ofendiam com pesados impropérios e palavrões – eles que se consideravam os donos da palavra, não apenas a humana, mas também a divina – retrucou com uma frase contundente: “A boca fala daquilo que o coração está cheio”. Em outra discussão com os mesmos fariseus, voltou à carga: “Tudo o que sai da boca procede do coração”. Se, como nos mostrou o professor Jandir, no pensamento semita, o coração é o centro do ser, entre Heidegger e Jesus há mais proximidade do que aquilo que muitos admitem haver. E ambos nos fazem pensar e compreender as razões da verborragia escatológica presidencial.

Para finalizar, só quero assinalar que Jesus não disse nada de novo. Sua fala brota da ancestral sabedoria humana registrada nos provérbios populares judaicos, essa forma tão doce e forte de dizer as coisas. Apenas para efeito de amostra, no Livro dos Provérbios lemos: “A boca do justo é fonte de vida, mas a violência cobre a boca dos perversos. Os sábios entesouram a sabedoria; mas a boca do tolo o aproxima da ruina”.

Que assim seja, para que todos possamos clamar “Aleluiah”!

P.S.: Professor Jandir João Zanotelli reside atualmente em Pelotas, é Sócio Honorário do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras, Acadêmico – cadeira 46 – da Academia Sul Brasileira de Letras e assessor do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras.

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As chaves de São Pedro

Depois das noivas, dos pães e dos peixes de Santo Antônio e dos fogos de São João, é hora das chaves de São Pedro. Com ele, encerram-se as festas juninas e a vida volta ao normal.

A razão de São Pedro carregar as chaves é simples. Está lá no Evangelho de Mateus, no capítulo 16, quando Jesus diz que, sobre a pedra de Pedro edificará a Igreja e a ele dará as chaves do Reino com o poder de ligar e de desligar tanto na terra como nos céus.

A frase pronunciada por Jesus não era original. Era uma velha conhecida de todos os judeus piedosos. Ela fazia parte da tradição e era usada em toda disputa política. Quem a pronunciou pela primeira vez foi o profeta Isaías, lá no Antigo Testamento, no tempo do rei Ezequias. Era um tempo difícil. Judá estava sendo atacado pelo rei da Assíria e, Jerusalém, cercada, soçobrava. Sobna, o ajudante mais próximo do rei, ao invés de se preocupar com a fome e as doenças que matavam os pobres, gastava seu tempo e os recursos públicos na construção de um mausoléu onde queria ser enterrado com a glória dos faraós do Egito.

Chamado para intervir, o profeta Isaías manda que Sobna seja retirado do cargo e a chave da casa de Davi seja entregue a Helcias, filho de Eliacim. Na prática, o profeta destituía o arrogante Sobna e colocava em seu lugar um humilde servidor público. Para simbolizar a troca de mando, a túnica, o cinto e as chaves – três símbolos do poder – passam de Sobna a Helcias. Mas o símbolo que ficou na memória popular, foi o das chaves. Afinal, desde que surgiram, em torno ao 4.000 a.C., no Egito ou na China, as chaves sempre simbolizaram poder. Desde o mordomo do rei até o carcereiro, quanto maior o molho das chaves, maior o poder que aparenta.

Mas, voltando ao episódio de Mateus, de quem Jesus estava tirando as chaves para entregá-las a Pedro? O texto não explicita. Podemos encontrar uma dica no capítulo 23, quando ele fala dos fariseus que bloqueiam a entradas das pessoas no Reino dos céus: eles não entram e nem deixam ninguém entrar! Se essa conexão for procedente, a entrega das chaves a Pedro não teria como objetivo fechar as portas como faziam os fariseus, mas abri-las para que todos pudessem entrar.

A história se complica mais ainda quando, avançando um pouco na leitura de Mateus, no capítulo 18, encontramos que Jesus não entrega esse poder apenas a Pedro, mas a todos os discípulos. A mesma concessão coletiva aparece no Evangelho de João (capítulo 20) e também é adotada pelo apóstolo Paulo na Carta aos Coríntios.

