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Os pecados dos padres sinodais

Nesta semana a Igreja Católica Romana está encerrando o Sínodo para a Amazônia. Depois de um longo processo de escuta das várias realidades daquela região, bispos, delegados, consultores e convidados foram reunidos, durante três semanas, em Roma, sob a coordenação do Papa Francisco, para pensar “novos caminhos para a Igreja e por uma ecologia integral”. Ainda não conhecemos as decisões que serão expressas no documento final. Oxalá sejam esperançadoras para a Igreja e para os povos que vivem naquela região e para todo o bioma amazônico, tão fundamental para a vida no planeta Terra.

Com o Papa Francisco cremos que “o tempo é mais importante que o espaço” e que, por isso, o processo é mais importante que o resultado. E o grande ganho do caminho que levou a Roma foi, sem sombra de dúvidas, a prática da sinodalidade. Ou seja, de uma Igreja que, desde as mais remotas comunidades da selva amazônica até a Basílica de São Pedro, foi capaz de pôr-se a caminho para ir ao encontro de todas as pessoas e sentar-se em círculo para conversar e tomar decisões em conjunto. Foi um exercício de uma Igreja em saída e de uma igreja toda ela sinodal.

Além disso, foi um exercício de encarar de frente os problemas internos da comunidade católica e os desafios que a realidade socioambiental apresenta para os homens e mulheres de fé. E essa coragem de não escamotear o real fez com que o sínodo, além de despertar paixões no interno da comunidade católica, também alcançasse repercussões em toda a comunidade cristã e para além dela. É sabida de todos a reação do governo brasileiro e dos setores da sociedade que lucram com a destruição da Amazônica diante do Sínodo. Neste sentido, foi um sínodo eminentemente ecumênico e resgatou o objetivo dos sínodos tradicionais da Igreja: colocar a fé cristã em diálogo com os grandes problemas da realidade.

Dentro da Igreja, duas posturas desenharam os extremos diante do Sínodo. De um lado, aqueles e aquelas que, cientes dos erros cometidos no passado, pedem perdão e buscam novos rumos para o agir eclesial. De outro lado, aqueles e aquelas que, aferrados a uma compreensão da verdade e convencidos de que seu modo de agir é o único possível, mais do que preocupar-se com a evangelização, preocupam-se com a possibilidade de ter que mudar. E, ao invés de combater os males que afetam a igreja, o povo e o bioma amazônico, juntam pedras e paus para atirá-los contra seus irmãos de Igreja e de fé.

São duas atitudes clássicas dentro do cristianismo. E, não por coincidência, estão retratadas no evangelho da liturgia deste fim de semana. De um lado, o fariseu que se orgulha de sua ortodoxia e de sua ortopraxia, mas não tem fé, pois acha que pode se salvar por si mesmo. Do outro, o publicado que, sabendo-se pecador, confia na misericórdia de Deus.

O Sínodo para Amazônia e os debates por ele suscitados nos fazem lembrar que, dentro de cada um de nós, pode existir o publicano e pode existir o fariseu. Que saibamos reconhecer nossos erros e começar tudo de novo, pois, como nos dizia São Francisco, até agora, pouco ou nada fizemos.

