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Depois do Carnaval…


Carnaval é festa. É transgressão. É subversão da ordem. É tempo de alegria e de ilusão. É ser por alguns dias aquilo que não se é e, nessa doce sensação, extravasar os desejos reprimidos pelas convenções e normas sociais.

Por isso, o símbolo maior do carnaval é a fantasia. Ela mostra a cara daquilo que não somos mas gostaríamos de ser. As fantasias, por mais exóticas que pareçam, revelam as mazelas e os desejos populares. Como filosofava Joãozinho Trinta, numa sociedade de pobres, a fantasia mais desejada é a que ostenta riqueza. Na mesma direção, podemos dizer que, numa sociedade de corpos reprimidos, a nudez dissimulada é a vitória, mesmo que momentânea, da autenticidade de ser homem e mulher em todas as formas e gêneros. Numa sociedade de repressão, o palavrão, a bebedeira, a transgressão, permitem viver a liberdade negada no dia a dia.
Quando o carnaval, livre das amarras do poder, traduz com músicas, danças, cores e amores os anseios populares, ele deixa de ser fantasia e se transforma em utopia. Que o diga o samba enredo da Estação Primeira da Mangueira: “Favela, pega a visão, não tem futuro sem partilha, nem messias de arma na mão. Favela, pega a visão, eu faço fé na minha gente que é semente do seu chão”.
Mas o carnaval passou. É hora de voltar ao normal. Hora de voltar ao real. Volta que não implica no esquecimento das fantasias que impulsionaram o sonho. Pelo contrário, elas permanecem como critério para as duras escolhas do dia a dia. Afinal, para a fantasia se tornar realidade, é preciso escolher entre o sonho que alimenta a esperança e o fascínio do passado e do presente que nos dão segurança.
Para iniciar a longa marcha da transformação em direção à utopia, é preciso iniciar com uma opção: a quem vamos servir? Àqueles que sufocam nossos sonhos com o discurso do conformismo ou àquele que nos provoca à aventura dos caminhos nunca dantes percorridos?
É o momento da prova, o momento da tentação. Ele sempre marca o início de um novo projeto. Adão e Eva, no paraíso, foram colocados diante de uma escolha. Eles optaram pela satisfação imediata de um desejo que era real. Mas a satisfação no imediato ocultou o sonho do futuro. A fantasia do paraíso aqui e agora tornou-se sofrimento, dor e peso. Querer o céu na terra, aqui e agora, pode tornar-se o pior dos infernos.
Jesus, no início de sua missão, também passou pela tentação de abandonar o sonho do Reino em troca da acomodação aos poderes que tudo lhe ofereciam. Ele não sucumbiu. Preferiu sonhar com a fantasia divina onde a festa é para todos e não apenas para alguns. Na festa de Jesus, entram, cantam e dançam toda classe de pessoas. Pecadores, prostitutas, estrangeiros, judeus descumpridores da lei, doentes, mulheres, velhos, crianças… E aqueles e aquelas que, por medo ou pudor, não querem com eles e elas se misturar, ficarão fora da festa.
Jesus pagou caro por esse seu sonho. A quaresma termina com a cruz e a paixão. Mas ele não deixou de sonhar. Não esqueceu da alegria do encontro com Deus, sem leis e sem repressão. Por isso, o caminho da Quaresma, que segue ao Carnaval, não é apenas tempo de penitência. É tempo de continuar sonhando na ilusão de que a festa da inclusão seja plenificada pela festa da Ressurreição.

Você tem medo de quê?