Como vemos, a história das chaves de São Pedro não é tão simples. E a interpretação deste episódio, na história da Igreja, foi motivo de muita discussão. As chaves significam poder. Entregá-lo a uma só pessoa, é uma coisa. Compartilhá-lo entre todos, é outra muito diferente.

No primeiro milênio da Igreja, a interpretação comum era a de que o poder das chaves deveria ser exercido de modo coletivo. Todos os bispos teriam o poder concedido por Jesus de ligar e desligar. As disputas de poder, no entanto, fizeram com que, no final do séc. XII, Inocêncio III, o bispo de Roma mais poderoso de toda a Idade Média, reclamasse para si a exclusividade das chaves petrinas. E com a força das armas e do saber, impôs esse modo de pensar aos outros bispos e aos príncipes e reis. As Igrejas orientais jamais aceitaram essa imposição e se afastaram ainda mais de Roma. Os príncipes e reis, não tendo alternativa, submeteram-se até aparecer a ocasião para se rebelar.

Alguém pode estar se perguntando o porquê de estar cavoucando estas histórias. Primeiro, claro, por causa das chaves de São Pedro, o último dos santos juninos. Segundamente, por causa da crise de poder que vivemos tanto na sociedade como nas Igrejas. E nisso, toda essa discussão pode nos ajudar. Assim como as chaves, o poder é simbólico. Dependendo do modo como o imaginamos, ele recai sobre nós. Se nós o pensamos monocraticamente, encontraremos um tirano para exercê-lo de forma autoritária. Se o pensamos coletiva e circularmente, teremos a possibilidade de construir uma democracia e caminhar para a fraternidade e a amizade social.

Nesta última festa junina, ao ver São Pedro com as chaves na mão, fiquemos atentos! Será que elas não estão também nas mãos dos outros discípulos? Não custa imaginar…

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Os fogos de João Batista

O fogo é uma das mais poderosas ferramentas disponíveis aos humanos. Se por “cultura” entendemos tudo aquilo que, pela ação humana, é tomado da natureza e transformada em utilidade e sentido, o fogo é um dos grandes motores culturais. Ousaria até dizer que o fogo está na origem e no coração de todas as culturas.

O domínio do fogo permitiu a nossos ancestrais ampliar e aprimorar as fontes de alimentação através do cozimento de carnes e vegetais, preparar a terra para semear, aquecer-se nas frias noites de inverno e avançar para regiões inóspitas, afastar as feras, atacar os inimigos, malear os metais e com eles forjar as mais diversas ferramentas e armas.

Na modernidade, o fogo foi transformado em energia e o poder dos humanos sobre a natureza se tornou avassalador. Cada vez mais rápido. Sempre mais poderoso. Às vezes gerando vida. Muitas vezes, destruição.

A importância do fogo é tal que se tornou um dos símbolos mais presentes e importantes em todas as culturas. E, como no dizer de Paul Tillich, a cultura é a forma da religião, o fogo é um dos símbolos fundamentais em praticamente todas as expressões religiosas, do passado e do presente.

Apenas para ficar nas mais próximas a nós, na religião romana, o fogo representava as divindades familiares, os “lares” protetores da família e de suas propriedades. Para garantir a presença e proteção dos “lares”, o fogo era mantido permanentemente aceso. Apagar o fogo da “lareira” ou deixá-lo morrer, significava rechaçar ou recusar a proteção das divindades. O sacrário das igrejas católicas com a lâmpada sempre acesa, é resquício desta primitiva religião romana. Também existiam os “lares” públicos, os protetores das cidades, aos quais também se acendiam fogos. Eram os fogos pátrios ou cívicos que até hoje desfilam, sem que muitos saibam porque, nas festas patrióticas.

No judaísmo, o fogo é omnipresente. Deus se dá a conhecer a Moisés na sarça ardente. Ele acompanha o seu povo no deserto numa nuvem de fogo. Transmite sua lei no monte Sinai e sua Palavra a Isaías através do fogo. A Deus se agrada com a queima das oferendas no altar. Ele castiga e destrói Sodoma e Gomorra com chuva de fogo e enxofre. Mas num carro de fogo que Elias sobe vivo aos céus. Existe o fogo do céu e o fogo do inferno. E mais tarde, na Idade Média, haverá um fogo intermediário: o fogo do purgatório.

