Arquivo do autor:Vanildo Luiz Zugno

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Sobre Vanildo Luiz Zugno

Espaço para publicação de textos teológicos e áreas afins. Aberto a todos aqueles e aquelas que desejam compartilhar suas reflexões e experiências teológicas e religiosas.

A SANTA CEIA OLÍMPICA

Muitos de nós acompanhamos a polêmica em torno a um dos quadros do longo e inovador espetáculo de abertura dos Jogos Olímpicos de Paris. A cena que agitou as redes sociais e provocou a ira de muitos cristãos, principalmente católicos, foi a que representava uma ceia com personagens queer. O órgão oficial de comunicação do Vaticano se pronunciou, assim como os bispos franceses, alguns bispos brasileiros e diversos grupos e personalidades cristãs e até não cristãs.

Aos olhos de muitos, a cena foi interpretada como uma paródia do quadro da Última Ceia de Leonardo da Vinci e, indiretamente, uma ofensa à Última Ceia de Jesus Cristo com os apóstolos e a Eucaristia que, para todos os cristãos, é um Sacramento da presença viva de Deus no meio de nós.

Diante da repercussão, os criadores artísticos do show de abertura das Olimpíadas vieram a público afirmar que não se tratava de uma referência ao quadro de Leonardo da Vinci. Segundo Thomas Jolly e Daphné Burki, na verdade, a cena seria uma releitura LGBTQIA+ do quadro O Festim dos Deuses de Jan Harmensz van Biljer, pintado em torno de 1635 e hoje conservado no Museu Magnin em Dijon.

Uma observação calma e serena da cena olímpica e do quadro de van Biljer dá razão a Jolly e Burki. Mas eles não tem razão ao afirmar que não queriam ofender os cristãos pela razão de que, salvo raras exceções, não apenas no Ocidente mas em quase o mundo inteiro, a primeira associação de quem viu a cena foi com o quadro de Leonardo da Vinci que está na memória viva de todas as pessoas enquanto o quadro de van Biljer é praticamente desconhecido fora do mundo dos espertos em arte. Daí a justa indignação dos expectadores que se sentiram ofendidos e manifestaram seu descontentamento.

Por que esta diferença entre a intenção dos produtores e a recepção dos expectadores? Por uma lei básica da hermenêutica, como nos ensina Paul Ricoeur. O sentido de um texto ou de qualquer obra de arte, nos lembra o filósofo francês, não depende apenas da intenção do autor ao produzi-lo. Depois que tornou pública sua obra, o autor não é mais dono do sentido que lhe quis imprimir. O sentido de uma obra depende também de como os receptores a interpretam pois entre o mundo de sentido do autor e do receptor não há univocidade. São mundos diferentes e, muitas vezes, a obra, ao passar de um para o outro, muda de sentido.

Voltando ao caso concreto da cena da ceia na abertura dos jogos olímpicos, o que para seus autores seria a ceia dos deuses em que Dionísio/Baco ocupava o lugar central, para a grande maioria dos expectadores era a ceia de Jesus Cristo rodeado por discípulos com identidades sexuais indefinidas.

Não creio que Thomas Jolly e Daphné Burki e aqueles e aquelas que planejaram nos mínimos detalhes o espetáculo fossem grosseiramente ingênuos a ponto de ignorar a possível confusão de intepretação a que ela poderia dar origem. Sou mais inclinado a pensar que o fizeram propositalmente utilizando a técnica tão comum na publicidade de criar a ambiguidade para atrair interesse do público. Mas, digo novamente, isso é o que eu interpreto. Não sei se realmente eles pensaram assim. Pode ser que não. E isso só eles poderiam confirmar ou negar.

De qualquer modo, alcançaram o objetivo – direta ou indiretamente – de fazer com que a efêmera cena permanecesse na memória e continue a fazer com que muitos, por bem ou por mal, lembrem da sua obra.

Caíram os cristãos e suas lideranças na armadilha por mim imagina que teria sido criada pelos idealizadores do desfile? Tenho que confessar que sim… Mais uma vez a reação foi o quer provocou a repercussão e isso só mostra a dificuldade que os meios religiosos têm ao lidar com os modernos meios e técnicas de comunicação.

Há um longo caminho pela frente…

Religiões: religar ou excluir?

Foto por Pixabay em Pexels.com

A origem da palavra “religião” é controversa. Muitos sentidos para ela são indicados e cada um tem sua razão de ser. Me atenho aqui a apenas um. “Religião” teria sua origem no verbo “religar” com o sentido de restabelecer a relação, o encontro entre uma realidade e outra.

A maioria dos que adotam este sentido, pensam que religião é restabelecer a conexão entre o humano e o divino. Conexão rompida num passado mítico por alguma ação humana ou divina. Cada tradição religiosa tem um modo particular de pensar a ruptura e o restabelecimento dessa relação.

