Arquivo mensal: janeiro 2024

Um time para torcer

Não sei quanto vai durar… Mas me disponho a esperançar. Sim! Que seja pelo menos para uma temporada. A temporada 2024. Campeonato Gaúcho, Copa do Brasil e Série A do Brasileirão. Três grandes desafios!

Sei que as coisas são muito instáveis no futebol. Instáveis porque negociáveis. Melhor dizendo, comercializáveis. Jogadores assinam contratos por três meses. Treinadores, por seis, oito ou doze talvez. Muitos nem isso duram. Uma proposta melhor ou um fracasso são razão para romper qualquer contrato. Sem falar dos empresários e investidores e seus interesses sem pudores.

Contando com tudo isso, espero que Roger Machado, pelo Juventude recém contratado, tenha a oportunidade de mostrar o que sabe fazer com uma equipe de futebol. Já o mostrou no Grêmio quando passou pela equipe da capital e, se ali se deu mal, não foi por falta de potencial. Seu pecado venial no time da capital foi o de não resignar-se a ser um simples profissional.

Treinando o Grêmio, Roger Machado montou uma equipe competitiva e moderna com perspectivas de se tornar vitoriosa. Mas ele queria mais. Queria que seus jogadores fossem respeitados como homens e como profissionais e não como meras peças comerciais. E ousou colocar em discussão temas sociais e raciais. Fazia questão de se pronunciar contra o “mercado” do futebol e o racismo que cerca as quatro linhas do campo, os vestiários e os meios de comunicação que sobrevivem do futebol.

Por suas posições e não por suas atuações, Roger foi punido e de Porto Alegre banido. Um time de brancos e ricos não suporte um treinador que se diz trabalhador e negro.

Lembrando disso, me pergunto sobre o futuro dele em Caxias do Sul. Ainda mais agora que a ele se juntou um outro ícone do futebol brasileiro, o preparador físico Paulo Paixão. Aos 72 anos, Paulo Paixão talvez não traga consigo os mais modernos métodos de preparo físico. Mas é uma das pessoas que mais entende de jogador de futebol no Brasil.

Fico torcendo para que o racismo não vença antes de os dois convencerem de que há, sim, possibilidade de juntar a alegria do futebol com o sonho de justiça social e racial neste Brasil da disparidade.

Boa sorte Roger Machado! Boa sorte Paulo Paixão! Que o Juventude e caxias do Sul os suportem para o bem dos atletas, do time, do clube e do esporte.

O banqueiro, o padre, a missa e o dinheiro.

Há duas coisas que movem o mundo: a fé e o dinheiro. A fé é a que nos permite transcender o presente e sonhar com um futuro melhor, neste mundo ou noutro. O dinheiro é o que permite tornar este sonho possível.

Quando falo em “fé”, não penso apenas nas diferentes expressões religiosas. Me refiro também à fé antropológica, ou seja, à capacidade humana de construir um futuro para si e para a humanidade. Laica ou religiosa, individual ou coletiva, intra-histórica ou transcendente, na história ela tem encontrado muitas expressões.

Por “dinheiro” não entendo apenas as moedas que carregamos no bolso ou os números na conta bancária. São os recursos de que dispomos para viabilizar um projeto. Dinheiro, sim, mas também pessoas, capital, conhecimento, conexões.

Que seria do apóstolo Paulo sem as pessoas – homens e mulheres – que financiavam suas viagens e faziam coletas para sustentá-lo e torná-lo simpático às novas comunidades? Em suas cartas várias vezes ele agradece a seus colaboradores e financiadores. Ou então, que seria de Marx se não houvesse um Engels que lhe permitisse estudar e escrever sem ter que submeter-se à labuta diária para ganhar o pão de cada dia?

A união destes dois elementos pode mover montanhas tanto para transformar o mundo para melhor como para torná-lo menos habitável. Por um lado, pensemos num Martin Luther King e sua mobilização pelos direitos civis nos estados unidos, em Mahatma Ghandi e na luta do povo indiano pela independência ou em Desmond Tutu e Nelson Mandela na África do Sul lutando pelo fim do apartheid. São só alguns exemplos de pessoas que, movidas pela fé em uma humanidade melhor, a partir de um princípio religioso ou não, mobilizaram multidões.

Mas a união dos dois elementos também pode levar à exploração da fé dos pobres e desvalidos que, em nome do sonho de sair da miséria, entregam os poucos recursos que ainda dispõem a líderes que vendem sonhos a preço de ouro e acumulam fortunas que contrastam com a vida miserável dos fiéis de suas igrejas. Há vários exemplos em muitas igrejas e não há aqui necessidade de expor seus nomes. Sua fama é pública e notória.

Digo tudo isso porque hoje, dia 14 de janeiro de 2024, aconteceu no Brasil um evento surpreendente. O Canal “Instituto Conhecimento Liberta” (ICL), patrocinado pelo ex-banqueiro de investimentos, empresário, engenheiro, escritor, dramaturgo e apresentador Eduardo Moreira, transmitiu a missa do Pe. Júlio Lancelotti, um ícone do cristianismo defensor dos empobrecidos e marginalizados de São Paulo, a cidade mais rica da América Latina.

A aproximação dos dois vinha de há tempo. Mas transmitir a missa no canal oficial do ICL, não era algo que se esperasse. Mas aconteceu! E as reações nos comentários são surpreendentes e interessantes. Junto com muitos elogios, há também significativas críticas, tanto de setores da direita com da esquerda do espectro político e religioso. Críticas que revelam o surpreendente desta união e que revelam a base comum que une os dois campos no trato com a religião: ambos consideram que a religião tem como finalidade única manter o status quo.