A justiça dos homens e a justiça de Deus

A história é bastante conhecida. Mas precisa ser lembrada, pois é a história da justiça. Quando ele nasceu no pequeno vilarejo de Mvezo, em 18 de julho de 1918, recebeu o nome de Nelson Rolihalahla Mandela. Seu pai, analfabeto como a grande maioria da população sul-africana da época, era um líder tribal tradicional. Dentro do sistema de governo imposto na região pelo Império Britânico, seu papel era o de fazer a mediação entre o governo colonial e a população nativa. Era uma mediação tensa, pois os brancos, que contavam com aproximadamente 10% da população, dominavam 90% das terras e toda a produção mineral, a grande riqueza do país.
O destino de Nelson era o de casar-se com uma jovem indicada por seu pai e sucedê-lo na chefia tribal que, em comparação com a grande maioria da população negra, tinha uma vida relativamente confortável. Mas Nelson era um jovem atento à realidade de seu país e com seu olhar observador percebeu que aquele modo de organizar a sociedade não era justo. Em busca de melhores horizontes, mudou-se para a capital do país, ingressou na Universidade – a única para negros na África do Sul  – onde conheceu outros jovens que, como ele, sonhavam com um país livre da dominação colonial e do apartheid que, naquele momento, deixava de ser uma realidade vivida para ser fundamentada em leis.
Sua insurgência contra a discriminação dos negros levou-o a ser expulso da Universidade. Depois de muita luta logrou formar-se advogado e continuou, agora em outros parâmetros e com outros instrumentos, na batalha por melhores condições de vida para seu povo. Sua obstinação custou-lhe caro. Teve que fugir do país e, retornando, viver na clandestinidade até que, em 1963, foi preso e condenado à prisão por traição à Pátria.
De 1964 a 1990, Nelson Mandela foi prisioneiro do Estado sul-africano. Primeiro em Roden Island, depois em Pollsmor e, finalmente, em Victor Verster. Mesmo sem perspectivas de recuperar a liberdade, nunca renunciou a seu sonho de ver seu povo africano livre em seu próprio país.
Com o tempo, a luta da população africana organizada no Congresso Nacional Africano e a pressão internacional, o regime do Apartheid tornou-se insustentável. No final de 1999, o governo sul-africano legalizou os partidos políticos, inclusive o Congresso Nacional Africano e, no dia 11 de fevereiro de 2000, Nelson Mandela deixou a prisão. Em 1993, recebeu o Nobel da Paz. Comprometido com a paz, foi candidato a Presidência do país. Eleito, conduziu a refundação do país num processo de reconciliação nunca antes vivido em nenhum lugar do mundo.
Lembrar a história de Nelson Mandela, é perguntar-se pelo que entendemos por justiça. O sistema legal da África do Sul condenou-o à prisão. Mas era um sistema legal baseado na justiça dos homens brancos detentores da riqueza construída à custa da vida de milhões de negros africanos. Foi essa justiça que condenou Mandela.
Mas houve uma justiça que absolveu Mandela. Foi a justiça da humanidade que crê que toda pessoa tem direitos inalienáveis por ser uma pessoa humana. Essa é a justiça de Deus. A justiça que não esmorece ante os juízes poderosos que arrogantemente querem calar a voz da viúva que clama pelos seus direitos. Essa é a justiça que Jesus nos aponta no Evangelho. Que tenhamos os ouvidos atentos ao seu clamor que é o clamor de Deus.
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Mobilidade, gratidão e salvação

A mobilidade faz parte da condição humana. Mais: poderíamos dizer que o que nos tornou humanos foi o fato de querer ir mais longe. Afinal, o que impulsou nossos ancestrais a deixar de andar de quatro patas para tornarem-se bípedes? Facilitar o deslocamento, com certeza, foi um dos fatores. De pé se vê mais longe e o andar se torna mais ágil e rápido para buscar comida, localizar um melhor lugar para viver, fugir dos inimigos, encontrar-se com os outros… Todas necessidades básicas que moveram os primeiros home sapiens e a humanidade durante trezentos mil anos de história e continuam a impulsionar, hoje, milhões e milhões de pessoas a saírem de seus locais de origem e buscar outros espaços de vida.
De uma forma ou de outra, todos somos migrantes ou descendentes de migrantes. De primeira, segunda, terceira ou mais gerações. É só olhar para trás na história dos antepassados. Às vezes, basta pronunciar o sobrenome para saber que somos migrantes ou descendentes de migrantes. O sotaque e a cor da pele nos denunciam. Por que, então, tanta dificuldade em aceitar os migrantes em nossa comunidade, em nossa cidade, em nosso país?
A palavra técnica para isso é xenofobia. Originada do grego, ela significa, literalmente, o medo ao diferente. De fato, o migrante que nos mete medo é sempre o estranho ao nosso mundo. Se é igual a nós, nem é considerado imigrante, mesmo que tenha vindo de muito longe. Mas se a sua cor de pele, sua língua, sua religião, sua cultura, seus costumes, são diferentes dos nossos, as reações xenofóbicas não tardam a manifestar-se.
O que nos mete medo, não é a mobilidade, mas a presença entre nós do diferente. Parece que isso faz parte da condição humana. Já no tempo de Jesus era assim. Os judeus tinham muita dificuldade em aceitar quem não pertencesse ao seu povo. O ódio aos romanos era óbvio. Roma era o Império estrangeiro que invadiu, espoliou e mantinha sob ferrenha dominação o povo judeu. O medo aos cananeus também, já que Israel havia se apossado de suas terras. Já o medo aos samaritanos era menos explicável. Judeus e samaritanos faziam parte do mesmo povo. E cultuavam o mesmo Deus. O que os diferenciava era a presumida pureza de sangue dos judeus e o lugar de culto e alguns costumes particulares.
Várias vezes nos evangelhos Jesus apresenta um samaritano como modelo de fé. A passagem mais conhecida é a do chamado “bom samaritano”. Mas existe também a passagem do leproso samaritano que, junto com outros nove leprosos judeus, foi curado por Jesus. Dos dez, apenas o samaritano voltou para agradecer. Só ele reconheceu em Jesus a presença salvadora de Deus. Bem diferente dos leprosos judeus que, também curados por Jesus, continuaram encerrados em sua convicção nacionalista e xenofóbica de que os privilégios de Deus são exclusivamente para eles.
Curados, os nove judeus nacionalistas, ortodoxos e xenófobos foram ao templo. Mas Deus não estava no templo. Deus estava em Jesus. E foi só o samaritano estrangeiro, herético e longe de sua terra que o encontrou e foi salvo por sua fé.
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A fé remove montanhas