Entre as festas mais importantes de Israel, está a Festa dos Fogos ou das Semanas. Ela é celebrada sete semanas depois da Páscoa. É a época da colheita da cevada. Longe de suas casas para o trabalho, os agricultores se reúnem no campo e, ao redor de fogueiras, com danças e refeições que duram toda a noite, dão graças a Deus pelos frutos da terra. Quando o grego foi adotado como língua literária pelos hebreus, a festa passou a ser chamada Pentecostes. Com esse nome, a antiga festa passou para a tradição cristã, significando a presença do Espírito de Deus no meio do povo.

Tal festa não era exclusiva de Israel. Todos os povos agrícolas do Mediterrâneo e também os povos nórdicos a tinham em seu calendário. Na medida em que o cristianismo foi avançando pela Europa, novas assimilações de sentido foram sendo dadas a esse evento. Uma das mais fortes e presentes em nossa cultura popular, é a das festas juninas e, nelas, a do nascimento de João Batista.

Talvez João, o Batista, aquele que precedeu a Jesus, nada tenha a ver com as festas juninas e as festas juninas. O único fogo do qual ele fala, é o do castigo que consumirá toda a árvore que não produz bom fruto. Ela será cortada e jogada fora. Tomada ao pé da letra como o fazem alguns equivocados interpretadores fundamentalistas, poderíamos dizer que, quanto maior a fogueira, maiores são os pecados das pessoas que a fizeram! ­­Pensando assim, poderíamos imaginar que a fogueira de Herodes era a maior de todo o Oriente Médio. Daí o triste fim do Batista nas mãos do terrível militar…

Deixando as divagações apocalípticas de lado, melhor voltar às festas juninas e, lembrando a tradição judaica e as outras religiões que, com festas e danças, celebram a graça da vida e da bênção divina presentes nos frutos das colheitas, vamos também dar graças a Deus por estarmos vivos e termos o pão nosso de cada dia. E claro, lembrar, lamentar e protestar pelos tantos que padecem hoje vítimas dos Herodes hodiernos e suas políticas necrófilas.

Os peixes de Santo Antônio

Talvez alguns e algumas estranhem o título deste texto. Poucos estão acostumados a associar o Santo de ambígua nacionalidade com a atividade pesqueira. Mais do que aos rios e ao mar, na memória popular, o santo pregador é associado ao amor. No Brasil, é o santo casamenteiro, último recurso das moças incasáveis e desesperadas por sê-lo. Um problema para teólogos, pregadores e historiadores, entre os quais me incluo.

Na biografia do nascido português e adotado italiano, não há fatos que comprovem sua eficácia na arte de ajudar as moças a encontrarem marido. A possibilidade que vislumbro é a de que a habilidade de Antônio na pregação tenha derivado para a facilidade na sedução. Com a arte da palavra pode-se muitas coisas fazer, desde a Deus louvar até fazer o amor florescer lá onde pareça que não há possibilidades para tal.

Outras possibilidades existem para tal atribuição. A primeira vem de Portugal e remonta aos antigos celtas que por lá viveram e deixaram profundas marcas na cultura lusa. Santo Antônio, o maior dos santos portugueses, pode ter sido associado a Sucellus, a principal divindade do panteão céltico. Entre os atributos deste deus, estava a fecundidade. Não por acaso talvez, em algumas regiões do Brasil, o santo de angelical rosto é disfarçadamente representado com atributos reprodutivos masculinos avantajados.

O outro caminho é o da África. De lá veio o culto aos orixás e, entre eles, Exu, aqui no sul do Brasil também conhecido como Bará. Nos sincretismos à força forjados, ambos são identificados com Antônio. Entre as missões do Exu/Bará, está a de possibilitar a interlocução e interação entre os humanos e dos humanos com os orixás e com Deus. Exu/Bará é a força da comunicação que pode levar ao entendimento ou à confusão. Estar de bem com ele, invocá-lo benevolentemente, é um passo necessário para achar o caminho do amor e do casamento. Tudo o que Santo Antônio, na tradição popular, também faz.

