Pobre diabo!

Dentre as muitas surpresas que a dialética da história e o Espírito Santo nos reservam, está o Papa Francisco. Ninguém de nós, em sã consciência, poderia esperar que do Conclave que escolheu o sucessor de Bento XVI surgissem um Papa argentino que assumisse o nome e o espírito de Francisco de Assis. E aí está ele hoje, em seu ainda curto e denso pontificado, assumindo a condição de única inconteste liderança moral da humanidade.
Seus gestos e suas palavras, solenes ou banais, não deixam ninguém indiferente. Há os que são radicalmente contra e os que são radicalmente a favor. A razão disso, penso eu, deve-se a que ele se atém à simplicidade do Evangelho: Deus quer a libertação e a salvação de todos e todas!
Essa é a alegre notícia da qual o Papa quer ser anunciador. Seu documentos magisteriais expressam-na nos títulos: Evangelii Gaudium, Laudato Sì, Amoris Laetitia, Gaudete et Exsultate. E tudo iluminado pela Misericordiae Vultus.
Na última Exortação Apostólica por ele publicada, a Gaudete et Exsultate, Francisco chama a atenção para duas pedras de tropeço dos católicos que buscam a santidade. Segundo ele, são heresias clássicas que, por nascerem da própria condição humana, “continuam a ser de alarmante atualidade”. Trata-se do gnosticismo e do pelagianismo. O primeiro, o gnosticismo, apresenta “uma mente sem Deus e sem carne”. Trata-se de “uma fé fechada no subjetivismo, onde apenas interessa uma determinada experiência ou uma série de raciocínios e conhecimentos que supostamente confortam e iluminam, mas, em última instância, a pessoa fica enclausurada na imanência da sua própria razão ou dos seus sentimentos”. É uma fé individualista, egoísta, que busca a própria satisfação e por isso é incapaz de abrir-se a Deus e ao irmão necessitado.
No outro extremo está o pelagianismo, ou a religião daqueles que creem que podem salvar-se por suas próprias forças. É uma “vontade sem humildade” que esquece que somos justificados unicamente pela graça de Deus.  O moderno pelagianismo, segundo Papa, “manifesta-se na obsessão pela lei, o fascínio de exibir conquistas sociais e políticas, a ostentação no cuidado da liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja, a vanglória ligada à gestão de assuntos práticos, a atração pelas dinâmicas de autoajuda e realização autorreferencial.”
Creio que todos nós, de uma forma ou de outra, nos sentimos exortados à conversão por estas palavras, tanto no agir pessoal enquanto cristãos, como no nosso atuar eclesial e social. Todos trazemos em nós algo de gnóstico ou de pelagiano e, como afirma constantemente o Papa Francisco referindo-se a si mesmo, somos pecadores e necessitamos do perdão e da misericórdia de Deus.
Lendo a Gaudete et Exsultate e suas advertências contra as versões modernas de velhas heresias, veio-me à mente uma outra velha heresia que também foi reciclada pela modernidade e não é abordada pelo Papa. Trata-se do maniqueísmo. De origem pagã, o maniqueísmo foi, nos primeiros séculos, um forte concorrente do cristianismo. Agostinho de Hipona, o grande teólogo do primeiro milênio, durante nove anos militou nas fileiras do maniqueísmo e, ao converter-se ao cristianismo, teve que enfrentar a grande questão que aquela doutrina solucionava com enorme facilidade: unde malum? De onde vem o mal? Por que o mal existe? Por que fazemos o mal?
O maniqueísmo tinha uma resposta fácil: há um deus bom e um deus mau. O primeiro é fonte de tudo o que é bom e o segundo de tudo o que é mau. E o universo também está dividido em duas esferas, a do bem e a do mal. Do mesmo modo a humanidade e cada ser humano.
Mas se afirmamos, como faz o cristianismo, que Deus é um só, que Ele é bom e que tudo foi criado por Ele no amor, a questão se torna mais exigente, como bem o demonstra Santo Agostinho nas “Confissões”: “E, uma vez que Deus, sendo bom, fez todas as coisas boas, donde vem então o mal? Será que, naquilo donde as fez boas as coisas mais pequenas, mas no entanto, tanto o Criador é bom como são boas todas as coisas criadas. Donde vem então o mal? Será que naquilo donde as fez, havia alguma matéria má, e formou-a, e ordenou-a, mas deixou nela qualquer coisa que não teria transformado em bem? E porquê isto? Será que, embora não sendo omnipotente, não tinha poder para transformá-la e mudá-la na totalidade, de modo a que nada de mal restasse? Finalmente, porque é que quis fazer dela alguma coisa e não preferiu fazer, com a mesma omnipotência com que ela não existisse em absoluto?”
Na sua argumentação, tanto nas Confissões como nos outros escritos, o bispo de Hipona refuta a afirmação de que Deus, direta ou indiretamente, seja a fonte do mal. Para Agostinho, tanto pelo caminho da lógica filosófica como o da tradição judaico-cristã, o mal existe por causa do pecado humano, seja o “pecado do mundo” que herdamos de nossos pais seja o pecado resultante de nossas opções pessoais.
Lembro do maniqueísmo ao ver tantos cristãos, católicos inclusive, obcecados pela ideia do demônio. Ao passar por certas igrejas e presenciar certos cultos – missas também! – parece que há uma preocupação maior com o diabo que com Deus. Na televisão então, é atroz! Cultos de cura e libertação, exorcismos, sessões de descarrego e outros aos quais é até difícil dar um nome, afirmam, clara ou sub-repticiamente, que o diabo tem tanto ou mais poder que Deus. E isso é maniqueísmo. Santo Agostinho ficou para trás… Foi vencido pelos novos maniqueus que, dizendo que cultuam a Deus, na verdade prestam culto ao demônio.
Que o diabo, existe, não nego! O Papa Francisco, na Gaudete et Exsultate, ocupa vários parágrafos com a questão. E afirma que o diabo não é um mito, mas uma realidade pessoal. E que, para combatê-lo, não há necessidade de ritos mirabolantes. Basta “a fé que se expressa na oração, a meditação da Palavra de Deus, a celebração da Missa, a adoração eucarística, a Reconciliação sacramental, as obras de caridade, a vida comunitária, o compromisso missionário”. É esse modo de ser cristão que afasta do Maligno e nos mantém firmes em Jesus no caminho do Reino do Pai.
Não coloquemos, pois, toda a culpa no pobre diabo. No inferno, onde ele habita, deve haver suficientes problemas com os quais ele tem que se ocupar. Não criemos mais problemas para ele. Que descanse em paz!

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