Mas há um outro sentido para o “religar” que também é plausível. “Religião” seria um modo de restabelecer as relações sociais. Ou seja, quando uma sociedade busca consolidar ou restabelecer uma coesão social, ela constrói um sistema religiosos no qual todos – voluntária ou involuntariamente – se sentem incluídos. Nesse caso, a identificação com a divindade é um meio para amalgamar os diferentes grupos sociais em torno a um projeto comum.

O exemplo mais claro para nós de formação cristã, é a comunidade religiosa da qual somos herdeiros, o judaísmo. Foi em torno ao culto a Javé/Eloim que se construiu a identidade judaica oriunda de diferentes grupos tribais. A fidelidade à aliança entre Javé/Eloim e o povo de Israel é o que garante a unidade e integridade da nação judaica.

Aliança que o cristianismo expande universalmente construindo um povo sem fronteiras étnicas, de gênero ou sociais. Foi a genialidade do apóstolo Paulo que ofereceu a base religiosa para a passagem de uma identidade social étnica à abertura universal onde toda a humanidade é vista como um único povo.

Senso de universalidade herdado pelo Islã quando Maomé faz a experiência de Allá como único Deus que deseja reunir toda a humanidade em um só povo.

Visto em outra perspectiva, desde o lado das realidades políticas, poderíamos citar o caso do Imperador Constantino que viu no cristianismo a possibilidade de religar o Império Romano ameaçado de esfacelamento. Ele não foi o único. Outros reis, imperadores e príncipes revestiram seu poder com a áurea religiosa para construir ou manter, conforme o caso, a unidade política em seus domínios. O cujus regio, eius religio do Tratado de Augsburgo, em 1555, que estabeleceu a trégua entre o católico romano Carlos V e os príncipes que haviam aderido à reforma da Igreja proposta por Lutero, é um outro exemplo clássico do papel das religiões na consolidação do poder político. Mesmo papel que tem a religião civil nos Estados Unidos da América que é, diga-se, um caso muito particular de uma não religião que tem uma clara função religadora da unidade nacional.

Mais recentemente, o “Deus, Pátria e Família” do fascismo salazarista de Portugal, adotado por movimentos totalitários em várias partes da América Latina, é outro exemplo de como a religião pode ser instrumentalizada para a consolidação de uma proposta de sociedade.

Tudo isso me faz pensar numa questão: qual é o papel das religiões numa sociedade? A experiência histórica nos ensina que elas não são apenas instrumentos para religar os humanos ao divino. Elas também têm um papel social. Elas são úteis para ligar os membros da sociedade. Ligação que pode ser inclusiva no modo do cristianismo ou exclusiva na opção dos regimes totalitários e das religiões que a eles se tornam subservientes que excluem da convivência social as pessoas consideradas diferentes ou incômodas para a sociedade

Se passarmos das macro relações sociais às situações do quotidiano na vivência religiosa, fica uma pergunta: a religião, tal qual eu a professo, ajuda a construir relações abertas e confiáveis ou leva ao medo do outro e à exclusão?

Pergunta que, nós, cristãos, deveríamos nos fazer em cada momento em que nos aproximamos da Comunhão.

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AS CHAVES SINODAIS DE PEDRO

Foto por Ylanite Koppens em Pexels.com

A razão de São Pedro carregar as chaves é simples. Está lá no Evangelho de Mateus, no capítulo 16, quando Jesus diz que, sobre a pedra de Pedro edificará a Igreja e a ele dará as chaves do Reino com o poder de ligar e de desligar tanto na terra como nos céus.

A frase pronunciada por Jesus não era original. Era uma velha conhecida de todos os judeus piedosos. Ela fazia parte da tradição e era usada em toda disputa política. Quem a pronunciou pela primeira vez foi o profeta Isaías, lá no Antigo Testamento, no tempo do rei Ezequias. Era um tempo difícil. Judá estava sendo atacado pelo rei da Assíria e, Jerusalém, cercada, soçobrava. Sobna, o ajudante mais próximo do rei, ao invés de se preocupar com a fome e as doenças que matavam os pobres, gastava seu tempo e os recursos públicos na construção de um mausoléu onde queria ser enterrado com a glória dos faraós do Egito.

Chamado para intervir, o profeta Isaías manda que Sobna seja retirado do cargo e a chave da casa de Davi seja entregue a Helcias, filho de Eliacim. Na prática, o profeta destituía o arrogante Sobna e colocava em seu lugar um humilde servidor público. Para simbolizar a troca de mando, a túnica, o cinto e as chaves – três símbolos do poder – passam de Sobna a Helcias. Mas o símbolo que ficou na memória popular, foi o das chaves. Afinal, desde que surgiram, em torno ao 4.000 a.C., no Egito ou na China, as chaves sempre simbolizaram poder. Desde o mordomo do rei até o carcereiro, quanto maior o molho das chaves, maior o poder que aparenta.

