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O Abraço Múltiplo de Deus

Deus é amor. Uma simples frase de três palavras. Simples assim. Tudo está dito. É o coração da teologia do evangelista João. Ele a repete incessantemente: Deus é amor. E diz mais: quem ama mora em Deus. Linda e aconchegante expressão: morar em Deus. Quem não o deseja? Todos sonham em um dia entrar e permanecer na casa de Deus. Quem sabe, agora mesmo. Pois o tempo que há de vir só tem sentido se já o saboreamos antecipadamente no agora. Ninguém deseja aquilo do qual sequer sentiu um pré-gosto. Só desejamos plenamente o que conhecemos antecipadamente. O aperitivo desperta a vontade de comer mais. Amar agora, é a condição para poder viver o amor plenamente em Deus.

Mas o que é o amor? Para o cristão, o amor é Jesus Cristo. É ele quem nos mostra antecipadamente o que viveremos plenamente em Deus. “Não há maior amor do que dar a vida pelos amigos”, disse Jesus. E pelos inimigos também. Ele não morreu na cruz apenas por aqueles que com Ele fizeram o caminho da Galileia até Jerusalém. Morreu por todos. Inclusive por aqueles que o mataram na cruz. A todos perdoou. A todos amou.

Amor e perdão são duas coisas que caminham sempre juntas. Como disse Jesus falando a respeito da mulher que lhe ungiu os pés com lágrimas, “os muitos pecados dela lhe foram perdoados, pois ela amou muito. E quem experimentou a alegria do perdão, é capaz de amar mais e mais. Não há amor sem perdão. E o perdão é a fonte de todo amor, porque Deus nos amou primeiro.

Amar é perdoar. Amar é dar. E, mais do que dar, amar é dar-se. É entregar-se totalmente ao outro. Quem quer o outro para si, não ama. Querer o outro para si não é amar, mas é possuir, é tomar o outro para que ele sirva aos meus interesses. Quando quero o outro para mim, não estou amando, mas dominando. E, dominar, é fazer-se senhor do outro. É fazer do outro um objeto de minhas posses. É coisificar o outro.

O amor só é possível quando há a capacidade de esvaziar-se, de anular-se a si mesmo para que o outro tome conta de mim. Foi o primeiro movimento de Deus para que o mundo passasse a existir. Deus, que é tudo, encolheu-se para que o mundo e a humanidade passassem a existir. Deus, ao criar do nada, pôs um limite ao seu todo. Agora ele tem outro a quem amar e por quem se entregar.
E essa entrega ele a realizou enviando seu Filho ao mundo na condição humana. Para tal, como diz Paulo na Carta aos Filipenses, Ele esvaziou-se da condição divina e assumiu a condição humana. E não qualquer condição humana. Deus assumiu a condição dos últimos dos humanos, a condição dos escravizados. Na identificação com os escravizados de ontem e com os escravizados de hoje, Deus mostrou o seu amor pela humanidade. Fazendo-se um de nós, mostrou-se como Filho de Deus e mostrou o caminho para Deus. É na identificação compassiva com os escravizados de hoje que encontramos o amor real de Deus.

A entrega de Deus à humanidade foi tão amorosa, tão livre, que o Filho não quis adonar-se da ação salvadora. Ele se retirou. Voltou para junto de Deus. E nesse vazio criado pelo Filho, Deus enviou seu Espírito para que a humanidade continuasse a caminhar com suas próprias pernas. O amor não domina. O amor liberta e permite que a pessoa continue, livremente, a ser ela mesma.

Quando alguém diz que ama, mas não permite que o outro seja ele mesmo, não está amando. Está dominando. Está estabelecendo uma relação de senhor e escravo, e não uma relação de amante e amado.

Na criação do Pai, na salvação do Filho e na santificação do Espírito, experimentamos, de formas variadas, os múltiplos apelos do abraço de Deus que nos ama. Um abraço que não prende. Pelo contrário, é um abraço de entrega. Deus se coloca em nossos braços e nos faz seus no seu amor acolhedor. Um abraço no qual Deus, longe de nos segurar presos a Si, nos impulsiona, nos dá força, nos impele para que sigamos nosso caminho e sejamos cada vez mais nós mesmos.