Pesquisa realizada no segundo semestre de 2019 pelo Instituto Ipsos – um dos mais conceituados do mundo – revela que a violência, a saúde e o desemprego são as três maiores preocupações da população brasileira. Das três, a violência, com 47% de indicações, aparece em primeiro lugar.
Pesquisas, claro, medem sempre percepções. E, percepções, nem sempre refletem o mundo real. Por isso sempre é bom checar esses dados com outros e ver se eles têm uma justificativa plausível ou é fruto de sensações muitas vezes influenciadas pela mídia que busca audiência através da exploração da violência.
Quando fazemos isso, infelizmente, constatamos que a pesquisa tem base real. O Brasil é um dos países do mundo onde mais jovens são mortos de forma violenta. A cada quatro minutos, uma mulher sofre algum tipo de violência física no Brasil. Nos últimos 12 meses, 1,6 milhão de brasileiras foram espancadas ou sofreram tentativa de estrangulamento, enquanto 22 milhões (37,1%) de brasileiras passaram por algum tipo de assédio. A cada duas horas, um feminicídio é cometido. E, o que é pior, boa parte dessa violência contra as mulheres acontece dentro de suas próprias casas e é cometida por um familiar.

Somos campeões mundiais em violência contra pessoas LGBTs. A cada 24 horas, um homicídio é cometido tendo como única razão, a homofobia.

E, para piorar, temos a polícia mais violenta do mundo. E, violenta, de maneira especial, contra os pobres e negros. 73% das vítimas de violência policial são pretos ou pardos.

Poderíamos continuar com números sobre a violência que, desgraçadamente, abundam e dão sustentação aos dados da pesquisa. Mas, duas perguntas devem ser feitas e precisam de respostas. A primeira é sobre a origem da violência e, a segunda, é sobre como superá-la.

À primeira pergunta, todos os estudos indicam na mesma direção: a violência é fruto da desigualdade social. Quanto mais desigual uma sociedade, maior é a violência que nela campeia. Sendo o Brasil uma das sociedades mais desiguais do mundo, é consequência que seja uma das mais violentas. Reprimir a violência fruto da desigualdade só gera mais violência. É o que estamos constatando. Seria muito mais barato e eficaz reduzir a desigualdade social do que aumentar a força policial e o encarceramento da população. Mas isso requer uma mudança de mentalidade e a aceitação, por parte da minoria que tudo tem, de ceder um pouco para aqueles que nada ou quase nada tem.

E aí já há uma indicação para a segunda questão, a de como superar a violência. Para alcançar esse objetivo, é preciso uma mudança cultural. Ela inclui, por um lado, a superação da mentalidade patriarcal escravocrata, ainda profundamente arraigada na sociedade brasileira, de que a desigualdade é natural e de que alguns podem ter tudo enquanto outros não precisam ter nada. E, junto com isso, a mentalidade do dono de escravos e de seus feitores de que violência só se combate com mais violência.

É preciso superar a lei do “olho por olho e dente por dente” e caminhar na direção do indicado pelo Profeta da Paz de que o amor ao inimigo é o único caminho para a superação da violência. Quando amado, o inimigo deixa de ser visto como tal e passa a ser nosso próximo, aquele com quem compartilhamos o caminho, a cidade, a mesa e a comida. E aí toda violência acaba.

Aos inimigos, a lei.

