Para que não se repita!

hiroshima

Em sua obra Sobre a Oratória, escrita em 55 a.C., Marco Túlio Cícero registrou uma frase que, de século em século, chegou até hoje e nos faz pensar sobre a capacidade humana de apreender. Dizia ele: “a história é testemunha dos séculos, luz da verdade, vida da memória, mestra da vida, mensageira do passado”. A forma breve da afirmação – a história é a mestra da vida – tornou-se popular e enfeita formaturas de Cursos de História e discursos de políticos candidatos a caudilho, ditador ou estadista.

Sem pôr em dúvida a grandeza de Cícero – quem sou eu! – faço-me uma singela pergunta: o sábio romano, ao fazer tal afirmação, fazia uma constatação ou proclamava um desejo?

Coloco esta indagação nestes dias em que comemoramos os 75 anos do lançamento, pelas Forças Armadas dos Estados Unidos, das bombas atômicas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. No dia 6 de agosto de 1945, uma bomba de urânio foi jogada sobre Hiroshima. Três dias depois, outro avião despejou uma bomba de plutônio sobre Nagasaki. Milhares de pessoas morreram instantaneamente. Em menos de quatro meses, o número de mortos subiu a mais de 300 mil. Durante décadas, milhares de pessoas continuaram a morrer e a sofrer as consequências da radioatividade.

Até hoje, estrategistas militares, governantes, políticos e moralistas se perguntam: era necessário tal massacre para que a guerra terminasse? Para os defensores do holocausto de Hiroshima e Nagasaki, não haveria solução final para o conflito sem uma prova irrefutável da superioridade americana sobre o Império Japonês.

As palavras grifadas o foram de propósito: holocausto, solução final e superioridade. Elas remetem a um outro espaço em que se disputou a hegemonia econômica, política e cultural na “Segunda Guerra Mundial”. Como todos já perceberam, trata-se do conflito europeu em que o nazismo, através do holocausto de judeus, ciganos, comunistas, pacifistas, homossexuais e doentes, queria dar uma solução final para os problemas do mundo e impor a superioridade da raça ariana.

Voltando à frase de Cícero, nos perguntamos: aprendemos algo com esses dois episódios tão similares da história da humanidade?

É verdade que a bomba atômica nunca mais foi usada. Mas outras bombas, menos espetaculares mas tão ou mais eficazes, continuaram a matar milhões de pessoas por todo o mundo: Coreia, Vietnam, Argélia, Camboja, Indonésia, Colômbia, Guatemala, El Salvador, Chile, Ruanda, Congo, Afeganistão, Iraque, Tiananmen, Líbia, Iêmen… e tantos outros massacres esquecidos.

É preciso ler a frase de Cícero até o fim quando ele diz: “qual voz, se não a do orador, pode tornar a história imortal?” Para que a história não morra, é preciso contá-la. E contá-la sempre de novo. Só assim ele não será repetida. O painel de entrada do Museu da Memória e dos Direitos Humanos de Santiago do Chile nos interroga: “Que acontecerá se esquecermos?” Que jamais se esqueça, para que nunca mais aconteça.

 

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