Mas, voltando ao episódio de Mateus, de quem Jesus estava tirando as chaves para entregá-las a Pedro? O texto não explicita. Podemos encontrar uma dica no capítulo 23, quando ele fala dos fariseus que bloqueiam a entradas das pessoas no Reino dos céus: eles não entram e nem deixam ninguém entrar! Se essa conexão for procedente, a entrega das chaves a Pedro não teria como objetivo fechar as portas como faziam os fariseus, mas abri-las para que todos pudessem entrar.

A história se complica mais ainda quando, avançando um pouco na leitura de Mateus, no capítulo 18, encontramos que Jesus não entrega esse poder apenas a Pedro, mas a todos os discípulos. A mesma concessão coletiva aparece no Evangelho de João (capítulo 20) e também é adotada pelo apóstolo Paulo na Carta aos Coríntios.

Como vemos, a história das chaves de São Pedro não é tão simples. E a interpretação deste episódio, na história da Igreja, foi motivo de muita discussão. As chaves significam poder. Entregá-lo a uma só pessoa, é uma coisa. Compartilhá-lo entre todos, é outra muito diferente.

No primeiro milênio da Igreja, a interpretação comum era a de que o poder das chaves deveria ser exercido de modo coletivo. Todos os bispos teriam o poder concedido por Jesus de ligar e desligar. As disputas de poder, no entanto, fizeram com que, no final do séc. XII, Inocêncio III, o bispo de Roma mais poderoso de toda a Idade Média, reclamasse para si a exclusividade das chaves petrinas. E com a força das armas e do saber, impôs esse modo de pensar aos outros bispos e aos príncipes e reis. As Igrejas orientais jamais aceitaram essa imposição e se afastaram ainda mais de Roma. Os príncipes e reis, não tendo alternativa, submeteram-se até aparecer a ocasião para se rebelar.

Alguém pode estar se perguntando o porquê de estar cavoucando estas histórias. Primeiro, claro, por causa das chaves de São Pedro, o último dos santos juninos. Segundamente, por causa da crise de poder que vivemos tanto na sociedade como nas Igrejas. E nisso, toda essa discussão pode nos ajudar. Assim como as chaves, o poder é simbólico. Dependendo do modo como o imaginamos, ele recai sobre nós. Se nós o pensamos monocraticamente, encontraremos um tirano para exercê-lo de forma autoritária. Se o pensamos coletiva e circularmente, de forma sinodal, teremos a possibilidade de construir uma democracia e caminhar para a fraternidade e a amizade social. Nesta última festa junina, ao ver São Pedro com as chaves na mão, fiquemos atentos! Será que elas não estão também nas mãos dos outros discípulos? Não custa imaginar…

A FOGUEIRA DE SÃO JOÃO

Foto por Jens Mahnke em Pexels.com

Era mais um entre tantos. Aqueles homens estranhos que deixavam tudo para ir morar na beira do Rio Jordão. Uns vinham de Jerusalém. Ou do interior da Judeia. Outros eram da Galileia. Até da Samaria os havia. E nascidos no estrangeiro também apareciam. Judeus que um dia partiram em busca de dias melhores e que agora voltavam às origens para um recomeço. Um recomeço radical. Refazer o caminho da escravidão do Egito para entrar em uma Nova Terra Prometida. Não mais geográfica. Não mais cruzar o Mar Vermelho nem caminhar 40 anos no deserto. Agora quarenta dias eram suficientes. E o deserto estava aí do lado. Só cruzar o Jordão, descalçar os sapatos, agarrar o bordão, alimentar-se do que brota do chão – mel e insetos – e colocar-se totalmente nas mãos de Deus para uma vida nova para que fosse feita para sempre Sua vontade.

Não era uma multidão. Mas havia muitos. Uns mais jovens. Outros de idade mais avançada. Gente que havia sido rica. Outros que sempre foram pobres. Homens todos. Alguns que haviam sido casados e sua família haviam abandonado. Outros que nunca casaram porque acreditavam que a promessa feita a Abraão iria se realizar em breve e não havia necessidade de colocar a esperança na descendência. O Reino de Deus aconteceria aqui, agora, de imediato, para todos os que estavam vivos e para redimir os antepassados realizando o futuro no presente.