Um dos mais importantes jornais de economia do Brasil publicou no final do passado mês de janeiro uma pesquisa chamada “A cara da democracia”. Realizada anualmente pelo “Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação”, o estudo tem como objetivo aferir a percepção da democracia pela sociedade brasileira.
Um dos resultados que mais chamou a atenção foi sobre o índice de confiança dos brasileiros e brasileiras para com o Poder Judiciário. Os números são assustadores: 38,2% disseram não confiar no Poder Judiciário. Outros 61% afirmam não acreditar na independência do Judiciário. Apenas 26% dos brasileiros acreditam que o Judiciário toma decisões sem ser influenciado por políticos, empresários ou outros interesses.
Comparada com a pesquisa de 2018, o resultado é ainda mais preocupante. A cada ano, o Poder Judiciário aparece como menos confiável.
Qual a causa de tamanha desconfiança da população brasileira para com esta instituição tão necessária para a vida em sociedade?
Suspeito que seja por uma simples razão já apontada há cinco séculos pelo filósofo italiano Nicolau Maquiavel. Dentre as suas famosas frases, uma das mais notáveis se refere à justiça. Segundo ele, no seu tempo, a justiça funcionava a partir do princípio de que “aos amigos, favores; aos inimigos, a lei”.
Parece que pouca coisa mudou de lá para cá. As pessoas que têm amigos na justiça ou tem dinheiro para contratar advogados com boas relações no sistema judiciário, nunca serão condenadas. Já os que não gozam destes privilégios, estes podem se preparar para a aplicação da lei que lhes cairá como um raio na cabeça. Infelizmente, a justiça é para poucos. É o que a maioria da população constata…
Que fazer diante disso?Entrar no jogo e também tentar burlar a lei, refugiar-se na ilegalidade, fugir do sistema judicial?É uma tentação nada desprezível e na qual muitos caem.
A única forma de resistir, é agarrando-se na convicção de que a lei é algo exterior, que vem de fora, e não pode alterar nossas convicções pessoais. Se o sistema judicial torna legal o ilegal e ilegal o justo, não por isso podemos nos sentir livres para praticar o que a consciência nos indica como errado.
A consciência é a norma última de todo comportamento e, para além da lei, está a grande razão que deu origem a todas as leis: a defesa da vida e da dignidade humana. Que a nossa fé no Deus da vida e na vida que tem sua origem em Deus, nos permita resistir nestes tempos de injustiça institucionalizada.
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O sabor do sal

Os cinco sentidos são indispensáveis para nossa sobrevivência. Eles nos comunicam com o mundo ao nosso redor. Sem eles, nos isolamos e morremos. Ser privado de um deles resulta numa limitação que exige um redobrado esforço dos outros.
Dentre todos, talvez o paladar seja aquele a que damos menos atenção. Mas não por isso é menos importante. Ele nos permite realizar de forma eficaz uma das necessidades elementares do ser humano: comer!
Sem comer, morremos por inanição. Mas também não podemos comer qualquer coisa. Comer sem critério, também pode levar à morte. A função do paladar inclui selecionar aquilo que comemos. Fazemos isso através dos milhares de botões gustativos que recobrem nossa língua e permitem identificar e classificar os alimentos.
Mas, além do gosto, existe também o sabor. O gosto é a reação química do corpo diante do que é colocado na boca. O salgado é um dos cinco gostos básicos que nossas papilas gustativas conseguem identificar. Sabor, é a combinação do gosto com outros sentidos e com toda uma aprendizagem do que é agradável e desagradável.
Em nossa cultura, o sal joga um papel fundamental na composição dos alimentos. Mas ninguém come sal. Se comemos sal puro, sentimos um enorme desprazer. Mas, comida sem sal não tem graça, é insossa, sem sabor, nosso paladar a rejeita. Um dos desafios de todo o cozinheiro, é encontrar o ponto certo do sal de modo que o gosto seja saboroso e agrade.
Talvez por isso, Jesus, ao falar da missão aos seus discípulos, tenha usada a imagem do sal. Ele afirma que seus discípulos são o sal que dá sabor à terra. Sem o sal do anúncio, o mundo fica sem graça. Mas a pregação, assim como o sal, deve ser posto na justa medida. Caso contrário, se torna intragável.
Mas aí vem a pergunta: qual é a justa medida da pregação de modo que ela realmente se torne o sabor do mundo?
O apóstolo Paulo, na Carta aos Coríntios, afirma que o sabor da pregação não é dado pelas palavras bonitas do pregador. O que dá o gosto ao anúncio cristão, segundo Paulo, é o Cristo crucificado que se identifica com os sofredores deste mundo.
Já o profeta Isaías, dá nome ao sal da pregação. Para ele, a pregação só tem o sabor de Boa Nova quando leva a repartir o pão com o faminto, a acolher na própria caso o pobre e o peregrino, vestir o nu, destruir os instrumentos da opressão, abandonar os hábitos autoritários e a linguagem maldosa, acolher de coração aberto o indigente e a prestar socorro a todo tipo de necessitado.
Segundo Isaías, quando prega e pratica este modo de ser, o discípulo compõem o bom prato que satisfaz ao paladar de todos. E mais: além de contemplar o paladar, este bom prato também desperta o sentido da visão. E o cristão, além de ser sal da terra, torna-se também luz do mundo.
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Bauman e Simeão

Em sua obra “Tempos Líquidos”, o filósofo polonês Zygmunt Bauman, apresenta a incapacidade de planejar a longo prazo como uma das características da “modernidade líquida” em que vivemos.