A história tem mostrado que as religiões, quando mantém vivo o fundamento de sua fé, podem ser, sim, ser fator de transformação para melhor das sociedades. Para que isso se torne realidade, é preciso dar-se os meios necessários. E isto é tarefa nossa. É missão dos humanos que não se resignam ao mundo presente tal como ele está.

Não há como prever se a missa do Pe. Júlio transmitida pelo canal do ICL terá o mesmo “sucesso” das missas dos padres sertanejos, carismáticos ou fundamentalistas. No meu ponto de vista, seu “sucesso” está no fato de ter acontecido e mostrar um caminho de diálogo entre vários segmentos da sociedade em busca de um país e de um mundo onde todos e todas tenham o direito de viver na dignidade de filhos e filhas de Deus.

Qual o limite do ódio?

Até onde pode ir o ódio? Até o infinito? Ou terá o ódio algum limite?

Esta triste pergunta nasceu em mim ao refletir sobre o triste fato de um insignificante vereador da cidade de São Paulo, com a anuência de outros 22 colegas, tentar instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito para criminalizar o Pe. Júlio Lancelotti. Qual o crime do Pe. Júlio? Estender um cobertor para aqueles e aquelas que só têm o chão duro do viaduto como colchão para dormir, alcançar um prato de sopa para aqueles e aquelas que vagam com fome pelas ruas da cidade mais rica da América Latina, acolher e consolar as vítimas do lucrativo comércio de drogas ilegais, dos discriminados por sua condição sexual ou por seu estado mental… Esse é o crime do Pe. Júlio Lancelotti e daqueles e daquelas que com e como ele buscam ser um sinal de amor em meio a tanto sofrimento e tanta dor.

Numa sociedade normal em que os humanos agissem como humanos, o Pe. Júlio não seria criminalizado. Ele seria condecorado, homenageado, exaltado, imitado. Mas não: ele é processado por um edil cujo nome raramente é lembrado e que a esse cargo foi alçado pelo ódio transformado em instrumento de ascensão política. Percurso do qual é apenas um exemplar. Outros, cavalgando na marcha do ódio, da violência e da ofensa, chegaram a cargos de maior destaque: Prefeito, Governador, Deputado Estadual, Deputado Federal, Senador e até Presidente. E todos vimos as consequências: violência e morte alçadas a norma das relações sociais numa paródia macabra do fascismo europeu do século XX com trajes verde-amarelos e rituais religiosos que pregavam o extermínio de todos os que contestavam tais práticas.

Infelizmente, assim como o medo e o prazer, o ódio, em si mesmo, não tem limite. Quanto mais cresce, mais tende a expandir-se destruindo tudo o que vem pela frente. A tentativa de Comissão Parlamentar de Inquérito é apenas uma expressão minúscula daquilo que é um projeto anticivilizacional. Sim, porque “civilização” é a arte de viver juntos. E o que o fascismo prega é a impossibilidade da sociabilidade realizada no extermínio do diferente. Se não for detido, o ódio não tem fim e se expandirá até não haver nada mais para consumir até que, qual cão raivoso, terminará por morder o próprio rabo e, avançando em sua sanha devoradora, consumir o próprio corpo inteiro depois de ter arrastado o universo consigo.

Mas então, o que pode deter o ódio? Só há um antídoto para o ódio: o amor! Não é odiando aqueles que odeiam os pobres que acabaremos com o ódio. Odiando aqueles que odeiam as mulheres, os negros, os pobres, os povos nativos, a comunidade LGBTQIA+, os estrangeiros… só estaremos engrossando o círculo do ódio. É amando que se vence o ódio. É o que ensina o Pe. Júlio. E ele o ensina porque o aprendeu com Jesus quando afirma que não devemos resistir ao perverso e que, se alguém te ofender com um tapa na face direita, volta-lhe também a outra.  E se alguém quiser processar-te e tirar-te a túnica, deixa que leve também a capa.  Assim, se alguém te forçar a andar uma milha, vai com ele duas.

É insano o que Jesus diz, pode pensar alguém. Quando mal entendido, sim, é insano. Completamente insano! Mas a verdade é que Jesus não quer que nos resignemos e submetamos às práticas destruidoras dos que têm o coração habitado pelo demônio do ódio. Ele nunca ficou se omitiu diante da injustiça como alguns que, ante a perseguição ao Pe. Júlio, recomendam o silêncio. Estes – alguns, diga-se de passagem, colegas de batina e estola do padre perseguido – recomendam o silêncio porque talvez não queiram incomodar seus patrocinadores que estimulam e lucram com a política de ódio. Calar-se, em situações como estas, é ser cúmplice, é pecar por omissão.

Jesus nunca silenciou diante das injustiças. Pelo contrário. Alçou sua voz denunciando-as e pondo sua vida em risca para proteger os agredidos e ameaçados em sua vida. Lembremos apenas o episódio em que ele interpõe seu próprio corpo entre a mulher julgada por suposto adultério e as pedras que os donos da religião queriam sobre ela jogar. Foram posturas como estas que o levaram à cruz.

Mas ele nunca respondeu ao ódio com ódio. Ele não entrou na política do dente por dente, olho por olho. Diante do ódio escancarado, ele praticou o amor ilimitado, até mesmo aos seus inimigos declarados.

Ser cristão não é ir para a Igreja todo domingo. Ser cristão não é pagar o dízimo. Ser cristão não é receber os sacramentos. Ser cristão é passar da convivência baseada no ódio, à convivência construída no amor. Só isso. Não deixemos que o fermento dos fariseus contamine o pão da comunhão e da libertação que Jesus nos ensinou a partilhar e deixou como memória viva da sua presença.

Juntos podemos atuar por um cristianismo com mais padres julio lancelotti e menos fariseus e menos judas iscariotis.