Entre todos, a chamar a atenção, aí estava João. Uma figura única, particular pela sua origem e modo singular. Filho de sacerdote. De quinta categoria, sim. Mas da tribo de Levi. Sua tradição não era a da profecia. Seu pai, Zacarias, uma vez por ano, no templo sacrifícios oferecia. E depois voltava para sua vila na montanha pois sua casa era marcada pela vergonha. Isabel, sua esposa, fora assinalada pela maldição. Filhos dela não nasciam. Sem descendência, o nome de Zacarias desapareceria. Até aquele dia em que o Anjo apareceu e um filho a Isabel prometeu. E a promessa aconteceu sob o olhar de uma prima distante que acorreu para ajudá-la em toda necessidade. Veio de longe porque quem perto morava naquilo não acreditava e até achava que era obra não de Deus como as duas diziam, mas de espíritos malignos que às duas acometiam.

Em meio à desconfiança dos parentes e vizinhos, João nasceu, cresceu, ficou adulto e para o Jordão desceu sem que ninguém se importasse. Era mais um entre tantos. Mais um com uma história estranha a dizer coisas estranhas que a alguns incomodavam e a outros apaixonavam. Os bem assentados dele se afastavam e claramente o condenavam. Os esfomeados, maltratados, perseguidos, doentes, esquecidos, todo o dia o buscavam. E ele os esperançava mostrando que no Reino de Deus todos podiam entrar. E muitos o seguiam, entre eles um seu parente da Galileia, filho da Maria que fora até a Judeia para vê-lo nascer. A Ele João indicou como aquele que o iria suceder. Não era uma função de honra. Profetas nunca tem um final feliz. É o que a Bíblia diz. Não por castigo de Deus. Mas por incompreensão dos seus. Ainda mais naquela terra onde predominava o dinheiro, o poder, a guerra. João foi preso, condenado e sua cabeça cortada para ser exibida em um burlesco banquete real.

“Nenhum profeta é bem recebido em sua terra”, disse Jesus ao falar de João e a seu futuro prever. A fogueira das vaidades não aceita a palavra de quem diz a verdade. Fogueira que queima mais que as de São João. Ela arde por dentro e consome seu invólucro próximo e, se não for apagado com o extintor da humildade, invade e transforma em cinzas tudo o que está ao redor. Para apagá-la, não há outro remédio que o da cruz de Jesus que reluz mesmo em meio à maior escuridão. Não a apaguemos. Deixemo-la reluzir e o nosso caminho conduzir.

Santo Antônio, Rogai por nós!

Santo Antônio, aquele que abre o ciclo de festas juninas, é um santo cercado de ambiguidades. Primeiro, pelo nome. Uns o conhecem como Santo Antônio de Lisboa, por ter nascido naquela cidade lusitana. Outros, como Santo Antônio de Pádua, pois foi nesta cidade italiana que foi enterrado.

Mas esse não é o único lado duplo do popular santo. Ele carrega dois nomes. Fernando de nascimento. Antônio por opção e devoção ao monge Santo Antão. Mesmo que algumas tradições queiram lhe dar origem nobre, era de família plebeia. Rica, provavelmente, a ponto de poder sustentar seus estudos no Convento dos Cônegos Regulares da Santa Cruz que seguiam a regra de Santo Agostinho. Por opção largou as riquezas da família e seguiu a vida religiosa. Fascinado com os estudos possibilitados pela vida monástica, decidiu ser monge e fez seu noviciado. Não contente com o ambiente tumultuado de Lisboa, mudou-se para Coimbra onde dividiu seu tempo entre os estudos profanos e sagrados.

A vida silenciosa e de estudos no claustro foi interrompida quando Fernando, agora já Antônio, conheceu os frades franciscanos que se dirigiam ao Marrocos em busca do martírio. Juntou-se a eles. Cruzou o Mediterrâneo e aportou nas areias magrebinas, mas não alcançou seu objetivo. Seu desejo não foi satisfeito pelos árabes que o enviaram para a Sicília. De lá, junto com outros frades, no ano de 1221, foi a Assis para participar do Capítulo Geral que aprovaria a nova regra dos frades que Francisco não queria. Não se sabe qual postura o luso Antônio teve na querela entre observantes e intelectuais da nova Ordem. Talvez sua ambiguidade o tenha mantido em um meio termo.

O que se sabe, sim, é que Francisco, impressionado com Antônio que tinha a capacidade de unir profunda humildade com amplo e profundo conhecimento teológico, permitiu, coisa que até aquele momento não o fizera para ninguém, que ensinasse Teologia e tivesse livros. Fato que, segundo historiadores medievalistas renomados, não é tão comprovável como se diz ser. Tal permissão, tenha sido real ou não, não fez de Antônio um professor de Teologia tradicional. Em meio às ambiguidades características de seu percurso, dividia seu tempo entre a vida contemplativa, a pregação, o ensino de Teologia e os assuntos internos da ordem.