Voltando a Santo Antônio, o real, aquele que viveu na região mediterrânea no séc. XIII, dentre os fatos mais memoráveis de sua vida está o famoso sermão aos peixes. Diante dos hereges de Rimini que não queriam ouvir o douto filho de Francisco de Assis, ele dirige-se à foz do rio e ali começa a pregar aos peixes. Tanto os de água doce como os de água salgada, pequenos, médios e grandes, atenta e silenciosamente o escutam e, com movimentos corporais assentem ao ensino do eloquente gajo. Assim como Francisco pregara aos pássaros, Antônio prega aos peixes. E o êxito do discípulo supera o do mestre, pois consegue trazer de volta à fé os que dela se haviam desviado.

O fato é lembrado por outro Antônio, também nascido em Lisboa, mas não franciscano. Foi Antônio Vieira, um jesuíta, quem no dia 13 de junho de 1654, festa de Santo Antônio, em São Luís do Maranhão, em seu sermão aos colonizadores do norte do que mais tarde viria a ser o Brasil, três dias antes de partir sorrateiramente para a metrópole a fim de denunciar as tropelias cometidas pelos portugueses contra os indígenas, prega “não sobre o santo”, mas “como o santo”. O sermão é belo e forte. Uma das obras prima da oratória sacra na língua portuguesa brasileira então nascente. E de uma força sagrada mais atual do que nunca.

Partindo dos peixes aos quais Santo Antônio pregara, o jesuíta faz uma viagem pelos demais habitantes aquáticos mencionados tanto no Antigo como no Novo Testamento e de cada um tira lição aplicável aos surdos ouvintes presentes que, diferentemente dos peixes, mais falam que escutam.

Belo seria poder mencionar a todos. Mas não há necessidade. Remeto ao sermão. Você leitor pode acessá-lo e fazer suas próprias ligações. A leitura será proveitosa tanto pelo aspecto literário como pelo religioso.

Apenas tomo a liberdade de convidá-lo a prestar atenção nas qualidades do peixe pescado por Tobias. Ele tem o poder de curar a cegueira e expulsar demônios. Duas coisas mais necessárias hoje do que nunca, no meu entendimento. Mas confira com seus próprios anzóis e, se por acaso, como o jovem herói do Antigo Testamento, você tiver um familiar cegado ou possuído pelo demônio, siga as ordens do arcanjo e não hesite em revirar as entranhas do monstro, retirar delas o fel e o coração. É algo malcheiroso, mas pode ser útil um dia…

Boa leitura e boa sorte com os peixes de Santo Antônio e dos Antônios que cruzarem com sua vida.

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Deus tem corpo

Tapete solidário de Corpus Christi – Tangará da Serra, MT, 2020 (Foto: Gilvan Mello)

Dito assim, em simples língua portuguesa, muitos podem achar a expressão estranha: Deus tem corpo. Já dito em latim, solenizado em uma festa de primeira categoria segundo a liturgia da Igreja Católica Romana, parece mais normal: Corpus Christi, ou, de forma ainda mais nobre, Corpus Domini. Pois sim: ambas as expressões latinas querem dizer exatamente isso: Deus tem um corpo.

Todo cristão afirma que o Cristo de Deus se fez humano no corpo do filho do carpinteiro nazareno. Negar a realidade corporal de Deus em Jesus de Nazaré foi, desde o início do cristianismo, considerado uma heresia, ou seja, uma meia verdade, um erro, um perigo para a fé cristã.

Um dos nomes dados a essa forma herética de cristianismo foi “docetismo”. A expressão vem do verbo grego dokeò, que significa “aparentar”, “fingir”. Tendo seu fundamento filosófico no gnosticismo, que considerava impossível a presença do divino no mundo material, na corporeidade humana, os docetistas afirmavam que só aparentemente o Cristo de Deus tinha assumido a corporeidade humana e que a encarnação era um fingimento, uma encenação, apenas para que os humanos pudessem compreender a mensagem de Deus e, nela, a insignificância do mundo material.

Tal heresia foi condenada pela Igreja. Mas a tentação da fuga do mundo e da realidade humana ficou latente dentro do cristianismo e, vez ou outra, assoma aqui ou acolá. Tal aconteceu na Idade Média, quando a introdução na teologia ocidental do pensamento de Aristóteles fez emergir mais uma vez a tentação gnóstica da racionalização da fé. A nova corrente teológica trazia embutida a afirmação de que a salvação pode ser alcançada pela razão e não pela prática e pela devoção.