Para ele, estamos na era do tempo presente. Ou seja, a grande preocupação das pessoas não é mais preparar o futuro, mas viver o agora. Tanto a nível individual como a nível social. Tal fenômeno emerge, por exemplo, na ânsia consumista que invade mentes e corações. Afinal, para que poupar para gastar mais adiante se posso ter o prazer de consumir agora? Consumir o máximo possível parece ser um modo de viver o futuro já no presente…

No âmbito da convivência social, a falta de planejamento em longo prazo se reflete no fim das utopias. Sacrificar-se no presente para um futuro coletivo melhor para as próximas gerações, é algo absurdo para a maioria das pessoas. O lema parece ser “cada um por si e quem pode que sobreviva ao presente”.

A despreocupação com o meio ambiente e o modo cego como caminhamos para uma catástrofe ecológica de dimensões planetárias, é sintoma da presentificação da experiência humana característica dos tempos líquidos em que vivemos.

Há alternativas para isso? Segundo Baumann, é possível outro modo de nos pensarmos no mundo e no tempo de modo a que o presente não se torne o coveiro do futuro. Duas condições são necessárias para que tal mudança aconteça. A primeira, é a capacidade de indignação diante do mundo em que vivemos. Afinal, só sonha com um futuro aquele e aquela que tem a sensibilidade para não conformar-se com o agora. A anestesia cultural que impede sentir as dores e os sofrimentos do presente, é o veneno que mata o sonho de um mundo melhor.

A segunda condição, é a confiança no ser humano. Se não confiarmos nas pessoas que conosco partilham as horas, os dias, as casas, as ruas, as praças, o ônibus, a fábrica, a escola e a igreja, não haverá futuro possível. Semear a desconfiança e a divisão é o primeiro passo para matar a utopia.
Para escapar do círculo vicioso da pós-modernidade voltada sobre si mesma, é preciso seguir o exemplo do velho Simeão. Sentado à porta do Templo, ele não só esperava a esmola dos que ali vinham para rezar. Ele também esperava o tempo futuro em que Deus enviaria Seu Filho para tirar o povo de Israel da escravidão.

Simeão continuava a sonhar com a utopia do Reino de Deus. E, ao ver o jovem Jesus chegando, ladeado por José e Maria, Simeão confiou nele como ninguém o faria. Jesus era apenas mais um dos tantos meninos judeus que seriam apresentados no templo. E mais: era um galileu, morador de uma região de pessoas não confiáveis. Mas o velho Simeão confiou na humanidade de Jesus e viu nele a possibilidade da realização das promessas de Deus.

E, na sua velhice, teve a certeza de que, pela ação daquele menino, a realidade podia ser mudada e conduzida para o futuro desejado por Deus. E por isso pode proclamar: “Agora, Senhor, conforme a tua promessa, podes deixar teu servo partir em paz”.
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De onde menos se espera…

“Do jeito que está, não dá mais!” É uma frase que ouvimos com frequência. Especialmente quando se fala da grave crise social pela qual passa nosso país. “Mudança”, é uma palavra que catalisa a insatisfação e gera as mais variadas respostas.

