As brasas sob as cinzas eclesiásticas

Estamos submersos, até uma sensação de sufocamento, pelas cinzas eclesiásticas que produzem muito peso sobre aqueles que a ela pertencem. Não há nada de novo nisso, são coisas que sabemos e repetimos. A análise é do teólogo italiano Vito Mancuso (foto), ex-professor da Università Vita-Salute San Raffaele, de Milão.
“O padre Karl Rahner usava de bom grado a imagem das brasas que se escondem sob as cinzas. Eu vejo na Igreja de hoje tantas cinzas sobre as brasas que muitas vezes me assola uma sensação de impotência. Como se pode livrar as brasas das cinzas de modo a revigorar a chama do amor? Em primeiro lugar, devemos procurar essas brasas.”
Essa imagem das brasas usada por Carlo Maria Martini na celebérrima última entrevista publicada pelo Corriere della Sera no dia 1º de setembro evoca a vida espiritual.
Se as brasas são índice do fogo, mas está submersa por tantas cinzas – institucionais, eclesiais, políticas, econômicas – como faço, dia após dia, na monotonia da cotidianidade, para alimentar a esperança, para não deixar apagar dentro de mim a chama da vida espiritual?
A origem da vida: a água e o fogo
Os mitos cosmogônicos da humanidade, todos, na origem da vida, puseram o fogo; há outro elemento que a consciência arquetípica da humanidade, depositada nesses mitos, colocou como origem: a água. Dos sumérios aos babilônios, dos egípcios aos textos hindus dos Vedas até o Gênesis bíblico: a vida se origina da água.
A superfície do nosso planeta é, em sua grande parte, composta de água, assim como o nosso organismo. Sem água, não há vida. O que representa, então, o elemento do fogo? Assim o explica Simone Weil: “A palavra grega que é traduzida como Espírito significa literalmente sopro ígneo” [1], ou seja, sopro de fogo, fogo primordial que a ciência moderna indica com a palavra energia. A água que é a base da vida é transfigurada pelo sopro quente do Espírito: e eis aquilo que nós somos, água-terra, tornadas luminosas pelo ar-fogo que nelas se reflete criando transparências, arco-íris, reverberações luminosas. Nós somos água-terra que reverbera a luz e ilumina a mente como capacidade de decisão, de liberdade, de emoção, de criatividade, de laços de amor.
A vida espiritual autêntica, aquela que toca e cura a vida, une os dois elementos primordiais: sopro de fogo que desce sobre as águas e as transforma de obscuras a luminosas.
Teilhard de Chardin nos faz compreender que entre Espírito e matéria não há oposição. A matéria é mãe de todas as coisas, dela também surge o Espírito, que, surgindo, torna-se algo novo e diferente com relação à própria matéria. Não dualismo, mas sim dualidade; isto é, não dualidade original, mas sim dualidade que surge da evolução dos sistemas físicos, biológicos, psíquicos.
O encontro entre matéria e Espírito
Como ocorre o encontro entre matéria e espírito? Plutarco o indica: “A mente não precisa ser preenchida como um vaso, mas sim como a lenha precisa de uma centelha que a acenda e nela infunda o impulso para a busca e para um amor ardente pela verdade” [2].
A mente não precisa sobretudo de instrução, de doutrina que diga o que é preciso pensar e o que não, que canalize e encaminhe. A mente precisa sobretudo de uma centelha que acenda: a mente – para que haja vida espiritual – precisa ser tratada como liberdade. Liberdade responsável. Dá-se vida espiritual quando essa liberdade não é vivida como arbítrio, mas sim como impulso para a busca e para o amor ardente pela verdade.
O cardeal Martini diz algo muito desestabilizante acerca do modo como entendemos o nosso ser comunidade eclesial: “Jerusalém ainda hoje está cheia de escolas bíblicas. (…) Quem quer fazer perguntas vai a um professor, a um rabino e estuda a Bíblia. Hoje em dia, algo semelhante seria importante justamente para tornar os cristãos independentes. Na realidade, todo cristão que vive com a Bíblia deveria encontrar respostas pessoais para as perguntas fundamentais, para ser capaz de testemunhar de modo convincente a sua fé, mesmo diante dos outros e saber respondê-las. A paróquia e a grande Igreja, então, de que servem? A paróquia e a grande Igreja se tornariam um contexto que produz estímulos e apoio, não necessariamente um magistério do qual o cristão deveria depender e que muitas vezes toma como pretexto para se afastar” [3].
A Bíblia deveria ser a escola que exercita a mente, a paróquia deveria ser um contexto dentro do qual se possa desenvolver essas escolas da mente que visam a ler a realidade animados constantemente pelo amor ardente pela verdade.
As cinzas que cobrem as brasas
Ao contrário. Ao contrário, estamos submersos, até uma sensação de sufocamento, pelas cinzas eclesiásticas que produzem muito peso sobre aqueles que a ela pertencem. Diz Martini: “A Igreja está cansada na Europa do bem-estar e na América. A nossa cultura envelheceu, as nossas igrejas são grandes, as nossas casas religiosas estão vazias, e o aparato burocrático da Igreja aumenta, os nossos ritos e os nossos hábitos são pomposos. O bem-estar pesa. (…) Eu vejo na Igreja de hoje tantas cinzas sobre as brasas que muitas vezes me assola uma sensação de impotência. (…) A Igreja ficou 200 anos para trás”.