Como diagnosticado argutamente no final dos anos sessenta pelo pensador francês Guy Debord, vivemos numa “sociedade do espetáculo” onde, o importante, não é ser, mas aparecer.
Nos anos oitenta, no auge do poder da comunicação televisiva, o objetivo de toda a pessoa que ansiava por êxito era, como afirmava Andy Warrol, alcançar os “quinze minutos de fama”. Com o surgimento dos reality shows, esse desejo parecia tornar-se acessível, se não a todos, como profetizara o astro da arte pop, pelo menos a todo aquele e aquela que estivesse disposto a expor a sua vida pessoal até a mais recôndita intimidade ao voyeurismode um público que projeta na fama efêmera de pessoas alçadas do anonimato ao estrelato, o seu desejo inconsciente de parecer aquilo que nunca alcançará ser.
Com a aceleração da comunicação e a necessidade, impulsionada pelo capitalismo, de transformar o espetáculo em produto, os iniciais “quinze minutos de fama” foram reduzidos a “cinco minutos” onde, no dizer de Menito Ramos, cada um atropela o outro para alcançar os aplausos no final. Mas, no capitalismo, onde time is money, cinco minutos é muito tempo e, para alcançar a fama, as pessoas tem que “se virar nos trinta” que decidem do seu êxito ou fracasso.
As novas tecnologias da comunicação e, nelas, as redes sociais, reduziram ainda mais o tempo. Um bom viral, meme ou gif, tem a duração de, no máximo, sete segundos dos quais pode resultar a piada engraçada que consagra ou desgraça a vida dos personagens.
A religião, como parte desta cultura, também entrou na lógica do espetáculo. Seguindo o padrão do televangelismo norte-americano, por todo o mundo e em todos os espectros religiosos surgiram personalidades religiosas midiáticas. E a religião, seguindo a lógica do capitalismo, se tornou um grande espetáculo onde não importa a fé, mas a fama que se transforma em grana justificada pela teologia da prosperidade ou pelo neopelagianismo. Cultos, pregações, shows, curas, exorcismos, testemunhos… tudo passou a ser tratado como um produto a ser vendido a um expectador ávido do extraordinário como forma de superar a sua real insignificância quotidiana. A parresia se transformou em capacidade de convencer incautos dos poderes do pregador sobre Deus e a fé em ignorância que aceita o espetáculo como realidade concretizando a profecia de Guy Debord de que “no mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso”.

A fé é capaz de transplantar árvores de um lugar para outro. E também de remover montanhas. Já o dizia Jesus. Hoje, na sociedade do espetáculo, uma falsa compreensão de fé está removendo montanhas de dinheiro do bolso dos pobres para o bolso de espertalhões que manipulam o desejo de fama e sucesso inoculado pelo capitalismo.

É preciso voltar à fé de Jesus que a descreve como a entrega total a Deus sem esperar em troca nenhuma recompensa, nem material e nem moral. É preciso atuar de modo que, no final de nosso percurso de vida, depois de termos feito tudo o que está a nosso alcance, só nos caiba dizer diante de Deus: “Somos servos inúteis, fizemos apenas o que devíamos fazer”. E aí nossa fé alcançará a sua plenitude.
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Eles têm Moisés e os profetas.