Mas, quando falamos em mudança, é preciso sempre colocar duas perguntas. Se não queremos do jeito que está agora, para onde queremos ir? Mudar por mudar, pode levar a uma situação ainda pior do que a que aí está. Nos últimos anos, vimos inúmeras mudanças acontecerem no nosso país. Mas, todas elas, no lugar de melhorar a vida do povo, levaram a uma situação ainda mais precária. A pobreza aumentou, voltamos ao “mapa da fome”, o desemprego é a grande aflição das famílias, as condições de trabalho foram precarizadas, os recursos para a edução e saúde foram encolhidos, aposentar-se tornou-se um sonho praticamente irrealizável para as futuras gerações, a preocupação com a preservação do meio ambiente foi simplesmente desprezada, o Brasil abandonou todo e qualquer projeto de nação e tornou-se um satélite dos interesses norte-americanos. Queremos continuar caminhando nesta direção ou é necessário refazer o rumo? Tristemente, muitos se contentam com o discurso de mudança e não se perguntam para onde as mudanças que estão sendo feitas nos conduzirão a nós e às futuras gerações.
E aí vem a segunda pergunta: quem poderá realizar as mudanças que realmente interessam ao país? A história nos ensina que, aqueles e aquelas que sempre foram os privilegiados, a estes nunca interessam as verdadeiras mudanças. No máximo, eles podem fazer mudanças para buscar um lugar ainda mais exclusivo dentro da sociedade, enquanto as grandes maiorias continuarão em suas péssimas condições de vida.
A verdadeira mudança, a que interessa às maiorias, só poderá ser feita por aqueles e aquelas que sempre foram relegados às margens da sociedade. No Brasil, serão as mulheres, os negros, os jovens, os indígenas, os idosos, os sem trabalho, sem casa e sem teto, os que poderão fazer deslanchar a verdadeira mudança que o país precisa.
E isso não é apenas uma afirmação sociológica. De fato, a sociologia sempre afirmou que as verdadeiras transformações sociais nascem do desejo de mudança levantado por aqueles que vivem na periferia da sociedade, do sistema e dos impérios.
Mas, para o cristão, esta também é uma verdade de fé. Jesus iniciou sua missão em Israel, na periferia do Império Romano que, na época, dominava o mundo. E, em Israel, ele não escolheu como lugar para iniciar sua atividade a cidade de Jerusalém ou as cidades romanas de Séforis e Tiberíades. Foi em Cafarnaum, na beira do Mar da Galileia, na Terra de Zabulon e Naftali, na Galileia que era por todos desprezada por ser uma terra ocupada pelos pagãos. Foi lá, na periferia da periferia, que Jesus iniciou seu projeto de mudança de toda a sociedade.
E, para acompanhá-lo, não escolheu pessoas importantes. Chamou pescadores, homens que não tinham do que sobreviver a não ser aventurando-se no mar para buscar algo para dar de comer a seus filhos e filhas.
É nessa periferia social que Jesus busca aqueles e aqueles que, com ele, poderão fazer brotar a semente do Reino de Deus. Que o exemplo de Jesus nos inspire nas mudanças que a sociedade tanto precisa.
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Nós e/ou eles

Eric Hobsbawm, um dos grandes historiadores ingleses dos últimos tempos, ao organizar a periodização da história do Ocidente, chamou o séc. XX como o século “breve”. Para ele, o séc. XX inicioucom a eclosão da Primeira Guerra Mundial em 1914 e terminoucom a Queda do Muro de Berlim e a implosão da União Soviética em 1991. Segundo Hobsbawm, o que caracterizou o breve século de apenas oito décadas foi a polarização entre as duas megapotências do período: os Estados Unidos da América e a União Soviética. Polarização que se explicitava em disputas econômicas, políticas, militares, científicas, culturais e esportivas. E alinhava aliadas deum lado e de outro ao redor do mundo formando aquilo que se denominouGuerra Fria.

O desmantelamento da União Soviética foi celebrado no Ocidente, no dizer de Francis Fukuyama,como o Fim da História. Segundo essa interpretação, teríamos entrado num mundo unipolar sob o comando do Império Americano. Mas tal leitura logo mostrou-se equivocada pois, ao redor do mundo, novas tensões nasceram. As revoltas no Oriente Médio contra o padrão ocidental de vida fez com Samuel P. Huntington falasse no “Choque de Civilizações”. Esteoporia radicalmente o mundo árabe e islâmico com o mundo europeu e cristão. Aqui também percebeu-se que a realidade era mais complexa que a reedição de uma releitura bipolar. Para além do “nós contra eles” da Guerra Fria ou do Choque de Civilizações há uma pluralidade de culturas, cosmovisões, identidades, interesses, diferenças… que nos obrigam a pensar o mundo tendo em conta duas realidades que estão sempre a tensionar. Por um lado, todos fazemos parte da mesma humanidade e habitamos o mesmo sistema Terra. Por outro, nesta identidade comum, somos muitos ediferentes e não há como impor um únicomodo de ver o mundo sobre a totalidade dos seres humanos. Em outras palavras, temos que superar os dualismos e a tentação da unipolaridade e aprender a pensar a unidade na diversidade e a diversidade na unidade.