Vocês pensam que essas coisas, talvez, não são claras para todos os homens da Igreja? Não há nada de novo nessas análises, são coisas que sabemos e repetimos; o ponto é que ele, o cardeal, teve a coragem de dizê-las de modo claro. O peso descrito por Martini refere-se à Igreja Católica e à alma ocidental.
Umberto Galimberti explica isso claramente em um livro recém-publicado, Cristianesimo. La religione dal cielo vuoto. Galimberti sustenta que, no Ocidente, não só as raízes, mas o todo da planta – o tronco, as folhas, os frutos, os ramos – tudo está impregnado de religião cristã. Por isso, o vazio do céu do cristianismo é o vazio do céu do Ocidente, incapaz de sonhar, presa do niilismo e da resignação.
Cuidar da centelha sagrada
O que fazer? Martini aponta alguns instrumentos, o primeira dos quais é a conversão. A Igreja deve percorrer um caminho de conversão e de mudança radical. Por que, dentre as coisas a mudar, Martini fala da sexualidade? Porque o fim do Concílio Vaticano II começou quando Paulo VI impediu que os padres conciliares se pronunciassem sobre a moral sexual, advogou para si mesmo a matéria e publicou, três anos depois, a Humanae Vitae. Ali começou o fim da renovação conciliar.
No ano 2000, foi publicada uma pesquisa encomendada pela hierarquia eclesiástica para entender em que medida a moral sexual da Humanae Vitae era praticada no mundo católico. Entrevistaram uma amostra de mulheres católicas praticantes, mulheres que pertencem ao corpo vivo da Igreja Católica. O resultado foi de que apenas 8% declararam praticar as normas morais da carta encíclica.
Esse resultado tão falimentar revela outro aspecto que Martini destacou na entrevista: “Nem o clero nem o Direito eclesial podem substituir a interioridade do ser humano. Todas as regras externas, as leis, os dogmas nos foram dados para esclarecer a voz interior”. O fundamento decisivo de todo discurso sobre a verdade está ligado à interioridade humana. A interioridade humana é algo que deve cuidar da centelha sagrada, do núcleo vital que não se resigna ao desespero, que insere energia positiva no mundo, que insere esperança.
Se não há interioridade, não há vida espiritual. Se não há a pessoa interior, o mundo, com os seus poderes fortes, antes ou depois destrói a imaginação utópica. E nos conformamos com isso, e essa é a desilusão de grande parte da esquerda, porque falta a energia interior, uma fonte outra – que não deve ser necessariamente cristã – com relação à simples lógica dos poderes deste mundo.
A fé de Dostoiévski
Fiódor Dostoiévski escreveu uma carta que eu gosto tanto a ponto de me comover. Encarcerado na Sibéria, Dostoiévski havia sido condenado à morte: o comandante havia enfileirado o pelotão de fuzilamento, comandado o fogo e, depois, como se fosse um jogo, disse: “Chegou o pedido de graça, não atirem”.
Desde então, Dostoiévski ficou vítima de ataques epilépticos. Na Sibéria, ele havia sido visitado por uma mulher que havia dado a ele e aos seus outros companheiros de prisão o Novo Testamento. Quando saiu da prisão, ele procurou aquela mulher e, em janeiro de 1954, lhe escreveu esta carta:
“Eu lhe direi que sou um filho do século, um filho da descrença e da dúvida, e que, eu sei, permanecerei assim até o túmulo. Que terrível sofrimento me custou e me custa agora essa sede de fé, que é tão mais forte na minha alma quanto mais são os argumentos contrários. No entanto, Deus me manda às vezes minutos em que eu estou totalmente sereno. Nesses minutos, eu amo e sei que sou amado pelos outros. Nesses minutos, eu criei em mim uma profissão de fé em que tudo me é claro e sagrado. Essa profissão de fé é muito simples, ei-la: crer que não há nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais razoável, de mais corajoso e perfeito do que o Cristo, e não só que há, mas, com amor ciumento, digo a mim mesmo que não pode não haver. E não somente isso: se alguém me demonstrasse que o Cristo está fora da verdade e, de fato, resultasse que a verdade está fora do Cristo, eu preferiria ficar com Cristo em vez da verdade.”
“Nesses minutos, eu amo e sei que sou amado”: essa é a fonte existencial que levou Dostoiévski a criar a sua profissão de fé. O Cristo do qual ele fala não é outra verdade conteudística ao lado das outras; é o símbolo ao amor concreto, solidário, conectado em todo instante com a realidade, é um método.
Aquela modalidade que te leva a olhar a vida não sob a insígnia da vontade de poder, do teu credo, da tua Igreja, mas sim que te faz estar em conexão com a vida verdadeira para servi-la a todo instante, para fazer brotar o bem de toda situação. Esse é o sentido em que Cristo dizia “Eu sou a verdade, eu sou o caminho, a verdade, a vida”, para caminhar neste mundo servindo sempre o bem e a justiça.

