Arquivo mensal: janeiro 2025

Sobre muros, migrantes e nacionalidades

No final da década de 1980, quando o Império Soviético ruiu, prometeram-nos um mundo globalizado e sem fronteiras. Mera ilusão! De lá para cá, tudo caminhou por um rumo muito diferente.

O que seria um mundo aberto, está se tornando um espaço cada vez mais dividido por muros. Muros de todos os tipos: de concreto, eletrônicos, de arame farpado, cercas elétricas, fossas. Quando caiu o famigerado Muro de Berlim, restavam apenas onze barreiras separando países. Hoje, 35 anos depois, o número subiu para 70! E, pelo que tudo indica, vai continuar aumentando.

A maioria dos muros mais antigos foram construídos para conter conflitos entre nações. Os mais recentes foram ou estão sendo construídos para conter migrantes. É o caso da barreira que separa os Estados Unidos do México que tenta evitar a entrada de migrantes da América Latina e de outros países do mundo inteiro no tão propalado “sonho americano” ou os construídos na Europa para conter o ingresso de africanos e asiáticos no Velho Continente.

O irônico, no segundo caso, é que a Europa foi, até tempos muito recentes, um continente exportador de migrantes. Desde o século XVI até a metade do século XX, milhões de europeus deixaram aquelas terras para buscar uma vida melhor na América Latina, África, Ásia e Oceania. Só da Itália, entre 1850 e 1930, saíram 30 milhões de pessoas.

E é sempre bom lembrar, não vinham de livre e espontânea vontade. Partiam fugindo da fome e da guerra e iludidos pela propaganda do governo italiano que queria se livrar da massa empobrecida resultante da modernização da indústria e da agricultura. O governo italiano e o Império Brasileiro pagavam às companhias marítimas alemãs e holandesas “por cabeça” pelos italianos que conseguiam arregimentar e tirar da Itália para qualquer lugar do mundo. O mesmo aconteceu em grande escala na Alemanha, França, Espanha, Portugal, Polônia, Rússia. Com números menos expressivos, outros países da Europa viveram o mesmo fenômeno.

Entre os que fizeram esta travessia estavam meus bisavôs e bisavós que, no ano de 1876, saíram do Vêneto e vieram para uma América sem saber exatamente para onde estavam sendo levados. Se aquele navio em que foram embarcados em Gênova tivesse sido destinado pelas empresas de navegações para dirigir-se a um outro porto qualquer, hoje eu poderia ser um neozelandês, australiano, chileno, argentino, venezuelano, mexicano, canadense ou até mesmo norte-americano!

Isso me faz pensar que, nascer em um país e ter determinada nacionalidade, não é uma escolha. É um acaso! E isso é ainda mais evidente quando nos damos conta que as fronteiras entre os países são de constituição extremamente recente. A maioria tem menos de 250 anos! A Itália que conhecemos hoje só foi constituída em 1870. A Alemanha com a atual configuração é de 1871. O território atual da França é do fim do século XIX. A Espanha foi unificada em 1937. Os países latino-americanos têm, com exceção do Haiti, menos de 200 anos. O atual território dos Estados Unidos da América foi, em sua maior parte, tomado do México à força no século XIX e outras partes compradas da Rússia ou da Espanha.

A humanidade surgiu na África há cerca de 2,5 milhões de anos. De lá foi migrando para outros continentes até que, a aproximadamente 300 mil anos, surgiu a espécie da qual fazemos parte, o homo sapiens. Não havia muros! Os humanos primitivos e depois os sapiens se deslocavam de um lado para outro conforme suas necessidades.

As primeiras muralhas para separar povos foram construídas por impérios. A Muralha da China, no segundo século antes de Cristo para conter os mongóis que vinham do norte. No segundo século depois de Cristo, os imperadores romanos Antonino e Adriano mandaram construir muralhas na atual Grã-Bretanha para conter os bárbaros nórdicos. Outras muralhas foram construídas posteriormente. Com o tempo, todas elas caíram. Assim como poderão cair as fronteiras construídas nos últimos séculos para separar seres humanos que ficaram de um lado ou de outro não por escolha, mas na quase totalidade dos casos, por mero acaso.

Essa breve e superficial rememoração histórica não diminui a dor dos milhares de migrantes que estão sendo expulsos de forma humilhante dos Estados Unidos. E a humilhação é proposital não apenas para impedir outros de tentarem entrar no sonho que se tornou inferno. O objetivo maior é mostrar que os norte-americanos são membros de uma humanidade superior e que todos os outros são “sacos de lixo”, como afirmou a Secretária de Segurança do Governo Trump, Kristi Noem. Muito provavelmente ela também seja uma descendente de imigrantes e se esqueça que um dia seus antepassados também foram chamados de “sacos de lixo” ao serem expurgados da Europa assim como o foi a senhora Mary Anne MacLeod, que deixou a Escócia em direção aos EUA em busca de trabalho como empregada doméstica, só regularizando a sua situação depois de 12 anos no país. Se naquele tempo as normas para os migrantes fossem as atuais, ela teria sido regressada à sua terra natal e seu filho não seria hoje o Presidente dos Estados Unidos da América.

