Arquivo da categoria: Uncategorized
Vida Religiosa leiga: presente e perspectivas
Compartilho abaixo uma apresentação preparada para a assessoria à Assembléia de Maristas e Leigos Maristas realizada em Florianópolis em dezembro deste ano. Trata do presente e das perspectivas que se apresentam para a Vida Religiosa.
Mons. Casaldáliga ameaçado de morte
Porta Fidei
Tendo que preparar um trabalho sobre o tema, busquei na Internet e não encontrei a Carta Apostólica “Porta Fidei” em formato .pdf Depois de dar algumas voltas, transformei o html em .pdf Talvez possa interessar a alguém!
Robinson Crusoé USB
Vitor Knijnik
Blog do Defoe
”A ordenação de mulheres corrigiria uma injustiça”
A declaração mais notória no comunicado de imprensa do dia 19 de novembro anunciando a “excomunhão, dispensa e laicização” de Roy Bourgeois é a afirmação de que a “desobediência” e a “campanha contra os ensinamentos da Igreja Católica” de Bourgeois “ignorava as sensibilidades dos fiéis”. Nada poderia estar mais longe da verdade. Bourgeois, sintonizado por uma vida inteira de escuta aos marginalizados, ouviu a voz dos fiéis e respondeu a essa voz.
Bourgeois traz essa questão ao verdadeiro coração da questão. Ele disse que ninguém pode dizer que Deus pode e não pode chamar ao sacerdócio; e dizer que essa anatomia é de certa forma uma barreira à capacidade de Deus de chamar um dos próprios filhos de Deus coloca limites absurdos ao poder de Deus. A maioria dos fiéis acredita nisso.
Revejamos a história da resposta de Roma ao chamado dos fiéis a ordenar mulheres:
Em abril de 1976, a Pontifícia Comissão Bíblica concluiu unanimemente: “Não parece que o Novo Testamento por si só irá nos permitir resolver de uma forma clara e de uma vez por todas o problema do possível acesso das mulheres ao presbiterado”. Em uma nova deliberação, a comissão votou 12 votos a favor e 5 contra a visão de que a Escritura sozinha não exclui a ordenação de mulheres, e 12 votos a favor e 5 contra a visão de que a Igreja poderia ordenar mulheres ao sacerdócio sem ir contra as intenções originais de Cristo.
Na declaração Inter Insigniores (datada de 15 de outubro de 1976, mas publicada no mês de janeiro seguinte), a Congregação para a Doutrina da Fé disse: “A Igreja, por um motivo de fidelidade ao exemplo do seu Senhor, não se considera autorizada a admitir as mulheres à Ordenação sacerdotal”. Essa declaração, publicada com a aprovação do Papa Paulo VI, foi uma afirmação relativamente modesta como esta: “A Igreja não se considera autorizada”.
O Papa João Paulo II elevou a aposta consideravelmente na carta Ordinatio Sacerdotalis (22 de maio de 1994): “Declaro que a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja”. João Paulo II queria descrever a proibição como “irreformável”, uma postura muito mais forte do que “definitiva”. Isso encontrou uma substancial resistência dos bispos de alto escalão que se reuniram em um encontro especial no Vaticano em março de 1995 para discutir o documento, informou o NCR na época. Mesmo assim, os bispos, em sintonia com as necessidades pastorais da Igreja, ganharam uma concessão para a possibilidade de mudar o ensinamento.
Mas essa minúscula vitória era passageira.
Em outubro de 1995, a congregação doutrinal fez novas ações, publicando um responsum ad propositum dubium referente à natureza do ensino da Ordinatio Sacerdotalis: “Esse ensinamento requer aprovação definitiva, uma vez que, fundado na Palavra de Deus escrita, e desde o início constantemente preservada e aplicada na Tradição da Igreja, foi definida infalivelmente pelo Magistério ordinário e universal”. A proibição à ordenação de mulheres pertence “ao depósito da fé”, disse o responsum.
O objetivo do responsum era parar toda discussão.
Em uma carta sobre o responsum, o cardeal Joseph Ratzinger, então chefe da congregação, pediu que os presidentes das conferências episcopais “fizessem todo o possível para assegurar a sua distribuição e favorável recepção, tendo o cuidado particular para que, acima de tudo por parte dos teólogos, pastores de almas e religiosos, posições ambíguas e contrárias não voltem a ser propostas”.
Apesar da certeza com que a Ordinatio Sacerdotalis e o responsum foram emitidos, eles não responderam a todas as perguntas sobre o assunto.
Muitos apontaram que o fato de dizer que o ensinamento é “fundado sobre a Palavra de Deus escrita” ignorava completamente as descobertas de 1976 da Pontifícia Comissão Bíblica.