Um abraço que exige entrega. Que nos compromete a abraçar também. Um abraços que nos faz abrir os braços e deixar que os abraços dos escravizados de hoje nos tomem a nossa identidade e nos façam um com eles assim como Deus se fez e se faz um com nós. Um abraço que nos pede a coragem de retirar-nos do centro para que seja criado espaço para que o outro irrompa com sua própria 
identidade. Um abraço que nos transforme no que o outro é para que ele recupere a sua dignidade. Um abraço que não prenda o outro a nós, mas lhe dá força para que trilhe seus caminhos e sonhos.
Assim agindo, experimentaremos já no agora um pouco do futuro e pleno amor de Deus. Amor que se dá de formas múltiplas, variadas, nos muitos abraços de Deus e nos muitos abraços que damos e acolhemos no dia a dia.

Abraçando e amando, poderemos compreender um pouco do que significa afirmar que Deus é Trindade. Pois a Trindade de Deus não é um mistério lógico e nem ontológico. É um mistério de amor. Um mistério que só pode ser desvendado se nos permitirmos acolher os múltiplos abraços de Deus e nos permitirmos abraçar e deixarmo-nos cingir pelos braços que em nossa direção se estendem a cada dia.

A DINAMITE DO ESPÍRITO

Não se assustem! Não tem nada a ver com explosão, com destruição, com morte. E tampouco com bombas e terrorismo… É apenas uma questão de etimologia, de origem das palavras. Nossa “dinamite” da Língua Portuguesa tem sua origem no grego dynamis. Na língua de Heródoto, dynamissignifica força, energia, poder. A língua de Camões é abundante em palavras que dela derivam. Entre elas, temos dínamo, dinamizar, dinâmico, dinamismo, dinamômetro…

Na Bíblia, especificamente no Novo Testamento, essa palavra tem um uso muito preciso. Mesmo presente em outros escritos com o mesmo sentido, é na literatura lucana que ela mais aparece. No Evangelho de Lucas e nos Atos dos Apóstolos, dynamis indica a força de Deus que age em Jesus e pela qual ele cura as pessoas que dele se aproximam. Também indica a força com a qual ele anuncia a Boa Nova do Reino sem temer aos poderosos deste mundo. Dynamis que Jesus transmite aos seus discípulos e discípulas e que nelas atua para dar continuidade à sua missão. No caminho da comunidade de Jesus, essa dynamis ganhou um nome próprio: é o Espírito que, com o Pai e o Filho, formam a Trindade Divina.

Presente em cada criatura, a dynamis tem diversos modos de manifestar-se e atuar. Tanto no Antigo como no Novo Testamento, muitas são as figuras utilizadas para dela falar: fogo, nuvem, vento, trovão, tempestade, terremoto, brisa suave, água, pomba… Em todas elas, algo em comum: é um agir incontrolável, que não pode ser gerado, nem detido e muito menos direcionado pelos humanos. A dynamisde Deus age onde quer, quando quer e como quer.

Mas há um lugar especial para a sua manifestação. Um lugar muito comum, que muitas vezes nos passa despercebido. É a palavra humana. É pela dynamis divina que os profetas do Antigo Testamento sentiam-se impelidos a falar. E, às vezes, a dizer o que não queriam e não gostariam de dizer. Maria, Isabel, Zacarias, João Batista e o próprio Jesus falam pela dynamis do Espírito. Do mesmo modo os discípulos e discípulas de Jesus o fazem. Naquele tempo e ainda hoje.

É deles que o Papa Francisco, na audiência de 30 de maio próximo passado, diz que “quando o Espírito visita a palavra humana, esta torna-se dinâmica como ‘dinamite’”. A figura é forte, e por isso chamou a atenção. O detalhe é que muita gente esqueceu a continuidade da frase do Papa. Por que ela é importante? Porque nos fala das consequências desta explosão do Espírito na palavra humana. Diz o Sumo Pontífice: a explosão do Espírito na Palavra humana “é capaz de inflamar os corações e fazer saltar esquemas, resistências, muros de divisão, abrindo caminhos novos e alargando as fronteiras do Povo de Deus.”

E é isso o mais importante: a dynamisde Deus é força de novidade, de ruptura e superação de velhos esquemas e de criação do novo. Em tempos em que parte da humanidade e dos cristãos teima em aferrar-se e fechar-se dentro de muros encarquilhados e grades enferrujadas – sejam eles materiais, mentais ou espirituais – que lhes dão uma falsa sensação de proteção e segurança, o Espírito de Deus irrompe com sua força incapaz de ser contida e convida para a novidade da construção de um mundo aberto, sem muros, sem grades, sem armas, sem condenações e sem exclusões. Um mundo em que todas as pessoas possam encontrar-se, vindas do norte, do sul, do leste e do oeste e possam conviver na pluridiversidade em que cada um entende o outro a partir de sua língua, de sua cultura, de sua religião. É o sonho desenhado por Lucas nos Atos dos Apóstolos quando narra a irrupção do Espírito sobre a multidão multinacional, pluricultural e ecumênica reunida em Jerusalém.