Tarefa difícil, mas não impossível. E ela pode ser iniciada bem perto de nós. Até mesmo dentro de nossa família. Afinal, quem não tem em sua família alguém que pensa diferente daquilo que eu penso? Nestes tempos de polarização binária em que vivemos no Brasil, é uma realidade desafiadora conviver com quem pensa diferente no campo da política, por exemplo. Ou então, em temas religiosos, seja dentro de sua comunidade de fé ou na relação com as outras.
Podemos ampliar isso para a vizinhança, para a comunidade mais ampla, para o país e para o mundo. Precisamos aprender ou reaprender a conviver com o diferente. Sem este aprendizado, dificilmente teremos futuro.

Para os cristãos, combinar universalidade com as particularidades, não é uma opção. É uma obrigação. Afinal, o Deus em quem cremos e que foi anunciado por Jesus, não veio para salvar apenas o povo de Israel. Ele veio para salvar a todas as nações. E sem obrigar que todos se tornassem judeus. Cada um foi salvo a partir de sua identidade cultural, social, nacional, étnica, de gênero. E todos foram salvos.

Como bem explicita o apóstolo Paulo, em Jesus Cristo não existe o “ou nós ou eles”. Em Jesus Cristo, sempre haverá “e nós e eles”. Todos juntos, cada um na sua diferença, unidos na única salvação.

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Duelos de humildade

São Francisco e São Domingos são, sem sombra de dúvida, duas grandes figuras do mundo medieval. Com seu carisma e seu estilo de vida, deram origem a duas grandes tradições que até hoje continuam a inspirar cristãos e até pessoas de outras religiões ou que não professam religião alguma.


Não há certeza histórica de que os dois tenham se encontrado em vida. Certamente um ouviu falar do outro. E a tradição fez com que se encontrassem. Na fonte franciscana chamada “Espelho da Perfeição”, narra-se o que teria sido um possível encontro de Francisco e Domingos. Estando os dois em Roma, em companhia do bispo de Óstia, este sugeriu aos santos que indicassem membros das suas comunidades para ocupar o cargo de bispos e cardeais. O futuro Papa Gregório IX, que era sobrinho do Papa Inocêncio III e tinha estudado nas melhores Universidades da época, pensava a vida de cristão em termos de carreira eclesiástica. Sua lógica era a lógica do poder. Ocupar cargos eclesiásticos e, através deles alcançara glória, era o seu ideal e o de muitos cristãos da época.

Diante da proposta do bispo, estabeleceu-se um verdadeiro duelo de humildade entre os dois. Primeiro, para ver quem tomaria a palavra primeiro. Cada um queria ceder a primeira resposta ao outro. Por fim, cedendo às instâncias de Francisco, Domingostomou a Palavra e disse: “Senhor, com esta experiência, meus frades receberiam, por certo, grande honra; mas, tanto quanto puder impedir, não permitirei que eles recebem nem mesmo a aparência de uma dignidade”. Francisco, por sua vez, falou: “Senhor, meus frades são chamados menores para que não pretendam tornar-se maiores. Se, pois, desejais que eles produzam frutos na Igreja de Deus, conservai-os e mantendo-osno estado de sua vocação e, mesmo que eles aspirem a alguma honra, fazei-os voltar a sua antiga posição e não permitais que sejam elevados a qualquer dignidade”.

