Deus tem corpo

Tapete solidário de Corpus Christi – Tangará da Serra, MT, 2020 (Foto: Gilvan Mello)

Dito assim, em simples língua portuguesa, muitos podem achar a expressão estranha: Deus tem corpo. Já dito em latim, solenizado em uma festa de primeira categoria segundo a liturgia da Igreja Católica Romana, parece mais normal: Corpus Christi, ou, de forma ainda mais nobre, Corpus Domini. Pois sim: ambas as expressões latinas querem dizer exatamente isso: Deus tem um corpo.

Todo cristão afirma que o Cristo de Deus se fez humano no corpo do filho do carpinteiro nazareno. Negar a realidade corporal de Deus em Jesus de Nazaré foi, desde o início do cristianismo, considerado uma heresia, ou seja, uma meia verdade, um erro, um perigo para a fé cristã.

Um dos nomes dados a essa forma herética de cristianismo foi “docetismo”. A expressão vem do verbo grego dokeò, que significa “aparentar”, “fingir”. Tendo seu fundamento filosófico no gnosticismo, que considerava impossível a presença do divino no mundo material, na corporeidade humana, os docetistas afirmavam que só aparentemente o Cristo de Deus tinha assumido a corporeidade humana e que a encarnação era um fingimento, uma encenação, apenas para que os humanos pudessem compreender a mensagem de Deus e, nela, a insignificância do mundo material.

Tal heresia foi condenada pela Igreja. Mas a tentação da fuga do mundo e da realidade humana ficou latente dentro do cristianismo e, vez ou outra, assoma aqui ou acolá. Tal aconteceu na Idade Média, quando a introdução na teologia ocidental do pensamento de Aristóteles fez emergir mais uma vez a tentação gnóstica da racionalização da fé. A nova corrente teológica trazia embutida a afirmação de que a salvação pode ser alcançada pela razão e não pela prática e pela devoção.

Contra tal tendência se levantou a piedade popular que encontrou uma de suas expressões na adoração da Eucaristia. Santa Juliana de Liège foi a inspiradora desta devoção que logo se espalhou por toda Europa e foi oficialmente acolhida pelo Papa Urbano IV em 1264. Contraditoriamente, num tempo em que a maioria dos fieis não tinha acesso à Eucaristia, ela se tornou o símbolo da resistência da fé popular no humano em Cristo, contra a elitização e intelectualização da teologia e da liturgia. Impedido de comungar, o povo simples aclama o Corpo de Cristo em procissões nas ruas.

Nas controvérsias das reformas da Igreja que eclodem no séc. XVI, a procissão de Corpus Christi, já oficialmente assumida pela Igreja, se transforma em manifestação antiprotestante. Desconhecendo a diferença entre a presença real afirmada por Lutero e a presença simbólica defendida por Calvino, todos os não católicos são identificados como inimigos da Eucaristia. Depois da Revolução Francesa, Corpus Christi também se torna estandarte da antimodernidade. A presença de Cristo na Eucaristia é um milagre que a ciência e a razão, pilares do espírito moderno, não podem explicar.

A partir das reformas preconizadas pelo Vaticano, a solenidade do Corpo de Deus passou a mudar de tom e caminha cada vez mais em direção ao seu espírito original. As suntuosas procissões apologéticas e apoteóticas vão cedendo lugar a manifestações de solidariedade para com os corpos de Cristo que hoje são desprezados em sua humanidade. As bandas tonitruantes e as nuvens de incenso cedem lugar a tapetes de roupas e alimentos que são encaminhados aos que passam frio, fome, sede, estão doentes ou presos. Afinal, como diz o próprio Jesus no Evangelho, é no corpo dos humilhados da sociedade que ele mora. E, cada vez que damos abrigo, comida e água a quem precisa e consolamos com nossa presença quem vive a solidão da doença ou da prisão, é a Ele que o estamos fazendo.

Muitos têm dificuldade em aceitar essa forma verdadeiramente original e tradicional de celebrar o Corpo de Cristo que estamos redescobrindo. Como lembra o Papa Francisco na Gaudete et Exsultate, o gnosticismo ainda continua presente “de forma sutil” e “é uma das piores ideologias”, pois é “incapaz de tocar a carne sofredora de Cristo nos outros”. E mais: os neognósticos, “ao desencarnar o mistério, em última análise, preferem um Deus sem Cristo, um Cristo sem Igreja, uma Igreja sem povo” (cf. GE 37-40).

Voltar ao Cristo encarnado no humano de Jesus e resgatar o humano no Cristo presente em cada pessoa destituída de sua dignidade. Esse é o caminho para podermos celebrar com toda solenidade a presença real de Cristo entre nós na Eucaristia e em cada pessoa que precisa da presença consoladora de Deus e de um irmão e de uma irmã.

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