Que a Festa de Pentecostes nos dinamize nesta busca de deixarmo-nos habitar pela força de Deus que nos impele para o novo.


A metáfora da Ascensão

A metáfora é uma das figuras de linguagem mais utilizadas e mais poderosas. Através dela, transpomos o significado de algo já conhecido para algo ainda desconhecido e em processo de conhecimento. No falar ou escrever do dia-a-dia, utilizamos muitas metáforas. Na maior parte dos casos, fazêmo-lo sem nos darmos conta.
Tal fenômeno é notável, sobretudo, na linguagem religiosa. Com efeito, falar de Deus implica em tentar dizer aquilo que ultrapassa a capacidade da expressão. Deus é indizível e incircunscritível. Como fazer com que caiba dentro de nossas palavras? Dele, só podemos dizer algo usando metáforas tiradas daquilo que nos é conhecido.
A nossa profissão de fé, o “Creio”, é cheio de metáforas. Uma delas é forte e famosa e está no imaginário de todas as pessoas cristãs. A de que “Jesus subiu as céus”. É uma metáfora que parece pois, na nossa fé, afirmamos que Deus é Espírito e habita em todos os lugares. Se é assim, como o afirmava o velho catecismo de São Belarmino, faz algum sentido tomar esta expressão de forma literal e imaginar Jesus subindo aos céus em meio às nuvens? O que esta metáfora, de fato, quer dizer?
Tomando como referência o imaginário bíblico e a cultura do mundo em que os textos foram que falam da Ascensão foram escritos, podemos afirmar que “subir aos céus” significa, conceitualmente, que Jesus é Deus. Tanto no mundo judaico como no mundo grego, imaginava-se os deuses morando nos lugares altos. As manifestações bíblicas de Deus aconteciam, normalmente, em lugares altos. O Monte Sion, o lugar onde estava construído o Templo de Jerusalém, mesmo não sendo a maior elevação da região, era tido pelos judeus como o lugar mais elevado da Terra. Para os gregos, os deuses moravam no monte Olimpo e, lá das alturas, contemplavam e, conforme o caso, premiavam ou castigavam os míseros mortais que habitavam as planícies.
A verdade de que Jesus, o Filho de Deus, é Deus com o Pai e o Espírito Santo, descrita na metáfora da Ascensão, foi elaborada conceitualmente e proclamada pela Igreja nos Concílios de Niceia e Calcedônia que abandonou a metáfora da Ascensão e afirmar a consubstancialidade entre o Pai e o Filho. Poucos cristãos sabem o que significa “consubstancial”. Mas todos, sem esforço, entendem a metáfora da Ascensão…
Por sua plasticidade, a metáfora é uma figura aberta. Ela é passível de novas interpretações a partir de novas pergunta se novos contextos. Nisso está sua riqueza e amplitude. No caso da metáfora da Ascensão, ela também pode ser lida a partir da linguagem do teatro. Tal interpretação é possível a partir da dica dada pelo texto dos Atos dos Apóstolos. Lucas, ao descrever a cena da Ascensão, afirma que, enquanto Jesus desaparecia entre as nuvens, dois homens vestidos de branco apareceram aos discípulos e disseram-lhes: “Homens da Galileia, por que ficais aqui, parados, olhando para o céu?”
Na metáfora da Ascensão, Jesus sai de cena. Durante três anos, ele havia sido o personagem central e os apóstolos os coadjuvantes e, alguns, a plateia. Agora Ele sai do palco. Jesus se retira para que eles assumam o protagonismo da missão. Aos discípulos e discípulas cabe agora serem os mensageiros e atuadores do Reino. Ele já fez a sua parte. Agora, a responsabilidade recai sobre os homens e mulheres que o acompanharam desde a Galileia e com Ele aprenderam a arte de atuar o Reino de Deus.
Mas, como bom mestre, Jesus não os deixa sozinhos. Deixa-lhes o Espírito Santo. E promete-lhes sempre estar presente para dirigir a sua obra prima para que o espetáculo do Reino não se perca. Agora, é o tempo da Igreja. Nada de ficar olhando para cima. Deus não está acima de todos. Ele está ao nosso lado. Tanto no irmão e na irmã com o qual solidariamente unimos as mãos quanto naquele que está caído e estende a mão para ser levantado. É hora de atuar. É hora de seguir o caminho de Jesus para que um dia nós também possamos ser elevados aos céus.

