Arquivo mensal: junho 2024

AS CHAVES SINODAIS DE PEDRO

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A razão de São Pedro carregar as chaves é simples. Está lá no Evangelho de Mateus, no capítulo 16, quando Jesus diz que, sobre a pedra de Pedro edificará a Igreja e a ele dará as chaves do Reino com o poder de ligar e de desligar tanto na terra como nos céus.

A frase pronunciada por Jesus não era original. Era uma velha conhecida de todos os judeus piedosos. Ela fazia parte da tradição e era usada em toda disputa política. Quem a pronunciou pela primeira vez foi o profeta Isaías, lá no Antigo Testamento, no tempo do rei Ezequias. Era um tempo difícil. Judá estava sendo atacado pelo rei da Assíria e, Jerusalém, cercada, soçobrava. Sobna, o ajudante mais próximo do rei, ao invés de se preocupar com a fome e as doenças que matavam os pobres, gastava seu tempo e os recursos públicos na construção de um mausoléu onde queria ser enterrado com a glória dos faraós do Egito.

Chamado para intervir, o profeta Isaías manda que Sobna seja retirado do cargo e a chave da casa de Davi seja entregue a Helcias, filho de Eliacim. Na prática, o profeta destituía o arrogante Sobna e colocava em seu lugar um humilde servidor público. Para simbolizar a troca de mando, a túnica, o cinto e as chaves – três símbolos do poder – passam de Sobna a Helcias. Mas o símbolo que ficou na memória popular, foi o das chaves. Afinal, desde que surgiram, em torno ao 4.000 a.C., no Egito ou na China, as chaves sempre simbolizaram poder. Desde o mordomo do rei até o carcereiro, quanto maior o molho das chaves, maior o poder que aparenta.

Mas, voltando ao episódio de Mateus, de quem Jesus estava tirando as chaves para entregá-las a Pedro? O texto não explicita. Podemos encontrar uma dica no capítulo 23, quando ele fala dos fariseus que bloqueiam a entradas das pessoas no Reino dos céus: eles não entram e nem deixam ninguém entrar! Se essa conexão for procedente, a entrega das chaves a Pedro não teria como objetivo fechar as portas como faziam os fariseus, mas abri-las para que todos pudessem entrar.

A história se complica mais ainda quando, avançando um pouco na leitura de Mateus, no capítulo 18, encontramos que Jesus não entrega esse poder apenas a Pedro, mas a todos os discípulos. A mesma concessão coletiva aparece no Evangelho de João (capítulo 20) e também é adotada pelo apóstolo Paulo na Carta aos Coríntios.

Como vemos, a história das chaves de São Pedro não é tão simples. E a interpretação deste episódio, na história da Igreja, foi motivo de muita discussão. As chaves significam poder. Entregá-lo a uma só pessoa, é uma coisa. Compartilhá-lo entre todos, é outra muito diferente.

No primeiro milênio da Igreja, a interpretação comum era a de que o poder das chaves deveria ser exercido de modo coletivo. Todos os bispos teriam o poder concedido por Jesus de ligar e desligar. As disputas de poder, no entanto, fizeram com que, no final do séc. XII, Inocêncio III, o bispo de Roma mais poderoso de toda a Idade Média, reclamasse para si a exclusividade das chaves petrinas. E com a força das armas e do saber, impôs esse modo de pensar aos outros bispos e aos príncipes e reis. As Igrejas orientais jamais aceitaram essa imposição e se afastaram ainda mais de Roma. Os príncipes e reis, não tendo alternativa, submeteram-se até aparecer a ocasião para se rebelar.

Alguém pode estar se perguntando o porquê de estar cavoucando estas histórias. Primeiro, claro, por causa das chaves de São Pedro, o último dos santos juninos. Segundamente, por causa da crise de poder que vivemos tanto na sociedade como nas Igrejas. E nisso, toda essa discussão pode nos ajudar. Assim como as chaves, o poder é simbólico. Dependendo do modo como o imaginamos, ele recai sobre nós. Se nós o pensamos monocraticamente, encontraremos um tirano para exercê-lo de forma autoritária. Se o pensamos coletiva e circularmente, de forma sinodal, teremos a possibilidade de construir uma democracia e caminhar para a fraternidade e a amizade social. Nesta última festa junina, ao ver São Pedro com as chaves na mão, fiquemos atentos! Será que elas não estão também nas mãos dos outros discípulos? Não custa imaginar…

A FOGUEIRA DE SÃO JOÃO

Foto por Jens Mahnke em Pexels.com

Era mais um entre tantos. Aqueles homens estranhos que deixavam tudo para ir morar na beira do Rio Jordão. Uns vinham de Jerusalém. Ou do interior da Judeia. Outros eram da Galileia. Até da Samaria os havia. E nascidos no estrangeiro também apareciam. Judeus que um dia partiram em busca de dias melhores e que agora voltavam às origens para um recomeço. Um recomeço radical. Refazer o caminho da escravidão do Egito para entrar em uma Nova Terra Prometida. Não mais geográfica. Não mais cruzar o Mar Vermelho nem caminhar 40 anos no deserto. Agora quarenta dias eram suficientes. E o deserto estava aí do lado. Só cruzar o Jordão, descalçar os sapatos, agarrar o bordão, alimentar-se do que brota do chão – mel e insetos – e colocar-se totalmente nas mãos de Deus para uma vida nova para que fosse feita para sempre Sua vontade.