Antônio não era homem de uma causa só! Era um homem multifuncional, capaz de fazer muitas coisas ao mesmo tempo e todas com extrema qualidade. Talvez por isso as imagens que hoje temos de Santo Antônio tem certo caráter de indefinição. Assim como é difícil estabelecer qual é a graça específica da qual ele é mediador. Muitos o buscam para encontrar a pessoa amada e encaminhar um casamento; outros para conseguir o pão que faz falta na mesa; ou a restauração da saúde abalada; encontrar objetos perdidos também é missão encarregada a Antônio… A fila é quase infinita e faz dele um santo multifuncional.

E mais: um santo que ultrapassa as barreiras do catolicismo e do cristianismo. Nas algumas tradições de matriz africana, ele é o Bará ou Exú, aquele que faz a comunicação entre os orixás e os humanos. O santo da ligação, do encontro, do amor, tanto físico como espiritual.

Talvez alguns estranhem tal assimilação. Mas ela pode ser interpretada com um detalhe imagético: em todas as representações cristãs, Santo Antônio é representado com um Menino Jesus e uma Bíblia em suas mãos. A Palavra de Deus e o Verbo-que-se-fez-carne são a expressão maior da comunicação entre o divino e o humano. Que o santo das ambiguidades nos ajude a seguir o indicado nestas duas grandes mensagens de Deus.

ONDE ESTÁ DEUS?

Foto por Denniz Futalan em Pexels.com

Onde está Deus? Onde está Ele que não faz nada? Por que Ele me abandonou?

É a pergunta que muitos se fazem nos momentos de dor e sofrimento, seja individual ou coletivo. A doença e a ameaça de morte, consequência de catástrofe natural ou da ação humana, colocam em cheque a própria vida e, na sua radicalidade, exige uma resposta daquele que é a razão de nosso viver. E, para quem tem fé, em Deus deveria estar a resposta que parece não se manifestar.

É uma velha pergunta que já foi colocada em toda a sua crueza no Livro de Jó da Bíblia cristã. O autor do livro da tradição sapiencial judaica, não encontra resposta para a pergunta. Simplesmente aceita o fato e faz uma afirmação radical de fé: Deus não é a causa de nossa desgraça. Mas o Livro de Jó não responde o porque de Deus não fazer nada diante da dor e do sofrimento de seus filhos e filhas.

A fé cristã que nasce da experiência daqueles e daquelas que fizeram a experiência de Jesus de Nazaré, tem uma resposta contundente: Deus está presente naqueles e naquelas que padecem qualquer tipo de sofrimento e sofre junto com eles e elas. Deus é nosso compadecente no sentido radical da palavra: ele sofre conosco as dores e sofrimento e as assume como suas transformando-as a partir de dentro. Foi assim que Deus fez ao assumir a condição carnal no presépio de Belém e na cruz do Gólgata.

Em consequência dessa afirmação radical, o cristão é convidado a olhar o mundo a partir da condição e da situação dos crucificados de hoje. Por isso o cristianismo é religião de misericórdia e compaixão. É o que nos lembrou Jürgen Moltmann, um dos maiores teólogos das últimas décadas, falecido no dia de ontem. É da cruz de Jesus Cristo que nasce a Esperança para a humanidade. É dos crucificados da história que nasce um futuro diferente para a humanidade e para a criação.

A afirmação de Moltmann nos ajuda a pensar, a partir de nossa fé cristã, a situação das milhares de pessoas que tudo perderam nas enchentes do Rio Grande do Sul. Algumas delas perderam até mesmo a vida. E junto com as vidas humanas muitas vidas de animais, de plantas e da própria terra e água foram machucadas ou destruídas. Compadecer-se e ter misericórdia que se transforma em solidariedade ativa, é o caminho para acolher e afirmar o Deus presente em cada uma dessas vidas e, a partir desse sagrado encarnado, construir novas relações entre os humanos e com toda a criação para que Deus não mais seja crucificado em suas criaturas, pois é nelas que Ele está presente nos momentos de dor e sofrimento.

Não é lixo!

Foto por Wendelin Jacober em Pexels.com

Não é sujeira o que ficou revirado no interior das casas. Não é lixo o que ficou acumulado nos pátios. Não é entulho o que atravanca ruas e avenidas. Não é descarte o que está jogado à beira dos caminhos e estradas.

Cada tábua, cada roupa, cada louça, armário, taça, sapato, touca… Cada chapéu, geladeira, fogão, televisão, penteadeira… Cada telha, cada carro, bicicleta, cabide, chupeta… Cada vida perdida, humana, animal, cada árvore tombada ou partida, são partes de uma memória perdida que nunca mais será esquecida.