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Pax Romana ou Paz Cristã?

Todos aspiramos a um mundo de unidade e paz. Só pessoas psicopatas, doentes ou mal-intencionadas gostam de armas, de tensões, conflitos ou guerras. O sonho de quem experimenta em si e quer estender aos outros o calor de humanidade e solidariedade, é de que um dia possamos viver em sociedades onde não haja mais divisões, tenham elas suas raízes em diferenças econômicas, políticas, culturais, étnicas, religiosas, de gênero ou de qualquer espécie. E que, da superação das divisões, nasça a paz tão anelada que nos permita aproximamo-nos de cada pessoa, por mais próxima ou mais diferente de nós, sem receio de ser rejeitado ou agredido e sem provocar nela temor algum.
A fé cristã expressa esse sonho de unidade nas palavras dirigidas por Jesus a seus discípulos no encontro de despedida que com eles fez antes da paixão em Jerusalém. Na conversa com os discípulos, Jesus anuncia que parte para o Pai, mas não os deixará sós. De junto do Pai, Ele enviará seu Espírito para continuar a animá-los na caminhada. E diz aos discípulos que deixará a paz como sinal de sua presença: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou, mas não a dou como o mundo.”
Ao ouvir essa afirmação, logo surge uma pergunta: por que Jesus acrescenta, depois de ter anunciado a paz, que a sua paz não é a mesma que o mundo dá? Haverá duas formas de paz? A paz de Jesus e a paz do mundo?

Ciente da realidade do mundo que o envolve, Jesus sabe, sim, que há dois tipos de paz. A “paz do mundo” é a “pax romana” vivida em seu tempo. A paz imposta pela força das armas. A paz que não permite a diferença. A paz que exige uniformização e submissão. É a paz dos impérios que se constroem pela destruição do diferente. A paz que se nutre da eliminação de pessoas, comunidades, nações e culturas. É a paz dos cemitérios, dos presídios, das casas de tortura, das valas comuns, dos campos de concentração e extermínio. É a paz que nasce da morte, se nutre da morte e que gera morte.
Essa paz Jesus não quer. Essa paz o cristão não pode aceitar. A verdadeira paz é aquela que nasce da justiça, da acolhida do outro, da aceitação do diferente e do voltar-se para aqueles e aquelas que precisam da mão estendida para levantar-se do chão onde foram jogadas pela força da opressão.
A verdadeira paz é exigente. É mais do que um pacifismo que ignora as dores e os sofrimentos dos fracos, dos humilhados e da criação. E ela e difícil inclusive para os cristãos. Nas primeiras comunidades cristãs, assim que surgiram as primeiras tensões por causa das diversidades nelas existentes, a tentação foi a de impor a uniformidade. Os cristãos provindos do judaísmo passaram a exigir que os cristãos oriundos de outras culturas adotassem as tradições e costumes judaicos. Que não comessem carne de animais considerados impuros e se circuncidassem assim como os judeus os faziam.

Por sorte, Paulo e Barnabé, com a força do Espírito Santo, fizeram ressoar de novo no coração da comunidade o ensinamento de Jesus que não exigia a uniformidade mas respeitava cada um no seu modo de ser. Depois da assembleia conciliar em que cada um pode expor seu modo de pensar, a comunidade decidiu não impor nenhum fardo além do indispensável. No relato dos Atos dos Apóstolos, o indispensável é não deixar-se contaminar pela ideologia dominante transmitida por uma religião que, ao invés de pregar a misericórdia, exigia sacrifícios e legitima a dominação. Na Carta aos Gálatas, Paulo, de sua própria palavra, diz que a única condição necessária para que se construa uma comunidade unida e em paz, é “que os pobres nunca sejam esquecidos” (Gal 2,10).

Na soma dos dois textos, o caminho para a construção da unidade e da paz: o diálogo transparente que supera as ideologias de dominação e a justiça para com os mais pobres. Na medida em que estas duas práticas começam a ganhar espaço na Igreja e na sociedade, abrem-se as portas para a Nova Jerusalém.

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Sobre dores e amores ou dialogando com Buda, Jesus, Maomé e Kardec

Ninguém gosta da dor. Seja ela física ou espiritual. Mas é muito difícil, para não dizer impossível, viver sem sofrer, seja no corpo ou na alma. A dor é uma realidade que não podemos negar. Mais cedo ou mais tarde, em algum momento da vida, todos passamos por experiências que ferem o nosso ser. Por que somos obrigados a viver com essa realidade que parece confrontar a nossa condição humana?

