A república é misógina?

República. Do latim res publica: aquilo que interessa a todos. Substantivo feminino misógino. Não se assuste! O misógino não está no dicionário. Eu acrescentei. Vou tentar explicar.

Desde a sua primeira configuração histórica conhecida, aquilo que hoje chamamos de república, teve horror a mulheres. Em 509 a.C., quando os proprietários de terras romanos expulsaram os reis etruscos e decidiram inventar outra forma de governar seus interesses comuns, as mulheres ficaram de fora. Só os patres famílias eram proprietários. Consequentemente, só eles poderiam ser eleitos para o senado e toda outra e qualquer função pública. E não eram só as mulheres que não participavam da república. Plebeus, pessoas de origem estrangeira e escravizados não participavam das votações.

A república romana nasceu oligárquica. Era de poucos e para poucos. Vale lembrar: nem todo sistema republicano é democrático. Democracia é bem outra coisa. Os atenienses que o digam. Seu sistema de governo decantado em prosa e versa e teorizado por Platão, não era muito diferente da romana. Na sua Politeia, Platão é claro: há três tipos de pessoas: os trabalhadores, os lutadores e os filósofos. A essa pequena elite que pensa racionalmente cabe o governo da cidade. As mulheres, deixa ele bem claro, se deixam levar pelas emoções. Elas não raciocinam. Por isso não podem ser ativas na república. Seu lugar é dentro de casa e submissas ao varão da casa.

Deixando de lado as repúblicas medievais, vamos direto à revolucionária gesta de 1789 que derrubou a monarquia francesa e instalou ali a república que encantou o mundo. Mesmo instituindo uma mulher – Marianne – como seu símbolo, a nova forma de governo não deu voto às mulheres. Na república burguesa, só os proprietários podem votar. E como as mulheres, legalmente, não são proprietárias, não votam. Simples assim! As francesas só teriam o direito a voto reconhecido em 1945.

No Brasil, a implantação da república só aconteceu devido à misoginia dos militares. Sim! Dom Pedro II tinha uma única herdeira legal, a princesa Isabel. Os dois primeiros rebentos masculinos da Imperatriz Leopoldina, faleceram crianças. Restou Isabel e ela queria exercer seu direito. Três vezes o fez interinamente durante as viagens de seu pai. Na última proclamou a Lei Áurea que assustou os fazendeiros do café e tirou o apoio econômico à monarquia. Mas foram os militares que deram o golpe. Na cabeça da intentona, o monarquista Deodoro da Fonseca. Havia muitas razões para os militares implantarem a república. Uns, educados no positivismo, o fizeram por opção ideológica. Outros, machistas, pelo medo de, em breve terem que obedecer às ordens de uma mulher. A república brasileira nasceu misógina.

Na República Velha as mulheres não votavam. Foi em 1932 que as brasileiras conquistaram direito a voto e elegeram suas primeiras representantes. Vieram vereadoras, deputadas, senadoras e governadoras. Mas tardou até 2010 para que uma mulher fosse eleita Presidenta. E aí a história é recente e conhecida. O golpe de 2016 foi um golpe tipicamente republicano: elitista e machista. Todos lembramos os epítetos, gestos e imagens utilizados para desqualificar Dilma Roussef. Total misoginia. Veio o golpe e temos na presidência uma pessoa que despreza as mulheres dizendo que merecem ser estupradas e expõe em público sua intimidade sexual com a esposa. E o sistema republicano não faz nada para impedir tamanha desfaçatez.

Diante da história passada e do presente que vivemos, só me resta concluir: a república, mesmo sendo um substantivo masculino, revela uma realidade misógina. Talvez seria bom os franceses substituírem a Marianne por um Mariano. E lembrar que para todo Deodoro da Fonseca existe um Silveira Martins! Qu’est-ce que vous en pensez?

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Uma ideia sobre “A república é misógina?

  1. Maria Liani Postai

    “Qu’est-ce que vous en pensez?”
    Cher Frère Vanildo!
    Grau et vai teste pour une profonde réflexion humaine et ecistentielle, dans laquelle il aborde et recoupe la cronologie historique de la doctiye humaine. Une triste realité. Si nous approchons également de l’espace feminin dans l’Elgise, la
    Chronologie s’élargit et s’allonge!
    Hereusement qu’il y a des petits signes de progrès surtout encouragés par le Pape François!

    Resposta

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