A "igreja moderada" e o sertão moderno

O presidente da CNBB e arcebispo de Mariana, dom Geraldo Lyrio Rocha

O presidente da CNBB e arcebispo de Mariana, dom Geraldo Lyrio Rocha

Edmilson Lopes Júnior
De Natal (RN)

Não é raro, nas coberturas jornalísticas sobre a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), referências a uma ala “moderada” da Igreja. Esta se caracterizaria por um prudente distanciamento tanto do cada vez mais minoritário setor identificado com a esquerda e também com os setores mais abertamente identificados como conservadores. Esse esquema simplista, embora não traduza bem a pluralidade da CNBB, fornece ao menos um indicativo do que ocorre no mundo mais rico, complexo e contraditório da igreja hegemônica no país. E, em verdade, não há porque se esperar algo muito mais sofisticado em se tratando de coberturas destinadas ao grande público. O problema, aí sim, é quando essa enviesada radiografia da Igreja Católica alicerça análises políticas. E, muito particularmente, avaliações sobre os seus supostos impactos no processo eleitoral.

Gostem ou não os “bem pensantes”, reprodutores de lugares-comuns a respeito do comportamento eleitoral dos brasileiros, os eleitores têm, ao contrário do que acreditam muitos, produzido escolhas racionais e reflexivas nas últimas eleições. Nessas escolhas, a contribuição da Igreja Católica, especialmente no vasto território do semi-árido nordestino, não tem sido devidamente avaliada. O seu distanciamento do proselitismo político cria a falsa impressão de que o trabalho desenvolvido pela Igreja Católica no interior do Nordeste não tenha tido um peso significativo no apoio ao Governo Lula e na grande votação obtida por Dilma Rousseff nos municípios sertanejos.

Nas dioceses do semi-árido, durante décadas, bispos, padres e freiras têm buscado afirmar o seu compromisso cristão através do “exemplo”, não da retórica. Daí o distanciamento cuidadoso que têm tido em relação à produção discursiva da esquerda tradicional. Embora dialoguem com sindicalistas e militantes da esquerda, esses religiosos procuraram, ao longo dos anos, afirmar outros valores. Dentre estes, “alívios” concretos para “o sofrimento do povo de Deus”. A ausência de proselitismo político, e a desautorização da militância pastoral esquerdista, alimentam, em analistas superficiais, a visão de uma prática religiosa “apolítica” e sem impactos eleitorais vistosos. Nada mais equivocado!

As idéias e valores expressos nas práticas desses religiosos foram incorporados reflexivamente pela vasta população católica do interior do Nordeste. Durante um longo tempo, nas emissoras de rádio da Igreja, ainda detentoras de grande audiências sertão afora, e nas missas e encontros religiosos, as pessoas foram estimuladas a prática do “ver, julgar e agir”. A não se deixar encantar pelos belos discursos. A noção de que o “exemplo” vale mais do que mil palavras, por exemplo, orienta as avaliações desses eleitores. Em um universo social no qual a “fala bonita dos doutores” sempre mereceu desconfiança, essa pregação encontrou terreno fértil.

Para esses religiosos, grande parte deles catalogados como “moderados”, a própria relação com o sagrado tem sido objeto de uma reflexão socializada com os fieis. Cultiva-se, nesse meio, uma condenação à utilização da fé para outros meios. O que, à primeira vista, pareceria alimentar o apoliticismo, serve, na verdade, como uma vacina contra a introdução de temas religiosos na disputa eleitoral.

Para falar na língua da sociologia, a atuação da “igreja moderada” no interior do Nordeste, tem contribuído, como conseqüência não-intencional, para a emergência de um eleitorado mais reflexivo, mais atento aos interesses em jogo e muito ciente de quais as apostas que valem a pena. Em uma obra seminal para a sociologia, publicada no início do século XX, Max Weber apontou como a “ética protestante”, como um efeito não intencional, alimentou o racionalismo característico do “moderno capitalismo”. No início do século XXI, a senda analítica aberta pelo cientista social alemão talvez possa iluminar como uma prática religiosa tida como “moderada” e tradicional está alimentando uma prática política marcadamente moderna em um vasto território comumente descrito nos discursos carregados de etnocentrismo de classe média, como “grotões”.

Edmilson Lopes Júnior é professor de sociologia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

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