Notas:
1. Simone Weil, L’enracinement [O enraizamento]. Paris: Gallimard, 1949.
2. Essa frase se encontra na conclusão de um pequeno tratado intitulado “A Arte de ouvir”.
3. Carlo Maria Martini e Georg Sporschill. Diálogos noturnos em Jerusalém (Mondadori, 2008, p. 66) [versão brasileira: Paulus, 2008].

O artigo foi publicado na revista Oreundici, de dezembro de 2012, reproduzido pelo IHU-Unisinos.

Mulher, imigrante e explorada: estudo retrata trabalho doméstico nos EUA

Domésticas durante o lançamento do relatório, em Nova York. Foto: Cidadão Global

Porta de entrada da economia americana para muitos imigrantes, principalmente mulheres, o trabalho doméstico nos Estados Unidos padece dos mesmos males que em países mais pobres: salários baixos, longas horas sem intervalos nem compensações, ausência de contratos e quase nenhum poder de barganha.
É o retrato traçado pelo primeiro estudo a tentar fazer o perfil dessa atividade no país, elaborado pela Aliança Nacional de Trabalhadores Domésticos (NDWA, na sigla em inglês) em parceria com 34 organizações de direitos civis.
De uma amostra de 2.086 profissionais entrevistadas em 14 regiões metropolitanas – entre babás, faxineiras e pessoas que tomam conta de idosos –, a entidade calculou que metade recebe salários insuficientes para manter a sua família adequadamente.
Um em cada quatro trabalhadores declarou receber um salário abaixo do mínimo do seu Estado. Entre os que vivem nas casas dos patrões, essa proporção subiu para dois terços.
Além disso, as entrevistas, feitas em nove idiomas, indicaram que menos de 2% dos patrões contribuem para a aposentadoria dos seus empregados. Menos de 9% pagam as contribuições sociais e 65% dos trabalhadores não têm nenhuma cobertura de saúde – em um país onde os custos de tratamento médico são os mais caros do mundo.
“Ao contrário do que seria de se esperar, no século 21 os trabalhadores domésticos não têm acesso aos direitos mais básicos que se pode imaginar”, disse à BBC Brasil a coordenadora nacional da pesquisa, Linda Burnham, da NDWA.
“As ocupações domésticas ainda são essencialmente feitas pelas mulheres e ainda não são consideradas como trabalho. Temos septuagenários que não podem parar de trabalhar, porque ninguém recolheu as contribuições sociais em nome deles. Eles não têm aposentadoria. Vão trabalhar até colocar o pé na cova”, acrescentou Burnham.

Imigração e exploração

Historicamente, os trabalhadores agrícolas e domésticos foram excluídos das principais proteções trabalhistas americanas por pressão dos Estados do sul, dependentes de mão-de-obra pouco qualificada para tocar as suas fazendas e residências. Nunca puderam, por exemplo, formar sindicatos nem negociar conjuntamente.
Segundo a chamada Pesquisa de Comunidades Americanas, conduzida anualmente pelo Censo, 95% dos trabalhadores domésticos nos EUA são mulheres. Cada vez mais, são também imigrantes.
Nas regiões metropolitanas pesquisadas, assim como na amostra da pesquisa, 60% dos trabalhadores domésticos são latinos. Apenas um em cada cinco é nascido nos EUA, e só um terço tem a cidadania.
Linda Burnham diz que mesmo os estrangeiros legalmente documentados recebem menos do que os cidadãos americanos. “É basicamente uma punição salarial por não ser cidadão”, diz.
“Mas mesmo entre os americanos é um trabalho complicado. A relação patrão-empregado é muito pessoal e muitas vezes os empregadores não se veem como tal. Outro dia eu estava conversando com uma mulher de Atlanta, afroamericana, que fica sem salário cada vez que a família para quem ela trabalha tira férias”, descreve.
“(Nesse ramo) quase não existem férias remuneradas, a maioria dos trabalhadores não tem contrato – apenas um acordo informal –, e os patrões determinam que horas o trabalho começa, mas nunca quando termina. O dia se estende até altas horas e você continua ganhando US$ 200 por semana.”
Burnham diz que os estrangeiros indocumentados, em particular, estão mais vulneráveis quando se trata de reclamar seus direitos trabalhistas. Na pesquisa, 85% dos que sofreram abuso evitaram levar o caso adiante por medo de ter seu status usado contra si.
Não há dados em relação à legalidade ou não desses profissionais no país – na amostra pesquisada, os documentados eram um pouco mais numerosos que os indocumentados (53% a 47%).

