Com mariachis e missa em espanhol, igreja nos EUA abre portas para gays latinos – BBC Brasil – Notícias

Maribel Torres cruzou a fronteira entre o México e os Estados Unidos a pé para, nas suas palavras, realizar o sonho de “encontrar aqui as partes do corpo que me faltavam”.
Foram três dias de viagem entre a casa da família, em Oaxaca, e a fronteira, e mais uma semana caminhando pelo deserto até a Califórnia.
No meio do percurso, contou Maribel à BBC Brasil, o grupo de cerca de dez pessoas se recusou a avançar e foi abandonado pelos “coiotes”, como são chamados os “guias” de imigrantes ilegais.
Por sorte, os retirantes viajavam em dois grupos e o de Maribel foi encontrado pelo que vinha atrás. “Foi bem difícil fazer essa travessia”, disse a jovem de 25 anos, que tinha 19 à época. “Vir para um lugar onde você não conhece nada, não sabe o que vai acontecer, não sabe se vão te prender ou deportar.”
Arriscar a vida foi o preço que a mexicana transgênero decidiu pagar para “fugir do estigma, fugir da família e da não aceitação, fugir de um lugar de onde as pessoas metem o nariz na vida dos outros”, relembrou. “Amo o México, porque é o meu país, mas os EUA me deram o que México nunca me deu.”
Em meio a chocolate quente, tamales – pamonhas de milho recheadas com carne de porco – e outras iguarias típicas de alguns países latino-americanos, ao som de mariachis e após uma missa celebrada em espanhol para devotos da Nossa Senhora de Guadalupe, ela está em casa nesta igreja na capital americana, Washington.
Há 45 anos a chamada Igreja das Comunidades Metropolitanas (ICM) abre os braços para lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros (LGBT), mas é a primeira vez que a sua sede em Washington realiza uma missa em espanhol com o objetivo específico de atrair os latinos entre eles.
Igreja gay / Cortesia ICM de Washington /J. Hardy

Em igreja voltada à comunidade gay, banda de mariachis participa de culto em espanhol
“Para a comunidade latina, isto ainda é uma grande novidade”, afirmou o reverendo Jorge Delgado, “porque as festividades tradicionais normalmente ficam sempre em segundo plano quando as pessoas deixam o seu país”.

‘Saindo do armário’

Mas a novidade é também sinal de uma tendência de latinos assumirem sua sexualidade cada vez mais abertamente nos EUA, um fenômeno que as mudanças na demografia e nas gerações explicam.
À medida que os filhos dos imigrantes de países latino-americanos ganham espaço na sociedade americana, as atitudes de uma parcela da população tradicionalmente classificada como conservadora também se transformam – rapidamente.
Uma pesquisa do instituto Pew Religion, por exemplo, mostrou que, tão recente quanto em 2006, 31% dos latinos apoiavam ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, enquanto 56% se opunham à ideia.
Neste ano a equação se inverteu: 52% são favoráveis e 34%, contra. Mesmo entre os hispânicos católicos a visão pró-casamento gay já é maioria.
Igreja gay / BBC

Igreja é frequentada principalmente por comunidade gay
Eduardo Mercado, representante da organização Dignity Grupo Latino, que atua pelas comunidades LGBT latinas de fé em Washington, disse à BBC Brasil que pouco a pouco a mudança de atitude dos hispânicos passa a incluir também um aspecto central da cultura latina, a religião.
“Agora os latinos estão compreendendo que não precisam separar a sua fé e a sua sexualidade”, disse.
“À medida que eles começam a entender melhor os seus direitos civis, percebem que esses direitos também se aplicam à fé”, acrescenta.

