A Lei do Retorno

Sou avesso a todo determinismo. Desde os simples até os científicos e religiosos. Não acho que “tal pai, tal filho” seja insuperável. A experiência nos diz que, felizmente, os filhos são, quase sempre, muito diferentes dos pais. E com isso fica eliminado o “a fruta não cai longe da árvore”. E o preconceito de que os povos originários de climas frios e temperados são trabalhadores e previdentes e que aqueles das regiões tropicais são malandros e indolentes. Assim o queria um certo vice-presidente de uma república onde mais da metade da população se autodeclara preta, parda ou amarela… Ele incluído!

Também não é comprovado que quem nasce na favela seja potencial bandido e quem cresceu no condomínio está fadado a ser “doutor”. A incipiente e ameaçada experiência das cotas, do PROUNI e do FIES mostra que todos e todas, independentemente da origem social, quando têm as necessárias condições, podem alcançar todos os lugares sociais. Mas, na nossa sociedade de poucas oportunidades, quando um se move, tira o lugar de outro. E isso incomoda…

Apesar de Freud, fica difícil comprovar que somos nada mais que os frutos dos traumas de nossa infância. Se assim fosse, faltariam psicólogos! E, contra Marx, que o desenvolvimento das forças produtivas leva necessariamente ao comunismo. E se a mão invisível do mercado trouxesse inexoravelmente a riqueza para todos, como dizia Adam Smith e hoje continuam a repetir os ajurujurás ministeriais de ocasião, a pobreza do Brasil e do mundo já teria encontrado solução. E, a cada crise, as grandes empresas não estariam correndo em busca de socorro das burras públicas.

E também é insustentável dizer que se os pais comem uvas verdes, os filhos nascem com os dentes enfraquecidos. Está na Bíblia. Mas a Bíblia é a verdade divina dita com palavras humanas. E o dizer humano nem sempre consegue transmitir o querer divino. Às vezes colocamos na boca de Deus nossos desejos e sentimentos.

Com efeito, o campo da religião é propício para os determinismos mais perigosos. Desde a lei da causa e do efeito até a doutrina da predestinação. Não sou especialista em budismo, hinduísmo e espiritismo, mas, no que se refere à fé cristã, a liberdade do ser humano é respeitada por Deus até as últimas consequências. E, mesmo que o ser humano se decida contra aquilo que Deus deseja – ele não determina! – para além e acima de todo pecado, está a graça divina que respeita o agir humano. Complexo, mas só assim Deus é Deus e o ser humano é humano. Fora disso, o divino se transforma em tirano e o humano em marionete. Aí já não há mais religião. Há fanatismo e escravidão.

Calvino e Jansênio me dão arrepios espirituais. Entre Lutero e Armínio, fico com os dois sem eliminar nenhum. Bem assim como o fez o Concílio de Trento.

Isso posto, devo confessar que, às vezes, dá um prazer enorme dizer: aqui se faz, aqui se paga! Mas, fiquem tranquilos: vou me confessar!

Imagem: “Marionete”, por Alex Silva by Flickr

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