Fátima

Hoje, 13 de maio, a tradição católica romana celebra Nossa Senhora de Fátima. A devoção remete às visões que, em 13 de maio de 1917, três pastorinhos portugueses, na localidade de Fátima, tiveram uma visão da Virgem Maria que se repetiria nos meses seguintes, até a última, em 13 de outubro de 1917.

O local, com o decorrer do tempo, transformou-se num dos espaços mais importantes da devoção mariana na Europa e no mundo. Todos os anos, de todos os continentes, confluem ao local em torno de seis milhões de católicos para rezar e invocar a proteção da mãe de Jesus.

A visão da Virgem Maria relatada pelos pastorinhos assemelha-se a muitas outras tidas por outras pessoas. Uma não compreensão num primeiro momento; medo e confusão; apresentação da Virgem; envio para uma missão; resistência por parte das autoridades eclesiásticas em reconhecer o relatado; reconhecimento por parte do povo simples; reconhecimento oficial e consolidação da devoção.

O que se destaca nas visões de Fátima é seu caráter apocalíptico. O que ouviram os pastorinhos foi uma mensagem que alertava para a possibilidade do inferno pessoal e da destruição da humanidade provocada pelos pecados humanos. Mas o que mais provocou curiosidade e ajudou a espalhar a devoção a Nossa Senhora de Fátima foi o “terceiro segredo” de Fátima que, no contexto de conflitos sociais da Europa, foi interpretado das mais diferentes formas.

Uma das interpretações mais comuns ligava o “terceiro segredo” à Revolução Russa que seria o prenúncio da destruição da humanidade provocada pelo ateísmo e pela ofensa à religião. No ambiente de crescente conflito entre os dois sistemas econômicos – o capitalista e o socialista – a Virgem de Fátima tornou-se, no Ocidente, símbolo do anti-comunismo. Com o fim da Segunda Guerra Mundial e a divisão do mundo em dois grandes blocos, essa simbólica ganhou força na Europa e na América do Norte.

A devoção a Nossa Senhora de Fátima chegou ao Brasil, pode-se dizer, tardiamente. Foi em 1952, quando alguns frades capuchinhos da Província do Rio Grande do Sul que haviam sido enviados em missão a Portugal seis anos antes, regressaram ao Brasil trazendo na bagagem a imagem e a mensagem da Virgem aos pastorinhos e, no contexto acirrado de guerra fria, a pregação contra os perigos do comunismo.

À testa do grupo estava o carismático frei Bernardino Vian que, juntamente com os freis Lauro Reginato e Eusébio Ferreto compôs uma segunda equipe de missionários capuchinhos lançou-se à pregação de missões populares no Sudeste e Centro Oeste do Brasil. Ao tomar conhecimento da planejada construção de Brasília, Frei Bernardino, com a anuência do bispo de Goiânia, dirigiu-se ao Rio de Janeiro e, por intermediação da Primeira-Dama Sarah Kubitschek, convenceu o Presidente Juscelino à construção da Igrejinha de Nossa Senhora de Fátima, em Brasília para proteger a capital e, através do seu valor simbólico, o Brasil dos perigos do comunismo.

Por ironia da história, coube ao comunista Oscar Niemeyer o projeto da Igreja e ao iconoclasta Alfredo Volpi a decoração que, anos depois, por ordem de autoridades eclesiásticas, seria substituída por bandeirinhas menos indecentes.

Hoje em dia, a simbologia anticomunista da Virgem de Fátima continua viva nos meios neoconservadores católicos. Ao seu caráter político foram agregados outros temores dos grupos que temem as mudanças culturais, sociais, políticas e, sobretudo, eclesiais que vêm acontecendo nas últimas décadas. Fátima tornou-se o símbolo, para pequenos grupos neotradicionalistas católicos, de resistência ao Concílio Ecumênico Vaticano II e às atualizações consequentes no campo institucional, litúrgico, moral e social da Igreja Católica.

Nas isso é coisa de pequenos grupos que formam verdadeiras seitas que guardam a aparência de católico mas, na verdade, fecham-se em pequenos guetos perdendo a dimensão de universalidade e apostolicidade da Igreja.

Para a grande maioria dos católicos e católicas, Nossa Senhora de Fátima é a presença curadora, protetora e amorosa de Deus junto ao Seu povo. Assim como ela foi consolo e força na vida dos pastorinhos e do povo simples de Portugal no início do séc. XX, ela continua hoje, na terceira década do séc. XXI, a nos recordar que Deus é bom e quer que sejamos plenos de vida e esperança.

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