Legislação

A pesquisa ouviu apenas trabalhadores domésticos que negociam diretamente com seus patrões, obtendo seu emprego através de indicações ou anúncios de classificados. Dados do Censo indicam que existem entre 700 mil e 800 mil empregados com estas condições nos EUA.
Mais difícil, entretanto, é precisar quantos trabalham para agências de empregos, afirma a pesquisadora.
Se o entendimento deste setor ainda é fracionado nos EUA, igualmente é o trabalho das entidades trabalhistas para mudar a legislação.
Linda Burham. Foto: Cidadão Global

Para Linda Burnham, muitos empregadores ainda não reconhecem os direitos dos trabalhadores domésticos (Foto: Cidadão Global)
Em nível federal, elas consideram que seria muito difícil avançar projetos no Congresso, relutante em reforçar proteções trabalhistas por medo de ferir o “livre mercado” e avesso a passar medidas que favoreçam os imigrantes ilegais.
A solução tem sido lutar para incluir a categoria nas legislações estaduais – Estado por Estado. Depois de mais de meia década de pressão, Nova York foi o primeiro a assinar uma legislação específica de proteção para trabalhadores domésticos.
Um projeto semelhante chegou a ser aprovado no Legislativo da Califórnia, mas o governador Jerry Brown vetou a legislação em outubro passado.
Em 2011, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) aprovou uma convenção sobre os direitos dos trabalhadores domésticos, a fim de beneficiar os 53 milhões de empregados nestas atividades em todo o mundo.
A convenção 189 estabelece a igualdade em relação a outras profissões e determina que os países que adotem o acordo definam direitos mínimos, como regulamentação por contrato, horas, intervalos, férias e contribuições. O primeiro país a ratificar a convenção foi o Uruguai, em abril deste ano. O Brasil ainda não o fez.
“Existem regulamentações: se você trabalha quatro horas para alguém, precisa de um intervalo para o almoço. Outras profissões são cobertas por essa legislação. Se trabalha mais de oito horas por dia, precisa ganhar hora extra”, diz Linda Burnham.
“Muitos empregadores querem fazer as coisas corretamente, e uma parte do nosso trabalho também é educá-los. Mesmo que tenham diaristas que venham um ou dois dias por semana, se é uma relação contínua, de 52 semanas por ano, eles precisam pagar os impostos e as contribuições.”
“São direitos que no século 21 os empregadores teriam de entender e garantir. Mas não é sempre o caso. Às vezes ouço histórias e penso, isso não é possível. Mas é.”

4 em cada 10 jovens dispensam camisinha em relacionamento estável

 Quatro em cada dez jovens brasileiros acham que não precisam usar camisinha em um relacionamento estável. A conclusão é da pesquisa Juventude, Comportamento e DST/Aids realizada pela Caixa Seguros com o acompanhamento do Ministério da Saúde e da Opas (Organização Pan-Americana de Saúde). Terapia anti-HIV reduz risco entre casais Ministério da Saúde faz acordo para produção de droga anti-HIV Um quarto dos brasileiros com HIV não sabe que está infectado O levantamento ainda revelou que três em cada dez ficariam desconfiados da fidelidade do parceiro caso ele propusesse sexo seguro.
O estudo ouviu 1.208 jovens com idades entre 18 e 29 anos em 15 Estados (Rondônia, Amazonas, Pará, Maranhão, Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Goiás) e no Distrito Federal. As mulheres correspondem a 55% da amostra e os homens, a 45%. Ao todo, 91% dos jovens entrevistados já tiveram relação sexual; 40% não consideram o uso de camisinha um método eficaz na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis ou gravidez; 36% não usaram preservativo na última vez que tiveram relações sexuais; e apenas 9,4% foram a um centro de saúde nos últimos 12 meses para obter informações ou tratamento para DST (doenças sexualmente transmissíveis). 
Os dados também mostram que falta aos jovens brasileiros o conhecimento de algumas informações básicas, já que um em cada cinco acredita ser possível contrair o HIV utilizando os talheres ou copos de outras pessoas e 15% pensam que enfermidades como malária, dengue, hanseníase ou tuberculose são tipos de DSTs. “Notamos que os jovens menos vulneráveis são aqueles que conversam com os pais sobre sexualidade e que têm maior escolaridade. Mas pouquíssimos conversam com os pais sobre isso e a maioria não está estudando, repetiu alguns anos na escola. Embora eles não percebam, essa vulnerabilidade em relação à Aids existe e é latente”, afirmou Miguel Fontes, coordenador da pesquisa. As recomendações feitas pelo estudo incluem maiores investimentos em conteúdos de qualidade sobre sexo e Aids na internet e a capacitação de professores que trabalham com jovens para tratar temas relacionados a DST e Aids. “No lugar de campanhas massivas na TV e no rádio, precisamos de canais diretos na internet. Ela age hoje como um gancho muito forte e é necessário levá-la em consideração como uma ferramenta educativa, além de reforçar o papel dos pais, fonte de educação mais confiável, e dos profissionais de saúde. Muitas vezes, os amigos são a principal fonte de informação do jovem, mas isso não implica em um melhor nível de conhecimento”, ressaltou o coordenador do estudo. 
Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) indicam que os brasileiros com idade entre 15 e 29 anos representam 40% da população, totalizando 50 milhões de jovens. Levantamentos do Ministério da Saúde mostram uma tendência de crescimento de novas infecções pelo HIV nessa faixa etária desde 2007, chegando a 44,35 registros para cada grupo de 100 mil pessoas. Atualmente, entre 490 mil e 530 mil pessoas vivem com HIV no Brasil. Dessas, 135 mil não sabem que têm o vírus. A incidência da Aids no país, em 2011, chegou a 20,2 casos para cada 100 mil habitantes. No ano passado, foram registrados 38,8 mil novos casos da doença –a maioria nos grandes centros urbanos.