Diante deste espetáculo de desumanidade, cabe lembrar quem somos e de onde viemos. E demonstrar, com palavras e ações, solidariedade a todos os que, buscando uma vida m1ais digna, deixam suas terras e partem para outros lugares. Seja este lugar o Brasil, a Europa, a América do Norte ou qualquer outro lugar do mundo. De um modo ou de outro, todos somos migrantes ou filhos de migrantes e não há muro que detenha o sentimento de nos sentirmos todos e todas parte da mesma e única humanidade.

O quinto cavaleiro do Apocalipse.

Há apenas quatro anos a humanidade foi assolada pela pandemia provocada pelo Covid 19. Um vírus invisível a olho nu espalhou-se rapidamente pelo mundo inteiro causando um excesso de mortes de em torno de 22 milhões de pessoas e prejuízos econômicos, sociais, educacionais e emocionais que permanecerão por décadas.

Aqui no sul do Brasil, vivemos a tragédia das enchentes. Nos vales dos rios que compõem a Bacia do Jacuí, as águas desceram arrastando tudo o que encontravam pela frente: encostas, estradas, pontes, casas, cidades inteiras… Na Região Metropolitana, no Delta do Jacuí, as correntes encontraram repouso e descansaram na planície alagando durante quase um mês os bairros onde moram as populações mais empobrecida. Morte, dor e destruição.

Nestes dias estamos assistindo, qual espetáculo hollywoodiano, os incêndios na região de Los Angeles. A Califórnia, o Estado mais rico do mundo, impotente diante do fogo que já causou prejuízo de quase um trilhão de dólares e dezenas de mortes.

Enquanto isso, em Gaza, na Ucrânia, no Sudão, Moçambique, Iêmen, Etiópia, Líbia, Congo e tantos outros lugares esquecidos pela lógica geopolítica que domina o mundo, as guerras seguem destruindo infraestruturas construídas com o esforço de gerações, matando milhões de inocentes, deixando outros tantos na fome ou obrigando-os a deixar suas famílias, terras, casas…

Na pandemia, dizíamos que, depois dela, o mundo seria outro. Que nada! O negacionismo sanitário continua a navegar nas redes sociais e é bandeira política que elege vereadores, deputados, senadores e presidentes.

Depois das enchentes, o ogro-negócio continua a devastar o Bioma Pampa e os portoalegrenses reelegeram um negacionista climático para sanar os problemas que ele dizia não existirem.

Tenho minhas fundadas dúvidas quanto à capacidade dos cidadãos californianos e norte americanos em geral abdicaram de seu posto de maiores poluidores per capita do mundo.

Quanto às guerras, sem elas, o capitalismo não sobrevive. Elas garantem as matérias primas e a destruição generativa de novos, imensos e rápidos lucros para o capital especulativo que se autosatisfaz na lógica dos algoritmos programados apenas para gerar mais e mais lucros sem se importar com a vida e a morte das pessoas e dos outros seres vivos reais.

Há esperança de que a humanidade sobreviva aos quatro Cavaleiros do Apocalipse? Como fazer para resistir à peste, à fome, à guerra e à morte provocada pelas catástrofes ambientais e pelas guerras imorais? Qual dessas ameaças é a mais ameaçadora?

Temo que nenhuma das quatro seja a que mais devamos que temer. Talvez seja a quinta ameaça, o Quinto Cavaleiro o mais tenebroso. Ele se chama Ignorância Consentida. Ela consiste em tomar conhecimento dos fatos, mas não aceitar que eles nos concernem pessoalmente e exigem de cada sujeito uma ação pessoal e coletiva. É o indiferentismo gnosiológico, fruto do egocentrismo que permite ver e sentir o mundo desabar ao nosso redor e pensar que isso tudo não nos diz respeito. É o torpor provocado por doses contínuas de narcótico eletrônico injetado pelas mídias sociais por aqueles que só ganham com a destruição.

Há cura? Não sei… Temo que não. Espero que sim! Luto para que haja e tento somar-me aos que tomaram este caminho e convidar outros para nele entrarem. Que a inocência dos que não se deixaram contaminar pelo pecado original da ganância desenfreada nos proteja nesta batalha que para alguns pode parecer insana, mas é o que faz a humanidade ser, verdadeiramente, humana.