Arquivo mensal: dezembro 2024

TODA FAMÍLIA É SAGRADA

No primeiro domingo depois do Natal, a Igreja Católica Romana celebra a Festa da Sagrada Família. Nossa fé afirma que Deus se fez humano no ventre de Maria e dela nasceu o Salvador da humanidade na estrebaria de Belém pois na cidade de Davi ninguém quis acolher o jovem casal de migrantes que, por imposição do Imperador Romano, regressavam à sua terra natal para o censo obrigatório.

Uma família sagrada. Uma família santa e modelar. Uma família nada normal. Segunda o texto bíblico de Lucas e de Mateus, a geração do Messias Jesus não teve causa humana. Foi ação do próprio Deus pois, segundo a fé judaico-cristã e de todas as religiões, a Salvação é obra única e exclusiva de Deus. Se um humano, no caso José, fosse o causador do nascimento do Salvador, não haveria necessidade de fé nem de religião, pois seriam os humanos capazes de salvarem-se por si mesmo.

Para dizer que a causa da Salvação é Deus, a Igreja afirmou, desde o seu princípio, a virgindade de Maria. Se uma mulher que nunca tivera relações sexuais com um homem podia gerar um filho, isso só podia ser obra de Deus. Como contrapartida, a Igreja atribuiu a José o título de “pai putativo” de Jesus. Em algumas orações, ainda encontramos esta formulação um tanto estranha aos ouvidos modernos. “Pai putativo” é uma definição técnica do direito romano pela qual se diz que algo foi feito ou contraído indevidamente, mas de boa-fé, por ignorância dos motivos que o invalidam. No caso, José é o pai putativo de Jesus. Se seguirmos, no entanto, o Evangelho de Mateus, José sabia que Jesus não era seu filho e sabia também os motivos disso acontecer. No texto de Mateus, o anjo afirma a José que isso deveria acontecer para que a Salvação de Deus chegasse à humanidade. Sabendo disso, José assumiu oficialmente o menino que iria nascer de Maria e, quando isso aconteceu, deu-lhe, seguindo a indicação do anjo, o nome de Jesus. Na tradição bíblica, dar nome a alguém é reconhece-lo como seu. E, sempre na tradição hebraica, José e Jesus têm a mesma raiz etimológica. Numa linguagem mais compreensível ao modo corrente de falar, José é o pai adotivo ou padrasto de Jesus e Jesus é enteado de José.

A Sagrada Família de Nazaré que celebramos no primeiro domingo depois do Natal, era uma família nada normal para os padrões judaicos de sua época. E também não o seria para o imaginário comum dos discursos religiosos atuais. Mas uma família muito próxima às famílias reais brasileiras tal qual registradas nos dados do Censo 2022 do IBGE. Famílias cada vez menores (a média de pessoas por família é de 3,07 pessoas), com um número cada vez menor de filhos (média de 1,4 filhos por mulher), famílias cada vez mais monoparentais (30,7 % das famílias são formadas por casais com filhos), 27,5% de casais de sexo diferente vivendo juntos sem ter filhos e 0,54% de famílias formadas por duas pessoas do mesmo sexo.

Segundo a tradição, a Sagrada Família era composta por apenas três pessoas (quase na média das famílias brasileiras), Maria teve apenas um filho (um pouco menos que a média das mulheres brasileiras), José e Maria viveram juntos sem terem outros filhos além de Jesus (assim como 27,5% dos casais heterossexuais brasileiros) e, quando José faleceu, Maria ficou morando sozinha com Jesus até que Ele deixar a casa de Nazaré para iniciar sua missão.

Foi esta família concreta que Deus fez sua “casa” para manifestar a salvação ao mundo. O Verbo de Deus feito carne viveu a concretude das famílias de seu tempo e soube nelas manifestar a Graça de Deus como lembra o Papa Francisco na grandiosa e tão esquecida Amoris Laeititia: O próprio Jesus nasce numa família modesta, que à pressa tem de fugir para uma terra estrangeira. Entra na casa de Pedro, onde a sua sogra está doente (cf. Mc 1, 29-31), deixa-Se envolver no drama da morte na casa de Jairo ou no lar de Lázaro (cf. Mc 5, 22-24.35-43; Jo 11, 1-44), ouve o pranto desesperado da viúva de Naim pelo seu filho morto (cf. Lc 7, 11-15); atende o grito do pai do epiléptico numa pequena povoação rural (cf. Mc 9, 17-27). Encontra-Se com publicanos, como Mateus ou Zaqueu, nas suas próprias casas (cf. Mt 9, 9-13; Lc 19, 1-10), e também com pecadoras, como a mulher que invade a casa do fariseu (cf. Lc 7, 36-50). Conhece as ansiedades e as tensões das famílias, inserindo-as nas suas parábolas: desde filhos que deixam a própria casa para tentar alguma aventura (cf. Lc 15, 11-32) até filhos difíceis com comportamentos inexplicáveis (cf. Mt 21, 28-31) ou vítimas da violência (cf. Mc 12, 1-9). Interessa-Se ainda pela situação embaraçosa que se vive numas bodas pela falta de vinho (cf. Jo 2, 1-10) ou pela recusa dos convidados a participar nelas (cf. Mt 22, 1-10), e conhece também o pesadelo que representa a perda duma moeda numa família pobre (cf. Lc 15, 8-10)”.