Contra tal tendência se levantou a piedade popular que encontrou uma de suas expressões na adoração da Eucaristia. Santa Juliana de Liège foi a inspiradora desta devoção que logo se espalhou por toda Europa e foi oficialmente acolhida pelo Papa Urbano IV em 1264. Contraditoriamente, num tempo em que a maioria dos fieis não tinha acesso à Eucaristia, ela se tornou o símbolo da resistência da fé popular no humano em Cristo, contra a elitização e intelectualização da teologia e da liturgia. Impedido de comungar, o povo simples aclama o Corpo de Cristo em procissões nas ruas.

Nas controvérsias das reformas da Igreja que eclodem no séc. XVI, a procissão de Corpus Christi, já oficialmente assumida pela Igreja, se transforma em manifestação antiprotestante. Desconhecendo a diferença entre a presença real afirmada por Lutero e a presença simbólica defendida por Calvino, todos os não católicos são identificados como inimigos da Eucaristia. Depois da Revolução Francesa, Corpus Christi também se torna estandarte da antimodernidade. A presença de Cristo na Eucaristia é um milagre que a ciência e a razão, pilares do espírito moderno, não podem explicar.

A partir das reformas preconizadas pelo Vaticano, a solenidade do Corpo de Deus passou a mudar de tom e caminha cada vez mais em direção ao seu espírito original. As suntuosas procissões apologéticas e apoteóticas vão cedendo lugar a manifestações de solidariedade para com os corpos de Cristo que hoje são desprezados em sua humanidade. As bandas tonitruantes e as nuvens de incenso cedem lugar a tapetes de roupas e alimentos que são encaminhados aos que passam frio, fome, sede, estão doentes ou presos. Afinal, como diz o próprio Jesus no Evangelho, é no corpo dos humilhados da sociedade que ele mora. E, cada vez que damos abrigo, comida e água a quem precisa e consolamos com nossa presença quem vive a solidão da doença ou da prisão, é a Ele que o estamos fazendo.

Muitos têm dificuldade em aceitar essa forma verdadeiramente original e tradicional de celebrar o Corpo de Cristo que estamos redescobrindo. Como lembra o Papa Francisco na Gaudete et Exsultate, o gnosticismo ainda continua presente “de forma sutil” e “é uma das piores ideologias”, pois é “incapaz de tocar a carne sofredora de Cristo nos outros”. E mais: os neognósticos, “ao desencarnar o mistério, em última análise, preferem um Deus sem Cristo, um Cristo sem Igreja, uma Igreja sem povo” (cf. GE 37-40).

Voltar ao Cristo encarnado no humano de Jesus e resgatar o humano no Cristo presente em cada pessoa destituída de sua dignidade. Esse é o caminho para podermos celebrar com toda solenidade a presença real de Cristo entre nós na Eucaristia e em cada pessoa que precisa da presença consoladora de Deus e de um irmão e de uma irmã.

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Que Deus é esse?

A historieta é terna. Um velho senhor de barba branca cuja nobreza se mostra na capa vermelha que ostenta, caminha pela praia. Em seu andar encontra-se com uma criança que, com uma minúscula concha, transvasa água do mar para uma poça. Admirado, o nobre homem pergunta ao menino o que está a fazer. Este, com um sorriso infantil, confessa seu propósito de esvaziar o mar. – Impossível! Exclama o nobre sábio. Ao que a criança lhe retruca: – É mais fácil para mim transportar a água do mar para esta cova do que para a tua razão compreender o inescrutável mistério da Santíssima Trindade.

Uma bela historieta. Mas não tão velha. Conforme o historiador Henri-Irinée Marrou, em seu livro “Saint Agustin et l’Ange”, as primeiras versões da narrativa datam do início do século XIII. O velho senhor de barba branca era apresentado como “um professor” anônimo que tentava explicar o Deus cristão que, sendo uno, é, ao mesmo tempo, trino. A narrativa surge no contexto de desconfiança de clérigos ante a nascente teologia escolástica que argumenta não mais a partir da autoridade eclesiástica, mas da racionalidade acessível a todas as pessoas.