Entenda o que significa o novo status palestino na ONU

Bandeira palestina em marcha de apoio ao reconhecimento na ONU, nesta quinta, em Ramallah (Getty)

Por 138 votos a nove, a Assembleia Geral da ONU aprovou nesta quinta-feira uma ascensão do status dos palestinos nas Nações Unidas, de “entidade observadora” a “Estado observador não-membro”.
O Brasil está entre os países que votaram a favor da medida, que precisava apenas de maioria simples para ser aprovada. A maior oposição veio de EUA e Israel, que estão entre os nove membros que votaram contra. Os países que se abstiveram somam 41.

O pleito se segue a uma fracassada tentativa dos palestinos de integrar a ONU como membros permanentes, em 2011, quando não obtiveram apoio do Conselho de Segurança da ONU. O presidente palestino Mahmoud Abbas disse mais cedo que essa seria a “última chance” de uma solução para o conflito com Israel. Ele havia solicitado que a comunidade internacional desse uma “certidão de nascimento” para a Palestina.

Que impactos essa mudança – cujo caráter é majoritariamente simbólico – deve ter nas relações entre israelenses e palestinos e no pleito destes por um Estado próprio?
Entenda no guia abaixo:

O que a mudança de status significa?

A decisão desta quinta dá aos palestinos o status de “Estado observador não-membro”, semelhante ao do Vaticano perante a ONU.
O novo status é principalmente simbólico, mas a liderança palestina argumenta que ele ajudará a delimitar o território que quer para seu Estado próprio – gradativamente tomado pelo avanço dos assentamentos israelenses. Também pode ajudar que essa delimitação de território ganhe reconhecimento formal.
O embaixador palestino na ONU, Riyad Mansour, havia dito que a aprovação é “um passo muito importante para salvar a solução de dois Estados”.
A mudança também significa que palestinos poderão participar dos debates da Assembleia Geral da ONU, aumentando suas chances de de integrar agências e entidades ligadas à ONU.
Talvez o maior temor de Israel seja o de que palestinos usem seu novo status para entrar no Tribunal Penal Internacional e tentar acionar Israel judicialmente por supostos crimes de guerra cometidos em territórios ocupados, como na Cisjordânia.
Israel classifica a iniciativa palestina de uma violação dos Acordos de Oslo (1993), que traçam caminhos para a negociação bilateral (atualmente interrompida) de paz.

Quem ganha politicamente?

Presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, em foto de arquivo (AFP)

A aprovação do novo status na ONU é uma vitória diplomática de Mahmoud Abbas, o líder da Autoridade Palestina e principal força política na Cisjordânia.
A vitória lhe dá cacife num momento em que o líder estava escanteado diante do fortalecimento político e militar do rival Hamas (grupo islâmico que controla a Faixa de Gaza) entre os palestinos, enquanto Abbas tinha pouco a comemorar com suas políticas mais moderadas.
No entanto, mesmo com a vitória desta quinta, Abbas precisará de muito mais para obter o Estado palestino. Quando acabarem as comemorações do novo status, o líder terá que rever sua estratégia política para colocar em prática o anseio por um Estado palestino.

O que querem os palestinos?

Os palestinos tentam há tempos estabelecer um Estado soberano na Cisjordânia, que inclua Jerusalém Oriental e a Faixa de Gaza, seguindo o traçado de antes da Guerra dos Seis Dias (em 1967, quando Israel ocupou territórios reivindicados pelos palestinos).
Os Acordos de Oslo, entre a OLP (Organização pela Libertação da Palestina) e Israel, levaram ao reconhecimento mútuo. No entanto, duas décadas de conflitos intermitentes desde então e a ausência de consenso em temas-chave impediram um acordo permanente. A última rodada de negociações terminou em 2010.
Com o impasse nas negociações, a liderança palestina passou a buscar o reconhecimento individual dos países de um Estado palestino. Essa é a principal razão por trás do atual pleito na ONU.
Em setembro de 2011, Abbas tentou obter o status de membro pleno da ONU, mas a tentativa não passou pelo crivo do Conselho de Segurança do órgão. Abbas tentou, então, um status menor, o de não-membro observador.

Quais são as divergências?

