Sou um teólogo feliz

 

Francesco Strazzari é conhecido entre nós por seu livro “Sou um teólogo feliz”, uma lúcida e valiosa entrevista que fez com Edward Schillebeeckx. O é menos por outras igualmente excelentes feitas com teólogos como Congar, De Lubac, Rahner, Pannenberg, Moltmann, Alfrink, Setién… (algumas recolhidas em um pequeno, mas denso volume “Testimoni di Speranza”). A análise é de Andrés Torres Queiruga, publicada no sítio espanhol Religión Digital, 24-09-2012. A tradução é do Cepat.

 

Menos o é seguramente por suas reportagens sobre a presença da Igreja nas mais afastadas e diferentes partes do mundo: países comunistas da Europa central, do Sudeste asiático, do Oriente Médio, da China…

Enviado pela prestigiosa revista quinzenal Il Regno, viajante incansável sem abandonar seu trabalho pastoral, nem sua preocupação teológica, conseguiu uma invejável visão dos grandes problemas da Igreja no atual comando. E consegue expô-los com um estilo sempre sereno e uma informação precisa e essencial, sem recorrer ao slogan nem ceder aos tópicos. Sua preocupação é a objetividade equilibrada, a informação orientadora.

O último livro [Fragmentos di America Latina. Martiri, profeti e Chiese a rischio. Bologna, EDB, 2012], que aqui resenho, nos é especialmente próximo, por referir-se à América Latina. Fiel ao estilo, não oferece uma visão sistemática, mas um conjunto variado de quadros, onde se pode entrever a contextualização indispensável, a evocação histórica e a entrevista com pessoas especialmente significativas.

Entregues ao leitor e devidamente conjuntados ao fio da leitura, vão configurando um quadro vivo, uma visão global do mundo apaixonado, cheio de criatividade e de tormento, de fracasso e de promessa que caracteriza a vida desse continente em busca de seu caminho entre as duras contradições que obscurecem, mas não anulam a grande promessa de seu futuro.

Abarca um arco temporal relativamente amplo: desde os anos 1980 até o presente, e oferece um bom leque de noções. Após dois prólogos, de Oscar Beozzo e Jon Sobrino, uma breve introdução, “O futuro é agora”, assinala as dramáticas mudanças de uma Igreja em franca recessão, que, após ter sido quase única e omnipresente, “está posta de fato ao nível das obras confessionais religiosas e seu pensamento é considerado como um entre outros” (p. 14); para concluir, com palavras de dom Strotmann, bispo de Chosica, no Peru: “Estamos jogando a catolicidade do continente latino-americano das próximas décadas” (p. 16).

Depois vem os tratamentos concretos, começando pelo caso Boff, que ilumina à base de preciosas entrevistas com o cardeal Paulo Evaristo Arns de São Paulo, e dom Adriano Hipólito, de Nova Iguaçu: ambos livres, positivos e corajosos sobre este e outros temas. Termina com o caso de Sucumbíos: “a Igreja golpeada, mas não afundada”. E no meio, uma longa lista de problemas, iniciativas, pessoas e desafios.

Impossível resenhá-los todos. Vale a pena assinalar as visões e versões estranhamente equilibradas de Cuba, do chavismo, de Evo Morales e da “revolução cidadã” de Rafael Correa. Muitas notícias, que nos chegam dispersas, enviesadas e fora de contexto, recebem aqui uma luz inesperada para aqueles que buscam um julgamento objetivo, tão longe do elogio como alheio à condenação.

Menção muito especial merece o longo e aberto tratamento da “cavalgada da Opus Dei”, cada vez mais influente e com tendência a dominar e dirigir o futuro das igrejas. O retrato nu que faz do cardeal Cipriani, com dados e processos que assombram, como seu apoio ao Sodalício de Vida Cristã (menos conhecido aqui, mas muito afim aos Legionários de Cristo e seus escândalos), sua cumplicidade com Fujimori ou sua tentativa de se “apoderar” da Pontifícia Universidade Católica do Peru (“uma instituição civil sem fins lucrativos, assim inscrita nos registros públicos do Peru”, p. 103), não só permite compreender muitas coisas “incompreensíveis” (assim como costumam chegar até nós), mas que explicam o duro diagnóstico do autor:

“O Peru deveria constituir, em sua tentativa, o modelo ideológico do que deveria ser a Igreja na América Latina e, talvez, no mundo. A Opus fez do Peru, em quase meio século de atividade, um paradigma em caso de derrota da Europa” (p. 95).

As afirmações são apenas fragmentos de um tratamento mais amplo e plural. Espero, contudo, que baste para justificar a afirmação de que não será fácil encontrar uma obra que em muito breve espaço (186 páginas) ofereça uma informação tão viva e um juízo tão sereno e objetivo desse continente. Seria bom que alguma editora se animasse a oferecê-la em castelhano, para informação fraterna e, talvez, para aviso futuro.

 

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