Este duelo pela humildade, tão bem dramatizado por Francisco e Domingos,tem sua origem na intuição fundamental do cristianismo: “Quem quiser ser o maior, seja o último e o servidor de todos!” Jesus começou sua missão dando o exemplo. Depois de nascer na periferia de Belém e assumir em tudo a nossa humanidade, Ele fez-se discípulo de João Batista. E, como qualquer outro discípulo, quis ser por ele batizado. João, sabendo quem era Jesus, não queria batizá-lo. Mas Jesus ordenou que João o batizasse para que todos compreendessemque, diante de Deus, a humildade é o caminho da grandeza.

Em seu duelo de humildade, São Francisco e São Domingo em nada inovaram. Apenas viveram radicalmente o caminho cristão que não é o de buscar as glórias. Nem as mundanas e nem as eclesiásticas.

A história dos franciscanos, dominicanos e de toda a cristandade mostra o quanto este modo de vida é difícil… Mas, graças a Deus, temos hoje outro Francisco que nos lembra deste grande desafio de todo cristão batizado, e de modo especial dos seguidores de Francisco e Domingos, de lavar os pés uns dos outros.
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A economia do dom

Natal e Ano Novo é época de dar e de receber presentes. Quase todo mundo faz isso. Há, no entanto, um pequeno equívoco nisso tudo. A data certa para dar presentes não seria essa. Presentes deveriam ser dados na festa da Epifania. Ou seja, no dia em que celebramos a ida dos reis magos até o lugar onde Jesus nasceu para presenteá-lo com ouro, incenso e mira. O dia do presente é o dia 6 de janeiro.
Mas, enfim, como é difícil mudar costumes, continuaremos dando presentes no dia do Natal e, por extensão, no Ano Novo. Mas, o que significa dar um presente? A resposta é simples: dar um presente é dizer que gostamos de alguém. E que gostamos dele assim como ele é. E, sobretudo, que não queremos nada em troca. Se damos um presente esperando que essa pessoa retribua com outro presente, não estamos presenteando, mas negociando.

E o triste nessa época do ano é que o ato de dar um presente, que deveria ser um gesto que nasce do fundo do coração, tornou-se um grande negócio. A propaganda quer-nos convencer, a todo o custo, a dar mais e mais presentes. Porque, para o comércio, o gesto de amor de presentear, foi convertido no gesto ganancioso de lucrar.
Se olharmos com profundidade, neste tempo de presentes, estão em disputa duas lógicas econômicas. Por um lado, a economia capitalista que pensa todas as relações como uma troca em que sempre temos que ter lucro. Nessa lógica, o presente não é gratuito, mas é um investimento. A pessoa dá um presente não porque ama, mas para fazer-se amado. E, quanto mais caro o presente dado, maior é o amor com que espera ser amado. O amor virou negócio. É comprado e é vendido em intermináveis prestações que pesam no orçamento de cada mês durante o ano todo.

Do outro lado, está a economia do dom. É a economia do Deus que se faz humano sem esperar nada em troca. É dom gratuito, desinteressado, com o único objetivo de ensinar-nos a amar. Maria, José, os pastores e os reis magos entenderam este gesto de amor de Deus. E foram visitar o menino levando seus presentes sem esperar nada em troca.

Na economia do lucro, do capital, da compra e da venda, cada um dá conforme suas possibilidades e recebe em troca conforme a sua contribuição. Quem dá mais, recebe mais. E quem dá menos, recebe menos. Na economia do dom, do amor, da gratuidade, cada um dá conforme as suas possibilidades e recebe conforme suas necessidades. Quem precisa mais, recebe mais. E quem precisa menos, recebe menos.

São duas lógicas econômicas que estão, literalmente, no berço da experiência cristã, no berço do menino Jesus. E elas marcam todas as relações econômicas, as do passado e as do presente.

Que nesta Festa da Epifania, nos deixemos tocar pelo gesto de Deus que se dá a todos nós indistintamente, sem esperar nada em troca. E nos deixemos tocar pelo gesto dos pastores e dos reis magos que, com aquilo que tem – pouco ou muito – vão até Jesus e se colocam na dinâmica do dom, da gratuidade, da fraternidade universal.
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A família é sagrada!