O reconhecimento diplomático palestino dá força simbólica ao pleito por um Estado que siga o traçado pré-1967 e às negociações de paz com Israel.
No entanto, o premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, rejeita essa noção territorial como base para as negociações, descrevendo-as como “não realistas”, já que grande parte dos territórios hoje reivindicados concentram grande população de judeus em assentamentos (considerados ilegais sob a lei internacional).
Outros temas-chave sobre os quais não há acordo entre israelenses e palestinos são o status de Jerusalém Oriental e o retorno de refugiados palestinos.
Para Israel, o novo status palestino na ONU é uma medida “unilateral” que viola os termos dos Acordos de Oslo.

Quem deve apoiar ou rejeitar o novo status palestino?

Assentamento israelense na Cisjordânia

Áreas de assentamentos judaicos na Cisjordânia são reivindicadas pelos palestinos
A reivindicação por um novo status na ONU não engajou os palestinos da mesma forma que em 2011. O novo status tem o apoio do Fatah, movimento secular que, com a Autoridade Palestina, administra a Cisjordânia.
A proposta foi inicialmente criticada por líderes do Hamas. No entanto, após os oito dias da recente ofensiva israelense em Gaza, o líder político do Hamas, Khaled Meshaal, elogiou a iniciativa do rival Fatah.
Em âmbito mais amplo, os 22 países da Liga Árabe também apoiaram a Autoridade Palestina.
A maior oposição vem de Israel, que tentou dissuadir Abbas ameaçando-o com a suspensão da coleta de impostos na Cisjordânia. Um documento vazado da Chancelaria de Israel sugere que se discutiu inclusive a derrubada de Abbas – mas a medida é considerada improvável por analistas, a não ser que o líder palestino use o novo status para tomar passos mais drásticos, como pressionar Israel no Tribunal Penal Internacional.
Nos últimos dias, autoridades israelenses indicaram que colocariam em vigor sanções contra os palestinos.
Os EUA, principais aliados de Israel mas também doador à Autoridade Palestina, também pode impor alguma sanção financeira.
Na Europa, outras nações que também financiam a AP também temem os desdobramentos da estratégia palestina. Só 9 dos 27 países-membros da União Europeia reconhecem a Palestina bilateralmente.

Excesso de senhas provoca irritação e ‘fadiga’ em usuários

De quantas senhas você precisa se lembrar por dia?

Talvez você comece com as senhas para destravar o celular e para ligar o computador da empresa. Na internet, usará senhas para acessar e-mail, Facebook, Twitter, sites de comércio online e assinaturas de sites de notícias. No meio do dia, é hora de lembrar o código do vale-refeição ou do cartão de crédito. Vai sacar dinheiro? Usará a senha alfabética exigida por alguns caixas eletrônicos.
Essa profusão de códigos que somos obrigados a memorizar abre debates sobre segurança online e já ganhou até nome: “password fatigue” ou “password overload” (fadiga ou sobrecarga de senhas, em tradução livre). Uma pesquisa de agosto da empresa de tecnologia Janrain, feita com 2,2 mil americanos, apontou que 58% dos entrevistados têm cinco ou mais senhas para lembrar, e 30% têm dez senhas.
Mais de um terço deles declarou que preferiria cumprir uma tarefa doméstica – lavar roupa ou limpar o banheiro – a criar um novo cadastro de login e senha.

A atriz brasileira Marianna Armellini se inclui entre as que preferem lavar roupa a inventar uma nova senha. “Anoto as senhas e depois não lembro onde anotei. Entro em pânico se não vejo aquele campo de ‘esqueceu a senha'”, diz à BBC Brasil.
Algumas das coisas que mais a irritam: memorizar as senhas de sites pouco acessados, como os de milhagem, e aquela autenticação feita por perguntas e respostas. “Como vou lembrar o nome da minha professora preferida do primário?”, brinca.

Leitor de cartão de crédito (Foto: Getty)

Pesquisa nos EUA aponta que 58% dos entrevistados têm cinco ou mais senhas para memorizar