Não era uma multidão. Mas havia muitos. Uns mais jovens. Outros de idade mais avançada. Gente que havia sido rica. Outros que sempre foram pobres. Homens todos. Alguns que haviam sido casados e sua família haviam abandonado. Outros que nunca casaram porque acreditavam que a promessa feita a Abraão iria se realizar em breve e não havia necessidade de colocar a esperança na descendência. O Reino de Deus aconteceria aqui, agora, de imediato, para todos os que estavam vivos e para redimir os antepassados realizando o futuro no presente.

Entre todos, a chamar a atenção, aí estava João. Uma figura única, particular pela sua origem e modo singular. Filho de sacerdote. De quinta categoria, sim. Mas da tribo de Levi. Sua tradição não era a da profecia. Seu pai, Zacarias, uma vez por ano, no templo sacrifícios oferecia. E depois voltava para sua vila na montanha pois sua casa era marcada pela vergonha. Isabel, sua esposa, fora assinalada pela maldição. Filhos dela não nasciam. Sem descendência, o nome de Zacarias desapareceria. Até aquele dia em que o Anjo apareceu e um filho a Isabel prometeu. E a promessa aconteceu sob o olhar de uma prima distante que acorreu para ajudá-la em toda necessidade. Veio de longe porque quem perto morava naquilo não acreditava e até achava que era obra não de Deus como as duas diziam, mas de espíritos malignos que às duas acometiam.

Em meio à desconfiança dos parentes e vizinhos, João nasceu, cresceu, ficou adulto e para o Jordão desceu sem que ninguém se importasse. Era mais um entre tantos. Mais um com uma história estranha a dizer coisas estranhas que a alguns incomodavam e a outros apaixonavam. Os bem assentados dele se afastavam e claramente o condenavam. Os esfomeados, maltratados, perseguidos, doentes, esquecidos, todo o dia o buscavam. E ele os esperançava mostrando que no Reino de Deus todos podiam entrar. E muitos o seguiam, entre eles um seu parente da Galileia, filho da Maria que fora até a Judeia para vê-lo nascer. A Ele João indicou como aquele que o iria suceder. Não era uma função de honra. Profetas nunca tem um final feliz. É o que a Bíblia diz. Não por castigo de Deus. Mas por incompreensão dos seus. Ainda mais naquela terra onde predominava o dinheiro, o poder, a guerra. João foi preso, condenado e sua cabeça cortada para ser exibida em um burlesco banquete real.

“Nenhum profeta é bem recebido em sua terra”, disse Jesus ao falar de João e a seu futuro prever. A fogueira das vaidades não aceita a palavra de quem diz a verdade. Fogueira que queima mais que as de São João. Ela arde por dentro e consome seu invólucro próximo e, se não for apagado com o extintor da humildade, invade e transforma em cinzas tudo o que está ao redor. Para apagá-la, não há outro remédio que o da cruz de Jesus que reluz mesmo em meio à maior escuridão. Não a apaguemos. Deixemo-la reluzir e o nosso caminho conduzir.

Santo Antônio, Rogai por nós!

Santo Antônio, aquele que abre o ciclo de festas juninas, é um santo cercado de ambiguidades. Primeiro, pelo nome. Uns o conhecem como Santo Antônio de Lisboa, por ter nascido naquela cidade lusitana. Outros, como Santo Antônio de Pádua, pois foi nesta cidade italiana que foi enterrado.

Mas esse não é o único lado duplo do popular santo. Ele carrega dois nomes. Fernando de nascimento. Antônio por opção e devoção ao monge Santo Antão. Mesmo que algumas tradições queiram lhe dar origem nobre, era de família plebeia. Rica, provavelmente, a ponto de poder sustentar seus estudos no Convento dos Cônegos Regulares da Santa Cruz que seguiam a regra de Santo Agostinho. Por opção largou as riquezas da família e seguiu a vida religiosa. Fascinado com os estudos possibilitados pela vida monástica, decidiu ser monge e fez seu noviciado. Não contente com o ambiente tumultuado de Lisboa, mudou-se para Coimbra onde dividiu seu tempo entre os estudos profanos e sagrados.

A vida silenciosa e de estudos no claustro foi interrompida quando Fernando, agora já Antônio, conheceu os frades franciscanos que se dirigiam ao Marrocos em busca do martírio. Juntou-se a eles. Cruzou o Mediterrâneo e aportou nas areias magrebinas, mas não alcançou seu objetivo. Seu desejo não foi satisfeito pelos árabes que o enviaram para a Sicília. De lá, junto com outros frades, no ano de 1221, foi a Assis para participar do Capítulo Geral que aprovaria a nova regra dos frades que Francisco não queria. Não se sabe qual postura o luso Antônio teve na querela entre observantes e intelectuais da nova Ordem. Talvez sua ambiguidade o tenha mantido em um meio termo.