Objetos não são só concretos. Eles são abstratos. Eles não tocam apenas o tato, o olfato, a visão, a audição e o paladar. Eles estão presentes em nosso andar, estar e fazem parte do mundo no qual habitamos, nos situamos, labutamos, sofremos e amamos. Cada objeto ausente, é um pedaço de nós que se vai. Dizer que é sujeira, lixo, entulho, descarte é colocar a vida à parte, é não considerar que cada pessoa não é apenas ela, mas um mundo de relações que se constrói dando sentido a cada pessoa, ser vivente e objeto que fazem parte do dia-a-dia imediato ou do longo tempo de vidas vividas e agora truncadas no seu sentido por um fato que corta o presente do passado ao tirar da convivência tudo o que a ele nos ligava.

Quantos anos para adquirir um terreno e nele construir a casa tanto sonhada? Quantos meses de longo financiamento para pagar o carro que a tantos lugares nos conduziu? Quantas prestações mensais para comprar a televisão que dava distração nos momentos de cansaço? E a roupa tanto desejada e agora afogada no lodo ou levada pela correnteza… E as fotos do casamento, do batizado dos filhos, dos netos em algazarra, do passeio na praia, da festa com os amigos, dos animais queridos que também aqui não mais estão.

Dizer que tudo se recupera, não é verdade! O perdido jamais é recuperado. Pode-se construir outra casa, comprar outro carro, outra televisão, roupa, móveis. Mas o que se foi, foi para sempre. Dizer que é hora de olhar para frente, é engano de quem não compreende que o humano não é apenas um possuidor de objetos. O que nos faz humanos, é a capacidade de dar sentido e fazer das pessoais, animais e das coisas, algo que amamos.

Ninguém ressuscita sem passar pela morte. É o que nos ensina a sabedoria cristã. Mas aquilo que morre, não é sujeira, lixo, entulho, descarte. É testemunho da vida que ficou e não pode ser deixado simplesmente à parte. Fazer o necessário luto implica em respeito, cuidado, atenção para não pisar nas memórias das vidas que as produziram.

Se não tem sentido manter o corpo de uma pessoa morta indefinidamente insepulto, também não faz sentido fazer um enterro sem antes velar o corpo. Ao velar o corpo, reverenciamos a vida da pessoa que morreu. Do mesmo modo, ao limpar a casa, o pátio, a rua, a cidade, é importante parar um instante, contemplar o que está à nossa frente e reverenciar as vidas que ficaram simbolizados naqueles objetos dos quais nos despedimos. Só assim nos damos conta do valor das nossas vidas e abrimos a possibilidade de não mais produzir a morte.

HOMO FRUGALIS

As enchentes que assolam o Rio Grande do Sul têm muitas causas. A causa imediata é a falta de atenção e prevenção de parte de autoridades municipais e estaduais que deixaram de investir nos sistemas de proteção porque tinham “outras agendas”, como bem disse o Governador do Estado. Em outras palavras, a segurança e o bem estar da população não interessam aos atuais governantes. O alerta havia sido dado pelas cheias de setembro de 2023. E nada foi feito, mesmo sabendo que havia muito a se fazer.

Estruturalmente, a causa é o modo predatório como nos relacionamos com a natureza. Vivemos numa cultura predatória em que a criação é vista apenas como recurso a ser utilizado a fim de obter lucros. Os ecossistemas originais são destruídos para plantar commodities que geram altos lucros para poucos enquanto muitos ainda padecem fome. Sai a mata e entra o soja e o gado. Fontes são secadas, banhados drenados, encostas transformadas em pasto, rios assoreados, várzeas ocupadas por cidades onde um terço das unidades habitacionais tem como única finalidade a especulação imobiliária.

A chuva, mesmo se em quantidades excepcionais, não é a única causa das enchentes. Nós, humanos, criamos as condições para que a água nos destrua quando não respeitamos seus pontos de contenção e canais de escoamento. Poderíamos conviver com chuvas muito mais torrenciais se não interferíssemos no ciclo natural das águas.

Não basta reconstruir. Fazer de novo o que já tinha sido feito e agora destruído pela natureza será repetir o mesmo erro. É preciso construir um novo modelo de produção e distribuição dos bens. Uma nova economia “que se preocupa com a criação e não a saqueia, uma economia a serviço da pessoa, da família e da vida, respeitosa de toda mulher, homem, criança, idoso e especialmente dos mais frágeis e vulneráveis, uma economia onde o cuidado substitui o descarte e a indiferença”, como disse o Papa Francisco aos jovens em Assis, em 24 de setembro de 2022.

Mas há uma causa mais profunda que sustenta a economia. É a causa antropológica. O modo como nós humanos nos pensamos a nós mesmos. Somos convencidos que a razão de ser é consumir. Valemos pela capacidade de comprar, desfrutar e descartar irresponsavelmente. Fomos convencidos ou nos convencemos – quem veio antes, o ovo ou a galinha? – de que somos consumidores e que chegamos ao auge da humanidade quando alcançamos a categoria de predadores.

