Há esperança

Primeiro sábado de outono. Porto Alegre ensolarada. Mas já não tão quente.  Trânsito tranquilo a caminho da Estação Rodoviária. Chego antes do tempo. Aproveito os 45 minutos que ainda me separam da partida do ônibus para ler. Me sinto um extraterrestre em meio aos não muitos outros passageiros que também aguardam as respectivas partidas. Sou o único – confiro para não estar equivocado – a ter um livro mãos. Quase todos ocupam o tempo em teclar nas redes sociais ou ouvir música. Alguns fones de ouvido se escondem no interior do pavilhão auricular. Outros, escondem a cabeça de seus ouvintes.
Na hora marcada o ônibus parte. Pontualidade brasileira com preços britânicos. Com duas passagens pagar-se-ia uma viagem em carro para o mesmo destino. É o preço do monopólio construído em tempos de governos liberais. Como de costume, durmo na primeira hora de viagem. Acordo já para lá da Estrada do Conde que leva a Guaíba. Retomo minha leitura de “Sodoma” e observo as ondas multicoloridas dos arrozais em ponto de colheita. O tema da leitura e a paisagem se complementam. O tempo passa rápido apesar da pista que teima em não ser duplicada desde o ano de 2014. Aqui e ali um pequeno sinal de obras em andamento. Aparências para enganar eleitores incautos e cultivar futuras expectativas que alimentarão novas eleições.
A platitude do terreno me remete ao ano de 1983 quando, pela primeira vez, fiz este percurso. Em meus então 17 anos, saia da terra natal e me aventurava na distante Pelotas. Tempos de abertura e de descortinamento de um novo mundo. A democracia ainda tardaria mas já vivíamos os albores das Diretas Já, da Constituinte e do fim da ditadura militar. Tantas lembranças destes tempos
Depois de duas horas e um pouco mais de viagem, o tradicional paradouro: 20 minutos! Para minha surpresa, para usar o banheiro, não há necessidade de passar pela loja e restaurante. E, surpresa maior, o banheiro masculino está surpreendentemente limpo. Algo a louvar. Passo na lojinha, compro uma água mineral e um pacotinho de torrões de arroz. Preço dobrado em relação aos mercados urbanos. Não há opção. O preço do banheiro limpo está embutido. Faz parte do jogo.
Como meus torrões e tomo a água sentado em frente ao ônibus. Ninguém conversa com ninguém. Apenas os smartphones falam. Deixo o tempo passar. Faltam poucos minutos e não vale a pena buscar meu livro. Do restaurante sai calmamente um casal de idosos. Por volta dos 70 ou um pouco mais. Não são passageiros do ônibus. Estão viajando de carro. Ao passar, o senhor – mais velho que a senhora – olha a origem e o destino do ônibus. Volta-se para mim e me diz: — Vamos ver quem chega antes! Eu sorria e desejo boa viagem. Os dois se encaminham em direção ao carro estacionado sob uma sombra. Levam nas mãos plásticos e papeis para descartar na lixeira. Mas a lixeira está virada e há papeis e plásticos espalhados pelo chão. Um olha para o outro e, com a calma de quem não tem pressa para chegar ao destino, os dois começam a recolher o lixo jogado pelo chão e acomodá-lo nas sacolas plásticas que carregavam. O senhor vai até o carro, busca mais uma sacola plástica e continua a coleta no gramado que se estende à beira da estrada.
Ao terminar o trabalho, recolocam a lixeira na vertical, depositam nela as sacolas recheadas de dejetos por outros produzidos e, sem pressa, dirigem-se ao pé da árvore. Tomam seus celulares e fazem fotos. Ele dela e, ela, dele. Em seguida, um selfie os junta na mesma imagem. Tudo acompanhado por sorrisos e gestos de carinho.
O ônibus parte. O carro vermelho de modelo popular com o casal de idosos segue o ônibus com toda calma e tranquilidade. Quem chegará antes em Rio Grande?

Em meus pensamentos desejo outra vez uma boa viagem aos dois. E, mesmo que o ônibus corra mais e eles continuem andando na vagarosa tranquilidade do bem feito, certamente eles já chegaram ao seu destino.

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