Homofobia

Mas a hesitação dos latinos em embarcar nessa tendência está enraizada em uma profunda história de homofobia em casa. Em 2011, dos 248 assassinatos só de transgêneros compilados mundialmente pelo projeto Trans Murder Monitoring Project, mais de 80% – 204 – foram na América Latina.
Sozinho, o Brasil responde por mais de 100. E as entidades de direitos humanos ressalvam que apenas os casos mais notórios são contabilizados.
A vida nos EUA traz mais segurança física e psicológica, mas mesmo assim muitos latinos “saem do armário em inglês, mas não em espanhol”, dizem as entidades: assumem sua homossexualidade na sua “vida americana”, mas ocultam esse fato na tradicional vida familiar.
Igreja gay para latinos / BBC

Muitos fieis, dizem os pastores, têm medo de ‘saírem do armário’ para suas famílias
O pastor sênior da ICM de Washington, reverendo Dwayne Johnson, prestava assistência à igreja de Monterrey, no México, quando trabalhava na igreja de Houston, Texas. Ele disse que sua experiência lhe permitiu ver de perto como “a dinâmica e as pressões da família” agiam sobre indivíduos LGBT latinos.
“Muitas vezes, quando os fiéis vinham para missa, você podia ver o sentimento de alívio e de liberdade, de ter algumas horas em que eles podiam ser eles mesmo”, contou o religioso. “Aqui nos EUA é fácil dar isso como fato consumado, mas em Monterrey era como se as vidas deles dependessem daquilo.”

‘Não ao pecado, sim ao pecador’

O que não significa que, mesmo nos EUA, os indivíduos LGBT possam expressar sua religiosidade sem preocupações. Muitas paróquias operam, não oficialmente, a política do “não pergunte, não conte”, ou, como diz Eduardo Mercado, uma condescendente abordagem de “odiar o pecado, amar o pecador”.
Antes de frequentar a ICM de Washington, Maribel disse que ia às missas em outra igreja em Maryland, “mas apenas para escutar a missa, porque não havia a possibilidade de fazer parte dela”.
“Ainda é difícil encontrar uma igreja te aceite e diga que você é bem-vindo”, relata a mexicana, que se define como católica praticante e devota dos “santitos” que mantém em casa.
Nos EUA, a ICM, criada em 1968, é uma igreja congregacional alinhada com o protestantismo tradicional. Mas Maribel entende que as diferentes denominações religiosas são menos importantes, e que ser cristão é mais que nada “levar a palavra de Deus”.
“Outras igrejas querem que a gente mude a nossa aparência física”, diz, “mas eu acho que a mudança é interior”.

Após cristãos e mulçumanos, sem-religião são 3º maior grupo no mundo – BBC Brasil – Notícias

Muçulmano reza em mesquita. AP

Os muçulmanos são o segundo maior grupo após os cristãos e somam 43,5 milhões na Europa
O grupo dos que se declaram ateus, agnósticos ou sem religião em todo o mundo só fica atrás daqueles que se dizem cristãos e muçulmanos. Na média, 8 em cada 10 habitantes do planeta se declaram religiosos.

Clique no link a seguir e leia a íntegra da reportagem: Após cristãos e mulçumanos, sem-religião são 3º maior grupo no mundo – BBC Brasil – Notícias