Que a Festa da Sagrada Família seja um momento de olharmos para a realidade das famílias brasileiras e, como nos pede o Papa Francisco na Amoris Laetitia, deixemos de lado as teses abstratas e possamos olhar com olhos compassivos e misericordiosos a cada família concreta em seus sofrimentos, alegrias, buscas e esperanças e nelas perceber a sacralidade muitas vezes imperceptível aos olhos humanos.

ADVENTO É ESPERANÇAR!

“O futuro a Deus pertence!” diz a sabedoria popular. E a voz do povo é a voz de Deus! No que tange ao quesito “futuro”, nada mais exato do que dizer que o único que sabe o nosso futuro é Deus. Quantos planos já fizemos, quantos sonhos já sonhamos, quantos caminhos desenhamos, quantos mundos desenhamos… No entanto, nem sempre o planejado se realizou, os sonhos se desfizeram em fumaça, os caminhos se perderam no tempo e quantas pinturas as chuvas do tempo desfizeram!

Não conhecer o futuro pode ser angustiante. Mas também pode ser reconfortante. Faz-nos tremer o fato de não ter a segurança sobre o que vem pela frente. Faz-nos vibrar a possibilidade de que os males do presente possam ser no futuro superados, o que nos prende possa enfim ser desatado e possamos caminhar livres e realizados em todas as dimensões.

Já imaginou se soubéssemos hoje tudo o que nos vai acontecer amanhã? No amanhã próximo do dia que vai nascer e no amanhã longínquo das décadas que virão? Não teria graça. Com certeza! Seria muito monótono. O bom da vida é o imprevisível, o surpreendente o totalmente novo que hoje não pode ser vislumbrado e nem sequer imaginado mas que já está anunciado e, temos certeza, vai acontecer.

Entre as duas atitudes extremas – a segurança absoluta e o futuro totalmente aberto – está o esperançar. O caminhar com os pés no chão, os sonhos no infinito e a mente e as mãos em ação. Comprometer-se com o presente sem deixar de sonhar o futuro. E viver o futuro já no presente que ainda precisa ser transformado.

É a esse esperançar que nos convida o Tempo de Advento. A exemplo de Maria que, ao saber de que o futuro de Deus estava para acontecer, não esqueceu de acudir à sua prima Isabel. Saiu da segurança de Nazaré para o inóspito das montanhas levando consigo a esperança do futuro já a acontecer em seu ventre e no ventre do mundo.

E do encontro da dureza do presente no ventre de Isabel à leveza do futuro do ventre de Maria, nasce o canto da esperança no Deus que desconcerta os corações dos soberbos, derruba do trono os poderosos e exalta os humildes, sacia de bens os famintos e despede os ricos de mãos vazias.

O tempo se aproxima. Faltam poucos dias. Vamos festejar. Vamos esperançar. O futuro já e presente para os que tem a cabeça nas nuvens da esperança e os pés no chão da humanidade, aqueles e aquelas que sabem esperançar.

ADVENTO É JÚBILO

O Terceiro Domingo do Advento é o Domingo da Alegria. Em latim, é o Domingo Gaudete. Mesmo que na tradição da Língua Portuguesa se use a palavra “alegria”, a tradução mais fiel seria Domingo do Júbilo. Mas isso é apenas uma preciosidade linguística. Alegria e júbilo são sentimentos muito próximos. Poder-se-ia dizer, praticamente iguais.

Voltando ao Domingo do Júbilo ou da Alegria, neste terceiro domingo o uso de instrumentos musicais, de flores e outros adereços litúrgicos pode ser feito com menos moderação que o recomendado nos outros domingos deste tempo litúrgico. Qual a razão de tudo isso? Simples: o Terceiro Domingo do Advento indica que a metade do percurso na espera da chegada do Filho de Deus já ficou para trás! Está se aproximando o dia da grande festa da manifestação de Deus no meio de nós em forma humana na criança que nasceu de Maria de Nazaré em uma estrebaria em Belém da Judeia, protegida por José, rodeada por pastores e animais e festejada pelos anjos do céu.