As senhas acabaram virando tema de um programa humorístico do grupo cênico As Olívias, do qual Marianna faz parte. No vídeo, disponível no YouTube, a personagem dela fica em apuros ao esquecer a senha do cartão durante uma compra – seria a combinação da data da primeira menstruação e do número do sutiã, ou a data do término do casamento?
“Tenho um amigo que, depois que esqueceu a senha para destravar seu iPhone, precisou trocar de telefone! É uma dor de cabeça, porque toda a sua vida está (no aparelho)”, conta Marianna.
A professora de inglês Ana Bailune, de 47 anos, de Petrópolis (RJ), diz que as senhas a confundem “a ponto de eu ter que telefonar ao meu marido durante as compras para que ele me ajude a lembrar a senha dos cartões de crédito”.
Ela usa com frequência quase dez senhas, entre celular, e-mail, cartões, sites de compras, conta no banco e blogs.
“Uma vez, tentei associar os números a eventos reais, como datas de aniversário, números de casas onde moramos, etc. Não deu certo. Pensava: ‘de quem era mesmo o aniversário? Ah, da minha mãe! mas quando é o aniversário dela?'”
Para alguns especialistas, essa sobrecarga se dá porque a internet originalmente não foi pensada para conter tantos dos nossos dados pessoais. Como hoje uma grande parte da nossa vida está sob esses códigos, quão seguros eles são – ou deveriam ser?
Joseph Bonneau, que estudou senhas e segurança cibernética na Universidade de Cambridge, diz que muitas das senhas escolhidas pelas pessoas são extremamente fracas, como ABCDE. Ainda assim, ele não acha que o tema deva ser encarado com paranoia.
“Minha sugestão é ter senhas bem seguras para coisas importantes, como o cartão de banco e e-mail.” Nesses casos, diz, vale evitar números associados à sua vida e apostar em em combinações aleatórias de letras e números que, como serão usadas com frequência, acabarão sendo memorizadas.
Para cadastros menos importantes, senhas simples bastam, diz ele.
Outra sugestão de Bonneau é usar “password managers” (gerenciadores de senha), programas que, sob uma única senha mestra, geram códigos para as demais senhas que você precisar. Basta, então, memorizar a senha mestra.
A ideia não é unânime entre os analistas, até porque, caso você esqueça a senha mestra, terá uma grande dor de cabeça.

Alguns sites exigem senhas que desafiam o poder de memória dos usuários

Mas atenção: Bonneau lembra que de nada adiantam essas precauções se o seu computador estiver infectado com programas malignos como “keyloggers”, que “leem” tudo o que for digitado ou clicado. Aí, por melhor que seja a sua senha, ela será lida pelo hacker.
Para se prevenir, evite digitar senhas importantes em computadores de lan-houses e, no computador pessoal, tome cuidado ao instalar programas e mantenha antivírus e atualizações em dia.
Um empecilho extra é que, mesmo que usuários queiram criar senhas simples, muitas vezes são forçados pelos sites de cadastro a montar combinações difíceis de letras maiúsculas e minúsculas, números e caracteres especiais. A professora Cristina Asperti, 58 anos, de São Paulo, já desistiu de fazer compras em muitos sites por não se lembrar das senhas. “Os sites estão mais confusos do que eles imaginam e mais difíceis do que deveriam”, opina.
Em casos assim, será muito perigoso anotar as senhas, para não ter que memorizá-las?

Com tantos códigos, muitos acabam recorrendo à opção de ‘esqueci minha senha’

“O que você tem que se perguntar é: de quem quer se proteger?”, afirma o brasileiro Dinei Florencio, pesquisador na Microsoft Research. “Se o risco maior for o de encontrarem a anotação em sua casa, então não anote. Mas se o agressor em potencial for remoto, não há problema em anotar.”
Ele diz que muitos previram a extinção do sistema de senhas online, mas este sobrevive porque traz vantagens: “É conveniente, amigável ao usuário e as pessoas já conhecem seu mecanismo”.
Joseph Bonneau acredita que, na próxima década, talvez precisemos memorizar menos senhas, já que alguns sites começam a fazer logins integrados (ou seja, com um mesmo cadastro você acessa mais de um site).
Quanto a sistemas alternativos de verificação – biométricos, por exemplo –, Florencio acha que eles demorarão a ser aplicados em grande escala. Um dos motivos é que demandariam que usuários instalassem softwares, câmeras, leitores…
“Até que outros sistemas sejam igualmente amigáveis, será difícil substituir as senhas”, opina ele. “E acho que seus inconvenientes ainda são pequenos em comparação aos benefícios e ao controle que elas proporcionam aos usuários.”