As festas de Natal e Fim de Ano são festas familiares. É o momento em que as famílias, às vezes espalhadas em diferentes cidades, estados e até países, fazem o esforço para se encontrarem e festejarem a esperança trazida pelo Messias e também pelo Novo Ano que começa.
De onde vem este costume? Talvez do fato de que, no primeiro domingo depois do Natal, a Igreja celebra a festa da Sagrada Família. Mas também pode ser pela prosaica razão de que os feriados de Natal e Fim de Ano – que geralmente combinam um feriadão prolongado – se tornam ocasião para uma viagem e estadia mais longa, propiciando o encontro familiar.
Seja qual for o motivo, o fato é que muitas famílias se reúnem nesta época do ano. Reuniões que, como todos o sabemos, têm um potencial de ambiguidade. Elas podem ser um momento alegre de reencontro de pessoas queridas há muito tempo distantes. Mas às vezes se tornam ocasião para que aflorem as tensões há muito tempo latentes entre os membros da família. Há que ser realista! As festas familiares de Natal e Fim de Ano podem ser um momento de reencontro e união, mas também podem tornar-se uma ocasião de desencontro e separação.
Isso tudo é normal. Afinal, as famílias são compostas por pessoas e se constroem nas relações. Como lembra o Papa Francisco na Exortação Apostólica sobre o Amor na Família, as relações familiares não são apenas ternura e amor. Elas também podem deixar atrás de si “um rastro de sofrimento e sangue”. E não apenas por causa de desentendimentos entre pais e filhos, irmãos e irmãs, tios e sobrinhos, netos e avós, sogras e noras, cunhados e agregados… A família também sofre as pressões do ambiente esterno que muitas vezes lhe é adverso. Na mesma “Amoris Laetitia” o Papa chama atenção para os fatores desagregadores das famílias. Ele cita a cultura do individualismo, a situação de miséria e pobreza na qual são abandonadas muitas famílias, o desemprego, a falta de moradia, a dificuldade no acesso à educação e saúde, a migração forçada de milhões de pessoas de um lado para o outro do mundo, a ausência de políticas governamentais de suporte às famílias em dificuldade e outros tantos males.
Dificuldades estas que não são novas. Elas estavam presentes na Sagrada Família de Nazaré e nas famílias com as quais Jesus conviveu. Basta olhar os evangelhos e veremos o realismo do discurso e da prática de Jesus no que se refere à família. Ele nasceu numa família pobre, que foi obrigada a fugir para uma terra estrangeira. Entrou na casa de Pedro, onde a sua sogra estava doente. Deixou-se tocar pela dor da morte da filha de Jairo e de seu amigo Lázaro. Ouviu o pranto da viúva de Naim pelo filho morto. Atendeu o grito do pai do menino epiléptico que não sabia mais o que fazer diante da doença do filho. Foi jantar na casa dos publicanos Mateus e Zaqueu e na casa de pecadores e doentes. Falou do pai que deixou seu filho partir e depois o acolheu de volta. E dos filhos que nem sempre obedecem às ordens do pai. Teve compaixão do jovem casa de Caná que ficou sem vinho para celebrar o casamento. Contou a história do pai que casou o filho e ninguém veio para a festa. E da mulher que só tinha uma moeda para sustentar a casa e a perdeu.

Histórias reais de famílias reais. Jesus não proclamou um dogma e nem se ateve a doutrinas. Ele falou de famílias reais, concretas que viviam situações muito similares às que hoje nossas famílias vivem.
Ele é uma luz para que, neste período de festas familiares, nós também possamos, a partir das luzes e sombras de cada uma de nossas famílias, derrubar os muros e construir pontes para o encontro de pais, filhos, irmãos, avós, tios, sobrinhos, sogros, cunhados e agregados, para que as famílias sejam, cada vez mais, amplas e acolhedoras numa sociedade aberta e inclusiva.
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