O deus das armas e a religião do fuzil nos EUA

A análise é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor de história do cristianismo da University of St. Thomas, em Minneapolis-St. Paul, nos EUA. O artigo foi publicado no jornal L’Unità, 16-12-2012. 
Ainda não se sabe se o massacre de Newtown irá mudar a atitude do norte-americano médio com relação às armas: os anteriores, principalmente a partir de Columbine High School, em 1999, não conseguiram. Nos Estados Unidos, contam-se mais de 15 mil mortes por armas de fogo a cada ano (os números variam), e ele é um país desde sempre acostumado à violência. As estatísticas dizem que, nos EUA, há menos violência do que nas décadas anteriores, e que nos país circulam mais armas, mas essas mesmas armas estão nas mãos de uma parte numericamente descendente de norte-americanos: uma minoria, mas cada vez mais armada.
Também por esse motivo, o caso de Newtown não é uma exceção à regra, mas exatamente a regra de uma América em que o fetiche pela arma (não só pistolas e fuzis, mas também, recentemente, arcos e flechas supertecnológicos) tende a se ocultar em camadas restritas da população. Reduzir a gênese do atentado à mentalidade perturbada do agressor equivaleria a ignorar um dos elementos típicos do cenário moral norte-americano.
No seu Democracia na América, Alexis de Tocqueville descrevera a viagem à conquista do novo mundo como a aventura “into the wild” do homem norte-americano armado com “uma Bíblia, um machado e um jornal”. Desde então, o mundo norte-americano mudou muito, mas não se atenuou a radical diferença com o mundo europeu quanto à percepção moral da violência e da posse de armas. Mas, ao lado dessa diferença entre a mentalidade norte-americana e a do resto do mundo sobre as armas nas mãos da população civil, cresceu também a distância entre os dois extremos da moral norte-americana, fruto da polarização cultural do país: a pro-guns e anti-abortion de um lado, e a anti-guns e pro-abortion de outro. De um lado, os liberais acreditam na necessidade de um maior controle sobre a circulação das armas no território dos EUA e na total liberdade de escolha das mulheres acerca do aborto; de outro, os ativistas antiabortistas estão entre os mais aficionados àquela interpretação à segunda emenda da Constituição norte-americana que dá aos cidadãos o direito de portar armas. Mas a jurisprudência constitucional sobre a segunda alteração é afetada por um fundamentalismo jurídico que passou da Bíblia para a Constituição – também graças aos juízes católicos da Suprema Corte, hoje nada menos do que seis dentre nove. Esquece-se de que aquela emenda pretendia dar aos cidadãos o direito de se armar não para se defender do crime ou das violências domésticas, mas sim dos abusos do governo em uma América desde sempre desconfiada do poder, especialmente o do governo federal. 
 Os Estados Unidos da América são um país excepcional com relação ao mundo inteiro quanto à intensidade do sentimento religioso e quanto ao fascínio pela violência e pela morte: as duas coisas estão ligadas. O apego à Bíblia e ao fuzil muitas vezes andam juntos: não é por acaso que o Moisés de Hollywood, Charlton Heston, tornou-se o mais famoso porta-voz da National Rifle Association, o lobby capaz de fazer eleger deputados e senadores, e capaz de impedir qualquer tentativa de aprovar leis sobre o controle das armas. 
 O presidente dos Estados Unidos, sumo pontífice da religião norte-americana, tomado pela emoção, é a imagem da impotência desse pontífice de ter razão não só do lobby da NRA, mas também daquela grande fatia de norte-americanos que veem no direito de portar armas a última linha de defesa simbólica contra o governo, a política, os intelectuais, os gays, os meios de comunicação, o cosmopolitismo. 
Aquelas crianças mortas, as lágrimas dos seus pais e de todos os pais dos EUA são os sacrifícios humanos que a América deixa se impor pela religião do fuzil. Até agora, as Igrejas norte-americanas foram tímidas sobre a questão das armas, muito mais tímidas do que sobre outras questões pro-life: é hora de que o controle das armas comece a fazer parte da “cultura da vida” na América religiosa. Até então, a religião das armas continuará ceifando vítimas.