Já nos pensamos como homo sapiens. Mas estamos muito mais perto do demens. Demência que nos leva à morte. Pessoal, comunitária, social, humanitária. E mais: podemos levar toda a vida sobre a Casa Comum à morte.

É hora de mudar. Precisamos recuperar a sabedoria dos povos originários e sentirmo-nos como uma criatura em meio ao conjunto da criação. Deixar de lado a ânsia de consumir e reaprender a conviver entre os humanos e com este complexo vital do qual fazemos parte. Recuperar a sabedoria da frugalidade que consiste em consumir apenas o necessário. Fazer dela a orientação para as opções pessoais, familiares e sociais. Uma economia do decrescimento em que a riqueza de uma nação não se meça pelo Produto Interno Bruto, mas pela felicidade gerada por relações harmoniosas entre as pessoas e dos humanos com os animais, as plantas e o ambiente onde vivem. Menos poiética e mais ética e estética alimentadas pela mística do Bem Viver.

SOU CATÓLICO

Hoje, 16 de maio, ao regressar de um longo e exigente dia de trabalho sem poder acessar notícias relacionadas à situação do Rio Grande do Sul que tanto sofre com o desastre ambiental, fruto não apenas do excesso de chuvas, mas também da degradação do meio ambiente provocada pela ganância, tomei um tempo para ver fotos e vídeos postados por meus confrades que, depois de terem sido resgatados de suas casas tomadas pelas águas, colocaram-se a serviço dos demais afetados de Canoas, me deparei com uma imagem consoladora, uma imagem que me fez sentir orgulho de ser católico.

Nas fotos e vídeos, um dos bispos auxiliares da Arquidiocese de Porto Alegre, acompanhado por alguns de meus confrades e outras lideranças católicas da cidade, percorreram as paróquias, comunidades e centros de acolhida e atendimento aos afetados pela inundação da cidade. Só soube que era um bispo porque estava nomeado nas postagens. À primeira vista, um homem comum entre tantos outros homens, vestido de modo simples e com uma jaqueta para proteger-se do frio que se torna cada dia mais intenso. Só quando prestei mais atenção vi que estava de clergyman. Nos vídeos percebia-se claramente a sua presença nada ostensiva nem aparatosa. Simplesmente cumprimentava as pessoas, consolava os flagelados, animava os voluntários, rezava com eles e elas e partia para outro espaço para repetir a mesma presença.

Mas por que então o meu orgulho católico? Não era apenas pelo fato de ele ser bispo da Igreja à qual pertenço. Fiquei feliz com isso. Mas, sobretudo, fiquei feliz porque ele, assim como meus confrades e outros ministros da Igreja e tantos voluntários e voluntárias estão demonstrando, neste momento triste, aquilo que há de mais católico no cristianismo: a capacidade de compadecer-se e partir ao encontro daqueles e daquelas que estão sofrendo.

Com efeito, o que faz do cristianismo uma religião universal ou católico, não é o fato de ser a religião com o maior número de membros. Tampouco é pela capacidade de estar presente em todos os lugares do mundo. O que faz o cristianismo ser uma religião aceitável por todos os humanos, é a capacidade de mover-se diante daquilo que é o mais comum nos humanos: a possibilidade da dor e do sofrimento.

Os cristãos cremos em um Deus que se compadeceu da humanidade e encarnou-se, na manjedoura de Belém e na cruz do Gólgota, para redimir e santificar a toda criatura, para livrar-nos do mal de toda desumanidade que nós, contraditoriamente, criamos. E sua compaixão não é limitada nem por pertença étnica, condição de gênero ou posição social. Como nos lembra Seu discípulo e apóstolo Paulo, em Jesus Cristo não há judeu nem grego, nem homem nem mulher, nem escravo nem livro. Todos e todas somos um n’Ele.

Do alto da cruz, Jesus nos lembra que só é fiel à sua proposta e à sua pessoa aquele e aquela que, na situação concreta que lhe cabe viver, é capaz de compadecer-se e retirar da cruz seus irmãos e irmãs. A condição que cabe a nós vivermos hoje, no sul do Brasil é a dos atingidos pelo desastre ambiental. Saber que muitos de nossos irmãos e irmãs de fé, na diversidade de vivências eclesiais, transforma a compaixão em ação, sem perguntar pela pertença religiosa, condição social, étnica ou gênero de quem precisa, faz crescer em nós o orgulho de pertencermos a uma comunidade que, movida pela Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, faz sua a dor do outro para que ele deixe de sofre, faz crescer em nós a consciência e o orgulho da nossa catolicidade.