Muitas religiões e filosofias surgiram a partir da tentativa – exitosa ou frustrada – para encontrar uma resposta que dê sentido à dor. E a arte muitas vezes se torna a expressão pública e popular das respostas à dolorosa questão. É o caso, por exemplo, de Renato Russo e sua Legião Urbana na música “Quando o sol bater na janela do teu quarto”. Quase no final, depois de considerar várias realidades humanas, ele afirma: “Toda dor vem do desejo de não sentir dor”.  Popularizada pelo cantar brasiliense, a afirmação faz parte de uma das “quatro nobres verdades” de Buda.

Mas, como todas as verdades profundas expressas numa determinada expressão religiosa, ela também é encontrável em outras religiões. No cristianismo, o desejo de não sentir dor como fonte de toda dor e sofrimento, é expressa no convite que Jesus faz aos discípulos: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, some sobre si a sua cruz, e siga-me, porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á.” Ou então, na afirmação de Paulo e Barnabé quando voltaram para as cidades de Listra, Icônio e Antioquia e, para encorajar os discípulos, os exortavam a permanecer firmes na fé dizendo-lhes: “É preciso que passemos por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus”

Mas como fazer para que esta dor não nos destrua, mas sirva de ocasião para iniciar o caminho para chegar à plena realização humana? Um caminho é o do desapego de tudo o que nos prende a esse mundo. Seja das coisas materiais como de nossas vontades pessoais ou dos privilégios sociais. Quando não mais estiver apegada ao nada, aí a pessoa encontrará o todo de seu ser. Maomé dizia que a primeira Jihad é a luta que acontece no interior do fiel para vencer-se a si mesmo em seus desejos egoístas. Só depois terá condições para levar a mensagem de Alláh aos outros. E quem sabe o quanto é difícil vencer-se a si mesmo, será capaz de respeitar os passos do outro no caminho da vitória.

Para Jesus, o caminho para vencer a dor que nasce da condição humana, pessoal ou social, é o amor enquanto capacidade de esquecer-se de si mesmo e entregar-se totalmente ao outro como ele se entregou na cruz. Para o nazareno, amar não é encontrar satisfação para as próprias dores no cuidado que o outro possa proporcionar-me. Amar é voltar-se totalmente sobre as dores dos outros e buscar saná-las dando-se a si mesmo. Mas há um detalhe que precisa ser considerado a partir da única lei que Jesus deixou aos seus discípulos: amai-vos uns aos outros!

Com efeito, o amor é sempre uma experiência recíproca. É um caminho de via dupla. A entrega de um implica intrinsecamente a capacidade de deixar-se amar pelo outro. É um vai e vem em que, ao mesmo tempo em que a pessoa entrega, ela é capaz de acolher o outro que o busca. Amar é ter a capacidade de deixar-se afetar pelo outro, de sofrer em si mesmo os sofrimentos dos outros. E como as dores são mutuamente carregadas, todos, ao mesmo tempo em que carregam os pesos dos outros, tem os seus pesos carregados pelos outros e assim todos ficam aligeirados.

Não consigo imaginar a perfeição e plenitude dessa relação como o paraíso de Alláh em que cada fiel é premiado com setenta e duas huris absolutamente submissas. Onde há submissão, não há amor. Há dominação. Tampouco o posso identificar com o Nirvana e sua imperturbável serenidade da mente após o desejo, a aversão e o engano terem sido finalmente extintos. Amar é deixar-se perturbar pela dor e sofrimento do outro e mover-se para saná-los.

Sem desprezar as compreensões citadas pois elas trazem, sim, uma verdade importante, prefiro a imagem da Nova Jerusalém do Livro do Apocalipse de João. Não é uma cidade fora do mundo, um “Nosso Lar” do imaginário espírita brasileiro. A Nova Jerusalém é cada cidade onde habitamos transformada pelo amor de tal modo que o próprio Deus pode morar nela, pois vive-se, nas relações entre as pessoas, a entrega recíproca e a sanação que o amor produz em todos os que sofrem. Para localizar a Nova Jerusalém, não é preciso perguntar onde ir para encontrar o amor de Deus, mas perguntar se amamos de tal modo que Deus pode morar no meio de nós.

