Bem vindos ao quinto dos infernos!

Com certeza muitos dos que agora tomaram um pouco de seu tempo para ler estas linhas – eram tempo que eu não escrevia um novo post! – em algum momento da vida, em uma situação de raiva, mandaram alguém pro quinto dos infernos. Ou, se não mandou, pode mandar, pois sempre há tempo!

Hoje, num momento de tranquilidade e calma, me pus a pensar a origem desta expressão. Meu primeiro impulso foi pesquisar na internet. E foi o que fiz, E logo encontrei uma explicação, Melhor dizendo, uma mesma explicação em muitas páginas que repetiam uma a outra, A explicação era a de que no tempo do Brasil colônia o governo português, para pagar suas dívidas com a Inglaterra, instituiu o imposto do quinto sobre o ouro. Ou seja, 20% de todo o ouro levado da colônia para o Reino, acabava nas mãos da Coroa que o repassava para os ingleses. A medida era vista como infernal pelos mineradores e pelos comerciantes de ouro. Daí o “quinto dos infernos”.

Até aí tudo bem. Tem fundamento histórico. Mas porque “mandar” alguém para o quinto dos infernos? Isso faz parte da expressão e não encontra explicação na historieta dos 20%. Algumas páginas tentam encontrar um nexo dizendo que o navio que vinha buscar o quinto no Brasil era o mesmo que para cá trazia os condenados em Portugal ao degredo perpétuo nestas terras tropicais. A explicação é interessante. Mas não se sustenta. Pois o quinto era descontado em Portugal no hora da fundição do ouro que não era permitida no Brasil.

A inconsistência das explicações me fez voltar à minha primeira hipótese. A de que mandar alguém pro quinto dos infernos não tem nada a ver com o quinto do ouro. Sua origem estaria na Divina Comédia de Dante Alighieri. O escritor florentino descreve o inferno em nove círculos concêntricos. Em cada um deles há um tipo de castigo que corresponde ao pecado cometido durante a vida.

No quinto dos infernos de Dante, estão os que cometeram o pecado da ira e do rancor. Eles jazem eternamente num lago formado pelas torrentes do Rio Estige compostas por uma mescla de água e sangue fervente. Os que cometeram o pecado da ira permanecem na superfície digladiando-se mutuamente numa luta à morte sem que um consiga derrotar o outro. É uma guerra sem fim onde o castigo consiste em não morrer e ser obrigado a continuar lutando com a certeza de nunca poder derrotar o outro.

No fundo do lago, sem poder vir à superfície, jazem os rancorosos que, removendo o lodo do fundo do lago, fazem subir bolhas que são vistas na superfície e alimentam a ira dos que aí se digladiam no temor de ter que afrontar novos inimigos. O rancor alimenta a ira que leva à autodestruição que inferniza – literalmente! – a vida dos demais.

Uma cena que hoje chamamos apropriadamente de “dantesca” e que descrevia o modo como o escritor florentina considerava as disputas políticas de sua cidade, de Roma e do poder papal e da Europa como um todo.

A Divina Comédia, onde está inserido o quinto dos infernos, tornou-se um clássico não só por ter utilizado o vernáculo como forma de expressão literária. É um clássico porque, Dante, a partir de uma situação concreta do início do séc. XIV, conseguiu descrever uma condição humana universal e suas consequências para aqueles que não a reconhecem e não buscam um caminho de humanidade melhor.

Infelizmente, se Dante vivesse hoje, talvez sua descrição da condição dos irados e rancorosos depois da morte não mudaria muito. Pior! Talvez ele situasse o inferno para antes da travessia do Aqueronte. As torrentes ferventes de água e sangue já estão a invadir nosso planeta. E os primeiros a se afogarem nelas são os que semearam a ira e fizeram do rancor um instrumento de poder político.

O triste é que, muitos que não tem nada a ver com isso, estão fornecendo a água e o sangue para que o Estige continue a correr. Nessas horas, gostaríamos que, no quinto dos infernos, os que se digladiam na superfície alcançassem o objetivo da própria morte e os que chafurdam na lama do fundo perecessem definitivamente. Dantesco, sim, mas seria um modo trágico de acabar com a dor e sofrimento de muitos inocentes.

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