Arquivo mensal: julho 2024

A SANTA CEIA OLÍMPICA

Muitos de nós acompanhamos a polêmica em torno a um dos quadros do longo e inovador espetáculo de abertura dos Jogos Olímpicos de Paris. A cena que agitou as redes sociais e provocou a ira de muitos cristãos, principalmente católicos, foi a que representava uma ceia com personagens queer. O órgão oficial de comunicação do Vaticano se pronunciou, assim como os bispos franceses, alguns bispos brasileiros e diversos grupos e personalidades cristãs e até não cristãs.

Aos olhos de muitos, a cena foi interpretada como uma paródia do quadro da Última Ceia de Leonardo da Vinci e, indiretamente, uma ofensa à Última Ceia de Jesus Cristo com os apóstolos e a Eucaristia que, para todos os cristãos, é um Sacramento da presença viva de Deus no meio de nós.

Diante da repercussão, os criadores artísticos do show de abertura das Olimpíadas vieram a público afirmar que não se tratava de uma referência ao quadro de Leonardo da Vinci. Segundo Thomas Jolly e Daphné Burki, na verdade, a cena seria uma releitura LGBTQIA+ do quadro O Festim dos Deuses de Jan Harmensz van Biljer, pintado em torno de 1635 e hoje conservado no Museu Magnin em Dijon.

Uma observação calma e serena da cena olímpica e do quadro de van Biljer dá razão a Jolly e Burki. Mas eles não tem razão ao afirmar que não queriam ofender os cristãos pela razão de que, salvo raras exceções, não apenas no Ocidente mas em quase o mundo inteiro, a primeira associação de quem viu a cena foi com o quadro de Leonardo da Vinci que está na memória viva de todas as pessoas enquanto o quadro de van Biljer é praticamente desconhecido fora do mundo dos espertos em arte. Daí a justa indignação dos expectadores que se sentiram ofendidos e manifestaram seu descontentamento.

Por que esta diferença entre a intenção dos produtores e a recepção dos expectadores? Por uma lei básica da hermenêutica, como nos ensina Paul Ricoeur. O sentido de um texto ou de qualquer obra de arte, nos lembra o filósofo francês, não depende apenas da intenção do autor ao produzi-lo. Depois que tornou pública sua obra, o autor não é mais dono do sentido que lhe quis imprimir. O sentido de uma obra depende também de como os receptores a interpretam pois entre o mundo de sentido do autor e do receptor não há univocidade. São mundos diferentes e, muitas vezes, a obra, ao passar de um para o outro, muda de sentido.

Voltando ao caso concreto da cena da ceia na abertura dos jogos olímpicos, o que para seus autores seria a ceia dos deuses em que Dionísio/Baco ocupava o lugar central, para a grande maioria dos expectadores era a ceia de Jesus Cristo rodeado por discípulos com identidades sexuais indefinidas.

Não creio que Thomas Jolly e Daphné Burki e aqueles e aquelas que planejaram nos mínimos detalhes o espetáculo fossem grosseiramente ingênuos a ponto de ignorar a possível confusão de intepretação a que ela poderia dar origem. Sou mais inclinado a pensar que o fizeram propositalmente utilizando a técnica tão comum na publicidade de criar a ambiguidade para atrair interesse do público. Mas, digo novamente, isso é o que eu interpreto. Não sei se realmente eles pensaram assim. Pode ser que não. E isso só eles poderiam confirmar ou negar.

De qualquer modo, alcançaram o objetivo – direta ou indiretamente – de fazer com que a efêmera cena permanecesse na memória e continue a fazer com que muitos, por bem ou por mal, lembrem da sua obra.

Caíram os cristãos e suas lideranças na armadilha por mim imagina que teria sido criada pelos idealizadores do desfile? Tenho que confessar que sim… Mais uma vez a reação foi o quer provocou a repercussão e isso só mostra a dificuldade que os meios religiosos têm ao lidar com os modernos meios e técnicas de comunicação.

