ADVENTO, RELIGIÃO E ARTE

Há muitas formas de se tentar dizer o que e a experiência religiosa. Tarefa nada fácil. Às vezes até conflitiva. Isso porque sempre falamos dela a partir da experiência que vivemos ou daquelas que vemos ao nosso redor. E, confessemos, hoje, no país e no mundo em que vivemos, não é nada fácil falar de religião de forma positiva. As diferentes expressões religiosas são usadas e abusadas para fazer o que de mais cruel o ser humano pode fazer. O nome “deus” justifica tudo, desde o assassinato de pessoas que tem um modo diferente de viver sua sexualidade até ataques terroristas, guerras e genocídios.

Isso tudo me fez lembrar uma tentativa de dizer o que é religião que me marcou. Ela foi escrita por Rubem Alves, teólogo, artista, poeta, um estilista da palavra. Dizia ele que religião é “uma teia de símbolos, redes de desejos, confissão da espera, horizonte dos horizontes, a mais fantástica e pretensiosa tentativa de transubstanciar a natureza”. Tomo aqui o transubstanciar não no sentido materialista em que algumas vezes é usado. Se substância, no sentido aristotélico, é o que faz uma coisa ser o que é, transubstanciar é fazer com que uma coisa seja outra diferente daquilo que originalmente era. É isso que toda religião faz! Tomamos algo do mundo criatural e lhe damos um sentido divino, eterno, transcendental. E o fazemos de modo absoluto a ponto de ver nessa nova realidade a presença de Deus e não mais a realidade que antes era. “Aquilo” deixou de ser o que era e passou a ser outra coisa. E isso é tão forte que, se alguém questiona tal modo de proceder, é considerado sacrílego. E, de fato, do ponto de vista de quem vive tal dinâmica, questionar a presença do sagrado numa realidade criatural transubstanciada, é sacrilégio.

Por isso, a religião é uma experiência muito próxima à arte. O artista é aquele que toma algo que é comum, corriqueiro, aparentemente quotidiano e o transforma em algo sublime que expressa aquilo que todos gostaríamos de dizer e não conseguimos. Aquilo que era um simples bloco de mármore se transformou, por obra de Michelângelo, em Davi; aqueles sons que todo mundo consegue emitir, agora são a Oitava Sinfonia de Bethoven; aquelas tintas que qualquer pinto usa, viram os Girassóis de Van Gogh. A arte, assim como a religião, é uma “fantástica e pretensiosa tentativa de transubstanciar a natureza” estabelecendo uma teia de “símbolos, redes de desejos, confissão da espera”.

Me peguei pensando nisso tudo nesses dias de Advento quando, ao preparar uma reflexão sobre o tempo litúrgico que estamos vivendo, lembrei-me de uma música de um artista brasileiro que, pelo que eu saiba, não tem vínculo religioso. Nela, ele expressa o que há de mais profundo no humano: o sonho de que a “ponta de esperança” que hoje vislumbramos se transforme em um farol que faça brilhar “a bandeira da vida” vencendo toda dor, todo sofrimento, toda morte.

Isso segundo o artista, pode acontecer “quando menos se esperar” e pode vir “da onde ninguém imagina”. E, na sua fraqueza, “demolirá toda certeza vã, não sobrará pedra sobre pedra”. “Enquanto isso” ainda não for realidade, nos convida o artista a não abandonar o sonho de transformação “desafiando de vez a noção na qual se crê que o inferno é aqui”. E termina ele numa “profissão de fé” afirmando que esta nova realidade “existirá, e toda raça então experimentará, para todo mal, a cura”.

Existe melhor poema “não-cristão” para este tempo de advento? Talvez só os do profeta Isaías que lemos na liturgia neste tempo de espera-ativa-da-salvação-que-vêm.

Bom Advento a todos nós!

P.S.: Imagino que muitos já identificaram o artista e a música citada. Para quem não identificou, uma simples busca lhe fará chegar à música “A Cura” de Lulu Santos. Leiam a letra e depois, saboreiam a música.

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