Há poucos dias o Brasil assistiu com espanto as declarações de um Procurador do Ministério Público de Minas Gerais afirmando ser impossível viver com um salário “miserê” de 24 mil reais. Segundo ele, “todo mundo já verificou que é um salário relativamente baixo. Sobretudo para quem tem mulher e filho.” Em sua fala, ele expressa que, além de reduzir os gastos, se sentia ameaçado em sua saúde: “Estou deixando de gastar R$ 20 mil de cartão de crédito e estou gastando R$ 8 mil. Pra poder viver com os R$ 24 mil. Eu e vários outros já estamos vivendo à base de comprimido, à base de antidepressivo. Estou falando assim com dois comprimidos de sertralina por dia, e ainda estou falando deste jeito.”
Mas o incrível da fala do Procurador é a justificativa para a sua demanda de aumento salarial: “Eu, infelizmente, não tenho origem humilde. Eu não sou acostumado com tanta limitação. Talvez eu seja até mal visto porque aqui tá cheio de gente que diz que nós somos perdulários. Tá cheio de gente aqui dizendo que nós ganhamos muito, que temos de economizar. Mas é gente que não gasta um centavo, só vive economizando.”

Para o Procurador, na sociedade brasileira existem dois tipos de pessoas com naturezas diferentes. Os de origem humilde, acostumados a viver com pouco, e os de origem aquinhoada, acostumados a viver com muito. Estes necessitam continuar recebendo mais ainda, pois não podem viver com menos. E os que ganham menos, não precisam receber mais, pois estão acostumados a viver com pouco. É natural que seja assim…

Na real, o Procurador em questão recebeu, nos últimos meses, em média, 60 mil reais por mês. Ou seja, mais de sessenta vezes o salário mínimo nacional. Pergunto-me: o que leva à naturalização de uma situação tão desigual?

Há várias hipóteses… A primeira, a herança feudal de um mundo desigual onde os servos serão sempre servos e os nobres sempre nobres. Ou a cultura escravagista ainda encravada na sociedade brasileira de que o filho do ventre escravo será escravo até a sua morte. Cultura que nem a Lei Áurea declinou de abolir ao negar dar condições dignas para os escravizados e seus descendentes. A geografia de nossas cidades atesta a divisão social que perdura de geração em geração.
O que diz a nossa fé sobre isso? O Evangelho é claro: o rico esbanjador que nega partilhar a sua comida com o pobre que bate à sua porta irá arder para sempre no fogo do inferno. E não há remédio para tal pecado. É duro. Mas é a palavra do próprio Jesus afirmando que esta é a decisão de Deus. E a razão é simples: “Eles têm a Moisés e os profetas, que os escutem”. Através deles, o caminho da salvação, que consiste em cuidar daquele que está caído por terra, já foi pronunciado e disposto para todos.

Mas o mais duro da parábola de Jesus é o final, quando Ele afirma, pela boca de Abraão, que, para aqueles que não socorrem os famintos, não adiante nem enviar alguém ressuscitado dos mortos. Ora, quem é que ressuscitou dos mortos? Jesus, é claro. Então, afirmar que se crê em Jesus ressuscitado e não se atende às necessidades dos pobres, é uma contradição insuperável. Sem atenção ao faminto, ao sedente, ao nu, ao prisioneiro, ao doente…, não há verdadeira fé em Jesus Cristo, mesmo que se proclamem aos céus centenas de profissões de fé e milhares de Aleluia. O fosso é intransponível. Mas há Moisés e os profetas. Felizmente.
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A Lei de Gérson

O nome completo é Gérson de Oliveira Nunes. Nasceu em 11 de janeiro de 1941, em Niterói, RJ. Jogou pelo Flamengo, Botafogo, São Paulo e Fluminense conquistando, em todos eles, vários campeonatos. Com a seleção nacional de futebol foi tricampeão no México em 1970. Sua especialidade eram os dribles curtos e os lançamentos longos, precisos, milimétricos, utilizando sempre o pé esquerdo. Era o “canhotinha de ouro”. Gerson está, sem dúvida, entre os mais importantes jogadores da história do futebol brasileiro.
Mas Gerson é lembrado também por uma expressão que ficou colada ao seu nome: a Lei de Gérson. Ela tem origem numa propaganda de cigarro veiculada em 1976. Nela, o jogador aparecida dando uma entrevista a um jornalista e, nela, fumava determinada marca de cigarro e justificava sua escolha dizendo: “Por que pagar mais caro se o Vila me dá tudo aquilo que eu quero de um bom cigarro? Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também, leve Vila Rica!”