Foi na segunda metade do século XIII que Tomas de Cantimpré, para dar autoridade ao exemplo, inseriu a figura de Santo Agostinho, considerado até então a maior autoridade teológica da Igreja no Ocidente, como o personagem principal da história.  A inclusão do bispo de Hipona foi exitosa e logo a nova versão se popularizou e passou a ser usada tão amplamente que ganhou status de história real. Teólogos nem sempre cuidadosos de suas fontes e pregadores em busca de argumentos para emocionar seus ouvintes, dela fizeram uso abundante para advertir os fiéis dos perigos da razão.

A arte deu sua contribuição à popularização da legenda. Sandro Botticelli, um dos mestres do Renascimento e apaixonado pela figura de Agostinho, imortalizou a cena no Retábulo de São Barnabé. A partir de então, múltiplas versões surgiram nas diferentes escolas artísticas e, com a difusão da imprensa, passaram a ilustrar catecismos e manuais apologéticos.

Ainda hoje, quase mil anos depois, é quase inevitável escutarmos, na Festa da Santíssima Trindade, a legenda ser mais uma vez repetida e ilustrada, agora nas páginas da internet e nas redes sociais. Por que ela perdura tanto no imaginário popular e nos sermões nem sempre bem preparados? A causa é simples e, ao mesmo tempo, grave. Ela ilustra uma questão presente em toda experiência de fé: a tensão entre a fé e a razão.

Na narrativa medieval, a solução se dá pela derrota da razão. Fracasso ainda mais calamitoso pois personalizado no teólogo por excelência, o bispo de Hipona. A historieta é um assassinato simbólico da razão teológica que perdura nos séculos. Agostinho dedicou boa parte de suas indagações teológicas à questão fundamental da fé: quem é Deus? Seu livro “Sobre a Trindade” é uma obra prima que esgrime todos os argumentos da razão até chegar à afirmação mais contundente e plena que alguém pode fazer da compreensão cristã da divindade: Deus-Trindade é Amor puro e pleno!

Diferentemente do que a historieta e as interpretações antirracionais que dela decorrem afirmam, o conhecimento de Deus não dispensa a razão. Pelo contrário, como bem pode notar quem se dá ao árduo trabalho de ler Agostinho, ele a supõe e exige. A razão não é o fim e nem tem a palavra última, com certeza. Mas, como dom de Deus, ela faz parte dos instrumentos que podemos usar para até Ele chegar.

Negar a necessidade e a utilidade da razão nestes tempos de irracionalidade surda, cega, tonitruante e orgulhosa de sua própria ignorância, é uma tentação à qual não podemos nos dar ao luxo, sob o risco de sermos engolidos pela voragem mortal do obscurantismo que ronda tribunas, microfones, cátedras e púlpitos.

A volta a Santo Agostinho, sem a mediação das legendas medievais, é um belo caminho para voltarmos a saborear a racionalidade amorosa da Trindade. Fica a sugestão!

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O Silêncio dos Inocentes

Minha intenção inicial para este texto não era a de falar do filme de Jonatham Demme que, em 1991, depois de dar ao seu diretor o Urso de Prata no Festival de Berlim e várias indicações para o Globo de Ouro, foi consagrado com cincos prêmios Oscar: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Ator e Melhor Atriz. Um feito inédito para um filme de terror. O sucesso de crítica, público e financeiro foi tanto que gerou uma franquia que continuou a explorar o horror despertado em cada um de nós pelo Doutor Hannibal Lecter, o psiquiatra canibal.

Anthony Hopkins no papel de Hannibal Lecter e Jodie Foster fazendo a jovem investigadora do FBI Clarice Starling são, sem dúvida, os destaques do elenco. Mas o filme não teria chegado a tal êxito não fosse a fantástica trilha sonora executada pela Orquestra Sinfônica de Munique e a história original do livro homônimo de Thomas Harris.