Em tempo: muitos membros de outras igrejas cristãs, neste momento, vivem e demonstram, na ajuda aberta e ecumênica aos flagelados, também expressam de maneira pujante, a sua catolicidade. Que esse seja mais uma ponte no caminha da unidade na diversidade ecumênica que celebramos nesta Semana de Oração pela Unidade Cristã.

Fátima

Hoje, 13 de maio, a tradição católica romana celebra Nossa Senhora de Fátima. A devoção remete às visões que, em 13 de maio de 1917, três pastorinhos portugueses, na localidade de Fátima, tiveram uma visão da Virgem Maria que se repetiria nos meses seguintes, até a última, em 13 de outubro de 1917.

O local, com o decorrer do tempo, transformou-se num dos espaços mais importantes da devoção mariana na Europa e no mundo. Todos os anos, de todos os continentes, confluem ao local em torno de seis milhões de católicos para rezar e invocar a proteção da mãe de Jesus.

A visão da Virgem Maria relatada pelos pastorinhos assemelha-se a muitas outras tidas por outras pessoas. Uma não compreensão num primeiro momento; medo e confusão; apresentação da Virgem; envio para uma missão; resistência por parte das autoridades eclesiásticas em reconhecer o relatado; reconhecimento por parte do povo simples; reconhecimento oficial e consolidação da devoção.

O que se destaca nas visões de Fátima é seu caráter apocalíptico. O que ouviram os pastorinhos foi uma mensagem que alertava para a possibilidade do inferno pessoal e da destruição da humanidade provocada pelos pecados humanos. Mas o que mais provocou curiosidade e ajudou a espalhar a devoção a Nossa Senhora de Fátima foi o “terceiro segredo” de Fátima que, no contexto de conflitos sociais da Europa, foi interpretado das mais diferentes formas.

Uma das interpretações mais comuns ligava o “terceiro segredo” à Revolução Russa que seria o prenúncio da destruição da humanidade provocada pelo ateísmo e pela ofensa à religião. No ambiente de crescente conflito entre os dois sistemas econômicos – o capitalista e o socialista – a Virgem de Fátima tornou-se, no Ocidente, símbolo do anti-comunismo. Com o fim da Segunda Guerra Mundial e a divisão do mundo em dois grandes blocos, essa simbólica ganhou força na Europa e na América do Norte.

A devoção a Nossa Senhora de Fátima chegou ao Brasil, pode-se dizer, tardiamente. Foi em 1952, quando alguns frades capuchinhos da Província do Rio Grande do Sul que haviam sido enviados em missão a Portugal seis anos antes, regressaram ao Brasil trazendo na bagagem a imagem e a mensagem da Virgem aos pastorinhos e, no contexto acirrado de guerra fria, a pregação contra os perigos do comunismo.

À testa do grupo estava o carismático frei Bernardino Vian que, juntamente com os freis Lauro Reginato e Eusébio Ferreto compôs uma segunda equipe de missionários capuchinhos lançou-se à pregação de missões populares no Sudeste e Centro Oeste do Brasil. Ao tomar conhecimento da planejada construção de Brasília, Frei Bernardino, com a anuência do bispo de Goiânia, dirigiu-se ao Rio de Janeiro e, por intermediação da Primeira-Dama Sarah Kubitschek, convenceu o Presidente Juscelino à construção da Igrejinha de Nossa Senhora de Fátima, em Brasília para proteger a capital e, através do seu valor simbólico, o Brasil dos perigos do comunismo.

Por ironia da história, coube ao comunista Oscar Niemeyer o projeto da Igreja e ao iconoclasta Alfredo Volpi a decoração que, anos depois, por ordem de autoridades eclesiásticas, seria substituída por bandeirinhas menos indecentes.

Hoje em dia, a simbologia anticomunista da Virgem de Fátima continua viva nos meios neoconservadores católicos. Ao seu caráter político foram agregados outros temores dos grupos que temem as mudanças culturais, sociais, políticas e, sobretudo, eclesiais que vêm acontecendo nas últimas décadas. Fátima tornou-se o símbolo, para pequenos grupos neotradicionalistas católicos, de resistência ao Concílio Ecumênico Vaticano II e às atualizações consequentes no campo institucional, litúrgico, moral e social da Igreja Católica.

Nas isso é coisa de pequenos grupos que formam verdadeiras seitas que guardam a aparência de católico mas, na verdade, fecham-se em pequenos guetos perdendo a dimensão de universalidade e apostolicidade da Igreja.

Para a grande maioria dos católicos e católicas, Nossa Senhora de Fátima é a presença curadora, protetora e amorosa de Deus junto ao Seu povo. Assim como ela foi consolo e força na vida dos pastorinhos e do povo simples de Portugal no início do séc. XX, ela continua hoje, na terceira década do séc. XXI, a nos recordar que Deus é bom e quer que sejamos plenos de vida e esperança.