Mons. Casaldáliga ameaçado de morte

El obispo claretiano Pedro Casaldàliga, de 84 años, se ha visto obligado a dejar su casa en São Félix do Araguaia e irse a más de 1.000 kilómetros por indicación de la policía federal de Brasil. Religión Digital ha informado de esta noticia que nosotros completamos. La causa ha sido la intensificación en los últimos días de las amenazas de muerte que recibe por su labor durante más de 40 años en defensa de los derechos de los indios Xavante. La productora Minoria Absoluta, que trabaja en una ‘mini serie’ sobre el religioso, ha sido uno de los denunciantes. El hecho de que el gobierno de Brasil haya decidido tomar las tierras a los “fazendeiros” para devolver a los indígenas, legítimos propietarios, ha agravado el conflicto. De hecho, la productora señaló que el equipo de rodaje tuvo que modificar su plan de trabajo. En concreto, y por recomendación del gobierno brasileño, el equipo tuvo que cruzar el bosque y hacer una ruta de 48 horas de duración para evitar la zona de conflicto. Casaldàliga se ha convertido en objetivo de los llamados ‘invasores’ que fraudulentamente se apropiaron de las tierras en Marâiwatsédé de los Xavantes. El obispo claretiano, de 84 años y afectado de Parkinson, trabaja desde hace años a favor de los indígenas y de sus derechos fundamentales a la prelatura de São Félix y se ha convertido a nivel internacional en cara visible de la causa. Los terratenientes y los colonos que ocuparon fraudulentamente y con violencia las tierras, serán desalojados próximamente por la orden ministerial que desde hace 20 años está pendiente de cumplimiento. Según informó en un escrito la Asociación Araguaia con Casaldáliga , el obispo ha tenido que coger una avión escoltado por la policía y actualmente se encuentra en casa de un amigo suyo del que se ha ocultado identidad y la localización por temas de seguridad. “Nos sentimos plenamente identificados con la defensa que desde siempre ha hecho el Obispo Pere y la Prelazia de Sâo Félix de la causa indígena”, dice el escrito de la asociación, que emplaza a la comunidad internacional a velar por la seguridad de Casaldàliga y los derechos de los indios de Xavantes. También a través de Twitter ha circulado el comunicado de apoyo del Conselho Indigenista Missionário-organismo vinculado a la Conferencia Nacional de Obispos de Brasil-, firmado por asociaciones y entidades vinculadas con la lucha indígena y con los derechos humanos. Este vídeo que mostramos, ha sido grabado hace tan solo un mes. Pedro Casaldáliga, atacado por el temblor del Parkinsons, con la cabeza despierta… sigue, erre que erre, hablando de lo importante que es para todo cristiano que quiera serlo de verdad estar del lado de los pobres.

Robinson Crusoé USB

Vitor Knijnik

Blog do Defoe

Robinson Crusoé, apesar de não ter vampiros e magos adolescentes, segue atrativo para as novas gerações. É que para este público não existe nada mais assustador, nos dias de hoje, do que ficar desconectado. Por isso, o livro saiu da prateleira de “Aventuras” e foi parar na de “Terror”. Imagina comer sem postar a foto do prato. Descobrir uma praia secreta e não mostrar pros amigos. Colher verduras da sua horta orgânica e não compartilhar. Que pesadelo.
Não vou mentir pra você que planejei ou previ tal efeito. Meu livro, como todos, é fruto da época em que nasceu. E eu o escrevi durante o período de expansão do império britânico. A história idealiza a figura do colonizador, ao mesmo tempo que vende as maravilhas do colonialismo inglês. Olha só: um homem branco europeu chega numa ilha deserta e desconhecida. Com engenho e coragem, edifica sua casa, fabrica seus instrumentos, doma a natureza, prove seu sustento e ainda prospera até o ponto de estocar alimentos. Civiliza um nativo e lhe apresenta “o verdadeiro Deus”. Nem um publicitário faria melhor. Por falar em publicitário, aquele filme “O Náufrago” com Tom Hanks é a versão Milton Neves do Robinson Crusoé. Desculpe a dispersão, foi só um comentário.

Para as novas gerações não existe nada mais assustador do que ficar desconectado. Imagina comer sem postar a foto do prato. Descobrir uma praia secreta e não mostrar pros amigos
Apesar da atualidade da obra, pensei em escrever uma nova versão de meu clássico. Ainda não tenho claro o que desejo fazer. Talvez trazer a história para o presente, sei lá. Anotei algumas ideias e, mesmo que ainda cruas, quero compartilha-las aqui. Vai que você se inspira e acaba contribuindo com outras sugestões. Preciso me modernizar. Nestes tempos de crowdsourcing ninguém precisa ser uma ilha.
Anotações para Robinson Crusoé 2.0
» Depois do naufrágio, ele chega na praia. Tira do bolso o celular e, milagrosamente, o aparelho funciona. E surpresa: o 3G também. Mas antes de ligar para alguém o socorrer, Robinson não resiste e gasta os últimos pontinhos da bateria lendo o Facebook. Depois se lamenta por vinte e oito anos, dois meses e dezenove dias.
» No lugar do Novo Testamento, Crusoé leva o Google impresso e o consulta o tempo todo. Como domesticar cabras? O que fazer num sábado à noite numa ilha deserta? Pode o homem casar com um coco? E com sua mão?
» Crusoé envia um e-mail pedindo socorro. A mensagem é recebida. Mas a guarda costeira, encarregada de o resgatar, usa os mapas da Apple e, portanto, não consegue localizar a ilha.
» Assim como na versão original, Robinson parte do Brasil. Ao chegar na ilha não consegue ligar o seu notebook porque nenhuma tomada é compatível.
» Robinson passa quase três décadas isolado. Finalmente, uma embarcação chega à ilha. Dentro dela, a equipe da revista Caras. Crusoé está louco para ir embora, mas é obrigado a participar de uma longa sessão de fotos, antes de zarpar.
» Por fim, pensei em trocar o nome do personagem Sexta-feira para Black Friday.

