Três bispos e três livros polêmicos

O ano de 2008 deverá ser lembrado, em ambientes católicos, pelo fato curioso de terem sido publicados, quase simultaneamente, três livros polêmicos que abordam, cada qual sob uma ótica diferente, o papel da Igreja e da própria fé cristã no mundo de hoje. Coincidentemente (ou não?), os respectivos autores são todos bispos eméritos, entre eles dois cardeais de renome internacional. Trata-se, em primeiro lugar, de “Mantenham as Lâmpadas Acesas”, publicação póstuma do ex-arcebispo de Fortaleza, Dom Aloísio Cardeal Lorscheider que – em estilo de entrevista – revisita os últimos 40 anos de história eclesial na América Latina e lança desafios contundentes para os cristãos no século XXI. Em seguida, surgem as “Reflexões de um Bispo sobre as Instituições Eclesiásticas atuais”, de autoria de Dom Clemente Isnard, bispo emérito de Nova Friburgo, que defende mudanças estruturais profundas no tocante aos ministérios ordenados. E, por último, chega ao Brasil o aguardado livro-entrevista do ex-arcebispo de Milão, Dom Carlo Maria Cardeal Martini, intitulado “Diálogos Noturnos em Jerusalém: Sobre o Risco da Fé”, praticamente um convite ao rejuvenescimento da Igreja. O que há de significativo nesta simultaneidade ?
É que ela pode ser um indício de que existe um descontentamento maior, em uma parte do episcopado católico mundial, com a atual política eclesiástica levada a cabo pela Santa Sé. No prefácio à segunda obra acima citada, afirma o conhecido teólogo José Comblin: “Diante da excessiva concentração dos poderes em Roma, é bom que alguns bispos tenham a coragem de dizer o que pensam”. Ainda segundo ele, “Dom Clemente expressa o que muitos bispos pensam mas não podem dizer”. De fato, Lorscheider (à época da entrevista com 81 anos), Isnard (90) e Martini (80) usaram, em suas considerações, de uma franqueza inusitada nos meios episcopais atuais, sabendo que a idade lhes “confere uma imunidade que não se conhece antes de ser jubilado” (Comblin). Ainda assim, estes “anciãos” da Igreja tiveram que lutar para se fazer ouvir: O opúsculo, de apenas 40 páginas, de Dom Isnard, teve a sua publicação pela editora Paulus vetada pelo Núncio Apostólico, enquanto o livro de Dom Lorscheider não recebeu acolhida nas editoras católicas Paulus, Paulinas e Santuário, por motivos que “O Grupo”, responsável pela obra, nunca soube…
Onde se situam, então, os pontos críticos? É impressionante a concordância dos três bispos em torno da possibilidade teológica de, em princípio, mulheres exercerem o ministério sacerdotal na Igreja: O lapidar “não-vejo-por-que-não” de Lorscheider (p.160) encontra seu equivalente na provocação de Isnard: “Se somos todos um em Cristo e não há diferença entre homem e mulher, por que o poder da Ordem só pode ser conferido aos homens?” (p.30). E Martini, como o exímio biblista que é, sentencia: “A condução de comunidades por mulheres é um dado bíblico” (p.136). Também se constata uma preocupação comum no sentido de superar o acentuado eclesiocentrismo que hoje reina nos ambientes católicos: A advertência do cardeal franciscano de que “ser ‘Igreja’ não significa estar voltado para dentro de si própria, mas para fora” e que “se não houver […] espírito de abertura ao mundo, nós estaríamos malhando em ferro frio” (p.133), o cardeal jesuíta traduz assim: “Jesus pergunta: ‘Quando voltar o Filho do Homem, encontrará fé sobre a terra?’. Ele não pergunta: ‘Vou encontrar uma Igreja grande e bem organizada?’” (p.138). Manifestam-se ainda, em todas as obras citadas, um mal-estar com o dirigismo e intervencionismo romanos nas igrejas locais, bem como uma vontade de promover uma eclesialidade baseada no diálogo (e não apenas em pronunciamentos e decretos papais), na confiança recíproca entre clérigos e leigos (e não na suspeita e no controle inquisicional), nos princípios da colegialidade, da subsidiariedade e do ecumenismo. Além disso, sobretudo os dois cardeais continuam insistindo na necessidade da nova geração superar o intimismo espiritual e engajar-se social e politicamente nas realidades seculares, em favor dos mais pobres, doentes, viciados, excluídos, presos.
Quem, nos diversos ambientes eclesiais, ainda não tiver aposentado a reflexão teológica, a capacidade crítica e o desejo de profundas transformações, poderá solicitar o livro de Dom Isnard na Editora “Olho d’Água”, em São Paulo, enquanto que as respectivas obras de Dom Aloísio Lorscheider (edUFC) e Dom Carlo Martini (Paulus/PUCRJ) estão à disposição em todas as livrarias católicas de Fortaleza. Se o ano de 2008 já tem sido tão rendoso, o que, então, diremos do próximo em que celebraremos os 100 anos de nascimento de Dom Helder Câmara !?

Janeiro 2009
Carlo Tursi, teólogo católico e membro de “O Grupo”

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