O desafio da unidade

O desafio da construção da unidade da humanidade e, nela, das religiões e das igrejas, é um dos grandes desafios de hoje. Para o cristão, esse desafio não é apenas uma questão política ou social. É uma questão de fé. Nós cremos num só Deus. Mas esse Deus, é em si mesmo plural. Por isso, os cristãos cremos que a unidade só pode ser construída no respeito à diversidade. A divisão só interessa àqueles que, do alto de sua posição social, lucram com a divisão dos fracos.

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A INSUSTENTÁVEL PARRESIA DO PAPA FRANCISCO

Amor e ódio. Diante dele ninguém ficava indiferente. Por quê? Porque ele não passava insensível
ante os grandes problemas da humanidade que se apresentavam a seus olhos nos rostos, corpos e
mentes de pessoas concretas que com ele cruzavam pelos caminhos da Galileia. As multidões
ficavam encantadas com seus gestos de carinho, compaixão, cura e perdão para com leprosos,
endemoninhados, aleijados, cegos, surdos, velhos, crianças, mulheres, estrangeiros, mulheres
estrangeiras, mulheres prostituídas, viúvas… Até mesmo os ricos publicanos por todos desprezados
e os soldados romanos pelos judeus odiados encontravam nele palavras e ações de aproximação e
apelo à conversão para a justiça do Reino.

Para os fracos, suas palavras eram suaves e ternas e não lhes impunha jugo algum. Para os fortes e
poderosos, palavras duras e exigências que não pediam apenas a conversão pessoal. Iam muito
além. A conversão por ele pregada implicava no fim do sistema de exploração tanto dos poderosos
da terra como de seus superiores romanos. Aos judeus pedia a justiça do “Ano da Misericórdia”.
Aos romanos, que voltassem para sua cidade e deixassem o Povo de Deus livre para o culto a Javé.

Qual a diferença entre o “Ano da Graça” com o qual Jesus abriu sua missão e o “Ano da
Misericórdia” que marcou o início do pontificado do Papa Francisco? Nenhuma! Graça e
misericórdia são duas palavras para falar do mesmo amor de Deus que vence o medo das religiões e
impérios que massacram a pessoa humana. Jesus iniciou sua missão na periferia da Galileia, região
desprezada pelos judeus e temida pelos romanos como fonte de distúrbios e provocações. O Papa
Francisco foi a Lampedusa acolher os desprezados da Europa e do mundo. Jesus reuniu junto a si
desempregados, pescadores, coletores de impostos e mulheres para fazer deles os anunciadores da
justiça e da graça de Deus. O Papa Francisco se reunião com os Movimentos Sociais e proclamou
que a justiça é que nenhuma família pode ficar sem teto, nenhum camponês sem terra, e nenhum
trabalhador sem emprego. O Filho do Homem não tinha onde reclinar sua cabeça e enviou seus
discípulos sem mochila, com apenas uma túnica e um par de sandálias. O Papa Francisco recusou
desde o princípio e persiste em manter-se distante de palácios, roupas, sapatos, faustos e honras dos
príncipes deste mundo e da Cúria Romana. Assim como Jesus se recusou a condenar a mulher que
lhe foi apresentada como adúltera, Jesus, ante aqueles indiciados como portadores de pecado ao
mundo, o Papa lembra que Jesus é o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” e pergunta:
“quem sou eu para condenar?”

O Papa é amado e odiado por uma única razão: ele insiste em ser simplesmente um cristão. E seu
cristianismo não se resume à afirmação de uma pertença religiosa. Seu cristianismo é uma fé, uma
aposta de vida, total, absoluta e, ao mesmo tempo, cotidiana e performática. Assim como Jesus, ele
não apenas fala. Ele também faz. E seu agir, provoca amor e ódio como todos os profetas que antes
dele percorreram o caminho da Esperança que passa, necessariamente, pela cruz.

NÃO DEIXEMOS QUE NOS ROUBEM A PAZ!

Conforme a narrativa do evangelista João, as primeiras experiências do encontro da comunidade com o Ressuscitado acontecem “no primeiro dia da semana”.

Para nós, cristãos, acostumados com o calendário que consagra este acontecimento, o primeiro dia da semana é o domingo, dia consagrado de encontro com a comunidade e com o Senhor. Para os homens e mulheres que seguiam a Jesus, o primeiro dia da semana era dia de labuta, de volta às atividades diárias depois do descanso sagrado do sábado. O “primeiro dia da semana” dos judeus equivaleria à nossa segunda-feira. Foi nesse dia normal, profano, laboral, que Jesus se manifestou às discípulas e discípulos.