”A ordenação de mulheres corrigiria uma injustiça”

“A nossa mensagem é de que acreditamos que o sensus fidelium é de que a exclusão das mulheres do sacerdócio não tem nenhuma base forte na Escritura nem qualquer outra justificativa convincente”, escreve, em editorial, o jornal National Catholic Reporter.
O chamado ao sacerdócio é um dom de Deus. Ele está enraizado no batismo e é convocado e afirmado pela comunidade por ser autêntico e evidente na pessoa como um carisma. As mulheres católicas que discerniram um chamado ao sacerdócio e tiveram esse chamado afirmado pela comunidade devem ser ordenadas na Igreja Católica Romana. Barrar as mulheres da ordenação ao sacerdócio é uma injustiça que não pode ser autorizada a permanecer.
A declaração mais notória no comunicado de imprensa do dia 19 de novembro anunciando a “excomunhão, dispensa e laicização” de Roy Bourgeois é a afirmação de que a “desobediência” e a “campanha contra os ensinamentos da Igreja Católica” de Bourgeois “ignorava as sensibilidades dos fiéis”. Nada poderia estar mais longe da verdade. Bourgeois, sintonizado por uma vida inteira de escuta aos marginalizados, ouviu a voz dos fiéis e respondeu a essa voz.
Bourgeois traz essa questão ao verdadeiro coração da questão. Ele disse que ninguém pode dizer que Deus pode e não pode chamar ao sacerdócio; e dizer que essa anatomia é de certa forma uma barreira à capacidade de Deus de chamar um dos próprios filhos de Deus coloca limites absurdos ao poder de Deus. A maioria dos fiéis acredita nisso.
Revejamos a história da resposta de Roma ao chamado dos fiéis a ordenar mulheres:
Em abril de 1976, a Pontifícia Comissão Bíblica concluiu unanimemente: “Não parece que o Novo Testamento por si só irá nos permitir resolver de uma forma clara e de uma vez por todas o problema do possível acesso das mulheres ao presbiterado”. Em uma nova deliberação, a comissão votou 12 votos a favor e 5 contra a visão de que a Escritura sozinha não exclui a ordenação de mulheres, e 12 votos a favor e 5 contra a visão de que a Igreja poderia ordenar mulheres ao sacerdócio sem ir contra as intenções originais de Cristo.
Na declaração Inter Insigniores (datada de 15 de outubro de 1976, mas publicada no mês de janeiro seguinte), a Congregação para a Doutrina da Fé disse: “A Igreja, por um motivo de fidelidade ao exemplo do seu Senhor, não se considera autorizada a admitir as mulheres à Ordenação sacerdotal”. Essa declaração, publicada com a aprovação do Papa Paulo VI, foi uma afirmação relativamente modesta como esta: “A Igreja não se considera autorizada”.
O Papa João Paulo II elevou a aposta consideravelmente na carta Ordinatio Sacerdotalis (22 de maio de 1994): “Declaro que a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja”. João Paulo II queria descrever a proibição como “irreformável”, uma postura muito mais forte do que “definitiva”. Isso encontrou uma substancial resistência dos bispos de alto escalão que se reuniram em um encontro especial no Vaticano em março de 1995 para discutir o documento, informou o NCR na época. Mesmo assim, os bispos, em sintonia com as necessidades pastorais da Igreja, ganharam uma concessão para a possibilidade de mudar o ensinamento.
Mas essa minúscula vitória era passageira.
Em outubro de 1995, a congregação doutrinal fez novas ações, publicando um responsum ad propositum dubium referente à natureza do ensino da Ordinatio Sacerdotalis: “Esse ensinamento requer aprovação definitiva, uma vez que, fundado na Palavra de Deus escrita, e desde o início constantemente preservada e aplicada na Tradição da Igreja, foi definida infalivelmente pelo Magistério ordinário e universal”. A proibição à ordenação de mulheres pertence “ao depósito da fé”, disse o responsum.
O objetivo do responsum era parar toda discussão.
Em uma carta sobre o responsum, o cardeal Joseph Ratzinger, então chefe da congregação, pediu que os presidentes das conferências episcopais “fizessem todo o possível para assegurar a sua distribuição e favorável recepção, tendo o cuidado particular para que, acima de tudo por parte dos teólogos, pastores de almas e religiosos, posições ambíguas e contrárias não voltem a ser propostas”.