Outros afirmaram que a congregação doutrinal não fez uma reivindicação de infalibilidade papal – ela disse que o que o papa ensinou na Ordinatio Sacerdotalis era o que “foi definido infalivelmente pelo Magistério ordinário e universal”. Isso, também, no entanto, foi colocado em questão, porque na época havia muitos bispos em todo o mundo que tinham sérias reservas sobre o ensinamento, embora poucos as pronunciassem em público.
Escrevendo na revista The Tablet em dezembro de 1995, o padre jesuíta Francis A. Sullivan, uma autoridade teológica sobre o magistério, citou o Cânone 749, que diz que nenhuma doutrina é compreendida como definida infalivelmente, a menos que isso seja claramente estabelecido. “A questão que permanece na minha mente é se o fato de os bispos da Igreja Católica estarem tão convencidos pelo ensinamento quanto evidentemente o Papa João Paulo II é um fato claramente estabelecido”, escreveu Sullivan.
O responsum pegou quase todos os bispos de surpresa. Embora datado de outubro, ele não foi tornado público até o dia 18 de novembro. Dom William Keeler, arcebispo de Baltimore, então presidente cessante da Conferência dos Bispos dos EUA, recebeu o documento sem nenhum aviso três horas depois que os bispos haviam adiado o seu encontro anual de outono. Um bispo disse ao NCR que ficara sabendo do documento ao ler o New York Times. Ele disse que muitos bispos ficaram profundamente perturbados com a declaração. Ele, assim como outros bispos, falou de forma anônima.
O Vaticano já começou a ajeitar as coisas contra o questionamento. Como o padre jesuíta Thomas Reese relatou em seu livro de 1989, Archbishop: Inside the Power Structure of the American Catholic Church, com João Paulo II, o ponto de vista de um candidato episcopal em potencial sobre o ensino contra a ordenação de mulheres se tornou um teste decisivo para saber se um padre poderia ser promovido a bispo.
Menos de um ano depois que a Ordinatio Sacerdotalis foi publicada, a Ir. Carmelo McEnroy, das Irmãs da Misericórdia, foi removida do seu cargo titular de professora de teologia do Seminário St. Meinrad, em Indiana, por sua dissidência pública ao ensino da Igreja. Ela havia assinado uma carta aberta ao papa pedindo a ordenação de mulheres. McEnroy muito provavelmente foi a primeira vítima da Ordinatio Sacerdotalis, mas houve muitos mais, como Roy Bourgeois mais recentemente.
O Beato John Henry Newman dizia que há três magistérios na Igreja: os bispos, os teólogos e o povo. Sobre a questão da ordenação de mulheres, duas dessas três vozes foram silenciadas, razão pela qual a terceira voz agora deve se fazer ouvir. Devemos nos pronunciar em todos os fóruns disponíveis para nós: nos encontros do conselho paroquial, nos grupos de partilha da fé, nas convocações diocesanos e nos seminários acadêmicos. Devemos escrever cartas para os nossos bispos, aos editores dos nossos jornais locais e canais de televisão.
A nossa mensagem é de que acreditamos que o sensus fidelium é de que a exclusão das mulheres do sacerdócio não tem nenhuma base forte na Escritura nem qualquer outra justificativa convincente. Por isso, as mulheres devem ser ordenadas. Ouvimos o assentimento dos fiéis a isso em inúmeras conversas em salões paroquiais, auditórios e reuniões de família. Isso foi estudado e rezado individualmente e em grupos. O bravo testemunho da Women´s Ordination Conference, como um exemplo, nos dá a garantia de que os fiéis chegaram a essa conclusão após uma análise e um estudo orantes – sim, até mesmo um estudo da Ordinatio Sacerdotalis.
O NCR une a sua voz a Roy Bourgeois e pede que a Igreja Católica corrija esse injusto ensinamento.
A moral de velhas prostitutas
As brasas sob as cinzas eclesiásticas
Essa imagem das brasas usada por Carlo Maria Martini na celebérrima última entrevista publicada pelo Corriere della Sera no dia 1º de setembro evoca a vida espiritual.
Se as brasas são índice do fogo, mas está submersa por tantas cinzas – institucionais, eclesiais, políticas, econômicas – como faço, dia após dia, na monotonia da cotidianidade, para alimentar a esperança, para não deixar apagar dentro de mim a chama da vida espiritual?
A origem da vida: a água e o fogo
Os mitos cosmogônicos da humanidade, todos, na origem da vida, puseram o fogo; há outro elemento que a consciência arquetípica da humanidade, depositada nesses mitos, colocou como origem: a água. Dos sumérios aos babilônios, dos egípcios aos textos hindus dos Vedas até o Gênesis bíblico: a vida se origina da água.