A trama elaborada por Harris e inteligentemente adaptada pelo roteirista Ted Tally para a linguagem cinematográfica explora a tensa relação entre uma aprendiz de policial ansiosa por firmar-se na carreira e um assassino psicopata que vê nesse encontro a possibilidade de livrar-se da cadeia e voltar a seu mórbido prazer de alimentar-se das vítimas de seus crimes.

Como vocês veem, acabei falando do filme mais do que eu queria. Não consegui interromper minhas divagações. Não sai da minha cabeça a possibilidade de O Silêncio dos Inocentes ser uma metáfora do que vive nossa sociedade brasileira que tenta acabar com criminosos insanos utilizando o savoir faire de insanos assassinos. Ao tentar arrancar do psicopata prisioneiro informações que a levem ao seria killer Buffalo Bill, Clarice entrega a ele seus mais íntimos segredos e Hannibal se torna senhor de sua alma. Qualquer semelhança com o que está acontecendo hoje no Brasil não é mera coincidência. Como diz o poeta, muitas vezes “a vida imita o filme” e, no espelho ficcional de O Silêncio dos Inocentes, vemos uma nação que entregou sua alma não a um, mas a um bando de psicopatas que só pensam no prazer sádico de ver sangue jorrando e alimentar-se dos despojos de suas vítimas.

Na Favela do Jacarezinho, foram vinte nove as vítimas que padeceram na sórdida disputa de poder entre milicianos e o Supremo Tribunal Federal que havia impedido a realização de operações policiais nas favelas. Inocentes ou culpados – ninguém pode ser condenado e executado antes de passar pelo devido julgamento – traficantes, moradores e o policial, todos foram sacrificados como cordeiros (no original, tanto o livro como o filme se chama O silêncio dos cordeiros) no altar do terror que sustenta a desigualdade social.

No país inteiro, já estamos quase alcançando as 500 mil vítimas da opção pelo envenenamento precoce da população e da recusa em adquirir o único medicamente comprovadamente eficaz contra a Covid19, as vacinas. O que antes era suspeita, agora, na CPI do Senado, é comprovado sob a luz dos holofotes midiáticos: milhares de inocentes foram sacrificados pela necropolítica dos que pensávamos podiam nos revelar os segredos para acabar com os perigos que ameaçavam o Brasil.

No final do filme, o serial killer Buffalo Bill é morto por Clarice numa sequência de perseguição das mais fantásticas já produzidas pelo cinema. Mas a esperada tranquilidade não chega para Clarice. Na confusão, Hannibal Lecter foge e, desde uma ilha distante, telefona para a policial e lhe faz a pergunta que turba o inconsciente da agora formada e festejada policial: “Bem, Clarice, os cordeiros pararam de gritar?”

Alice se cala. Ela não responde. Ela sabe que os cordeiros inocentes só se calam quando o perigo se afasta ou quando estão mortos. E, com Hannibal solto, as duas possibilidades estão abertas. Para que os cordeiros estejam em segurança, é preciso prender o assassino psicopata. Ou o silêncio continuará sendo um silêncio carregado de morte. É o dilema que vivemos no Brasil.

Se você teve a paciência de nos acompanhar até aqui, fica a sugestão: assista (de novo, caso já o tenha feito), ao clássico O Silêncio dos Inocentes. Está disponível numa das populares plataformas de streaming. E pense-o como uma metáfora do Brasil. Você se assustará com Hannibal Lecter e Buffalo Bill. Mas, o verdadeiro perigo, observe bem, está na Clarice Starling. Confira e, depois, me diga se sim ou se não.
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A Mãe do Dia das Mães

Anna Jarvis. Assim se chamava ela. É a mãe do Dia das Mães. Ela nasceu no dia 1º de Maio de 1864, na pequena cidade de Webster, na Virgínia Ocidental, Estados Unidos. Era filha de Ann Reeves, uma piedosa senhora que teve treze filhos, dos quais somente quatro chegaram à idade adulta. Durante a guerra civil americana (1861-1865), Ann dedicou-se a cuidar dos soldados feridos, tanto os do Exército Confederado como os do Exército da União. Além de cuidar de suas feridas e reconectá-los com suas famílias, ela criava situações para que os feridos de ambos os lados se encontrassem, se conhecessem e se reconciliassem.

