Mais sobre stress e Vida Religiosa

Síndrome do cansaço pode afetar padres
ENTREVISTA COM WILLIAM CÉSAR CASTILHO
“A Síndrome do bom samaritano desiludido, desencantado”. Esse é tema de palestras que o psicólogo clínico e professor de Mestrado da PUC Minas, William César Castilho, realiza para o clero da Arquidiocese de Belo Horizonte, nas Regiões Episcopais, a convite da Pastoral Presbiteral. Em sua exposição, ele analisa as causas que provocam a desmotivação de padres, religiosos e religiosas na sociedade pós-moderna do século XXI. Segundo o psicólogo, problemas semelhantes são verificados em outras profissões e mesmo em outras confissões religiosas. “Os sintomas, muitas vezes, nos dão rasteiras. Eles aparecem nos indivíduos isolados, mas falam de algo muito mais hermenêutico e institucional”, afirma.
O tema da palestra é bastante instigante. Exatamente, do que se trata?
A exemplo de várias profissões, especialmente daquelas voltadas para a ajuda ao outro, como médicos, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais, também a profissão do sagrado apresenta desgaste: físico, afetivo, emocional e intelectual. Ando estudando exatamente este desgaste. Aliás, pesquisa semelhante com o clero foi feita pela Diocese de Pádua, na Itália, e muitas das conclusões coincidem. Esse desgaste se manifesta de várias formas. Um deles é a redução das forças da criatividade. A pessoa se sente exaurida das energias afetivas, já não tem a mesma satisfação e prazer em desempenhar a profissão e começa a se envolver menos com os paroquianos e com o próprio trabalho na paróquia. Isso pode levar à tristeza, angústia e a traços de depressão, uns mais agudos e outros mais leves etc.
O senhor cita alguns sinais que apontam para este desgaste. Poderia detalhá-los?
Um deles é o aumento do estresse. Há um esgotamento nervoso, uma certa impaciência e desânimo. Em uma parcela pequena podem acontecer os transtornos de adicção, ou seja, o alcoolismo, uma freqüência compulsiva à internet, o sexismo, a bulimia ou a própria anorexia, além de sintomas físicos. As pessoas devem ficar atentas, pois isso não aparece por acaso. É preciso que analisem de que forma têm vivido sua relação afetiva, profissional e intelectual. Particularmente, sobre esta questão, coloquei alguns elementos que são muito próprios da vida religiosa.
E quais são eles?
Quase todo mundo, ao procurar a vida religiosa, exarceba muito a idealização: “vou buscar a vida religiosa, pois ali é um lugar muito bom, onde existe uma fraternidade exemplar. Me sentirei próximo de Deus e muito amado”. Há uma idealização inicial e, depois, um forte desencantamento com aquilo que se procurou e com o objeto do desejo. A própria profissão exige o relacionamento interpessoal. Na Psicanálise chamamos isso de relação transferencial amorosa. Para o padre converge muita afetividade, excitação e até agressividade e ele, assim como outros profissionais, às vezes tem dificuldade em lidar com essa situação. Outro fator a considerar é que, no mundo inteiro, há uma perda pela questão mística – uma experiência de sustentação, principalmente, dentro da vida religiosa. O trabalho de uma paróquia, por outro lado, é burocrático, repetitivo e estressante e oferece pouco retorno de gratificação, se o padre não souber criar e inovar. A própria questão do celibato obrigatório exige muito da pessoa, se ela não tem clareza de sua opção e de seu carisma. Existem também desgastes na convivência institucional entre os padres, seus bispos e provinciais e entre párocos e vigários. Um outro elemento a considerar é a própria diminuição do prestígio e do status na vida religiosa. Antes, em uma cidade, o padre era o centro e tudo convergia em torno de sua figura e de sua importância. Temos, ainda, a precária situação econômica para um contingente significativo de padres e, ao mesmo tempo, uma estrutura pastoral deficiente em relação ao que o mundo hoje exige, haja vista a questão da informática e da cibernética. Várias paróquias têm apenas o sino para chamar os fiéis.
Uma palavra muito em voga é a secularização. Isso também interfere?
