Arquivo mensal: maio 2010

Ordem carmelita processa padre acusado de pedofilia na Espanha

A congregação da Ordem dos Carmelitas Descalços de Valência, na Espanha, entregou nesta segunda-feira ao Ministério Público espanhol evidências contra um sacerdote acusado de pedofilia.

De acordo com a Conferência Episcopal Espanhola, este é o primeiro caso em que uma instituição católica toma a iniciativa de levar um religioso à Justiça antes que a vítima o faça.

Os frades dizem que estão seguindo os conselhos do Papa Bento 16 de denunciar à Justiça civil os abusos sexuais dentro da Igreja.

Os promotores investigarão as alegações de que o padre no centro da polêmica cometeu abusos contra um coroinha menor de idade que colaborava com ele durante os fins de semana na paróquia da cidade de Burriana.

Entre os depoimentos entregues aos promotores estão trechos em que o coroinha descreve cenas de masturbação e episódios em que o padre teria tentado tocá-lo no ano de 2007.

A suposta vítima afirmou que decidiu contar o “pesadelo” aos pais depois de ter sido trancado a cadeado em um quarto e forçado a ter relações sexuais.

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O sacerdote responsável pela Ordem dos Carmelitas Descalços, Pascual Gil, disse à BBC Brasil que “esta denúncia não prejudica a imagem da Igreja”.

“Pelo contrário, ajuda a mostrar que não estamos de olhos vendados e que pretendemos evitar que atos como este voltem a ocorrer”, disse o sacerdote.

O padre explicou que a medida só foi tomada agora porque somente há poucos dias a congregação ficou sabendo do caso.

“A família tinha se mudado para o Peru, aterrorizada pela situação, e agora no dia 26 de abril, em uma visita à Espanha, o pai decidiu abrir o coração e nos contar o drama que nos afeta a todos”, disse o religioso.

“Conversamos com o sacerdote acusado e decidimos que nossa obrigação era atuar pela via canônica, de acordo com a doutrina do Vaticano, e também pelo caminho do direito civil, porque é um delito que deve ser julgado pelas autoridades competentes.”

Pascual Gil disse ainda que o acusado pediu aos seus superiores um “gesto de reconciliação, aceitando a culpa dentro do fórum religioso para evitar o escândalo”. Entretanto, a ordem insistiu em levar o caso à Justiça civil.

É verdade que o Papa Bento 16 recomendou aos religiosos recorrer à Justiça, e foi um gesto para tentar calar muitas críticas. É diferente quando uma instituição tem a coragem de dar este passo.

Fernando Vidal, sociologo

Além de ter sido afastado da congregação e da província, o padre foi proibido pelo clero de ter contato com menores de idade sem estar acompanhado por outros adultos e de celebrar sacramentos religiosos.

As medidas cautelares também lhe proíbem de manter qualquer comunicação com a vítima e seus parentes até o julgamento.

Pressões

Para o sociólogo Fernando Vidal, catedrático da Universidade de Comillas, a Ordem dos Carmelitas de Valencia deu um passo de “grande valentia”.

“É verdade que o Papa Bento 16 recomendou aos religiosos recorrer à Justiça, e foi um gesto para tentar calar muitas críticas. É diferente quando uma instituição tem a coragem de dar este passo”, disse à BBC Brasil.

Para Vidal, “ninguém negará que o silêncio provoca a impunidade e alimenta que se cometam mais delitos, mas a denúncia também tem consequencias”.

O sociólogo acredita que os denunciantes “provavelmente receberão elogios, mas também pressões e críticas.”

Os primeiros elogios surgiram do grupo católico Corrente Somos Igreja. O porta-voz da organização, Pepe Moreno, disse à BBC Brasil que atitude dos frades carmelitas é “um sopro de renovação dentro do ciclo de dupla moral do Vaticano, depois de longas etapas de acobertamento, permissividade e inexplicável tolerância com a pedofilia”.

O grupo, que mantém uma postura crítica em relação às doutrinas do Vaticano, espera que o processo seja “apenas o primeiro de muitos que devem ser abertos”, mas não acredita que tantas ordens religiosas tenham a mesma atitude.

“Enquanto a Igreja esconder seus abusos, enquanto houver gente minimizando a importância dos delitos de pedofilia e não houver uma mudança radical por parte de todo o clero, esse caso, infelizmente, será um em um milhão. E por isto deve ser aplaudido por toda a sociedade.”

Vaticano acusa padre de 'imoral' e intervirá em ordem fundada por ele

O papa Bento 16 (arquivo)

O Vaticano anunciou neste sábado que o papa Bento 16 promoverá uma “profunda revisão” no movimento católico Legionários de Cristo, cujo fundador, o padre mexicano Marcial Marcel, é acusado de ter abusado sexualmente de crianças por décadas.

Em uma nota na qual descreve como “imorais” e “verdadeiros delitos” os comportamentos do padre Marcel, a Santa Sé anunciou que Bento 16 nomeará um novo dirigente, que se encarregará de supervisionar reformas para “purificar” o movimento.

As medidas foram anunciadas após a apresentação das conclusões de uma comissão formada por cinco bispos que trabalharam por mais de oito meses recolhendo evidências junto a cerca de mil pessoas.

“Os gravíssimos e objetivamente imorais comportamentos do padre Maciel, confirmados por testemunhas inquestionáveis, configuram às vezes verdadeiros delitos e evidenciam uma vida carente de escrúpulos e autêntico sentimento religioso”, afirma a nota.

“A conduta do padre Marcel causou uma série de consequências na vida e na estrutura da legião, que requer um caminho de profunda revisão.”

Padre Marcel gozava de prestígio junto ao falecido papa João Paulo 2º.

O pároco mexicano morreu em 2008, dois anos após começarem a vir a público denúncias de que ele levava uma vida dupla, abusava sexualmente de crianças e tinha pelo menos um filho.

Segundo o Vaticano, o padre criara “em torno de si um mecanismo de defesa que o manteve intocável por muito tempo, dificultando o conhecimento da sua verdadeira vida”.

A reação da cúpula da Igreja ao caso do padre Marcel está sendo acompanhada de perto porque a alta hierarquia do clero vem sendo acusada de ignorar ou, nos piores casos, até acobertar denúncias de abusos sexuais contra menores cometidos por padres no passado.

Em um dos casos revelados recentemente, o próprio Bento 16, na época ainda cardeal Ratzinger, é acusado de ignorar as denúncias contra um religioso americano que molestou cerca de 200 jovens nos EUA entre os anos 1950 e 1974.

As acusações já foram descritas como o “grande terremoto” do pontificado de Bento 16, que completou cinco anos em abril. Muitos são os pedidos para uma espécie de “limpeza interna” dentro da Igreja.

Por outor lado, alguns vaticanistas acreditam que a instituição possa sair fortalecida das polêmicas se enfrentar os casos e retomar o controle da situação.