Cenas de Verão II: o menino e o pitbull

Praia da Conceição. Uma das tantas pequenas e pouco conhecidas praias do Litoral Norte gaúcho. São apenas três ruas ligando a Interpraias e as dunas da orla entre Arroio Teixeira e Curumim. Até os anos 1970, eram apenas algumas choupanas de pescadores e umas poucas casas de madeira de araucária construídas pelos abastados de São Francisco de Paula e Bom Jesus que aqui vinham veranear. A partir dos anos 80 e as sucessivas promessas de abertura da Rota do Sol, chegou o povo de Canela e Gramado. As avenidas foram calçadas e as travessas assinaladas e ocupadas por mais e mais veranistas.Com a finalização da Rota do Sol, veio a invasão dos gringos de Bento Gonçalves e Caxias do Sul. Foram comprando e construindo casas e mansões sempre maiores e melhores que as dos vizinhos. Quem é gringo sabe como é isso…Apesar dessa mudança, a Praia da Conceição continuou sendo eminentemente residencial. O único comércio é o Minimercado Mattos na esquina da Interpraias com a avenida por onde passa o ônibus urbano. Tem de tudo: do pão francês ao material elétrico e hidráulico para concertos básicos. O espaço é pequeno. Tudo apertadinho, especialmente no verão, quando todos buscam este “pronto socorro material”. Na porta de entrada, um enorme cartaz com dois dizeres: “Proibido entrar sem camisa. Proibida a entrada de animais”.Sábado de Carnaval. Chego para buscar o pão para o lanche da tarde. Pequeno tumulto na entrada. Dona Bela, esposa do proprietário e caixa, impede um rapazote sem camisa de entrar. Depois de uma rápida discussão, o rapaz sai e, desde a rua, anuncia em tom de ameaça: — Vou chamar meu pai!Dona Bela olha para seu Ervino que está no açougue que olha para o genro que atende na padaria que olha para a nora que repõe as verduras nas caixas de plástico… Eu olho para os fregueses que se apressam nas compras e, ao sair, se postam na parada de ônibus em frente ao armazém. Algo de ameaçador paira no ar…No momento em que estou colocando as maçãs no saquinho plástico, uma sombra de dois metros tapa a luz do fim da tarde que entra pela porta. Ele aí está, de bermuda e sem camisa, no braço direito uma tatuagem de uma caveira sobre dois fuzis, no esquerdo, o emblema de um time de futebol. A seu lado, um pitbull que lhe chega ao joelho. Sem focinheira nem laço. Solto, pronto para o bote. Atrás dos dois, o rapazote…Olhando ameaçadoramente para os presentes – eu incluído – o homem dirige a palavra ao filho: — Luizinho! O que você queria nesta espelunca? — A tatuagem do dragão com o arco-íris. — Onde é que tá essa p…? — Ali! — Pega logo essa m…O meninote vai passando um por um os saquinhos com as tatuagens até achar a desejada. Olha para o pai. Olha para Dona Bela que segue estática atrás do caixa. O pai toma o filho pelo braço e sem qualquer menção de pagar pelo dragão com arco-íris, toma a porta da rua. O pitbull espera que os dois cheguem a calçada, solta um rosnado, dá meia volta e também parte. Os vira-latas que habitam a entrada do Minimercado Mattos seguem o pitbull a uma cuidadosa distância até este desaparecer na esquina.A parada de ônibus se esvazia. Uns voltam para casa. Outros para o armazém. Dona Bela enxuga o suor. Seu Ervino guarda a faca do açougue. O genro emerge da padaria. Sorrio para Dona Bela, pago minhas contas e retorno para casa. No caminho cruzo com um vira-lata que me rosna insistentemente.  Talvez ele esteja treinando para ser pitbull. Ignoro-o e signo meu caminho pensando no perfume do café colombiano que me espera.

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