No saber popular, a fala do personagem passou a ser entendida como um estímulo a levar vantagem em tudo, independente dos meios utilizados para tal. Associada ao “jeitinho brasileiro”, ela se tornou símbolo da propensão à desonestidade, à corrupção e ao mau-caratismo assumido como algo positivo na cultura brasileira. Ser brasileiro é ser malandro, é levar vantagem em tudo.

A onda de moralismo e de caça aos corruptos que teve sua primeira irrupção no fim da década de 1980 com a “caça aos marajás” pelo Marajá da Alagoas, hibernou nos anos neoliberais do FHC e renasceu como instrumento de desestabilização dos governos petistas no início do século XXI, parecia desmentir a Lei de Gérson. Nas duas últimas décadas, o combate à corrupção se manteve como principal tema dos noticiários e  principal mote de candidatos e partidos que almejavam o poder. E não se queria apenas tirar o país a limpo. Era precisa fazê-lo com a força de um lava-jato: jogar o lodo e a sujeira para o ralo da história como o mostravam os cenários do noticiário noturno de maior audiência da televisão brasileira.

Os dias passaram e os que queriam acabar com a Lei de Gérson chegaram ao poder. E, mais breve do que se desejaria, damo-nos conta de que todo aquele discurso anticorrupção era apenas mais uma expressão da famosa Lei de Gerson. Era apenas um jeito de levar vantagem em tudo. Para uns, era um estribo para alçar-se no lombo do poder para beneficiar os próprios filhos, os familiares, amigos e parceiros de negócios. Para os investigadores e juízes da Lava Jato, um modo de ganhar fama e vender palestras e assessorias milionárias. Para outros ainda, uma forma de esconder e potencializar a bandidagem miliciana na qual sempre chafurdaram.

Gérson tinha razão? O brasileiro só quer levar vantagem em tudo? Às vezes sou tentado a pensar que sim. Esperançosamente, no entanto, afirmo que não. Talvez as elites brasileiras sofram da Síndrome de Gérson. O povo, na sua maioria, é honesto. Até porque o povo sofre as consequências da Lei de Gérson praticada pelas elites.

Como cristão, fico com o chamado de Jesus. Em meio a tantas pessoas que tentam tirar proveito do dinheiro mal havido, há um princípio fundamental: “Não se pode servir a Deus e ao dinheiro”. Ou, como dizia Deus através do profeta Amós àqueles que maltratavam os humildes e pisavam sobre os pobres da terra: “Nunca mais esquecerei o que vocês fizeram.
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Jogo ou competição