O que se sabe, sim, é que Francisco, impressionado com Antônio que tinha a capacidade de unir profunda humildade com amplo e profundo conhecimento teológico, permitiu, coisa que até aquele momento não o fizera para ninguém, que ensinasse Teologia e tivesse livros. Fato que, segundo historiadores medievalistas renomados, não é tão comprovável como se diz ser. Tal permissão, tenha sido real ou não, não fez de Antônio um professor de Teologia tradicional. Em meio às ambiguidades características de seu percurso, dividia seu tempo entre a vida contemplativa, a pregação, o ensino de Teologia e os assuntos internos da ordem.

Antônio não era homem de uma causa só! Era um homem multifuncional, capaz de fazer muitas coisas ao mesmo tempo e todas com extrema qualidade. Talvez por isso as imagens que hoje temos de Santo Antônio tem certo caráter de indefinição. Assim como é difícil estabelecer qual é a graça específica da qual ele é mediador. Muitos o buscam para encontrar a pessoa amada e encaminhar um casamento; outros para conseguir o pão que faz falta na mesa; ou a restauração da saúde abalada; encontrar objetos perdidos também é missão encarregada a Antônio… A fila é quase infinita e faz dele um santo multifuncional.

E mais: um santo que ultrapassa as barreiras do catolicismo e do cristianismo. Nas algumas tradições de matriz africana, ele é o Bará ou Exú, aquele que faz a comunicação entre os orixás e os humanos. O santo da ligação, do encontro, do amor, tanto físico como espiritual.

Talvez alguns estranhem tal assimilação. Mas ela pode ser interpretada com um detalhe imagético: em todas as representações cristãs, Santo Antônio é representado com um Menino Jesus e uma Bíblia em suas mãos. A Palavra de Deus e o Verbo-que-se-fez-carne são a expressão maior da comunicação entre o divino e o humano. Que o santo das ambiguidades nos ajude a seguir o indicado nestas duas grandes mensagens de Deus.

ONDE ESTÁ DEUS?

Foto por Denniz Futalan em Pexels.com

Onde está Deus? Onde está Ele que não faz nada? Por que Ele me abandonou?

É a pergunta que muitos se fazem nos momentos de dor e sofrimento, seja individual ou coletivo. A doença e a ameaça de morte, consequência de catástrofe natural ou da ação humana, colocam em cheque a própria vida e, na sua radicalidade, exige uma resposta daquele que é a razão de nosso viver. E, para quem tem fé, em Deus deveria estar a resposta que parece não se manifestar.

É uma velha pergunta que já foi colocada em toda a sua crueza no Livro de Jó da Bíblia cristã. O autor do livro da tradição sapiencial judaica, não encontra resposta para a pergunta. Simplesmente aceita o fato e faz uma afirmação radical de fé: Deus não é a causa de nossa desgraça. Mas o Livro de Jó não responde o porque de Deus não fazer nada diante da dor e do sofrimento de seus filhos e filhas.

A fé cristã que nasce da experiência daqueles e daquelas que fizeram a experiência de Jesus de Nazaré, tem uma resposta contundente: Deus está presente naqueles e naquelas que padecem qualquer tipo de sofrimento e sofre junto com eles e elas. Deus é nosso compadecente no sentido radical da palavra: ele sofre conosco as dores e sofrimento e as assume como suas transformando-as a partir de dentro. Foi assim que Deus fez ao assumir a condição carnal no presépio de Belém e na cruz do Gólgata.

Em consequência dessa afirmação radical, o cristão é convidado a olhar o mundo a partir da condição e da situação dos crucificados de hoje. Por isso o cristianismo é religião de misericórdia e compaixão. É o que nos lembrou Jürgen Moltmann, um dos maiores teólogos das últimas décadas, falecido no dia de ontem. É da cruz de Jesus Cristo que nasce a Esperança para a humanidade. É dos crucificados da história que nasce um futuro diferente para a humanidade e para a criação.

A afirmação de Moltmann nos ajuda a pensar, a partir de nossa fé cristã, a situação das milhares de pessoas que tudo perderam nas enchentes do Rio Grande do Sul. Algumas delas perderam até mesmo a vida. E junto com as vidas humanas muitas vidas de animais, de plantas e da própria terra e água foram machucadas ou destruídas. Compadecer-se e ter misericórdia que se transforma em solidariedade ativa, é o caminho para acolher e afirmar o Deus presente em cada uma dessas vidas e, a partir desse sagrado encarnado, construir novas relações entre os humanos e com toda a criação para que Deus não mais seja crucificado em suas criaturas, pois é nelas que Ele está presente nos momentos de dor e sofrimento.