A superfície do nosso planeta é, em sua grande parte, composta de água, assim como o nosso organismo. Sem água, não há vida. O que representa, então, o elemento do fogo? Assim o explica Simone Weil: “A palavra grega que é traduzida como Espírito significa literalmente sopro ígneo” [1], ou seja, sopro de fogo, fogo primordial que a ciência moderna indica com a palavra energia. A água que é a base da vida é transfigurada pelo sopro quente do Espírito: e eis aquilo que nós somos, água-terra, tornadas luminosas pelo ar-fogo que nelas se reflete criando transparências, arco-íris, reverberações luminosas. Nós somos água-terra que reverbera a luz e ilumina a mente como capacidade de decisão, de liberdade, de emoção, de criatividade, de laços de amor.
A vida espiritual autêntica, aquela que toca e cura a vida, une os dois elementos primordiais: sopro de fogo que desce sobre as águas e as transforma de obscuras a luminosas.
Teilhard de Chardin nos faz compreender que entre Espírito e matéria não há oposição. A matéria é mãe de todas as coisas, dela também surge o Espírito, que, surgindo, torna-se algo novo e diferente com relação à própria matéria. Não dualismo, mas sim dualidade; isto é, não dualidade original, mas sim dualidade que surge da evolução dos sistemas físicos, biológicos, psíquicos.
O encontro entre matéria e Espírito
Como ocorre o encontro entre matéria e espírito? Plutarco o indica: “A mente não precisa ser preenchida como um vaso, mas sim como a lenha precisa de uma centelha que a acenda e nela infunda o impulso para a busca e para um amor ardente pela verdade” [2].
A mente não precisa sobretudo de instrução, de doutrina que diga o que é preciso pensar e o que não, que canalize e encaminhe. A mente precisa sobretudo de uma centelha que acenda: a mente – para que haja vida espiritual – precisa ser tratada como liberdade. Liberdade responsável. Dá-se vida espiritual quando essa liberdade não é vivida como arbítrio, mas sim como impulso para a busca e para o amor ardente pela verdade.
O cardeal Martini diz algo muito desestabilizante acerca do modo como entendemos o nosso ser comunidade eclesial: “Jerusalém ainda hoje está cheia de escolas bíblicas. (…) Quem quer fazer perguntas vai a um professor, a um rabino e estuda a Bíblia. Hoje em dia, algo semelhante seria importante justamente para tornar os cristãos independentes. Na realidade, todo cristão que vive com a Bíblia deveria encontrar respostas pessoais para as perguntas fundamentais, para ser capaz de testemunhar de modo convincente a sua fé, mesmo diante dos outros e saber respondê-las. A paróquia e a grande Igreja, então, de que servem? A paróquia e a grande Igreja se tornariam um contexto que produz estímulos e apoio, não necessariamente um magistério do qual o cristão deveria depender e que muitas vezes toma como pretexto para se afastar” [3].
A Bíblia deveria ser a escola que exercita a mente, a paróquia deveria ser um contexto dentro do qual se possa desenvolver essas escolas da mente que visam a ler a realidade animados constantemente pelo amor ardente pela verdade.
As cinzas que cobrem as brasas
Ao contrário. Ao contrário, estamos submersos, até uma sensação de sufocamento, pelas cinzas eclesiásticas que produzem muito peso sobre aqueles que a ela pertencem. Diz Martini: “A Igreja está cansada na Europa do bem-estar e na América. A nossa cultura envelheceu, as nossas igrejas são grandes, as nossas casas religiosas estão vazias, e o aparato burocrático da Igreja aumenta, os nossos ritos e os nossos hábitos são pomposos. O bem-estar pesa. (…) Eu vejo na Igreja de hoje tantas cinzas sobre as brasas que muitas vezes me assola uma sensação de impotência. (…) A Igreja ficou 200 anos para trás”.
Vocês pensam que essas coisas, talvez, não são claras para todos os homens da Igreja? Não há nada de novo nessas análises, são coisas que sabemos e repetimos; o ponto é que ele, o cardeal, teve a coragem de dizê-las de modo claro. O peso descrito por Martini refere-se à Igreja Católica e à alma ocidental.
Umberto Galimberti explica isso claramente em um livro recém-publicado, Cristianesimo. La religione dal cielo vuoto. Galimberti sustenta que, no Ocidente, não só as raízes, mas o todo da planta – o tronco, as folhas, os frutos, os ramos – tudo está impregnado de religião cristã. Por isso, o vazio do céu do cristianismo é o vazio do céu do Ocidente, incapaz de sonhar, presa do niilismo e da resignação.