A primeira experiência do ressuscitado foi a de Maria Madalena junto ao sepulcro. Diferentemente de Pedro e João que viram o sepulcro vazio e não ligaram o que os seus olhos viam com o que ensinava a Escritura, Maria Madalena, ao ser chamada pelo nome, reconheceu a ressurreição de Jesus e o cumprimento da promessa da vitória da morte sobre a vida.
A segunda experiência com o ressuscitado aconteceu na tarde daquele primeiro dia. Desta vez, não apenas a Maria Madalena, Pedro e João. É toda a comunidade dos discípulos e discípulas que é encontrada por Jesus. Com efeito, eles estavam fugindo, estavam com medo de que o que aconteceu com Jesus pudesse acontecer com eles também. Não seria absurdo se as cruzes que sustentaram o corpo de Jesus e os corpos de seus dois companheiros, fossem ocupadas para pender os corpos daqueles que com Ele tinham feito o caminho da Galileia a Jerusalém. Aqueles homens e mulheres sabiam muito bem de que o Império Romano era capaz. E sabiam eles também do que era capaz o povo judeu espezinhado e humilhado pelo portentoso império. A cada ano, quase sempre no tempo da Páscoa que celebrava a libertação da escravidão do Egito, grupos de judeus tomavam em armas e manifestavam sua revolta e cólera atacando e, quando possível, assassinando os soldados invasores. E o sangue – tanto judeu como romano – jorrava pelos campos, colinas, montanhas, caminhos, vilarejos, cidades e até na Cidade de Jerusalém e – para horror de todos – até no Templo Santo.
É nesse clima de terror imperial e ódio popular contra os romanos e seus testa de ferro locais que Jesus se faz presente no meio deles e lhes oferece a paz. Oito dias depois ele novamente se dirigiu aos discípulos e discípulas e saudou-os dizendo “a paz esteja com vocês!” Por que tanta insistência em Jesus nesta saudação de paz? Primeiro, como os textos mesmo o explicitam, porque aqueles homens e mulheres tinham sido tomados pelo medo do império opressor e seus sequazes nacionais que impunham a ordem à ferro, fogo e crucificações. Segundo, por que havia a tentação, entre os próprios discípulos, de revidar da mesma forma e fazer girar a roda insana da violência que se alimenta da própria violência.
Hoje, no nosso contexto, todos sabemos como essa roda insana funciona. À violência dos que muito têm para proteger-se dos despossuídos da terra gera reações de violência que justificam mais repressão e morte. E isso acontece tanto em escala global como em escala local e até mesmo nas relações individuais quando a legalização da violência e de seus instrumentos de execução é apresentada como única forma de se obter segurança.
Mas, segurança não é paz! A segurança é fruto do medo. E mais do que eliminar o medo, ela o aumenta, pois, ao rodear-se de grades, cercas, muros e armas, a pessoa ou grupo de pessoas reconhece que o suposto inimigo continua vivo do outro lado do muro. Seja do lado de dentro ou seja do lado de fora. A paz, a verdadeira paz, só é possível quando os muros forem destruídos e as armas atrás deles ou encima deles postadas forem transformadas em foices e arados, como já dizia antigamente o profeta Isaías.
Essa paz, no entanto, como bem o mostra o evangelista João, só pode ser proclamada e realizada por aqueles e aquelas que foram capazes de vencer a morte. É a paz daquele que fez justiça para com o injustiçado e assim iniciou um futuro de novas relações onde não mais há opressores e espezinhados.
O que venceu a morte, não foi a força do Império Romano com suas legiões armadas com lanças, flechas, carros, cavalos e o terror da cruz justificado pelos juízes sedentos de vingança que aplicavam seletivamente as leis, tanto judaicas como romanas, que não admitiam que um pobre camponês fosse reconhecido pelo povo como seu verdadeiro líder. O que venceu a morte, foi o humilde nazareno que passou a vida consolando os pais que perderam seus filhos assassinados pelos guardas do Templo e pelos soldados romanos, as mães que tiveram suas filhas raptadas ou estupradas pelo patriarcado factual e legal, os doentes e leprosos expulsos da cidade para não contaminarem os saudáveis cidadãos que tinham acesso à medicina, as crianças das ruas e praças dos vilarejos a quem era negada a condição humana e podiam ser eliminados para não enfeiar os passeis dos puros e limpos em direção ao Templo.
O que venceu a morte e podia proclamar a paz como modo de vida, é aquele que ensinou que, repartindo o pão acumulado nos silos e alforjes, é possível alimentar as multidões famintas e assim iniciar a romper o ciclo da violência que degrada tanto aos que a exercem como aos que a sofrem.
Neste tempo pascal, deixemo-nos saudar com a paz que nasce da justiça que liberta aqueles e aquelas que foram injustamente condenados pelos poderosos que clamam discursos de pacificação, prendem, condenam e matam. Não nos deixemos vencem pelo discursos de ódio e pela propaganda da violência. Não deixemos que nos roubem a paz!