Gosto muito de futebol. Muito corri atrás da bola em minha vida. Desde criança, junto com meus irmãos, primos e vizinhos. No pátio da casa, na rua, na escola. Todos os lugares eram adequados para a bola. Na adolescência e juventude, então, era quase um vício. Futebol de campo e de salão. Não era um craque. Mas garantia a titularidade, às vezes na ponta direita e às vezes de centroavante. Duas funções que no futebol atual não existem mais. Valdomiro e Dario eram os craques a imitar. Lamento que os jovens amantes de futebol não os tenham conhecido.
Há alguns anos, por problemas físicos, fui obrigado a deixar os gramados e a quadra. Mesmo sem me identificar com nenhum – a cada campeonato escolho um time para torcer naquele ano! – continuo apreciando o esporte bretão que virou brasileiro e hoje é alemão.
Das muitas memórias da carreira amadora, uma me é especial. É antiga… Há uns vinte e cinco anos, estava eu jogando futebol com um grupo de amigos oriundos de vários países. Um pouco por habilidade e um pouco por sorte, fiz um “gol de placa”. Bola cruzada na área e, de voleio, acertei um petardo no ângulo. Golaço! Todos os jogadores africanos, tanto os de meu time como os do time adversário, vieram comemorar comigo! Na hora não entendi. Mas depois pensei: eu estava competindo; eles estavam jogando. Para mim o importante era ganhar o jogo. Para eles, ver um gol bonito. São dois modos de pensar que tem sua origem em duas culturas diferentes. A minha, a ocidental, do individualismo, da competição, da vitória sobre o adversário. A deles, a africana, da coletividade, da colaboração, de não deixar ninguém para trás.
São dois paradigmas dos quais me dei conta no futebol. Mas eles estão presentes na sociedade. E em todos os seus âmbitos. A lógica do capitalismo é “cada um por si” e “que vença o mais forte”. Os que caem, os que ficam para trás, são vistos como competidores a menos. Dentro desta lógica, quanto menos gente na competição, melhor.
O mundo da religião também pode se deixar guiar por esta lógica. Para alguns religiosos, as pessoas que discordam de algum ponto da moral ou da doutrina são taxadas de hereges a expulsar da Igreja. Os que pecaram, devem ser impedidos da participação nos sacramentos. É a lógica da exclusão pregada por elites sectárias que se pretendem donas de Deus e da salvação.
Jesus pensa diferente. Para ele, o bom pastor é aquele que deixa as noventa e nove ovelhas e vai em busca daquela que está perdida. Deus é a mulher que varre toda a casa em busca da moedinha que se perdeu e, quando a encontra, faz a festa com as amigas. O verdadeiro Pai é aquele que se alegra mais com o filho mais novo que errou e voltou para casa do que com o filho mais velho que sempre fez tudo certinho.
A vida em sociedade não é competição, mas jogo que constrói o espaço para a convivência inclusiva de todas as pessoas. Religião não é corrida aonde só os santos chegam aos céus, mas comunhão onde cada um cuida das feridas dos outros para que todos possam comemoram juntos a vitória da vida.
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Ruinas de um futuro que nunca existiu

Uma das coisas que mais incomoda os cidadãos contribuintes são as obras inacabadas ou inúteis. É algo endêmico em nosso país. Tanto em nível federal, como estadual e municipal. Usinas nucleares em construção há mais de cinquenta anos; estradas que foram engolidas pela floresta ou pelos lamaçais antes de serem concluídas; pontes em lugares onde não há rios; sistemas de transporte urbano que não respondem às demandas da população; hospitais sem equipamentos; escolas gigantescas onde há poucas crianças ou salas de aula sem professores onde são muitos os que desejam estudar; estádios faraônicos onde não há times de futebol; aeroportos onde sequer cidades existem… E a lista poderia continuar ad infinitum.

Vendo tais situações, logo uma resposta nos vem à mente: corrupção! É verdade. Em tudo isso há muito de corrupção. Obras que foram iniciadas sem necessidade, apenas para satisfazer o apetite dos empresários financiadores de campanha. Ou obras que se prolongam para justificar aditivos orçamentários que perfazem uma soma maior que o plano original. E com o conveniente de que os aditivos não precisam passar por licitação. Basta uma decisão da Bic do governante de plantão para estufar as bolsas dos amigos e amigas.
Mas há algo mais profundo e grave nisso tudo. A falta de planejamento. Obras inacabadas são sintoma da falta de um projeto de nação. Tudo é feito a esmo, sem preocupação com o que queremos para o amanhã de nossos municípios, estados e nação. E como não há um sonho de futuro que nos una, cada governo vende para a população um pseudoprojeto que promete começar tudo do zero como se nada antes houvesse sido feito. E como, de fato, não há projeto de governo, cada administrador faz o que lhe dá na cabeça ou aquilo que lhe demandam seus financiadores ou o grupo econômico ou social que ao qual está vinculado. E os recursos públicos se vão pelo ralo sem que perspectivas de esperança se abram para o povo.
Tal modo de fazer chega ao seu paroxismo quando governantes assumem com o confessado propósito de destruir tudo o que foi feito antes. “Antes de mim o caos” parece ser o que anima pseudomitos a se apresentarem como salvadores da nação. Desmantelar empresas exitosas, anular os projetos em andamento, sucatear o serviço público governando de improviso conforme as emoções do momento que traduzem pulsões de ódio e destruição. O resultado para esse modus operandi é o de um país em chamas. Tanto físicas como sociais. As físicas já estão ardendo na Amazônia. As sociais, já ardem há muito tempo, tanto no campo como na cidade e nas periferias. E, infelizmente, tendem a aumentar. E podem se tornar incontroláveis.
Basta trocar os governantes? A mentalidade mágica na qual muitos ainda vivem, diz que sim: “se não dá certo a gente tira!” Mas não é assim. O que carecemos é de planejamento. E planejamento a longo prazo. O próprio Jesus já dizia isso. Não se começa uma obra sem saber se se tem recursos para ir até o fim. E não se começa uma disputa se não temos certeza de ter mais forças que nosso adversário. Se não temos certeza disso, é melhor não arriscar.
E tudo tem que estar sustentado por uma experiência de fé. É ela que nos dá a coragem de empreender e ir até o fim. Tudo o mais é improviso. E caminho para o desgaste e fracasso. Que tenhamos fé, coragem e cálculo para desenhar e construir uma nação onde não haja mais ruínas de um futuro que nunca existiu.

