Arquivo mensal: setembro 2023

Um inverno infernal

Foto por Harrison Haines em Pexels.com

Primavera chegando. Último dia de inverno. Um inverno que foi um inferno. De água e de calor. No sul do país e em quase todo o Brasil. O sul sofreu com as chuvas torrenciais. Muita chuva. E de uma vez só. E correndo diretamente para os arroios, destes para os riachos serra abaixo até chegar aos grandes rios que não suportaram a carga d’água e se espraiaram pelas várzeas que um dia foram deles e agora estão ocupadas pelas cidades. Dezenas de mortos. Milhares de desabrigados. Milhões em prejuízo econômico. Danos sociais, mentais e espirituais incomensuráveis. Casas, fábricas, escolas, ruas, estradas, pontes… tudo pode ser reconstruído. Menos as vidas perdidas, as relações rompidas e os sofrimentos padecidos.

Tudo na mesma semana em que o governo do Estado do Rio Grande do Sul, baseado em um estudo financiado por uma multinacional da indústria de celulose, permitiu a transformação de mais 10% do bioma pampa em deserto verde. Justamente o pampa, o bioma mais degradado do país nos últimos anos.

Mais degradado que o cerrado, a “caixa d’água” do Brasil. Mais degradado que a Amazônia de onde vêm as chuvas que faltam ou que sobram, pois está cada vez mais desregulado. Amazônia onde estão as árvores que regulam a temperatura do planeta. Temperaturas que, no nível global, neste ano, estão sendo as mais altas da história. E o Brasil está no centro deste esquentamento global. No dia de ontem, onze capitais brasileiras bateram recordes de temperaturas. Um fim de inverno beirando e, alguns lugares, até ultrapassando os quarenta graus. Um fim de inverno que está um verdadeiro inferno.

“De quem é a culpa?” somos tentados a perguntar. O “El Niño” sempre existiu. Por que está se intensificando e fazendo cada vez mais estragos? Os que estudam os fenômenos climáticos dizem que o fator principal é o humano. Não é apenas uma crise ecológica. Com lembra o Papa Francisco na “Laudato Sì”, trata-se de uma crise sócio ambiental. Há um fator ambiental. Chuvas volumosas sempre aconteceram e vão continuar acontecendo. Picos de temperatura alta, também. Mas sua intensidade e seus efeitos são agravados pela ação humana que pensa o seu ser no mundo sem ter em conta os outros seres e o ambiente onde vive.

Precisamos nos perguntar sobre o lugar e o como construímos nossas cidades. Sobre o modo e objetivo com que cultivamos e sobre os animais que criamos. O jeito como nos transportamos a produção dos campos e das indústrias e como nos deslocamos de um lugar para outro. Pensar sobre o que comemos, como nos divertimos, como nos reproduzimos, curamos nossas doenças, cremos, rezamos, celebramos e nos preparamos para envelhecer e morrer.

É preciso desaprender, apreender e reaprender para poder sobreviver. Ou vamos morrer, seja afogados nos rios que não respeitamos ou no calor que geramos. Que a primavera, suas cores e flores nos ajudem a pensar.

Divagação paulina em tempos sinodais.

A leitura da Bíblia sempre é surpreendente. Pelo menos, aos que o fazem na perspectiva da fé e da vivência eclesial. Há leituras que lemos tantas vezes que já não percebemos o seu sentido porque supomos saber de antemão o que nos dizem. Mau sinal. É leitura viciada, cega, manietada pelas pré-compreensões. Esse é um tipo de leitura que não nos ajuda a crescer na fé. Leitura boa é aquela que nos surpreende, nos interroga, nos assusta e, porque não, nos consola, reconforta, suaviza nossas dores e amores.

Hoje fui surpreendido por uma leitura que muitas vezes já havia lido. Mesmo tendo lido muitas outras vezes o texto, hoje ele me pareceu novo pela sua simplicidade. Paulo, na Primeira Carta a Timóteo, no capítulo três, descreve as qualidades do epíscopo e do diácono e de suas esposas. A lista é tão grande que nos faz pensar o quanto Paulo era exigente ou o quanto era exigente ser cristão no tempo de Paulo. A lista de qualidades recomendadas para o episcopado é longa: irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar, não dado ao vinho, não espancador, não cobiçoso de torpe ganância, moderado, não contencioso, não avarento, capaz de bem governar a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com toda a modéstia, não neófito e que tenha uma bom testemunho dos que não são da comunidade.

Já para os diáconos, a lista é mais sucinta. Basta que sejam sejam honestos, não de língua dobre, não dados a muito vinho, não cobiçosos de torpe ganância, que guardem o mistério da fé numa consciência pura, sejam maridos de uma só mulher e governem bem a seus filhos e suas próprias casas.

Para as esposas – supõe-se dos bispos e dos diáconos – é exigido que sejam honestas, não maldizentes, sóbrias e fiéis em tudo.

Paulo não fala dos presbíteros. Provavelmente, na comunidade de Timóteo, não havia presbíteros. Como todos sabemos, no início do cristianismo, as funções ministeriais variavam de uma comunidade para outra e de uma região para outra.

O que me chamou atenção ao ler este texto hoje foi a tranquilidade com que Paulo fala que os bispos e os diáconos deveriam ser marido de uma mulher. Talvez houvesse nas comunidades bispos e diáconos com várias mulheres. No mundo mediterrâneo do tempo de Paulo, a poligamia era habitual e aceita pela sociedade. E, pelo que indica a carta, algumas comunidades cristãs também a aceitavam como natural.

Paulo, a partir de sua experiência pastoral, recomenda que os ministros da comunidade sejam marido de uma mulher e não de várias. Ele não rejeita o matrimônio para os ministros das comunidades. Ele não vê nenhum empecilho teológico para que bispos e diáconos sejam casados e tenham filhos. Mais tarde, com o passar do tempo e também por razões pastorais, a igreja convirá que bispos e presbíteros não sejam escolhidos dentre os homens casados e, depois de ordenados, não possam contrair matrimônio. É assim que estabelece o direito do Rito Latino da Igreja Católica Apostólica Romana. Outras Igrejas e outros ritos dentro da própria Igreja Católica Apostólica Romana estabelecem isso diferentemente podendo conferir-se a ordenação a homens casados. Tudo assim bem simples! Tão simples quanto Paulo em sua Primeira Carta a Timóteo: casado ou solteiro, o importante é que o ministro tenha condições humanas para ser respeitado pela comunidade no encargo de conduzir a comunidade nos desígnios de Deus.

Se seguirmos a tradição mais antiga da Igreja, que é a consignada nas cartas paulinas, não há problema nenhum em que os ministros das comunidades – inclusive o bispo – sejam casados. Por outro lado, se olharmos a evolução histórica da Igreja, em um determinado momento chegou-se à conclusão de que bispos e presbíteros não fossem homens casados. E isso também tem que ser considerado como tradição. Mas, como a Igreja não é só tradição, mas é também caminho em direção ao desígnio futuro que Deus para ela estabeleceu – pelo menos é o que diz a Lumen Gentium – cabe-nos também perguntar: o que é melhor para o futuro da Igreja no que tange à legislação que regra a ordenação dos ministros para a comunidade?

Uma pergunta que, esperamos, o Sínodo sobre a Sinodalidade tenha a coragem e determinação de responder.