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Barbárie Civilizada

Em que anos estamos? Em 2017 ou em 1500? Em pleno 30 de abril, véspera do Dia do Trabalhador e da Trabalhadora, um grupo de pistoleiros arregimentados pelos fazendeiros da região, depois de uma churrascada regada a muita bebida, armados com pistolas, facões, facas, paus, invadem a aldeia indígena Povoado das Bahias, no município de Viana, no Maranhão, e semeiam o terror esfaqueando homens e mulheres de todas as idades, aí incluídos velhos e crianças. Para deixar sua marca indelével, decepam as mãos de dois membros da comunidade Gamela.

A polícia da região, sabedora do planejado, nada fez para evitá-lo. O Ministro da Justiça, informado do ocorrido, desqualificou a gravidade do ato através do argumento de que os atacados seriam “supostos indígenas” e não verdadeiros indígenas. Pergunto: se não fossem verdadeiros indígenas, a violência seria justificável?
Esse não é o primeiro ataque que o povo Gamela sofre. Já havia sido vítima da violência dos fazendeiros em 2015 e 2016. Apesar de ser território tradicional indígena e de terem sido cumpridas todas as exigências, o território ainda não foi demarcado…
Também não foi o ataque contra os Gamelas a única barbárie no campo a estarrecer o Brasil nos últimos dias. Em 19 de abril passado (Dia do Índio), um grupo de encapuzados invadiu o assentamento de Taquaruçu do Norte, no Município de Colniza, no Mato Grosso e, após torturar barbaramente, assassinou nove pessoas. Para deixar marca, os assassinos decapitaram os corpos.
Nas cidades, a barbárie não é menor. Alguém ainda lembra e fala dos 67 presos assassinados nos presídios de Manaus? Alguém ainda lembra ou fala dos 33 presos assassinados na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo, em Boa Vista? Alguém ainda lembra ou fala dos 26 presos assassinados no presídio de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte? Sem falar das “micro” matanças que acontecem a cada dia nos presídios espalhados pelo país. Em média, uma a cada dia.
E as inúmeras cenas de policiais executando supostos traficantes que, depois, constata-se, nada tinham a ver com tráfico ou crime? As vítimas, em sua maioria, são jovens e negros que apenas estavam no lugar errado e na hora errada e foram vítimas da sanha de punir, não importa, se a pessoa errada.
De quem é a culpa? Os índios Gamela do Maranhão e os camponeses de Colniza não são tech, nem pop, nem tudo. Pelo contrário: para quem se importa apenas com resultados econômicos, eles são atrasados e nada midiáticos. Eles são nada! Sua morte talvez nunca encontre justiça. Muito menos encontrará justiça a morte de centenas de homens detidos em presídios que não fazem jus sequer aos calabouços medievais e se aproximam, muitas vezes, aos campos de extermínio dos regimes totalitários.
Talvez os que alugaram suas mãos para executar estes crimes inomináveis sejam tão merecedores de compaixão quanto suas vítimas. Foram munidos e nutridos pelo ódio daqueles que mantém suas próprias vidas na miséria e do alto de suas tribunas clamam que “tem de ter fumo, tem de ter soja, tem de ter boi, tem de ter leite, tem de ter tudo, produção”, mas, se tiver algum indígena ou camponês por perto, é preciso expulsá-los “do jeito que for necessário”. E tão sujas quanto as vozes que clamam que “índios, gays, lésbicas e quilombolas são tudo que não presta”, são as mãos daqueles e daquelas que, no dia das eleições, movem seus dedos para digitar seus nomes e assim recolocá-los no poder, uma, duas três, muitas vezes.
A barbárie, muitas vezes, também se constrói por caminhos aparentemente democráticos e civilizados. Quando os mortos estão distantes, é claro. E o cheiro da pólvora e do sangue não fere nossos delicados sentidos.

A política de cotas ganhou mais uma

Na essência da política de cotas há um aspecto que exaspera seus adversários: um estudante que vai para o vestibular sem qualquer incentivo de ações afirmativas tira uma nota maior que o cotista e perde a vaga na universidade pública. Quem combate esse conceito em termos absolutos é contra a existência das cotas, cuja legalidade foi atestada pela unanimidade do Supremo Tribunal Federal e aprovada pelo Congresso Nacional (com um só discurso contra, no Senado). É direito de cada um ficar na sua posição, minoritária também nas pesquisas de opinião.

Uma coisa é defender as cotas quando a distância é pequena, bem outra seria admitir que um estudante que faz 700 pontos na prova deve perder a vaga para outro que conseguiu apenas 400. O que é diferença pequena? Sabe-se lá, mas 300 pontos seria um absurdo.

Os adversários das cotas previam o fim do mundo se elas entrassem em vigor. Os cotistas não acompanhariam os cursos, degradariam os currículos e fugiriam das universidades. Puro catastrofismo teórico. Passaram-se dez anos, e Ícaro Luís Vidal, o primeiro cotista negro da Faculdade de Medicina da Federal da Bahia, formou-se no ano passado e nada disso aconteceu. Havia ainda também as almas apocalípticas: as cotas estimulariam o ódio racial. Esse estava só na cabeça de alguns críticos, herdeiros de um pensamento que, no século 19, temia o caos social como consequência da Abolição.

Mesmo assim, restava a distância entre o beneficiado e o barrado. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais divulgou uma pesquisa que foi buscar esses números no banco de dados do Sistema de Seleção Unificada (Sisu). Neste ano, as cotas beneficiaram 36 mil estudantes. Pode-se estimar que em 95% dos casos a distância entre a pior nota do cotista admitido e a maior nota do barrado está em torno de 100 pontos. Em 32 cursos de medicina (repetindo, medicina) a distância foi de 25,9 pontos (787,56 contra 761,67 dos cotistas).

O Inep listou as vinte faculdades onde ocorreram as maiores distancias. Num caso extremo deu-se uma variação de 272 pontos e beneficiou uns poucos cotistas indígenas no curso de história da Federal do Maranhão. O segundo colocado foi o curso de engenharia elétrica da Federal do Paraná, com 181 pontos de diferença. A distância diminui, até que, no 20º caso, do curso de ciências agrícolas de Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Federal do Rio Grande do Sul, ela ficou em 128 pontos.

Pesquisas futuras explicarão como funcionava esse gargalo, pois se a distância girava em torno de 100 pontos, os candidatos negros e pobres chegavam à pequena área, mas não conseguiam marcar o gol. É possível que a simples discussão das ações afirmativas tenha elevado a autoestima de jovens que não entravam no jogo porque achavam que universidade pública não era coisa para eles. Neste ano, 864.830 candidatos (44,35%) buscaram o amparo das cotas.

A política de cotas ocupou 12,5% das vagas. Num chute, pode-se supor que estejam em torno de mil os cotistas que conseguiram entrar para a universidade com mais de cem pontos abaixo do barrado, o que vem a ser um resultado surpreendente e razoável. O fim do mundo era coisa para inglês ver.

Elio Gaspari, nascido na Itália, veio ainda criança para o Brasil, onde fez sua carreira jornalística. Recebeu o prêmio de melhor ensaio da ABL em 2003 por “As Ilusões Armadas”. Escreve às quartas-feiras e domingos na versão impressa de “Poder”.