O peso da comida

Comer é uma necessidade biológica. É o meio pelo qual suprimos os nutrientes necessários ao funcionamento do corpo. Se não comemos, enfraquecemos e, no limite, morremos por desnutrição.
O ser humano, no entanto, na medida em que passou da sua condição animal à condição social, transformou aquilo que era uma necessidade física em uma expressão cultural. Em outras palavras, para os seres humanos, o comer tem um sentido, uma significação que ultrapassa o simples ato de ingerir alimentos.

Analisando o modo como se dá a alimentação nas diversas sociedades, os antropólogos afirmam que em todas elas, desde as mais simples até as mais complexas, o ato de comer é um dos mecanismos fundamentais através dos quais se iniciam e se mantém as relações humanas. E que, quando descobrimos onde, quando e com quem se dá a alimentação, chegamos muito perto de conhecer quase tudo sobre as relações sociais deste grupo humano.

E mais: o modo como se compartilha a comida dentro de um determinado grupo social, desde a família até a escala global, permite delinear o caráter de uma sociedade. Com efeito, compartilhar a comida é uma transação que envolve uma série de obrigações mútuas e dá origem a um complexo interconectado de mutualidade e reciprocidade, tanto no âmbito das relações domésticas quanto no das relações sociais. Não são todas as pessoas que convidamos para almoçar ou jantar em nossa casa. E também somos seletivos quando alguém nos convida para uma refeição em sua casa. Receber alguém para comer ou ir comer na casa de alguém, simboliza fazer parte do mesmo grupo social.

Em todas as cidades, pequenas ou grandes, os restaurantes e as festas onde há comida são distinguidas pelo tipo de pessoas que as frequentam. Cada restaurante e a comida nele oferecida é tipificado segundo a classe social de seus fregueses. E quem vai um tipo de restaurante, dificilmente acessa um lugar “de outro nível”. Se o faz, ou se sente mal ou é mal visto.

Mas não é preciso ser antropólogo para perceber estas realidades ligadas à comida. O “filósofo” Zeca Pagodinho já dizia: o mundo se divide entre aqueles que comem caviar e aqueles que comem arroz, feijão, ovo frito e torresmo. A divisão entre os que comem caviar e o que dele só ouvem falar, é o retrato de um país onde “na mesa de poucos fartura adoidado, mas se olha pro lado, depara com a fome”.

Esse é o país onde os cereais não são mais vistos como “comida” mas como “commodities” e não se pergunta mais quem produz e quem vai comer o trigo, o arroz, o leito, o soja, a carne, mas se pergunta apenas pela cotação de tais produtos na Bolsa de Valores. Nesse mesmo país, quarenta por centos dos alimentos produzidos são desperdiçados enquanto uma parte significativa de sua população ainda passa fome. Isso diz quase tudo sobre o caráter de nossa sociedade…

Jesus não era antropólogo nem cantor. Mas, com certeza, um fino observador da realidade em que lhe tocou viver. Por isso, além de instituir uma refeição como símbolo de sua perene presença na humanidade, chamou a atenção para o modo como são organizadas as refeições. Aconselhou os discípulos a nunca buscarem os primeiros lugares nas refeições, mas a colocarem-se entre os últimos e com eles partilhar a comida.