Apesar da certeza com que a Ordinatio Sacerdotalis e o responsum foram emitidos, eles não responderam a todas as perguntas sobre o assunto.
Muitos apontaram que o fato de dizer que o ensinamento é “fundado sobre a Palavra de Deus escrita” ignorava completamente as descobertas de 1976 da Pontifícia Comissão Bíblica.
Outros afirmaram que a congregação doutrinal não fez uma reivindicação de infalibilidade papal – ela disse que o que o papa ensinou na Ordinatio Sacerdotalis era o que “foi definido infalivelmente pelo Magistério ordinário e universal”. Isso, também, no entanto, foi colocado em questão, porque na época havia muitos bispos em todo o mundo que tinham sérias reservas sobre o ensinamento, embora poucos as pronunciassem em público.
Escrevendo na revista The Tablet em dezembro de 1995, o padre jesuíta Francis A. Sullivan, uma autoridade teológica sobre o magistério, citou o Cânone 749, que diz que nenhuma doutrina é compreendida como definida infalivelmente, a menos que isso seja claramente estabelecido. “A questão que permanece na minha mente é se o fato de os bispos da Igreja Católica estarem tão convencidos pelo ensinamento quanto evidentemente o Papa João Paulo II é um fato claramente estabelecido”, escreveu Sullivan.
O responsum pegou quase todos os bispos de surpresa. Embora datado de outubro, ele não foi tornado público até o dia 18 de novembro. Dom William Keeler, arcebispo de Baltimore, então presidente cessante da Conferência dos Bispos dos EUA, recebeu o documento sem nenhum aviso três horas depois que os bispos haviam adiado o seu encontro anual de outono. Um bispo disse ao NCR que ficara sabendo do documento ao ler o New York Times. Ele disse que muitos bispos ficaram profundamente perturbados com a declaração. Ele, assim como outros bispos, falou de forma anônima.
O Vaticano já começou a ajeitar as coisas contra o questionamento. Como o padre jesuíta Thomas Reese relatou em seu livro de 1989, Archbishop: Inside the Power Structure of the American Catholic Church, com João Paulo II, o ponto de vista de um candidato episcopal em potencial sobre o ensino contra a ordenação de mulheres se tornou um teste decisivo para saber se um padre poderia ser promovido a bispo.
Menos de um ano depois que a Ordinatio Sacerdotalis foi publicada, a Ir. Carmelo McEnroy, das Irmãs da Misericórdia, foi removida do seu cargo titular de professora de teologia do Seminário St. Meinrad, em Indiana, por sua dissidência pública ao ensino da Igreja. Ela havia assinado uma carta aberta ao papa pedindo a ordenação de mulheres. McEnroy muito provavelmente foi a primeira vítima da Ordinatio Sacerdotalis, mas houve muitos mais, como Roy Bourgeois mais recentemente.
O Beato John Henry Newman dizia que há três magistérios na Igreja: os bispos, os teólogos e o povo. Sobre a questão da ordenação de mulheres, duas dessas três vozes foram silenciadas, razão pela qual a terceira voz agora deve se fazer ouvir. Devemos nos pronunciar em todos os fóruns disponíveis para nós: nos encontros do conselho paroquial, nos grupos de partilha da fé, nas convocações diocesanos e nos seminários acadêmicos. Devemos escrever cartas para os nossos bispos, aos editores dos nossos jornais locais e canais de televisão.
A nossa mensagem é de que acreditamos que o sensus fidelium é de que a exclusão das mulheres do sacerdócio não tem nenhuma base forte na Escritura nem qualquer outra justificativa convincente. Por isso, as mulheres devem ser ordenadas. Ouvimos o assentimento dos fiéis a isso em inúmeras conversas em salões paroquiais, auditórios e reuniões de família. Isso foi estudado e rezado individualmente e em grupos. O bravo testemunho da Women´s Ordination Conference, como um exemplo, nos dá a garantia de que os fiéis chegaram a essa conclusão após uma análise e um estudo orantes – sim, até mesmo um estudo da Ordinatio Sacerdotalis.
O NCR une a sua voz a Roy Bourgeois e pede que a Igreja Católica corrija esse injusto ensinamento.
Editorial do jornal National Catholic Reporter, 03-12-2012.

