Arquivo mensal: setembro 2024

E DEPOIS DA GUERRA?

A chamada Segunda Guerra Mundial foi a última grande guerra que teve como palco de conflitos o Velho Continente. A Guerra Fria resultante da polarização entre o mundo capitalista sob a hegemonia dos Estados Unidos e os países socialistas sob a tutela soviética deslocou os conflitos para as periferias. Coreia, Cuba, Vietnam, Camboja, Birmânia, Guatemala, El Salvador Nicarágua, Angola, Moçambique, Argélia, Iêmen, Colômbia, Afeganistão… a lista de conflitos é infindável com milhões de mortos que ultrapassaram em dezenas de vezes os que morreram, todos os lados somados, na Primeira e na Segunda Guerras Mundiais. Mas como eram mortos da periferia, eram apenas números e, muitas vezes, subestimados para que a crueldade dos reais patrocinadores não chamasse a atenção.

Apenas como exemplo, nos Estados Unidos, a guerra do Vietnam só se tornou insustentável quando os caixões começaram a desembarcar aos milhares nos aeroportos norte-americanos. Foram em torno de 60 mil soldados mortos e mais de 200 mil feridos. Do lado vietnamita, estima-se em um milhão e duzentos mil soldados mortos e dois milhões de civis também vítimas fatais da guerra. Ao todo, mais de três milhões de mortos. A Guerra da Coreia havia deixado aproximadamente o mesmo número de mortos entre os nativos e o mesmo número entre os soldados norte-americanos.

No levantamento “How Death Outlives War: The Reverberating Impact of the Post-9/11 Wars on Human Health” (Como a morte sobrevive à guerra: o impacto reverberante das guerras pós-11 de setembro na saúde humana) produzido pelo Watson Institute International & Public Affairs, da Brown University da cidade de Providence, Estado de Rode Island, estima-se que a Guerra ao Terror consequente aos atentandos do 11 de setembro de 2001 às Torres Gêmeas de Nova Iorque, tenha resultado em pelo menos 4,5 milhões de pessoas mortas  no Afeganistão, Paquistão, Iraque, Síria, Iêmen, Líbia e Somália. Agregue-se a esse número de por si assustador os milhões de refugiados que foram morrer nas costas do Mediterrâneo ou no Mar do Norte.

O perigo da guerra só assustou a Europa quando, nos anos 1990, a desintegração da antiga Iugoslávia resultou numa série de conflitos étnicos. Mas o conflito foi visto, majoritariamente, como um resquício da barbárie comunista que não passaria da periferia do civilizado Ocidente.

O cenário mudou quando, em 22 de fevereiro de 2022, a Rússia, reagindo às provocações da OTAN, ocupou partes do território ucraniano com maioria da população russófila. O conflito que todos achavam seria breve, prolonga-se por mais de dois anos e ganhou escala internacional com o envolvimento, direto ou indireto, das grandes potências econômicas, políticas e militares do mundo. Todos os atores sabem que um passo acima no envolvimento da OTAN no conflito pode levar a graves consequências para a Europa.

Mais recentemente, é o conflito na Faixa de Gaza preocupa o Ocidente. A Faixa de Gaza não está na Europa. Mas está na esquina da Europa. E Israel é um enclave ocidental no Oriente Médio. A aposta do governo israelense de aproveitar a ocasião do ataque do Hamas para regionalizar o conflito, pode extrapolar a própria região e chegar à Europa.

Há muitos conflitos bélicos no mundo. Estima-se em 50 as guerras ativas no mundo. Mas as que chamam a atenção, hoje, do mundo, são as duas últimas citadas que se tornaram guerras “gameficadas” do ponto de vista dos expectadores, mas que seguem sendo tristes carnificinas para os que as sofrem, tanto soldados como civis.

Quando estas guerras vão terminar? Difícil saber, infelizmente. De Gaza e da Ucrânia pouco ou nada restará. Serão regiões destruídas e que necessitarão serem reconstruídas totalmente. Infraestruturas de transporte, energia, saúde, educação, agrícolas… tudo terá que ser refeito a um custo que já está sendo calculado por aqueles que ganham com a destruição e esperam ganhar outro tanto com a reconstrução.

Mas há algo que não poderá ser reconstruído: as vidas humanas. Tanto as vidas perdidas como as vidas dos sobreviventes que permaneceram nos locais ou que puderam fugir para longe. Como serão suas vidas depois das guerras?

A cada dia buscamos nos diversos meios informações sobre as guerras. O rádio, a televisão, os jornais e portais só falam da capacidade ou incapacidade de um ator dobrar o outro e forçá-lo a aceitar a derrota. Mas poucos se perguntam pelas vítimas presentes e pelas vítimas futuras destas guerras.

Talvez seja a hora de se fazer a pergunta: e depois da guerra, o quê? O que será das pessoas e dos povos depois de tanto ódio e violência? Poderão voltar a conviver como vizinhos? Voltarão a ser amigos como o foram em tempos passados? Ou o ódio e a destruição tomaram para sempre conta dos corações das pessoas estendendo-os por gerações e gerações? Que futuro queremos para a humanidade? Os patrocinadores das guerras já têm as suas respostas que divulgam a cada dia pelos meios de comunicação e pelas redes digitais. É hora de dizer não a essas respostas e começar espalhar novas possibilidades de convivência entre povos e nações.

