Urbanos Insanos e Humanos

Tirar férias faz bem. Para a saúde da alma, do corpo e do coração também. Férias, por muito tempo, foi um direito negado até que duramente conquistado. Isso não pode ser olvidado. Não é presente. Não é regalo. É conquista, benquista e espero que resista a todas as reformas trabalhistas. Por mais que o capital insista!

Para quem mora e trabalha na cidade, férias implica necessariamente uma saída para o interior ou para o litoral. Não que férias sejam incompatíveis com a cidade. Ela tem suas belezas. Com certeza! Tantas que a gente se acostuma e precisa ir em busca de vistas que ficaram no passado – no meu caso que nasci no interior – ou que fazem parte do sonho futuro – morar no litoral! – para, depois voltar e redescobrir tudo aquilo que o dia a dia oculta da vista.

Mas as férias não são o ano todo. São apenas “férias”! Alguns dias e nada mais. Com sorte uma ou duas semanas. E depois lá voltamos nós para a cidade com suas ruas, carros, ônibus, metrô, prédios, escolas, universidades, hospitais, bares, restaurantes, fábricas (cada vez mais ausentadas das cidades), shoppings, praças e seus típicos barulhos, cores, odores, calores, sabores e pavores. Sim! A cidade tem seus prazeres. Mas também tem seus horrores.

Mas a cidade não são apenas suas construções e espaço. A cidade é gente. São homens e mulheres. Não apenas amontoados, juntados, justapostos, expostos. São homens e mulheres relacionados. Cidade é relação. É o bem maior da humanidade. Está acima da família e da aldeia. Isso dizia Aristóteles, trezentos anos antes de Cristo. Dizia o filósofo grego que a cidade faz o ser humano ser político, polido. Quem não mora na cidade é bruto, rude. Em latim, a “polis” de Aristóteles virou “civitas”. Morar na cidade é ser civilizado. Fora da cidade está o selvagem.

Descendo a Elevada da Rodoviária e mergulhando no caos do túnel da Conceição me pergunto se Aristóteles tinha razão. Sei não. Acho que não. E o meu não se faz ainda mais negativo quando vejo em cada rua, em cada esquina, um monte de mendigos e milhares de pessoas morando na rua em frente a prédios desabitados e gente passando fome ao lado de supermercados abarrotados. A civilização virou insana, desumana. A cidade perdeu a humanidade. É apenas um intrincado de prédios, ruas e espaços onde perambulamos sem saber para onde vamos.

Ligo o rádio e a filosofia brasileira toma o lugar de Aristóteles. Cada cidade brasileira – incluída a Porto Alegre em que vivo – é uma “Rio quarenta graus”, uma cidade de cidades misturadas, uma cidade de cidades camufladas, com governos misturados, camuflados, paralelos, com governos sorrateiros ocultando comandos do submundo oficial, bandidaço, classe média, camelô, com submáfias de todas as espécies – manicure, de boate, de madame, da TV, de deputado, aposentado, papai, mamãe, vovó, criancinha, dos filhinhos – e tantas outras que a lista cantada pela Fernanda Abreu não poderia jamais abarcar.

O funk tem razão. Toda cidade é um purgatório da beleza e do caos. Uma mescla da qual não podemos escapar. Um lugar que, com seus muitos donos – donos de becos, de ruas, de edifícios, de praças, de parques, de prefeituras e palácios – é também o nosso lugar, o meu lugar. Um lugar que, com nosso esforço e nossa palavra, precisamos a cada dia, voltar a civilizar. Aristóteles tem razão. O funk também tem. Mesmo insana, a cidade é humana, é o nosso maior bem! É o lugar que escolhemos para viver, para sofrer, ter prazer e amar.

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