Cuidar da centelha sagrada
O que fazer? Martini aponta alguns instrumentos, o primeira dos quais é a conversão. A Igreja deve percorrer um caminho de conversão e de mudança radical. Por que, dentre as coisas a mudar, Martini fala da sexualidade? Porque o fim do Concílio Vaticano II começou quando Paulo VI impediu que os padres conciliares se pronunciassem sobre a moral sexual, advogou para si mesmo a matéria e publicou, três anos depois, a Humanae Vitae. Ali começou o fim da renovação conciliar.
No ano 2000, foi publicada uma pesquisa encomendada pela hierarquia eclesiástica para entender em que medida a moral sexual da Humanae Vitae era praticada no mundo católico. Entrevistaram uma amostra de mulheres católicas praticantes, mulheres que pertencem ao corpo vivo da Igreja Católica. O resultado foi de que apenas 8% declararam praticar as normas morais da carta encíclica.
Esse resultado tão falimentar revela outro aspecto que Martini destacou na entrevista: “Nem o clero nem o Direito eclesial podem substituir a interioridade do ser humano. Todas as regras externas, as leis, os dogmas nos foram dados para esclarecer a voz interior”. O fundamento decisivo de todo discurso sobre a verdade está ligado à interioridade humana. A interioridade humana é algo que deve cuidar da centelha sagrada, do núcleo vital que não se resigna ao desespero, que insere energia positiva no mundo, que insere esperança.
Se não há interioridade, não há vida espiritual. Se não há a pessoa interior, o mundo, com os seus poderes fortes, antes ou depois destrói a imaginação utópica. E nos conformamos com isso, e essa é a desilusão de grande parte da esquerda, porque falta a energia interior, uma fonte outra – que não deve ser necessariamente cristã – com relação à simples lógica dos poderes deste mundo.
A fé de Dostoiévski
Fiódor Dostoiévski escreveu uma carta que eu gosto tanto a ponto de me comover. Encarcerado na Sibéria, Dostoiévski havia sido condenado à morte: o comandante havia enfileirado o pelotão de fuzilamento, comandado o fogo e, depois, como se fosse um jogo, disse: “Chegou o pedido de graça, não atirem”.
Desde então, Dostoiévski ficou vítima de ataques epilépticos. Na Sibéria, ele havia sido visitado por uma mulher que havia dado a ele e aos seus outros companheiros de prisão o Novo Testamento. Quando saiu da prisão, ele procurou aquela mulher e, em janeiro de 1954, lhe escreveu esta carta:
“Eu lhe direi que sou um filho do século, um filho da descrença e da dúvida, e que, eu sei, permanecerei assim até o túmulo. Que terrível sofrimento me custou e me custa agora essa sede de fé, que é tão mais forte na minha alma quanto mais são os argumentos contrários. No entanto, Deus me manda às vezes minutos em que eu estou totalmente sereno. Nesses minutos, eu amo e sei que sou amado pelos outros. Nesses minutos, eu criei em mim uma profissão de fé em que tudo me é claro e sagrado. Essa profissão de fé é muito simples, ei-la: crer que não há nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais razoável, de mais corajoso e perfeito do que o Cristo, e não só que há, mas, com amor ciumento, digo a mim mesmo que não pode não haver. E não somente isso: se alguém me demonstrasse que o Cristo está fora da verdade e, de fato, resultasse que a verdade está fora do Cristo, eu preferiria ficar com Cristo em vez da verdade.”
“Nesses minutos, eu amo e sei que sou amado”: essa é a fonte existencial que levou Dostoiévski a criar a sua profissão de fé. O Cristo do qual ele fala não é outra verdade conteudística ao lado das outras; é o símbolo ao amor concreto, solidário, conectado em todo instante com a realidade, é um método.
Aquela modalidade que te leva a olhar a vida não sob a insígnia da vontade de poder, do teu credo, da tua Igreja, mas sim que te faz estar em conexão com a vida verdadeira para servi-la a todo instante, para fazer brotar o bem de toda situação. Esse é o sentido em que Cristo dizia “Eu sou a verdade, eu sou o caminho, a verdade, a vida”, para caminhar neste mundo servindo sempre o bem e a justiça.
Notas:
1. Simone Weil, L’enracinement [O enraizamento]. Paris: Gallimard, 1949.
2. Essa frase se encontra na conclusão de um pequeno tratado intitulado “A Arte de ouvir”.
3. Carlo Maria Martini e Georg Sporschill. Diálogos noturnos em Jerusalém (Mondadori, 2008, p. 66) [versão brasileira: Paulus, 2008].
Mulher, imigrante e explorada: estudo retrata trabalho doméstico nos EUA

Imigração e exploração
Legislação