É Primavera!

Foto por Erik Karits em Pexels.com

Mesmo que, no calendário oficial, a primavera só comece no próximo dia 21 de setembro, na prática, o inverno já se foi. Ainda algumas frentes frias, cada vez mais rápidas e menos intensas, nos lembram da transição que está terminando. É bom ver as árvores brotando e as flores colorindo pátios, quintais e campos e ouvir os sabiás preparando os ninhos e buscando suas parceiras para a festa do amor que resultará em novos pássaros cruzando os céus.

Um tempo muito bonito que, esperamos, encerre uma temporada em que os eventos climáticos extremos se mostraram cada vez mais comuns e devastadores. Ainda no outono, o Rio Grande do Sul viveu o desastre climático mais amplo da história recente. A quase totalidade dos municípios do Estado foi atingida por chuvas torrenciais que escoaram as águas numa rapidez nunca antes vista para os rios que, nas partes altas de seus percursos, passaram arrasando e arrastando tudo o que encontravam pela frente até se espalharem pela planície do Delta do Jacuí onde mantiveram, durante um mês, bairros inteiros das cidades da Região Metropolitano de Porto Alegre inundados.

As perdas humanas só não foram maiores em função da ativa solidariedade que cresceu junto com as águas. Os danos materiais ainda não foram totalmente calculados. Sobre as sequelas sócio emocionais, só o tempo dirá das dimensões que alcançarão. E, lembremos, as enchentes de abril foram uma reprise ampliadas das de setembro de 2023 às quais quase ninguém – principalmente as autoridades públicas – deram a devida atenção.

A Amazônia e, com ela, boa parte do Brasil, está vivendo a maior seca de que se tem registro. E, com ela, os incêndios que destroem campos, plantações, florestas, o pantanal e alcançam as cidades. A seca é o fator climático. Mas está mais do que provado de que a maioria dos focos de fogo tiveram sua origem em mãos humanas.

A nível global, vivemos o mês de agosto mais quente desde que há registros das temperaturas: 1,5 graus Celsius acima da média da era pré-industrial. É pouco!, dizem os céticos climáticos. Mas o suficiente para elevar os níveis dos mares e tornar áreas costeiras de todos os continentes perigosamente inabitáveis. Sem falar das outras alterações que os dados coletados, ordenados e divulgados pelos cientistas nos mostram a cada dia.

Mesmo assim, numa atitude de dissonância climática coletiva, continuamos consumindo, comerciando e produzindo como se nada disso estivesse a acontecer e o futuro da humanidade e de todas as espécies vivas que conosco coabitam a Casa Comum que chamamos de Planeta Terra não estivesse em risco. Um futuro apocalíptico que a cada vez se mostra mais próximo. Não é uma questão de milhões nem de milhares de anos. É uma questão de décadas ou, talvez, de anos apenas.

O que fazer para que os pássaros continuem voando, as flores desabrochando, as águas em seu ciclo de vida evaporando das florestas, circulando pelos rios aéreos, condensando em nuvens para cair em gotas que irrigam as árvores que nos alberga com sua sombra suave e nos alimentam com suas folhas e frutos?

O primeiro passo é pessoal: livrar-nos da cultura produtivista e consumista que afirma serem os recursos naturais infinitos e a nossa possibilidade de consumo ilimitada. É uma mentira deslavada que precisa ser passada a limpo até darmo-nos conta de que já ultrapassamos a capacidade de reposição do Planeta Terra e estamos caminhando para o abismo econômico onde só os mais poderosos sobreviverão.

Como alternativa temos a cultura da frugalidade: produzir e consumir apenas aquilo que é necessário. Não é um contentar-se com pouco. É transitar para uma economia com mais qualidade e menos quantidade, que priorize bens duráveis e sustentáveis e processos que não tenham apenas em conta o prazer humano, mas a viabilidade nos ecossistemas específicos e no conjunto dos seres vivos.

E neste ano de 2024 temos uma segunda possibilidade: as eleições municipais. Afinal, o município é nossa primeira “casa comum” social. É nele que se fazem as opções que primeiro nos afetam na vida cotidiana. Na hora de discernir em qual candidato vamos votar, é importante que coloquemos a variante ecológica no jogo. Para os/as prefeitos/as e vereadores/as que pretendem a reeleição, é bom observar como, na atual gestão, manejaram as questões ambientais na cidade: licenciamento ambiental para obras e loteamentos; o manejo dos resíduos industriais e domiciliares; o cuidado com os parques e praças; o plantio de árvores em áreas degradadas; o tipo de estímulo fiscal a empreendimentos que geram passivos ambientais.

Os mesmos critérios podem ser usados para candidatos/as novatos/as. Observar bem suas propostas e observar os partidos aos quais eles pertencem. Nas Assembleias Legislativas e no Congresso Nacional, os partidos destes candidatos votaram a favor ou contra a desregulamentação ambienta? São daqueles que queriam “passar a boiada” sobre as leis ambientais e acabar com o pouco que ainda temos de biomas preservados que guardam a sobrevida de tantas espécies vegetais, animais e de nós humanos?

É uma questão importante para pensarmos neste mês de setembro em que a primavera se avizinha com o sol que brilha um pouco mais a cada dia, a vegetação que renasce depois do frio ou da seca e o ar que, dependendo de nossas opções, poderá continuar a encher nossos pulmões de esperança.