
Primavera chegando. Último dia de inverno. Um inverno que foi um inferno. De água e de calor. No sul do país e em quase todo o Brasil. O sul sofreu com as chuvas torrenciais. Muita chuva. E de uma vez só. E correndo diretamente para os arroios, destes para os riachos serra abaixo até chegar aos grandes rios que não suportaram a carga d’água e se espraiaram pelas várzeas que um dia foram deles e agora estão ocupadas pelas cidades. Dezenas de mortos. Milhares de desabrigados. Milhões em prejuízo econômico. Danos sociais, mentais e espirituais incomensuráveis. Casas, fábricas, escolas, ruas, estradas, pontes… tudo pode ser reconstruído. Menos as vidas perdidas, as relações rompidas e os sofrimentos padecidos.
Tudo na mesma semana em que o governo do Estado do Rio Grande do Sul, baseado em um estudo financiado por uma multinacional da indústria de celulose, permitiu a transformação de mais 10% do bioma pampa em deserto verde. Justamente o pampa, o bioma mais degradado do país nos últimos anos.
Mais degradado que o cerrado, a “caixa d’água” do Brasil. Mais degradado que a Amazônia de onde vêm as chuvas que faltam ou que sobram, pois está cada vez mais desregulado. Amazônia onde estão as árvores que regulam a temperatura do planeta. Temperaturas que, no nível global, neste ano, estão sendo as mais altas da história. E o Brasil está no centro deste esquentamento global. No dia de ontem, onze capitais brasileiras bateram recordes de temperaturas. Um fim de inverno beirando e, alguns lugares, até ultrapassando os quarenta graus. Um fim de inverno que está um verdadeiro inferno.
“De quem é a culpa?” somos tentados a perguntar. O “El Niño” sempre existiu. Por que está se intensificando e fazendo cada vez mais estragos? Os que estudam os fenômenos climáticos dizem que o fator principal é o humano. Não é apenas uma crise ecológica. Com lembra o Papa Francisco na “Laudato Sì”, trata-se de uma crise sócio ambiental. Há um fator ambiental. Chuvas volumosas sempre aconteceram e vão continuar acontecendo. Picos de temperatura alta, também. Mas sua intensidade e seus efeitos são agravados pela ação humana que pensa o seu ser no mundo sem ter em conta os outros seres e o ambiente onde vive.
Precisamos nos perguntar sobre o lugar e o como construímos nossas cidades. Sobre o modo e objetivo com que cultivamos e sobre os animais que criamos. O jeito como nos transportamos a produção dos campos e das indústrias e como nos deslocamos de um lugar para outro. Pensar sobre o que comemos, como nos divertimos, como nos reproduzimos, curamos nossas doenças, cremos, rezamos, celebramos e nos preparamos para envelhecer e morrer.
É preciso desaprender, apreender e reaprender para poder sobreviver. Ou vamos morrer, seja afogados nos rios que não respeitamos ou no calor que geramos. Que a primavera, suas cores e flores nos ajudem a pensar.