Sim, na civilização pós-moderna houve uma banalização e um esvaziamento do sagrado; e o padre é um profissional do sagrado. Ressalto, ainda, a questão da teologia da escassez e do medo. Antes, os medos é que regiam a vida das pessoas em busca de Deus. Hoje, temos uma sociedade de abundância, de excesso. Por que Deus não está tão atrativo dentro das instituições e das religiões? Podemos ter movimentos de seitas que atraem a população, principalmente os pobres, mas não sabemos lidar com Deus dentro da abundância e do excesso. Só temos uma relação interessante com Ele quando estamos mal: doentes, velhos, pobres etc.
E como superar esses obstáculos?
Primeiro, criar, dentro do próprio coletivo, uma vida mais afetiva, resgatar a fraternidade e o encontro entre o grupo. Tem-se falado muito também da necessidade de ampliar a formação intelectual do clero. Com isso, você teria uma sustentação para a área da sublimação, no sentido de resgatar a frustração, as decepções e a própria desilusão pelo caminho da intelectualidade. Outra coisa é a mística, hoje resignificada, principalmente dentro de um princípio que chamamos de resiliência. O que é a resiliência? Os indivíduos têm potencialidades muitas vezes escondidas e recalcadas, por medo e até mesmo por uma questão de tabu. Quando tocadas e mexidas, essas potencialidades vêm à tona e podem dar uma vitalidade maior à profissão. Um exemplo é a cobra, com cujo veneno se produz o soro.
Mesmo estando desencantados e desiludidos, eles permanecem na profissão?
A pesquisa da Diocese de Pádua mostra que muitos estão deixando a vida religiosa, especialmente os mais jovens, os iniciantes, exatamente porque ainda não têm, vamos dizer assim, uma forma interna e psíquica de elaborar essas frustrações. Eles simplesmente saem diante da primeira frustração. A turma de idade mais mediana consegue fazer essa elaboração e os mais velhos chegam a uma conclusão de uma forma um pouco desiludida.
Não seriam necessárias mudanças também na estrutura da instituição Igreja para que possam atingir o clero?
Os sintomas, muitas vezes, nos dão rasteiras. Eles aparecem nos indivíduos isolados, mas nos falam de algo muito mais hermenêutico e institucional. Cabe a todos nós fazermos esta leitura, e não apenas priorizar ou privilegiar o que está acontecendo com o padre fulano de tal, mas, a partir dele, fazer uma leitura sintomal da instituição, que é constituída de sujeitos conscientes e responsáveis. Acho que é importante ter esse olhar institucional e ver a questão do poder, do dinheiro, do prestígio, do prazer, da mística, do próprio projeto de pastoral que esta Igreja tem. Se você não tiver essa visão prioritariamente, dificilmente chegará a um resultado interessante.
O senhor já foi professor do ISI e do ISTA. Como percebe a formação nos seminários e nos institutos de teologia; e acredita que eles têm conseguido ampliar a formação para outras áreas demandadas, como a psicológica, por exemplo?
Acho que sim. Até uns anos atrás, a formação religiosa, tanto diocesana como religiosa consagrada, não priorizava, por exemplo, a questão orgânica, psíquica, cultural, antropológica e mesmo a questão da religiosidade do candidato. Era uma formação muito positivista, vamos dizer assim, que se contentava apenas em doutrinar, uma educação bancária, como Paulo Freire dizia. Não havia um clamor por parte do educador, no caso o formador, em fazer um processo de formação dialogada, participativa, de comum acordo. Era sempre uma postura de alguém que sabe e o outro que não sabe; de alguém que tem a reposta e o outro não. Isso produzia, evidentemente, todas as patologias que você pode imaginar: dependência, passividade, medo, boicote, cinismo, coisas erradas escondidas. Acho que hoje está havendo, não só uma queda do pedestal dessas estruturas ligadas à formação, como também um convite para lidar com outros saberes.
O senhor está também à frente do Núcleo de Atendimento Terapêutico para a Unidade do Ser (Natus). Em que pé está este projeto?
O Natus é muito mais uma idéia, uma proposta de unir forças em torno da ajuda mútua. E existe a casa de apoio aos presbíteros, um lugar de cultura, de espiritualidade, de abrir possibilidades a essas pessoas que estão mais isoladas, com mais conflitos. O Natus e a casa são instrumentos concretos para que o clero possa usar exatamente diante desse desencantamento.
Fonte: Jornal de Opinião
Edição 987 – 01 a 07 de Maio

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