Violência, desigualdade e fé.

Os dados são da Organização Mundial da Saúde: o Brasil é o nono país mais violento do mundo. Mata-se no Brasil cinco vezes mais que a média mundial. No cômputo global, a média da taxa de homicídios é 6,4 para cada 100 mil pessoas. Na África, a média é de 10 mortes a cada 100 mil, contra apenas 3,3 na Europa. O continente mais afetado pela violência é a América, com 17,9. O índice brasileiro é de 31,1 pessoas a cada 100 mil habitantes.
No ranking mundial da violência a liderança é ocupada por Honduras. No pequeno país centro-americano, são 55,5 homicídios para cada 100 mil pessoas. Em segundo lugar vem a Venezuela com 49,2 homicídios para cada cem mil venezuelanos. Na sequência vem El Salvador (46 para cada cem mil), Colômbia (42), Trinidad e Tobago (41), Jamaica (39,1). Lesoto (35) e África do Sul (33,1).
No ano de 2016, a OMS contabilizou 477 mil homicídios em todo o mundo. 80% das vítimas foram homens. Nas Américas, o total de mortes violentas chegou a 156 mil.
O espantoso é que, nas Américas, onde não há nenhuma guerra declarada, o número de homicídios é maior do que o daquelas regiões onde há conflitos bélicos. Há menos mortos de forma violenta na Síria, no Iraque e no Afeganistão do que no Brasil!
O que explica isso? Somos os americanos – latino-americanos em particular – mais violentos que os outros povos do mundo? Uma resposta simplista seria a afirmativa: sim, somos mais violentos que africanos, asiáticos e europeus!
Mas, como dissemos, é uma resposta simplista. Se formos a fundo e tomarmos outro dado, o da desigualdade social, podemos constatar que os índices de violência se sobrepõe quase que de forma absoluta sobre os índices de desigualdade. A América Latina é o continente mais desigual e, ao mesmo tempo, o mais violento do mundo. Honduras, o país mais violento da América Latina, é também o país mais desigual. O Brasil, nono no índice de violência, é o 10º em desigualdade social. 1% dos brasileiros mais ricos detém mais de 90% da riqueza brasileira. Os seis brasileiros mais ricos detém mais recuros econômicos que os 100 milhões de brasileiros mais pobres. Não há como não relacionar um dado com o outro. Só não querendo ver…
Mas há outro dado a colocar nesta análise. E ele é preocupante: a América Latina é o Continente com o maior percentual de cristãos e, particularmente, com o maior percentual de católicos. 50% dos católicos do mundo estão concentrados na América Latina. E com isso vem a pergunta que não pode ser evitada: há uma relação entre este dado e os dois anteriores? São os cristãos – e os católicos em particular – mais violentos e mais tolerantes com a desigualdade social? Ou, dita em outras formas: a fé declarada de cristãos e católicos tem alguma influência sobre o convívio social? Ou é o cristianismo apenas uma expressão religiosa que não tem nada a ver com o dia a dia das pessoas que a professam e com a sociedade em que elas vivem?
Questões a se por, especialmente nestes tempos em que a motivação religiosa é embaraçosamente misturada com as opções políticas de candidatos e eleitores. Pensemos nisso antes de ler o próximo trecho da Bíblia, de ir ao culto ou à Missa. E pensemos nisso, sobretudo, antes de ir às urnas. E que Deus nos proteja dos cristãos violentos!

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