E os aconselhou também a convidar aqueles que não têm comida para serem comensais em suas casas: “Quando tu deres um almoço ou um jantar, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos ricos. Pois estes poderiam também convidar-te e isto já seria a tua recompensa. Pelo contrário, quando deres uma festa, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos. Então tu serás feliz! Porque eles não te podem retribuir. Tu receberás a recompensa na ressurreição dos justos.”

Esse é o caminho para construir uma nova sociedade baseada não na capacidade de cada um, mas na graça de Deus e em relações gratuitas com as pessoas. Fazendo isso, as refeições certamente serão mais leves, tanto no seu custo como na sua digestão.
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Quem poderá me salvar?

Todos os que vivemos a infância ou adolescência nas duas últimas décadas do século passado, tivemos o privilégio de conhecer o Chapolin Colorado. Ele deu o nome à serie mexicana que, com mais de duzentos episódios, retratava situações hilariantes de um super-herói sem poderes que, com suas trapalhadas, conseguia salvar pessoas em situação de perigo. O cômico personagem era vivido por Jorge Bolaños, o mesmo da série “O Chaves” e continua sendo reprisado em alguns canais de televisão.

Parodiando os filmes de super-heróis norte-americanos, o Chapolin Colorado aparecia quando alguém, em perigo, gritava a frase: “E agora, quem poderá me salvar?” ou então, “E agora, quem poderá me defender?” ou “E agora, quem poderá me ajudar?”

A série, direcionada ao público infantil, trabalha com a fragilidade e a necessidade de proteção que toda criança tem. Com efeito, a criança vê no adulto, mesmo que sem grandes poderes ou atabalhoado, aquele ou aquela que pode lhe trazer ajuda, proteção, segurança, salvação. Essa é a condição infantil. Quanto alguém se torna adulto e faz positivamente essa transição psicológica, passa a não mais precisar de proteção. Ele sabe e pode resolver as situações difíceis. E mais: é capaz de partir generosamente em auxílio dos mais fragilizados e em risco.

Mas, e do ponto de vista existencial, podemos dizer o mesmo? Tenho minhas dúvidas… Acho que toda pessoa humana, por mais adulta que seja, também precisa sentir-se ajudada e protegida. Na resposta a este sentimento, um papel fundamental é jogado pelas religiões. Elas, efetivamente, suprem esta necessidade. E o fazem de formas variadas. Por isso existem diferentes religiões.

Há religiões que, paradoxalmente, afirmam que o ser humano faz sua própria salvação. Nelas, o fiel toma o lugar do próprio Deus e cria a certeza de que, praticando este ou aquele tipo de ação, garante a sua salvação. Em outras religiões, a salvação é alcançada através da prática ritual. Quando o crente executa o rito de forma perfeita, os deuses se sentem satisfeitos e garantem a salvação àqueles que os buscam. São religiões ritualísticas.

O cristianismo, por sua vez, coloca a ação salvadora totalmente nas mãos de Deus. É ele quem nos salva, seja no momento em que Deus-Pai nos cria já com o desígnio de ternos em sua convivência, na ação redentora de Deus-Espírito e pela presença, em nós e em todas as criaturas, de Deus-Espírito que nos conduz de volta ao seio do Pai. Deus não exige nada em troca. A salvação é graça. O único que Ele pede é que correspondamos a essa gratuidade da salvação sendo graça para aqueles que estão ao nosso lado.

Quando perguntado sobre o número dos salvos, Jesus, olhando ao redor e vendo o contexto de injustiça e indiferença que grassava em Israel, responde: “Fazei todo esforço possível para entrar pela porta estreita. Porque eu vos digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão”. E logo esclarece: a dificuldade em entrar não é por não terem ouvido a pregação ou não dizerem-se adoradores de Deus. A dificuldade de muitos em alcançar a salvação nasce do fato de não terem praticado a justiça para com os empobrecidos e debilitados do povo.

E Jesus acrescenta: haverá multidões vindas do norte, do sul, do leste e do oeste que, mesmo sem nunca terem ouvido falar de Deus e sem professarem qualquer tipo de fé e sem praticarem qualquer tipo de religião, mesmo assim entrarão pela porta estreita pelo fato de terem praticado a justiça.
Os discípulos não contavam com a astúcia de Jesus que continua a afirmar: Que me sigam os bons!
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