Édipo: tragédia ou crime?

TRAGÉDIA OU CRIME?

Podia Édipo ter evitado casar-se com sua própria mãe? Sim, se ele soubesse que Jocasta, a viúva de seu pai, o Rei Laio que ele acabara de matar numa encruzilhada do caminho, era aquela que o tinha gerado. Mas ele não sabia nem que aquele desconhecido era seu pai e nem que a rainha viúva de Tebas era sua mãe.

Toda a vida de Édipo, desde o nascimento até o retorno à cidade que o vira nascer , foi conduzida por uma força, já anunciada pelo Oráculo de Delfos, que superava sua capacidade de decisão e que o levou inevitavelmente a matar seu pai e casar-se com sua mãe. Ao dar-se conta que a profecia, com a contribuição involuntária de suas opções, enfim se realizara, Édipo arranca os próprios olhos para não ver a desgraça que sobre ele tinha caído. Jocasta, por sua vez, vai além: tira a própria vida. Um fim trágico para uma vida trágica. É a única decisão livre que eles tomam na vida. Tudo o mais, já estava escrito e, com ou sem a sua colaboração, iria, cedo ou tarde, acontecer.

Dentre todas as tragédias gregas, este gênero literário que surgiu em Atenas no séc. IV a.C., Édipo Rei é uma das mais conhecidas. Freud a utilizou para explicar o desenvolvimento psicossexual dos meninos a partir do relacionamento com a mãe e o pai. É um dos tantos usos que desta tragédia de Sófocles foi feito em nossa cultura ocidental.

Pela capacidade de retratar situações existenciais em que parece que a decisão se nos escapa das mãos e que há uma força superior que conduz nossas vidas, a palavra tragédia entrou na linguagem popular e hoje é utilizada amplamente. É comum nos noticiários, tanto nos meios tradicionais como nos novos meios digitais, que fatos fortes que impactam a sociedade e causam dor sejam descritos como tragédias. Um furacão é uma tragédia; um terremoto é uma tragédia; uma guerra é uma tragédia; o deslizamento de encostas e o soterramento de casas e pessoas é uma tragédia; o transbordamento de um rio é uma tragédia; o rompimento de uma barragem de rejeitos de mineração é uma tragédia; a invasão de uma favela pela polícia e a execução de dezenas de pessoas é uma tragédia; o assassinato de um homem doente por três policiais em uma câmera de gás improvisada em uma viatura é uma tragédia; um jovem armado que invade uma escola e mata dezenas de crianças e suas professoras e uma tragédia; a seca que leva à destruição das plantações e à falta de água nas cidades é uma tragédia; a mãe que atira o filho do décimo andar é uma tragédia; o ex-companheiro que assassina brutalmente a mulher que ele espancava e não quer mais conviver com ele é uma tragédia; a fome de milhões de pessoas é uma tragédia… Tragédias, tragédias, tragédias!

Será que tudo isso são tragédias? Na sua origem grega, tragédia é aquilo que não pode ser evitado pois sua força é superior à capacidade humana de escolha. Terremotos, furacões, cheias de rios, secas… são fenômenos naturais que sempre aconteceram. E continuarão acontecendo. Mas todos sabemos que seus efeitos podem ser minimizados ou até anulados. Um terremoto de sete graus no Japão não provoca nenhuma morte. No Haiti, um sismo da mesma magnitude provocou mais de 200.000 mortos. A força da natureza é superior à nossa. Mas podemos aprender a conviver com ela.

Já as ações humanas deliberadas que resultam na morte de dezenas, centenas, milhares de pessoas, essas não são tragédias. Há que se chamá-las pelo nome que lhe é devido. São ações criminosas que poderiam ser evitadas e precisam ser punidas.

Édipo e Jocasta, mesmo sabendo que não tinham poder sobre suas vidas, um arrancou os olhos e o outro tirou a própria vida. Auto infligiram-se um castigo por um crime que, sem saber e sem querer, haviam cometido. E os que cometem crimes conscientes das consequências desastrosas, para a natureza e para os humanos, de suas ações, podemos ainda desculpá-los com a escusa da inevitável tragédia? É hora de chamar cada coisa pelo nome. Tragédia é tragédia. Crime é crime.

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