"NÃO DEIXEMOS QUE NOS ROUBEM A ESPERANÇA!"

“Não tenhais medo!” São essas as primeiras palavras que, segundo o Evangelho de Marcos, Jesus diz às mulheres – Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé – que vão ao sepulcro para ungir seu corpo. Jesus sabia que elas não tinham medo. Afinal, se tiveram a coragem de levantar-se de madrugada para ir ao local onde o corpo do mestre havia sido depositado e dar-lhe as honras fúnebres como mandava a tradição judaica, era porque elas já haviam vencido o medo.
Mas, medo de que? Do Ressuscitado? Do Anjo que se fez ver? Não… Nada disso! Fazer tal afirmação é desconhecer o contexto em que se deu a morte de Jesus.
O medo ao qual Jesus se refere, era o medo da cruz. Era o medo do suplício infligido pelas autoridades romanas a todos aqueles que ousavam levantar-se contra o seu jugo dominador. Dentro do “terror de Estado” imposto pelas tropas romanas sobre as populações subjugadas, as crucificações, geralmente múltiplas – é sempre bom lembrar que Jesus não foi crucificado sozinho – tinham como objetivo, além de eliminar um revoltoso, evitar que outros seguissem no mesmo caminho. Para tal, utilizava-se o instrumento de tortura inventado pelos persas, introduzido no Ocidente por Alexandre Magno e otimizado pelos romanos: a crucificação.
O objetivo de tal método de tortura e morte não era o de matar, mas prolongar pelo máximo de tempo o sofrimento do prisioneiro. Tal macabro espetáculo – sempre levado a cabo de forma espetacular – era um forte antídoto contra toda ânsia de contestação da dominação romana.
Do ponto de vista romano, a morte na cruz de Jesus foi um fracasso. Ele morreu rapidamente e seu corpo não ficou exposto até ser consumido pelas aves do céu. Mesmo assim, haviam alcançado seu objetivo: os discípulos, aterrorizados com o sucedido ao seu mestre, haviam fugido e retornado aos seus lugares de origem. Os pescadores – seis dentre os doze discípulos – haviam voltado ao lago para pescar. Mateus talvez tenha retomado sua banca de impostos… Dos outros, não há notícias. Só as mulheres ficaram ao pé da cruz. Só elas não se deixaram vencer pelo terror de estado do Império Romano. Por isso vieram até o sepulcro trazendo os óleos aromáticos para ungir o corpo de Jesus.
Dentro da tradição judaica, tal gesto era um sinal de esperança. Ungir o corpo de um prisioneiro trucidado pelo poder imperial, era afirmar que, acima do poder do tirano facínora, está o poder de Deus que fará justiça para com o injustiçado. E império nenhum tolera tal ato de sublevação simbólica. Nem os de ontem e nem os de hoje.
Jesus apresentara-se na sinagoga de Nazara como aquele que veio libertar os aprisionados pelo poder opressor dos latifundiários da Galileia, dos sacerdotes de Jerusalém e dos ocupantes helenistas e romanos. As mulheres, indo ao túmulo para ungir Jesus, estavam afirmando que, apesar do brutal assassinato cometido contra Jesus e suas esperanças, continuavam a acreditar que a justiça para com os pobres da terra um dia será realidade. Por isso, sua vitória sobre o medo tinha que ser reafirmada e anunciada a todos os que estavam sobre a tentação de deixar-se vencer pela desesperança.
Hoje e sempre, visitar e consolar os injustamente aprisionados pelo poder opressor é um sinal revolucionário e de esperança. Recolher e cuidar dos corpos e mentes trucidadas pela sanha exploradora de um sistema econômico que vê as pessoas apenas como força mecânica e intelectual para obter mais lucro, é confirmar nossa fé no Deus que não deixa o seu justo na morte para sempre. Crer no ressuscitado, é afirmar a certeza da vitória dos aprisionados e crucificados sobre os seus algozes.

E nesse contexto que, como nos lembra o Papa Francisco, “o triunfo cristão é sempre uma cruz, mas cruz que é, simultaneamente, estandarte de vitória, que se empunha com ternura batalhadora contra as investidas do mal.”