A moral de velhas prostitutas

Aos poucos, sem nenhum respeito ou rigor jornalístico, boa parte da mídia passou a tratar Rosemary Noronha como amante do ex-presidente Lula. A “namorada” de Lula, a acompanhante de suas viagens internacionais, a versão tupiniquim de Ana Bolena, quiçá a reencarnação de Giselle, a espiã nua que abalou Paris.

Foto: Ricardo Stuckert / Instituto Lula
Como a versão das conversas grampeadas entre ela e Lula foi desmentida pelo Ministério Público Federal, e é pouco provável que o submundo midiático volte a apelar para grampos sem áudio, restou essa nova sanha: acabar com o casamento de Lula e Marisa.
Já que a torcida pelo câncer não vingou e a tentativa de incluí-lo no processo do “mensalão” está, por ora, restrita a umas poucas colunas diárias do golpismo nacional, o jeito foi apelar para a vida privada.
Lula pode continuar sendo popular, pode continuar como referência internacional de grande estadista que foi, pode até eleger o prefeito de São Paulo e se anunciar possível candidato ao governo paulista, para desespero das senhoras de Santana. Mas não pode ser feliz. Como não é possível vencê-lo nas urnas, urge, ao menos, atingi-lo na vida pessoal.
Isso vem da mesma mídia que, por oito anos, escondeu uma notícia, essa sim, relevante, sobre uma amante de um presidente da República.
Por dois mandatos, Fernando Henrique Cardoso foi refém da Rede Globo, uma empresa beneficiária de uma concessão pública que exilou uma repórter, Míriam Dutra, alegadamente grávida do presidente. Miriam foi ter o filho na Europa e, enquanto FHC foi presidente, virou uma espécie de prisioneira da torre do castelo, a maior parte do tempo na Espanha.
Não há um único tucano que não saiba a dimensão da dor que essa velhacaria causou no coração de Ruth Cardoso, a discreta e brilhante primeira-dama que o Brasil aprendeu desde muito cedo a admirar e respeitar. Dona Ruth morreu com essa mágoa, antes de saber que o incauto marido, além de tudo, havia sido vítima do famoso “golpe da barriga”. O filho, a quem ele reconheceu quando o garoto fez 18 anos, não é dele, segundo exame de DNA exigido pelos filhos de Ruth Cardoso. Uma tragicomédia varrida para debaixo do tapete, portanto.
O assunto, salvo uma reportagem da revista Caros Amigos, jamais foi sequer aventado por essa mesma mídia que, agora, destila fel sobre a “namorada” de Lula. Assim, sem nenhum respeito ao constrangimento que isso deve estar causando ao ex-presidente, a Dona Marisa e aos filhos do casal. Liberados pela falta de caráter, bom senso e humanidade, a baixa assessoria de tucanos, entre os quais alguns jornalistas, tem usado as redes sociais para fazer piadas sobre o tema, palhaços da tristeza absorvidos pela vilania de quem lhes confere o soldo.
Esse tipo de abordagem, hipócrita sob qualquer prisma, era o fruto que faltava ser parido desse ventre recheado de ódio e ressentimento transformado em doutrina pela fracassada oposição política e por jornalistas que, sob a justificativa da sobrevivência e do emprego, se prestam ao emporcalhamento do jornalismo.