Há um longo caminho pela frente…

Religiões: religar ou excluir?

Foto por Pixabay em Pexels.com

A origem da palavra “religião” é controversa. Muitos sentidos para ela são indicados e cada um tem sua razão de ser. Me atenho aqui a apenas um. “Religião” teria sua origem no verbo “religar” com o sentido de restabelecer a relação, o encontro entre uma realidade e outra.

A maioria dos que adotam este sentido, pensam que religião é restabelecer a conexão entre o humano e o divino. Conexão rompida num passado mítico por alguma ação humana ou divina. Cada tradição religiosa tem um modo particular de pensar a ruptura e o restabelecimento dessa relação.

Mas há um outro sentido para o “religar” que também é plausível. “Religião” seria um modo de restabelecer as relações sociais. Ou seja, quando uma sociedade busca consolidar ou restabelecer uma coesão social, ela constrói um sistema religiosos no qual todos – voluntária ou involuntariamente – se sentem incluídos. Nesse caso, a identificação com a divindade é um meio para amalgamar os diferentes grupos sociais em torno a um projeto comum.

O exemplo mais claro para nós de formação cristã, é a comunidade religiosa da qual somos herdeiros, o judaísmo. Foi em torno ao culto a Javé/Eloim que se construiu a identidade judaica oriunda de diferentes grupos tribais. A fidelidade à aliança entre Javé/Eloim e o povo de Israel é o que garante a unidade e integridade da nação judaica.

Aliança que o cristianismo expande universalmente construindo um povo sem fronteiras étnicas, de gênero ou sociais. Foi a genialidade do apóstolo Paulo que ofereceu a base religiosa para a passagem de uma identidade social étnica à abertura universal onde toda a humanidade é vista como um único povo.

Senso de universalidade herdado pelo Islã quando Maomé faz a experiência de Allá como único Deus que deseja reunir toda a humanidade em um só povo.

Visto em outra perspectiva, desde o lado das realidades políticas, poderíamos citar o caso do Imperador Constantino que viu no cristianismo a possibilidade de religar o Império Romano ameaçado de esfacelamento. Ele não foi o único. Outros reis, imperadores e príncipes revestiram seu poder com a áurea religiosa para construir ou manter, conforme o caso, a unidade política em seus domínios. O cujus regio, eius religio do Tratado de Augsburgo, em 1555, que estabeleceu a trégua entre o católico romano Carlos V e os príncipes que haviam aderido à reforma da Igreja proposta por Lutero, é um outro exemplo clássico do papel das religiões na consolidação do poder político. Mesmo papel que tem a religião civil nos Estados Unidos da América que é, diga-se, um caso muito particular de uma não religião que tem uma clara função religadora da unidade nacional.

Mais recentemente, o “Deus, Pátria e Família” do fascismo salazarista de Portugal, adotado por movimentos totalitários em várias partes da América Latina, é outro exemplo de como a religião pode ser instrumentalizada para a consolidação de uma proposta de sociedade.

Tudo isso me faz pensar numa questão: qual é o papel das religiões numa sociedade? A experiência histórica nos ensina que elas não são apenas instrumentos para religar os humanos ao divino. Elas também têm um papel social. Elas são úteis para ligar os membros da sociedade. Ligação que pode ser inclusiva no modo do cristianismo ou exclusiva na opção dos regimes totalitários e das religiões que a eles se tornam subservientes que excluem da convivência social as pessoas consideradas diferentes ou incômodas para a sociedade

Se passarmos das macro relações sociais às situações do quotidiano na vivência religiosa, fica uma pergunta: a religião, tal qual eu a professo, ajuda a construir relações abertas e confiáveis ou leva ao medo do outro e à exclusão?

Pergunta que, nós, cristãos, deveríamos nos fazer em cada momento em que nos aproximamos da Comunhão.

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