Não foi esse o primeiro trabalho humanitário da Senhora Jarvis. Antes da guerra, ela organizava as mulheres de sua comunidade para melhorar as condições sanitárias do local em que viviam. Findo o conflito, ela continuou seu trabalho para que as mães tivessem melhores condições de vida e a família se tornasse um espaço de proteção e cuidado.

Em 1870, outra mulher propôs a criação de um “Dia das Mães pela Paz”. Assim como outras tantas mães traumatizadas pela experiência da guerra, a poetisa, abolicionista e feminista Julia Ward Howe (1819-1910), queria que fosse reconhecido o direito sagrado de as mães protegerem a vida de seus filhos e que jamais voltassem a ser trucidados em guerras para defender interesses que lhes eram alheios.

As décadas passaram e, no segundo domingo do mês de maio de 1905, Ann Reeves faleceu. Para sua filha Anna, o choque foi terrível. Entrou em depressão. Para tentar aliviá-la, suas amigas passaram a encontrar-se regularmente com ela para lembrar a mãe falecida. Em 1907, no segundo domingo de maio, na Igreja Metodista de Grafton, Anna organizou um serviço religioso para lembrar os dois anos da morte da mãe. No ano seguinte, no mesmo segundo domingo de maio, o culto foi realizado na importante cidade de Filadélfia, no Estado da Pensilvânia. Na ocasião, Anna distribuiu entre as mães e filhos presentes um cravo branco. Em 1910, a data foi oficializada como dia feriado no Estado da Virgínia Ocidental e os cravos brancos se tornaram o símbolo do evento. A partir de então, Anna dedicou todo seu tempo, energia e dinheiro para que o “Dia das Mães” tivesse reconhecimento nacional. Tal aconteceu em 1914. Rapidamente, a data ganhou adesão em vários países. No Brasil foi celebrada pela primeira vez em 1918, em Porto Alegre, na Associação Cristã de Moços Católicos. Em 1932, Getúlio Vargas incluiu a data no calendário oficial brasileiro.

Assim como os filhos que uma mãe gera, Anna Jarvis não sabia o que seria de seu rebento. E o rumo que a festa do Dia das Mães tomou foi bem diferente do pensado por sua genitora. A popularidade da data despertou a cobiça dos industriais e comerciantes que logo fizeram do comércio de flores, cartões e presentes um negócio lucrativo que substituiu o ideal de humanização e respeito pela maternidade.

“Não criei o dia das mães para ter lucro”, foi a resposta que Anna deu a um repórter quando este lhe perguntou se estava feliz ao ver a data tão festejada. Sua indignação foi ao extremo quando o Dia das Mães passou a ser utilizada pela campanha belicista que tomou conta dos Estados Unidos na década de 1930. As “Mães para a Paz” sonhado por Júlia Ward Howe, foi transformado em “Mães Americanas pela Guerra”.

Juntamente com sua irmã Ellsinore, Anna lutou de todas as formas e com todos os recursos para que a data retomasse sua intenção original. Sua batalha foi inútil. O mercado é implacável e tudo transforma em mercadoria, até a mais belas intenções e, se permitirmos, até as próprias mães. Anna terminou seus dias em 24 de novembro de 1948, pobre, endividada, internada como louca num asilo para idosos.

Hoje, o Dia das Mães é a segunda data que “mais vende”. Diante do fato, convém lembrar uma frase da sua criadora em sua luta contra a comercialização do sentimento materno e filial: Um cartão impresso não significa nada mais que você é muito preguiçoso para escrever para a mulher que fez mais por você que qualquer outra pessoa no mundo. E tortas! Você leva uma caixa para a Mãe – e então come tudo você mesmo. Um belo sentimento!

Neste Dia das Mães, pensemos na mãe do Dia das Mães. Siga o conselho dela. Seja um bom filho. Não dê um presente. Dê um abraço, diga seu obrigado, permaneça ao lado de sua mãe o tempo que ela desejar. E, se ela já partiu para sempre, tenha-a no silêncio do seu coração e abrace a mãe mais próxima. Há muitas que, como Anna Jarvis, não tiveram filhos ou não os têm por perto. Neste Dia das Mães, seja para ela um filho. O filho que ela desejou.

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