Brasil não está preparado para os impactos das mudanças climáticas

As imagens dos deslizamentos de terra causados por fortes chuvas e que deixaram centenas de mortos na região serrana do Rio de Janeiro, no início de 2011, ou dos refugiados da seca no Nordeste estão firmes na cabeça de muitos brasileiros. Mas esses são apenas dois dos vários exemplos dos impactos das mudanças climáticas no Brasil. Muitas vezes, os efeitos delas são ainda piores por causa da falta de estrutura das cidades brasileiras.
“O Brasil não está totalmente preparado para as mudanças climáticas e seus impactos. Os pontos fracos do Brasil estão relacionados à sua infraestrutura e ao fato de ser um país de enorme extensão e com uma grande população pobre”, frisa o cientista-chefe do Instituto de Adaptação Global (GAIN, em inglês), Ian Noble. Uma recente pesquisa do instituto mostrou que, no quesito vulnerabilidade, o Brasil está na 58ª posição entre 176 países.
Segundo os cientistas, cada região brasileira sofre de forma diferente com os impactos das mudanças climáticas. No Sul e no Sudeste, o maior problema são as chuvas cada vez mais intensas – e, com elas, os perigos cada vez maiores para as pessoas que vivem em encostas. Já o Centro-Oeste e principalmente o Nordeste vão passar por secas cada vez mais frequentes. No Centro-Oeste, algumas regiões de savana deverão virar caatinga. Já partes da floresta tropical úmida da Amazônia deverão se converter em serrado e savana.
Agricultura, energia e migração
A agricultura é o setor econômico mais vulnerável às condições climáticas. As temperaturas mais altas e a variação do regime de chuvas podem obrigar uma série de culturas – como arroz, café, soja e milho – a se deslocar para áreas onde as condições climáticas sejam mais favoráveis. “Isso gera transtornos para a economia e o setor agrícola”, comenta Saulo Rodrigues Filho, diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS) da Universidade de Brasília (UnB).
O setor energético brasileiro também é vulnerável, pois depende do regime de chuvas e das hidrelétricas. Segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), o nível dos reservatórios é o menor em dez anos e caiu para menos da metade nas principais hidrelétricas do país, o que cria o risco de apagões.
O governo federal responde com medidas de curto prazo, como a queima de petróleo para produzir eletricidade. “O governo brasileiro não entende o atual problema como uma vulnerabilidade do setor energético diante das mudanças climáticas”, afirma Cláudio Szlafszstein, do núcleo de meio ambiente da Universidade Federal do Pará (UFPA).
Quanto à migração regional, o agravamento das adversidades climáticas poderá fazer ressurgir os refugiados do clima, principalmente na região Nordeste. “As condições climáticas do semiárido nordestino poderão ficar mais adversas e, com isso, deve haver um grande fluxo migratório”, afirmou Saulo Filho.
Szlafszstein lembra que o Brasil vivencia o problema da migração interna da população por fatores climáticos há muito tempo, principalmente a nordestina por causa da seca. “Enquanto estudiosos e a ONU usam o termo ‘migrações climáticas’, no Brasil a seca e seus impactos são tidos como problemas crônicos”, comenta.
Avanços?
O pesquisador Saulo Filho, da UnB, avalia que o governo brasileiro avançou no combate às mudanças climáticas com a adoção de medidas e de políticas em sintonia com o que a ciência diz ser necessário para minimizar os impactos. Um passo importante foi o fato de o Brasil ter apresentado uma redução voluntária na emissão de gases do efeito estufa, não prevista no protocolo de Kyoto, na Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas realizada em 2009 em Copenhage.
Outra ação importante foi implementada também em 2009, com a criação da Política Nacional de Mudanças Climáticas, que visa elaborar planos contra os impactos das mudanças climáticas para diversos setores da economia.
“São avanços importantes, o Brasil caminhou na direção certa. Mas seria preciso muito mais do que isso no que diz respeito à adaptação e ao combate à vulnerabilidade. Nesses pontos, ainda temos muito por fazer”, afirma Saulo Filho.

Szlafszstein diz que o governo brasileiro não tem um planejamento estratégico para diminuir os impactos das mudanças climáticas. “Há numerosas intenções e propostas, mas elas se destacam por serem isoladas, com escasso nível de implementação, e por serem orientadas para diminuir as emissões de gases-estufa, com pouca atenção para a adaptação aos impactos das mudanças climáticas.”

Além disso, o discurso de preocupação com as questões ambientais é acompanhado por políticas que vão no sentido contrário, como o incentivo à produção de automóveis e à extração de petróleo.
Sistema de alerta
A tragédia na região serrana do Rio de Janeiro, em janeiro de 2011, é considerado o maior desastre climático do Brasil. Na época, mais de 900 pessoas morreram por causa dos deslizamentos, que deixaram milhares de desabrigados.
Para evitar novas tragédias, o governo federal criou em dezembro de 2011 o Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden). O objetivo do centro de pesquisa é alertar, com até duas horas de antecedência, sobre o risco de deslizamentos de encostas.
De acordo com Carlos Nobre, secretário de políticas e programas de pesquisa e desenvolvimento do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), o governo tem a meta – ambiciosa, segundo ele – de diminuir o número de mortos, feridos, desabrigados e desalojados em 80% nos próximos anos. “Com o sistema de alerta, a Defesa Civil pode conduzir um processo organizado de evacuação dos moradores, que podem ir para um lugar seguro. O sistema elabora, diariamente, alertas para todo o país”, diz Nobre.
Pensar de forma preventiva
Segundo Saulo Filho, é importante agir de forma preventiva e não apenas remediar os erros. Ele cita um estudo do professor britânico Nicholas Stern, ex-economista-chefe do Banco Mundial, segundo o qual ações preventivas são cinco vezes mais econômicas.
Saulo Filho afirma que governantes, políticos e até mesmo alguns setores da sociedade ainda resistem em aceitar o tema como prioritário na hora de elaborar políticas e adotar medidas.
“O ser humano quer ter 100% de certeza de que tudo que está ocorrendo com o clima se deve à ação humana. Mas a complexidade do sistema não permite fazer interpretações tão exatas e tão precisas. Isso torna mais difícil convencer os políticos, e essa é uma das barreiras a serem quebradas nos próximos anos”, afirma.