Mas o que mais chama a atenção da maioria das pessoas é que, neste Terceiro Domingo do Advento, o Presidente da Celebração pode usar vestes de cor rosa. Muitos se admiram desta cor litúrgica utilizada apenas duas vezes por ano, neste domingo e no Quarto Domingo da Quaresma, o Domingo Laetare, literalmente, Domingo da Alegria.

Mas, por que a cor rosa? No Ocidente moderno, a cor rosa é ligada à feminilidade, sensibilidade, carinho, ternura, afeto. Para muitos marcados por uma tradição machista e preconceituosa, o rosa é também identificado com a homossexualidade ou, pelo menos, com uma masculinidade duvidosa. Mesmo hoje e na cultura urbana, são poucos os homens que se permitem utilizar alguma vestimenta de cor rosa. Uma das exceções são os presbíteros no terceiro domingo do Advento! E isso sempre levanta comentários nada agradáveis de parte de alguns fieis.

Mas a cor rosa, assim como as demais cores, não tem o mesmo significado em todos os tempos e todos os lugares. O significado das cores é algo que se constrói culturalmente e varia de lugar para lugar, de tempo para tempo e de cultura para cultura.

A maioria dos manuais de Liturgia e das páginas da Internet que tratam de temas litúrgicos somente afirma que se usa rosa porque é o Domingo da Alegria. Mas por que o rosa e não outra cor. Não encontrei nenhuma explicação que fosse satisfatória nos livros, blogs e sites litúrgicos. Curioso, fui buscar na História da Arte. E encontrei uma informação preciosa. A cor rosa ganhou destaque ao aparecer na história da arte associada à religião. Nas obras de Duccio e Cimabue do século XIII, por exemplo, o Menino Jesus era retratado vestido de rosa, que era a cor associada ao corpo de Cristo. Já a figura de Maria era revestida com roupas de cor azul e o divino e tudo o que a ele era associado, de cor púrpura.

Tudo aquilo que fosse associado ao divino, era representado com tons de púrpura. Quanto mais divino, mais forte a cor. Quanto mais distanciado da divindade absoluta, a cor ficava mais esmaecida. Ora, o rosa é o meio caminho entre o branco e o púrpura. Ele representa a divindade a caminho de manifestar-se plenamente na pessoa de Jesus de Nazaré nascido de Maria em Belém da Judeia. Para dizer, de forma concreta e visual esse fato que tanta alegria traz para a humanidade, a cor rosa é a cor do Terceiro Domingo do Advento. No dia 25, o rosa se transforma em vermelho e a alegria é plena!

Rejubilemo-nos então, sem medo e sem preconceito, com a Salvação que já está no meio de nós.

ADVENTO: TEMPO DE HUMANIZAR

Presente de Deus que não e uma coisa, um objeto, uma comida e muito menos é carregado em um trenó por um senhor estranho vestido de vermelho. O presente que Deus traz para a humanidade vem carregado no seio materno de Maria e é o próprio Deus que se faz presente no meio de nós na pessoa do menino indefeso nascido numa estrebaria em Belém da Judeia.

É uma data paradoxal. Nela dizemos que o que há de vir, na verdade, já aconteceu e que o futuro da humanidade está num evento passado que aconteceu há dois mil e poucos anos. Um paradoxo apenas aparente. Na verdade, a temporalidade que o Advento propõe a celebrar não é a cronológica, o suceder de segundos, minutos, horas, dias, semanas, anos que constituem o curto período de nossas vidas e da humanidade. A temporalidade que o Advento convida a celebrar é a kairológica, a fatualidade da presença de Deus não apenas em meio à humanidade mas na própria humanidade e não em qualquer humanidade. Deus se faz presente na humanidade mais frágil, mais desprezada e, por isso, mais temida quando nela se reconhece a presença de Deus.

Quem é Maria? Quem é José? Quem é aquele que vai nascer? São habitantes da Judeia que, para sobreviver, migraram para a Galileia e que, ao voltar para sua cidade natal, ninguém os reconhece como dos seus e, mesmo estando Maria a ponto de dar à luz, encontram como único lugar para abrigar-se da noite, do vento e do frio do inverno, uma gruta que servia de abrigo para os animais.

Mas é neles que Deus se faz presente no meio de nós. Essa é a boa notícia dos novos tempos que estão por chegar. O dia em que todas as pessoas, por mais humilde e sofrida que seja sua condição, sejam reconhecidas como morada de Deus. Para isso é preciso ter o olhar atento dos pastores que vigiam noite e dia, a pureza dos anjos que não fazem acepção de pessoas e a sabedoria dos estrangeiros que vem de longe para adorar o novo rei que vem governar o mundo não com o poder das armas, mas com a suavidade de uma humanidade plenamente assumida e transfigurada.